17 de abr. de 2013

A DEMOCRACIA DOS OUTROS


(HD) - Vamos aceitar o fato de que a vitória de Nicolas Maduro sobre Henrique Capriles, domingo, na Venezuela, foi muito apertada.  É preciso recordar as evidentes fraudes na Flórida, em favor de Bush, em 2000, e a decisão da Suprema Corte confirmando a sua espúria vitória – sem a devida recontagem dos votos. O governo norte-americano agora se nega a reconhecer o resultado do pleito na Venezuela e anuncia “consultas” com a OEA e a União Européia, enquanto exige a recontagem estrita dos sufrágios.
         A Espanha, que continua com a presunção de que os latino-americanos são seus súditos, contestou os resultados eleitorais, exigindo também a recontagem e colocando em dúvida a lisura do pleito, em pronunciamento de sua chancelaria. Maduro, em reação explicável diante da crônica das tumultuadas relações recentes entre Caracas e Madri, mandou chamar seu embaixador na Espanha para consultas, e ameaçou tomar todas as medidas contra a ingerência espanhola - o que levou o Ministro de Relações Exteriores da Espanha, Garcia Margallo, a amenizar suas declarações e a declarar que houvera um mal entendido. Na realidade, a Espanha espera ganhar algum tempo, enquanto aguarda as ordens de Washington.
       Em Madri houve quem se lembrasse da vitória de Aznar sobre Felipe González – que conduziu o país à guinada para a direita – por apenas 300.000 votos, quase a mesma diferença entre Maduro e Capriles, sem esquecer que a população espanhola é de 47 milhões de habitantes e, a da Venezuela, de cerca de 30 milhões. Ninguém, em nenhuma “democracia” ocidental, contestou a vitória de Aznar sobre Gonzalez.
       Na Espanha é comum que, nas municipalidades, de cinco a dez votos decidam as eleições.
       Se os Estados Unidos e a OEA persistirem na mesma atitude de contestar o resultado eleitoral e de apoio incondicional a Capriles, estaremos diante de uma crise diplomática complicada. O Brasil, que, como outros países do mundo, acompanha as eleições na Venezuela de perto, com os seus observadores, reconheceu o novo governo, em manifestação pessoal da Presidente Dilma Roussef, em telefonema a Maduro. A Colômbia e o México também o fizeram no primeiro momento.  A Unasul também o fez.
       O sistema eleitoral na Venezuela se faz com os votos eletrônicos sendo impressos e colocados em uma urna. De acordo com a lei, 54% dos votos impressos são contados – se  a relação corresponder aos votos eletrônicos, considera-se legítimo o resultado total.  
       De que autoridade ética dispõem os Estados Unidos, para avaliar a democracia alheia, quando mantêm o campo de concentração de Guantánamo, em que há prisioneiros, sem julgamento, há quase tanto tempo quanto durou o regime de Hitler?
       Os “caprilistas” começaram a matar nas ruas de Caracas. O que ocorrer, depois disso, será responsabilidade daqueles que os açulam. 

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16 de abr. de 2013

OS FUNERAIS DE UMA DESALMADA


(JB)-“Ela foi uma mulher perversa”, disse o eminente parlamentar George Galloway, o mais corajoso homem de esquerda da Grã Bretanha da atualidade, ao protestar contra a falácia da tentativa de glorificação de Margaret Thatcher pelo governo conservador.

“Nós estamos gastando 10 milhões de libras na canonização dessa mulher malvada, dessa mulher que arrasou a indústria britânica, da Escócia, no Norte, ao País de Gales, no Sul. A comparação com Churchill é rematado absurdo. Ele salvou a real existência de nosso país, enquanto Thatcher fez tudo o que pôde para acabar com 1/3 de nossa produção manufatureira e reduzir-nos ao que somos hoje”.

Os protestos populares da noite do último sábado, contra mais cortes no orçamento social britânico (que se iniciaram nos anos 80, com Margaret Thatcher) foram marcados pelas manifestações de júbilo pela morte da Dama de Ferro, que já se encontrava exilada de sua mente, acometida da doença de Alzheimer. Enquanto  mantinha plena consciência de seus atos, planejou seus funerais com toda a pompa desejada: honras militares e cerimônia religiosa na Catedral de São Paulo – homenagens que não se prestaram à Rainha Mãe, quando de sua morte, em 2002.

