24/05/2013

RÚSSIA GARANTE AO BRASIL TRANSFERÊNCIA TOTAL DA TECNOLOGIA DO CAÇA SUKHOI SU-35



A agência RIA Novosti informa, citando declarações de Seguei Ladygin, representante da estatal russa de armamento Rosobonexport, dadas ontem na SITDEF 2013, exposição de armas que está sendo realizada em Lima, no Perú, que a Rússia teria comunicado ao governo federal que estaria disposta a transferir ao Brasil, sem restrições, cem por cento  da tecnologia  de fabricação dos caças Sukhoi SU-35, de quinta geração, e dos sistemas anti-aéreos Pantzir, independente da conclusão da licitação do Programa FX-2, de compra de caças pela aeronáutica.

O Sukhoi Su-35 pertence a uma classe caças de ataque e superioridade aérea pesados, de longo alcance e multi-função. Com autonomia de 3.600 a 4.600 quilômetros (com tanques externos) e velocidade de 2.700 quilômetros por hora, ele pode atingir rapidamente qualquer região do território nacional.

É equipado com uma variedade melhorada de óptica passiva do sistema de radar N035 Irbis, e com  um radar de retaguarda adicional montado no seu aguilhão da cauda encurtada. Conta também com um radar N035 melhorado com pico mais poderoso e melhores características ECM e com um sistema de guerra eletrônica e auto-contramedidas de defesa eletrônica Khibiny L175M. O cockpit conta com duas telas de LCD e compatibilidade com HMD. O software do Su-35BM tem acrescentada compatibilidade com novos sistemas de armas e outros  aviônicos que incluem informações de longo alcance de alvos e datalink com capacidade de resistência à JAM, além de um sistema de reconhecimento eletrônico.

21/05/2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - NINHO DE ESTRELAS.



Nossa era a cidade inteira, com suas praças e ruas, becos e pontes. Todos se haviam ido, e levado bois e cabras, cães e pássaros. Ficaram alguns gatos, que nos espreitavam sem curiosidade. Algo nos haviam deixado, na pressa, e isso bastava para muito tempo. Até que se acabassem os restos das despensas, eu poderia armar mundéus e colocar fis­gas de espera na lagoa: não nos preocupássemos.

"Eles vão voltar. Quando passar o entusiasmo, voltam. Isso é fogo de palha", você me dizia, e eu fazia figas mentais. Tomara que ali houvesse ouro para séculos, e abandonada para sem­pre ficasse Santana das Areias. Er­gueríamos muros de pedra para cerca-­la e, se Deus nos desse anos de paz, cresceriam árvores que a escondes­sem.
Quando nos chamaram, dissemos que seguiríamos. Lembro-me de que insistiram para que fôssemos juntos, porque perderíamos o caminho, e você disse que nem dez chuvas apagariam rastos de tanta gente. Um deles, se não me en­gano, o coveiro, deu uma banana para a cidade, e disse que jamais seus pés voltariam a pisar lugar tão amaldiçoado. Quando a tarde chegou, sentamo-nos no adro da Igreja e você, como menina, pulando sobre uma perna só, foi ao sopé da torre tanger o sino. "Vou sempre tocá-lo, na hora do Ângelus, para que não nos falte a proteção da padroeira." Eu concordei, mas lhe disse que fi­caríamos ali tanto tempo que se esgarçaria a corda e não poderíamos subir os estreitos degraus espetados na parede. "Estaremos velhos demais", eu disse, e você replicou que nunca seria velha.