Os cartazes exibidos pelos trabalhadores nas ruas de Londres foram impiedosos na expressão de sua revolta contra a única mulher, até agora, a chefiar o poder executivo de um país anglo - saxão.

No mesmo tom de Galloway manifestou-se Lord Prescott, que foi vice-primeiro ministro de Tony Blair:  “Ela só defendeu os multimilionários, os banqueiros, os privilegiados. Nunca mostrou a menor compaixão pelos doentes, necessitados e desesperados”.

Prescott foi o primeiro a denunciar a pompa fúnebre, e sugeriu que apenas os multimilionários beneficiados por Thatcher contribuíssem para o enterro.

O consulado tirânico de Thatcher, com suas consequências abomináveis para os povos do mundo, deixa lições que não podem ser esquecidas. A primeira delas é a de que as massas, sem uma vanguarda política, e, assim, sem consciência social, são facilmente manobradas pelos líderes carismáticos da direita – ou de uma falsa esquerda.

Ela, como Hitler, nunca enganou. Desde os seus primeiros passos na política, mostrou logo a que vinha. Como funcionária do primeiro escalão do Ministério da Educação, no governo Heath, mandou cortar a ração diária de leite fornecida às crianças das escolas públicas, como medida de economia, com o argumento de que os pais podiam dar-lhes o leite em casa. Diante dos protestos – os trabalhistas vaiavam-na aos gritos de “Thatcher ladra de leite!” - ela decidiu que as cantinas escolares distribuiriam 1/3 de copo de leite a cada criança, a fim de “evitar sua desnutrição”.

O corolário de sua estranha teoria política se resume em poucas palavras: não há sociedade; há indivíduos. Cabe a cada indivíduo buscar o seu bem-estar, sem nada pedir ao Estado. Em suma: se o Estado não protege os fracos, ele só existe para garantir os fortes. Abole-se, desta forma, o princípio imemorial da solidariedade tribal, assumida pelo Estado, que garantiu a sobrevivência da espécie.

A segunda lição é a de que a mobilização política é sempre mais poderosa do que os atos de violência, quando há ainda espaço para essa conduta.

Em 1983, quando terminaria o seu mandato, com a renovação da Câmara dos Comuns, um fato inesperado serviu para que, ganhando o pleito para os conservadores, permanecesse no poder: a insensatez de Galtieri em invadir as Malvinas, sem dispor de poder militar para isso, nem do necessário suporte diplomático. E o atentado do IRA, no ano seguinte, que visava matá-la, em um hotel de Brighton, e que fez cinco vítimas, consolidou seu poder.

O atentado pode ser explicado pela brutalidade da repressão contra os militantes irlandeses, prisioneiros em Ulster. O líder Bobby Sands e vários outros iniciaram uma greve de fome que terminou com a sua morte e a de nove de seus companheiros.

A contra-revolução mundial de Mme. Thatcher contra os direitos do homem continua, na brutal insolência do neoliberalismo, sob o comando do Clube de Bilderberg e dos grandes bancos mundiais.

Em todos os países do mundo, principalmente na Europa, os pobres estão morrendo, por falta de empregos, de hospitais, de teto, de vontade de viver. Há endemia de suicídios, principalmente nos países meridionais. Thatcher morreu, mas Ângela Merkel está aí, para defender as suas idéias.

Um cartaz impiedoso, exibido sábado à noite em Londres expressa o sentimento dos ofendidos e humilhados pelas “reformas” de Thatcher: “The bitch is dead” – a cadela morreu. Seus filhotes, no entanto, se multiplicam no mundo.

Se a Humanidade quiser sobreviver com a dignidade construída pela razão, e não se entregar a uma tirania universal, terá que reagir com a mobilização política dos cidadãos organizada em torno de iniciativas concretas que restabeleçam  os direitos previstos nas leis que pretendiam assegurar, em todo o mundo, o Estado de bem estar social, antes que seja muito tarde. 

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14 de abr. de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - O TESTEMUNHO


Guardo em segredo o nome da cidade, porque não desejo violar tácito compromisso de nosso silêncio, mas creio que, passados tantos anos, vale a pena lembrar o que aconteceu. A povoação se  ergue a meio de caliginosa encosta das ser­ras diamantinas; se não fossem caiadas as casas, todos os anos, seriam despercebidas da estrada real que atravessa o fraco cerrado do vale. De baixo, entre os cheiros de araticum e pequi que entonte­cem o viajante, vê-se a torre da igreja, cercada de coqueiros de escassas folhas. São palmeiras que agonizam, mas o seu morrer é len­to: como as oliveiras, são plantas que têm memória, e muitas vezes tentam contar o que viram.    
Estas cidades, deixadas na va­dia aventura dos bandeirantes, não nasceram com projeto e desti­no, mas de cansaço. Seu ouro, quando havia, era pouco e difícil, e seus povoadores já não queriam a fortuna, mas a paz. O moinho d'água e o monjolo trabalham com sua água; a roça de milho se contenta com duas capinas e as ramas de feijão sobem enroladas às hastes. O resto é o queijo, são os porcos, a caça aos magros roedores da serra, e a fé. Fé em Deus e fé rigorosa no Diabo, porque ali, como em qualquer outro ponto do univer­so, continua a guerra entre os dois. Mas há vigilância contínua contra o demônio, cujas manhas se conhe­cem. Ninguém se levanta da cama sem dedicar seu dia a um santo e a alguma penitência. Penitência leve, bem se diga, porque, se há dignidade no ócio, nele também pode haver santidade (aliás de acordo com alguns teólogos do lugar, no céu não há trabalho, e, antes que houvesse a maçã, só Deus trabalhou).
                      Toda explicação vem a propósito daquela Semana Santa. A quaresma já fora complicada. Logo depois do carnaval apareceram,  fora de tempo e de conveniência, nuvens de gafanhotos pardos. Comeram o restinho que ainda havia no campo e, quando se foram, deixaram milhões e milhões de mortos no chão. Foram todos queimados, por ordem do vigário, e para isso se gastaram dois quintos de azeite de mamona. Crepitaram e estouraram, deixando no ar um  cheiro de rapadura. Depois dos gafanhotos houve o sábado de loucuras das crianças. Sem quê nem para quê, as meninas e meninos se reuniram no adro da igreja bem de manhã e formaram a grande roda. Cantaram coisas que ninguém conhecia, com músicas mornas e tristes. Recusaram o chamado para o almoço, e quando, todos juntos, os pais e mães quiseram buscá-los, agarraram-se uns aos outros, bem abraçados. Atemorizados, os pais cantaram o credo.
                     No Domingo de Ramos chegaram uns tropeiros de Mendanha, com o rapaz de fora. Era baixinho, moreno puri,  e encontrara a tropa no Boqueirão Frio, uma passagem gelada no alto da serra. O lugar era tão frio que dava lã em pele de lobo. Quando o encontraram, esta­va enrolado em um cobertor cinzento,  e disse que havia perdido o caminho. Ao lhe perguntarem há quanto tempo estava sem destino, respondeu que "há séculos". Deram-lhe cachaça de Itacambira com carqueja  para cortar a friagem,  e estranharam que ele não tivesse nada, além da roupa e do cobertor. Ele disse que tinha muito, mais do que os bichos, que andavam nus.
Como ninguém o chamasse para abrigá-lo, ficou no rancho, com os tropeiros, e passava o dia inteiro contando casos para as crianças. Na quarta-feira chegou o seminarista, para ajudar o povo a fazer a festa. Como não tinha ordens, ia só pregar para o povo, e orientar a Procissão do Encontro, a Via-Dolorosa e o Enterro.
Na quinta-feira de manhã, todos os meninos e meninas da cidade fo­ram ouvi-lo, e os pais se assusta­ram: teria voltado o demônio daquele sábado?  
Ele lhes disse então que a história que contavam de Cristo não era bem aquela. Quando lhe falaram por onde passara a Via Crucis, explicou que o caminho do Calvário fica mais para Oeste. Também lhes disse que Madalena não era bonita. "Todos eram muito pobres, e os pobres são quase sempre feios".
Com ele, os meninos passaram os dois dias inteiros, embora os pais quisessem expulsá-lo na sexta-feira, por blasfêmia e sacrilégio. O seminarista disse que não convinha, porque no dia da Morte do Senhor era pecado sem absolvição castigar um cachorro; que dizer então de uma criatura humana?
No sábado, alguns mais afoitos e mais encachaçados quiseram pe­gá-lo para sová-lo ao lado do Judas, mas não o encontraram. As crianças disseram que ele se havia ido na véspera, com o seu cobertor às costas, depois de mostrar-lhes a mão direita, com as pontas dos dedos manchadas de sangue seco. Quando perguntaram aos meninos e meninas o seu nome, eles responderam todos juntas, a uma só voz - Tomé.