Nas manhãs seguintes fizemos o recenseamento das coisas deixadas. Foi quando você teve a idéia de juntá-las em razão de sua natureza e serviço. Uma das moradias ficou sendo “a casa dos lampiões”; a outra, “o lugar dos pratos e panelas”. Mas deixamos as redes e tarimbas, camas e jiraus, em seus lugares. A cada noite escolhíamos onde dormir. Buscávamos as candeias, lampiões e lamparinas, porque tal era nossa riqueza que podíamos iluminar o  pouso com luzes por dentro e por fora. "E como se a gente fizesse um ninho de estrelas”, você disse, eu me lembro. De longe, talvez, os pássaros noturnos se espantassem. Mas não iriam as cobras perturbar-nos. Aliás, para afugentá-las tínhamos as corujas, e você lhes arranjou nomes. Uma delas, que parecia a mais velha, recebeu o nome de dona Sabina,  sua antiga professora, de sobrancelhas brancas e pouca pes­tana.
Os dois pequenos jardins, simétricos,  que embelezavam o adro de calçado de pedra , cada um deles com dois bancos fronteiros, passaram a ser o espaço de nossas tardes. Ali sentávamos, lembrávamos,  eu muito mais do que você - poupada a intimidade da crônica indesejada de seu passado -  a infância que não tivéramos, os bichos com quem tratáramos, as pedras e árvores, rios e nascentes dos caminhos. De gente, falávamos muito pouco. A que conhecêramos não era de recordar-se.
Você evitava passar pela casa antiga, onde a encontrei duas semanas antes do estouro. Era a única edificação que você queria destruir, e para isso procurou dinamite na pedreira – mas eles  haviam levado todas as caixas, para usá-las, se fosse preciso. Quando falei em levantar o muro, você disse que ia ser bom, porque "aquela casa”, em que ela vivera, ficaria fora da cidade. Suas companheiras haviam subido para as nascentes do ouro, onde esperavam ficar ricas. “Você já pensou que também fizemos um grande negócio? Quanto valerá em ouro esta cidade? O mundo deve ter também outras cidades abandonadas por pessoas que procuram ouro, mas a gente só descobre isso quando a gente se ama muito. Quando o amor vale mais do que o ouro. Nós ficamos, e temos a paisagem toda durante o dia, as es­trelas todas durante a noite, e temos tantas casas como os dias de um ano inteiro” - você me disse,  e eu fiquei surpreso com sua sabedoria. É possível que você tenha usado outras e mais simples palavras, mas o tempo as lapidou em meu coração.
Chegáramos, você primeiro e eu depois, escorraçados de muitas outras cidades, e, como sempre, sabíamos que não poderíamos ali viver por muito tempo. Você, com a novidade de seu corpo de menina, uma escultura brônzea, e eu com a agilidade dos dedos no baralho novo, esgotaríamos logo o mercado, não fosse aquele estrondo distante, e a enxurrada de pepitas pelo rio abaixo. Talvez um dia  os desiludidos voltassem. Teríamos que desmanchar os caminhos, pedir aos cupins que os tapassem com seus castelos, semear moitas de cambará e unha-de-gato nas encruzilhadas. Ensinei-lhe o que sabia, e o que mais aprendeu foi atirar: entre sua pupila e o alvo, as balas não hesitavam.
 Um dia encontrei você chorando. "Não fica triste comigo não, mas faz muitas semanas que você não me conta nada de diferente. Eu acho que agora conheço você todo, isto é, você já é meu  inteirinho, por isso não o quero mais. Você sabe: a gente só quer enquanto não tem tudo, e você foi bobo, não me negou nada.”
       Despedi-me, com um casto beijo entre seus olhos, e parti. Você saberia cuidar-se, com a arma que lhe deixei. Presumo que depois de conhecer a cidade inteira, você tenha partido também.