DECISÃO EM CARACAS




(JB) - Interessa-nos, sim, e muito, o resultado das eleições venezuelanas deste domingo. Sendo assim, convêm-nos examinar o quadro sem as lunetas da paixão ideológica. Se o opositor Capriles, por essa ou aquela razão, desmentir o favoritismo de Maduro, e ganhar o pleito, não terá como inverter o curso histórico do país.
          Ainda que, nesse caso, seja possível uma guinada à direita, ela não ocorreria logo. A menos que se desse depois de sangrenta guerra civil. A História, antiga e contemporânea, nos ensina que, havendo imperialismo, guerras civis surgem por todo lado. Uma guerra civil, no entanto, pode levar anos e desorganizar a economia. E pode, até mesmo, favorecer o lado aparentemente mais fraco.
      O mais importante legado de Chávez não está em sua política distributiva, mas, sim, no que ela representou na alma do povo venezuelano. Os venezuelanos pobres são a imensa maioria do povo. Eles assumiram a consciência da dignidade como um bem coletivo, e não parecem dispostos a renunciar a esse sentimento.
            O militar, sendo mestiço, soube falar com a emoção ameríndia. Ele disse aos indígenas, e aos mestiços como ele, que a Venezuela é um bem comum de seu povo, e não colônia estrangeira. Seu discurso sempre foi autêntico.
         Seu opositor, Henrique Capriles Radonski, continua a ser visto como multimilionário,  venezuelano de primeira geração, de origem européia – distante da visão universal do povo.
         Em  tática eleitoral conhecida, tenta agora linguagem menos agressiva, na tentativa de angariar votos entre aqueles chavistas que preferiam outro candidato em lugar de Maduro.
         O sucessor de Chávez tem cometido erros primários, ao tentar, sem o mesmo carisma, a sintaxe emotiva do ex-presidente. Isso  pode inspirar a cunha oposicionista e beneficia-la, mas de forma marginal.
          Ao Brasil, como país, não interessa mudar a sua postura diante de Caracas, mesmo no caso em que a oposição vença. As nossas relações comerciais devem ser mantidas. Temos  imenso saldo na balança comercial e os nossos empresários que, em natural pragmatismo, não participavam do coro dos meios de comunicação contra o chefe de Estado da Venezuela, não querem perder os bons negócios que se iniciaram ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, e se ampliaram na administração de Lula e Dilma.
            Se não nos interessa mudar a postura nas relações com a Venezuela, no caso  de eventual vitória da direita, com Capriles, é natural que essa hipótese nos preocupe, tendo em vista os nossos interesses continentais.
           Derrotada a esquerda, o governo de Caracas se alinhará aos Estados Unidos, e buscará, ali, as importações de que necessita, deslocando-nos do importante mercado.
          Além disso, as organizações  regionais de que participamos, como o Mercosul e a Unasul, serão erodidas, pela ação direta de Washington.
            Capriles, o candidato oposicionista, como se sabe, não é judeu ortodoxo. Converteu-se ao catolicismo e foi  ativo militante do ramo venezuelano da nossa famigerada TFP, em seus anos mais jovens. Há notícias de que pertence também à Opus dei.

13 de abr. de 2013

O PODER E SUA MALDIÇÃO


(JB) - Desde que a história do poder começou a ser escrita, dela tem sido inseparável o registro da corrupção. Contra a corrupção do poder, Savonarola, sugeriu um governo de santos. Platão um governo de sábios austeros. Em uma de suas famosas cartas, algumas tidas como apócrifas, ele fala da perversão do poder pelo hedonismo em Siracusa – ele que fora mal sucedido conselheiro de dois de seus tiranos, Dione e Dionísio. Pôde entender Platão que uma coisa são as idéias, outras, os homens.
            Savonarola é o modelo de todos os combatentes da corrupção na História. Coube-lhe opor-se ao mais corrupto e corruptor de todos os papas, Rodrigo Borgia, que ocupou o trono com o nome de Alexandre VI. O frade dominicano desafiou o papado e soube esquivar-se da astúcia do Pontífice, que lhe ofereceu tudo, até mesmo o chapéu cardinalício, com o propósito de  retirá-lo da Toscana, onde se sentia seguro.
           O monge acabou sendo vencido pelas armas, preso, julgado e condenado à morte. Naquele episódio, e em outros, Mamon, o deus do papa, se sobrepôs ao Cristo de Savonarola.
           Ainda agora se revela, pelo Wikileaks, que o  considerou natural a repressão no Chile de Pinochet, e exagerada a reação mundial, provocada pelas forças de esquerda, contra o golpe.
            A morte de Mme. Thatcher convida a uma viagem pela geografia da corrupção por excelência. Provavelmente não se conheça, em toda a História, processo mais extenso e mais profundo de corrupção da política pelo poder financeiro do que o eixo entre Washington, com Reagan, Londres, com a dama de ferro, e o Vaticano, com Wojtyla, no início dos 80. Convenhamos que os que os corromperam souberam fazê-lo.
            Na conspiração, que se selou em encontro na Biblioteca do Vaticano, Reagan e Wojtyla - em menos de uma hora - com a presença de Alexander Haig, acertaram os movimentos coordenados para destruir o sistema socialista, acabar com o estado de bem-estar social no resto do mundo e  globalizar o sistema econômico mundial. Nenhum dos três seria capaz de engenhar o plano, que – tudo indica – lhes foi entregue pelo Clube de Bilderbeg.
            É conveniente registrar que não tiveram muitas dificuldades na União Soviética, cujos burocratas, seduzidos pelo “doce charme da burguesia”, sonhavam com a vida faustosa dos executivos norte-americanos e ingleses.
            E dificuldades ainda menores nos países em desenvolvimento, alguns deles, como o Brasil, com recursos internos que lhes permitiam resistir à desnacionalização de sua economia. Como se sabe, ocorreu o contrário, com a embasbacada adesão dos dois Fernandos ao Consenso de Washington.
         O resultado do processo está aí, com o desmoronamento da economia européia, o avanço da pobreza pelos países centrais, e a corrupção, alimentada pelo sistema neoliberal, grassando pelo planeta inteiro.
         Os maiores bancos do mundo exercem diretamente o poder político em alguns países, como o Goldman Sachs o exerceu na Itália, com Mario Monti, e Papademus, na Grécia, até as eleições. Isso sem falar no Banco Central Europeu, sob o comando de Mario Draghi, também do mesmo banco. No passado, os Estados intervinham no sistema financeiro, para controlá-lo e proteger os cidadãos; hoje, os bancos intervêm nos Estados, com o propósito de garantir seus lucros, o parasitismo dos rentistas e as milionárias remunerações de seus “executivos”.
         Para fazer frente ao descalabro da economia, causado pela ficção dos derivativos, os governos europeus cortam os gastos sociais e levam famílias inteiras à miséria e ao desespero. Idosos são expulsos de suas casas, por não terem como pagar as prestações ou os aluguéis, os hospitais públicos reduzem o número de leitos, as indústrias recorrem à falência, e os suicídios se sucedem. Há dias, sem dinheiro para honrar compromissos de pequena monta, um casal de meia-idade, que possuía seu negócio de fundo de quintal, se enforcou, em Civitanova, na Itália. O irmão da senhora, atingido pela tragédia, também se matou, afogando-se no Adriático.
       Em Portugal – e ali sobram capitais privados ociosos, que adquirem, sôfregos, ativos brasileiros – o desespero atingiu limites extremos, e a União Européia, de joelhos diante dos banqueiros, exige de Lisboa maiores cortes no orçamento social.
         No fim de um de seus mais belos romances, Terra Fria, o escritor português Ferreira de Castro dá à mulher a notícia da presença de um militante revolucionário na cidade:
         “Ele disse que chegará o dia em que haverá pão para todos”.
          E, com o pão, a dignidade – é a nossa esperança. 