UMA ESCOLA DE DEFESA PARA A AMÉRICA DO SUL


           
(Carta Maior)-Discretamente, como convém, estreita-se a cooperação de defesa sul - americana. Anteontem, em Lima, no Peru, reuniram-se os vice-ministros    de 12 países, entre eles o Brasil,  no âmbito do Conselho de Defesa da América do Sul, para discutir a cooperação, com ênfase na transparência no processo de  aquisição de armamentos, e em monitoramento conjunto da situação continental.
          Em Quito, no Equador, no dia 5 de maio, já ocorrera outro encontro, para a discussão de uma proposta histórica: a criação de uma Escola de Defesa Sul-americana. Ela se contrapõe à  célebre Escola das Américas, que, com sede no Panamá, serviu, durante muitos anos, à conspiração golpista contra governos democraticamente eleitos, e para o treinamento de repressores por oficiais do Exército norte-americano.
         Ao estreitar a colaboração entre suas forças armadas, a América do Sul não pretende agredir ninguém; seus militares e políticos sabem que é preciso  preparar-se contra eventuais agressões externas. Com essas medidas, não nos deixaremos manipular por potências de outras regiões, que gostariam de nos ver divididos, como no passado. Essa cooperação servirá para o desenvolvimento conjunto de métodos de treinamento, de tecnologia própria na produção de novos armamentos e meios de defesa.
      O Brasil estuda, nesse momento, a construção de um reator nuclear binacional com a Argentina, com fins pacíficos. Compramos lanchas de  patrulha naval da Colômbia, e desenvolvemos  projeto mais avançado, nessa área, com o Perú. Colômbia, Chile e Argentina, participam, diretamente, do desenvolvimento do novo jato militar de transporte da EMBRAER, o KC-390, voltado para a substituição, no mercado internacional, dos antigos Hércules C-130 norte-americanos.
       A Argentina estuda a compra de blindados Guarani, projetados pelo Exército Brasileiro. E se estuda a construção conjunta - por todos os países - de novo avião de treinamento. O Perú  pretende  comprar, agora, seis caças ligeiros Super-Tucano, que já fazem parte, na América do Sul, das Forças Aéreas da Colômbia, do Chile e do Equador.
         Estamos começando este século de forma muito diferente do que começamos o século passado, com guerras como a do Chaco, e disputas territoriais do século 19,  que deixaram marcas  até hoje, como no caso da disputa entre o Chile e o Peru pela região de Atacama.
        É ingenuidade pensar que a aproximação na área de defesa entre os países das América Latina seja desejada, ou não esteja sendo observada com atenção por nações de outras regiões. Para certos países, o ideal seria que nossos corpos de defesa cuidassem exclusivamente do combate ao tráfico de drogas e à repressão política interna.
        Esta semana, o embaixador da França no Brasil, Bruno Delaye,  visitou o Deputado Nelson Pellegrino, Presidente da Comissão de Defesa e Relações Externas da Câmara dos Deputados, para oferecer que fragatas sejam montadas no Brasil, pela estatal francesa DNCS, que já faz o mesmo com os submarinos do PROSUB.
       É urgente a criação de uma grande empresa estatal de indústria bélica, em nosso país, como ocorre em quase todos os países do ocidente, para participar, majoritariamente, de consórcios  destinados a produzir armamentos no Brasil.
        Ao mesmo tempo, devemos continuar avançando nos esforços diplomáticos para a cooperação e associação com os nossos vizinhos,  para a eventual defesa da integridade territorial e soberania política da região.
       

15/05/2013

COMO MATAR OS JORNALISTAS


(HD)-O Brasil é um dos países mais perigosos para os jornalistas. Se excluirmos as zonas de guerra ou de conflito armado interno, o país se encontra à frente nessas estatísticas. Nove já morreram este ano. Aqui nenhum jornalista morre de balas perdidas, como é comum nos confrontos bélicos. Todas acham seu alvo. Só este ano, 4 jornalistas foram assassinados em nosso país – e 600, nos últimos dez anos, no mundo.
       Os jornalistas incomodam porque são insistentes testemunhas diante da opinião pública. E há aqueles que ousam ter uma posição política definida, quase sempre contra governantes autoritários e violentos. Desde a independência, matam jornalistas no Brasil. O primeiro  caso  foi o de Líbero Badaró, assassinado em São Paulo por sicários, a mando do desembargador Candido Ladislau Japi-Açu – mas há quem identifique o próprio Pedro I, como o real  mandante do crime.
      Líbero Badaró era italiano, e o seu assassino, alemão. Estava no Brasil havia pouco mais de três anos, era médico e jornalista. Fundou, um ano depois de chegar, “O Observador Constitucional”, que dirigia pesadas críticas ao Imperador.  Com o seu sacrifício, surgia o costume de matar jornalistas e, mais ainda, a impunidade.
    O desembargador, identificado como mandante pelo próprio assassino, foi transferido para o Rio de Janeiro, ali julgado e absolvido. Absolvidos foram ainda  o alemão Henrique Stock, que disparou a arma,  e o tenente Carlos José da Costa, que fora do Rio para São Paulo, a fim de organizar  a empreitada.
    Durante o Império e a República não foram poucos os jornalistas assassinados. Embora muitos fossem vitimados nas duas maiores cidades do país, Rio e São Paulo, os crimes, em sua maior parte, eram cometidos no interior do país, sem grande repercussão histórica.
     O assassinato é a última providência dos que detestam a liberdade de imprensa, que é apenas a liberdade de expressão ampliada pelos meios técnicos. Mas o homicídio dos jornalistas pode ser ainda mais nefando, quando  são submetidos à tortura, como ocorre nos regimes ditatoriais e ocorreu durante o regime militar. Vladmir Herzog e Mário Alves são os dois mártires mais conhecidos – mas houve muitos outros, de perfil mais modesto, submetidos à tortura e à morte pelo interior do país.
     Há também como amordaça-los: a intimidação, a ameaça à família, a via judicial, e os serviços de repressão. Agora, por exemplo, o governo dos Estados Unidos, que se proclamam a pátria da liberdade de expressão, se apropriou, mediante agentes secretos, clandestinamente, de gravações feitas pelos repórteres da Associated Press, em flagrante violação da Primeira Emenda da Constituição. Obama, eleito em nome da esperança, prefere defender o Tea Party, partido de extrema-direita, acusado de sonegar impostos.