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12 de abr. de 2013

A ESPANHA, O BRASIL E A LAAD



       
 Comecemos por registrar, mais uma vez, a intolerável insolência espanhola quando se trata da América Latina. Com um rei de opereta, que teve a grosseria de se dirigir a um líder construído na luta e confirmado nas urnas – o presidente Chávez – ordenando-lhe que se calasse, diante dos chefes de estado do continente, há seis anos, não é de admirar que os espanhóis nos tratem como se fôssemos uma colônia do século 18.
       
    Foi com essa petulância que o Secretário de Defesa da Espanha, ex-funcionário da Boeing e ex-banqueiro, Pedro Argüelles, se pronunciou anteontem, no Rio de Janeiro, na Feira Internacional de Material de Defesa (LAAD) e Segurança.  

Depois de dar a entender para a imprensa de língua espanhola que a Espanha já estaria tendo sucesso em contornar a exigência brasileira de plena transferência de tecnologia em caso de concretizar-se a compra de fragatas da estatal bélica Navantia, Arguelles afirmou  que as oportunidades que oferece o Brasil, e o resto da América Latina “não se limitam a uma área concreta”, já que a indústria espanhola “é muito polivalente e com muitos nichos de tecnologia que a tornam capaz de complementar as necessidades de uma indústria incipiente e responder às necessidades concretas de cada país”.

Só falta agora afirmar, já que, a seu juízo, a nossa indústria é incipiente,  que a Espanha vai substituir o Brasil na integração dos esforços de defesa da região. Ora os esforços latino-americanos para a integração da defesa já estão trazendo resultados, com o blindado Guarani, o próprio KC-390, da EMBRAER, e o futuro avião de treinamento regional, cuja construção foi anunciada também na LAAD, e será o primeiro projeto conjunto a ser executado por vários países da América do Sul, no âmbito do Conselho Sul-Americano de Defesa.

       Nos Estados Unidos, a Huawei e outras companhias chinesas, até mesmo de telefonia, estão proibidas de operar por uma questão de segurança nacional. No Brasil, nosso único satélite, com canais exclusivos para comunicações militares foi vendido - pelo Governo FHC - para a iniciativa privada estrangeira.

     O atual Governo continua insistindo em entregar a responsabilidade de montar e operar nossos sistemas de comunicação, na área de defesa, a estrangeiros.

          A INDRA, empresa espanhola, se gaba - em seus sites e comunicados - de ter desenvolvido diretamente o sistema de gestão da rede de comunicações por satélite do Ministério da Defesa do Brasil (SISCOMIS).

    Alardeia que é a principal fornecedora dos diferentes tipos de terminais Satcom, de comunicação militar terrestre e naval de nosso país.

       Proclama trabalhar também com sistemas de vigilância por radar e de defesa eletrônica – altamente estratégicos – de nossas forças armadas.Sua “sede” internacional está no Brasil, mas a matriz continua na Espanha – para onde se remetem os lucros. Seu presidente no Brasil é espanhol.

   A Espanha, cuja tradição não é exatamente a de excelência nessa área de tecnologia, é membro de uma aliança militar internacional, a OTAN, e presta vassalagem à Inglaterra e aos norte-americanos, em países como a Líbia e o Afeganistão, e em seu próprio território. Essa submissão é tamanha que os Estados Unidos planejam instalar ali um de seus escudos antimísseis.

Considerando-se tudo isso, alguém duvida que, em caso de potencial conflito com qualquer país ocidental, a INDRA  hesite em entregar, a pedido do governo espanhol, o software e o sistema de gestão da rede de comunicação do Ministério de Defesa e de nossas forças armadas à OTAN ou aos Estados Unidos?

     Se não havia a preocupação de sigilo militar, e não se cogitou de convocar um grupo de desenvolvedores brasileiros, talvez tivesse sido melhor contratar diretamente  empresa norte-americana para fazer o serviço. A tecnologia teria sido melhor, embora tão devassada quanto, e o preço, talvez, menor, sem o overprice dos intermediários espanhóis.

É nesse clima, e nesse estado de coisas, que o Secretário de Estado da Defesa da Espanha, Pedro Argüelles, veio pavonear-se na LAAD, feira de defesa realizada esta semana no Rio de Janeiro. Afirmou que a Espanha vai alugar espaço para comunicações e vigilância militar brasileiras em seus satélites,   que sobrevoam o território nacional.

    Alem disso, Argüelles lembrou que foi ajustada - faltando apenas a formalidade da assinatura – a venda ao Brasil de aviões de transporte militar C295, da EADS para a   Força Aérea .

   Recorde-se que o Brasil estabeleceu um programa binacional de satélites com a China - que poderia ser facilmente adaptado para monitoramento militar - o CBERS.

    Contamos também com o INPE,  inclusive para certificação de satélites de outros países.

   Estamos lançando, na própria LAAD, as vendas do KC-390, da Embraer, que cumpre, com inúmeras vantagens, as mesmas funções dos C295 da EADS. Sendo assim, de que compras e de acordos o Secretário Arguelles está falando? 

10 de abr. de 2013

UMA ENDEMIA UNIVERSAL




(HD) - O Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas do Ministério Público, em parceria com diversos outros órgãos, deflagrou ontem uma Operação Nacional contra a Corrupção. A ação, que visa a cumprir 92 mandados de prisão, 337 mandados de busca e apreensão, 65 mandados de bloqueio de bens, e 20 mandados de afastamento das funções públicas, expedidos pelo Poder Judiciário, mobiliza efetivo de 158 promotores de Justiça e 1.300 policiais federais, rodoviários, civis, militares, servidores de Tribunais de Contas, da Controladoria-Geral da União, da Receita Federal e das Receitas Estaduais em 12 unidades da federação.
         A corrupção tem sido uma praga em nosso país. A sociedade não a aceita, e ela deve ser duramente combatida, como tem sido no atual governo, em operações como a deflagrada ontem, com o conhecimento e o aval do Ministério da Justiça.
         Os crimes contra os bens públicos não ocorrem apenas no Brasil, por mais que certos cidadãos e meios de comunicação ultra-conservadores insistam em associá-los ao nosso sangue, ao processo lusitano de colonização, ou a pretendido “subdesenvolvimento”, frente a países que se situam, normalmente, acima da linha do Equador.
         A corrupção está disseminada por todo o mundo, e, fruto da ganância e do egoísmo, costuma se enraizar mais nas sociedades em que o interesse de uma pequena minoria de privilegiados se sobrepõe, de forma definida e clara, ao interesse dos que vivem de seu trabalho.
          A crise na Europa - além de desmascarar o livre mercado como paradigma econômico, mostrou a necessidade de  maior controle público sobre o sistema financeiro e desnudou a existência de ampla rede de tráfico de influência, ligando partidos, agentes do estado e grandes fortunas surgidas durante os anos noventa, quando muita gente se fez milionária da noite para o dia, enquanto a dívida pública se multiplicava, sem que o cidadão comum percebesse.
          Não é por acaso, portanto, que países que estão à beira da quebra, como a Espanha, sejam justamente aqueles em que mais escândalos estão estourando.
       O ex-tesoureiro do partido de centro-direita de Mariano Rajoy, Luis Barcenas, acusa diversos figurões do PP de receber, durante anos, dinheiro ilegal. O rei Juan Carlos parece ter coberto de privilégios uma estrangeira, a “princesa” alemã Corinna de Wittgenstein, sua amante conhecida, e que o acompanhou em suas caçadas a elefantes. Ela usa o nome do rei em negócios escusos e, ao que parece, viajava com passaporte diplomático espanhol.
       A filha do monarca, a Infanta Cristina, e seu marido, Iñaki Urdangarin, ex-jogador de handebol (a máscara sorridente à esquerda, na foto da manifestação espanhola publicada acima) também acabam de ser acusados de corrupção passiva.
       E esta semana, Jordi Pujol Ferrusola, filho do conceituado Jordi Pujol, ex-Presidente da Generalitat da Catalunha, foi acusado de movimentar ilegalmente milhões de euros em bancos de paraísos fiscais, nos últimos 5 anos.  

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8 de abr. de 2013

O PROCESSO CONTRA LULA E A FORÇA DO SIMBOLISMO


           

                    (Carta Maior) - O Ministério Público do Distrito Federal –  por iniciativa do Procurador Geral da República – decidiu promover  investigação contra Lula, denunciado, por Marcos Valério, por ter intermediado suposta “ajuda” ao PT, junto à Portugal Telecom, no valor de 7 milhões de reais.
             O publicitário Marcos Valério perdeu tudo, até mesmo o senso da conveniência. É normal que se sinta injustiçado. A sentença que o condenou a 40 anos de prisão foi exagerada: os responsáveis pelo seqüestro, assassinato e esquartejamento de Eliza Salmúdio foram condenados à metade de sua pena.
           Assim se explica a denúncia que fez contra o ex-presidente, junto ao Procurador Geral da República, ainda durante o processo contra dirigentes do PT.
            O Ministério Público se valeu dessas circunstâncias, para solicitar as investigações da Polícia Federal - mas o aproveitamento político do episódio reclama reflexões mais atentas.
             Lula é mais do que um líder comum. Ele, com sua biografia de lutas, e sua personalidade dotada de carisma, passou a ser um símbolo da nação brasileira, queiramos ou não. Faz lembrar o excelente estudo de Giorg Plekhanov sobre o papel do indivíduo na História. São homens como Getúlio, Juscelino e Lula  que percebem o rumo do processo, com sua ação movem os fatos e, com eles, adiantam o destino das nações e do mundo.
             Há outro ponto de identificação entre Lula e Plekhanov, que Lula provavelmente desconheça, como é quase certo de que desconheça até mesmo a existência desse pensador, um dos maiores filósofos russos. Como menchevique, e parceiro teórico dos socialistas alemães, Plekhanov defendia, como passo indispensável ao socialismo, uma revolução burguesa na Rússia, que libertasse os trabalhadores do campo e industrializasse o país. Sem passar por essa etapa, ele estava convencido, seria impossível uma revolução proletária no país.
          É mais ou menos o que fez Lula, em sua aliança circunstancial com o empresariado brasileiro. Graças a essa visão instintiva do processo histórico, Lula pôde realizar uma política, ainda que tímida, de distribuição de renda, com estímulo à economia. Mediante a retomada do desenvolvimento econômico, com a expansão do mercado interno, podemos prever a formação de uma classe trabalhadora numerosa e consciente, capaz de conduzir o processo de soberania.
         Não importa se o grande homem público brasileiro vê assim a sua ação política. O importante é que esse é, conforme alguns lúcidos marxistas, começando pelo próprio Marx, o único caminho a seguir.
         Como Getúlio e Juscelino, cada um deles em seu tempo, Lula é símbolo do povo brasileiro. Acusam-no hoje de ajudar os empresários brasileiros em seus negócios no Exterior. O grave seria se ele estivesse ajudando os empresários estrangeiros em seus negócios no Brasil.
         Lula não é uma figura sagrada, sem erros e sem pecados. É apenas um homem que soube aproveitar as circunstâncias e cavalga-las, sempre atento à origem de classe e fiel às suas próprias idéias sobre o povo, o Brasil e o mundo.
          Mas deixou de ser apenas um cidadão como os outros: ao ocupar o seu momento histórico com obstinação e luta, passou a ser um emblema da nacionalidade. Qualquer agressão desatinada a esse símbolo desatará uma crise nacional de desfecho imprevisível. 

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