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14/05/2013

O PETRÓLEO É NOSSO



(JB)-A Petrobras desfigurou-se quando o governo dos tucanos paulistas e cariocas decidiu entregar a exploração do petróleo a empresas estrangeiras. Uma evidência da entrega: todos os países exportadores de petróleo cobram das empresas estrangeiras royalties, em média, de 80%: em petróleo. O Brasil, por decisão desses senhores, só cobra dez por cento do óleo extraído — e em moeda. Na realidade, essas empresas são donas de todo o petróleo produzido, cuja descoberta se deve à própria Petrobras. 
          Mais do que o petróleo, vindo do solo, a Petrobras extraiu da alma brasileira a sua orgulhosa consciência de povo. Essa consciência vinha sendo construída em difíceis passos políticos, confrontada com a cumplicidade das oligarquias coloniais com a Metrópole, na exploração do trabalho escravo e no saqueio sistemático da natureza, desde o século 17. É bom registrar que ela sempre se associou aos nossos recursos naturais, do pau-brasil ao ouro e a outros minerais.
        A Independência, em 1822, serviu para o surgimento de grupos mais atilados, com ideais democráticos e republicanos, ainda que prevalecessem os interesses oligárquicos. A confluência do movimento abolicionista com a campanha republicana, a partir de 1870, acabaria com as duas instituições caducas, a escravatura e a monarquia. Mas, fora a pequena elite pensante das grandes cidades, não havia consciência de nação. No campo, os grandes fazendeiros viam o país como um território repartido entre eles,  senhores das terras e dos que nelas trabalhavam e viviam.
       Só na segunda década republicana houve quem associasse o desenvolvimento industrial ao bem-estar dos trabalhadores — mas esses visionários foram violentamente reprimidos pelos governos, a serviço das oligarquias e das empresas estrangeiras. Elas controlavam as incipientes manufaturas e o comércio exterior com a venda de nossos produtos primários  - e a importação de bens de consumo, em sua maioria supérfluos.
      A partir dos anos 20, começou a esboçar-se o que podemos entender como a assunção do Brasil, como ele é: uma nação de imigrantes, mestiça de mamelucos e cafuzos, de negros e brancos, de europeus nórdicos e meridionais — e de gente do Oriente Médio e da distante Ásia. Nesse sentido, apesar de seus críticos, a Semana de Arte Moderna, de 1922, teve a sua marcante influência. O Brasil desembarcou definitivamente da Europa com o atrevimento dos intelectuais, muitos deles brasileiros de primeira geração, que tornaram nobre o que antes se considerava vulgar.
     Foi então que despimos as sobrecasacas, trocamos as ceroulas por cuecas, e as mulheres se livraram dos espartilhos para que suas formas desabrochassem sob a regência de uma sensualidade tropical.
     Nesses anos 20, em certos momentos sem uma orientação política e ideológica coerente, surgiram os partidos de esquerda e os movimentos de rebeldia militar com os tenentes, como a gesta heroica, mas prematura, da Coluna. Tudo isso conduziria à Aliança Liberal de 1930, empurrada, como sempre ocorre, pelo confronto de interesses políticos pessoais de personalidades fortes, associado ao conflito  das forças econômicas regionais.    
      É interessante notar que, nesses decênios iniciais do século 20, o petróleo já se situava no centro da disputa geopolítica das grandes potências — e desde a Primeira Guerra Mundial, com o desembarque inglês, comandado pelo coronel Lawrence, na Península Árabe. O livro de Essad Bey, A luta pelo petróleo, é a melhor fonte para entender as intrigas entre os estados e os milionários no esforço pelo controle das jazidas.
      Em 1928, como narra Monteiro Lobato em seu livro sobre o assunto (O escândalo do petróleo), os soviéticos, preocupados em diminuir o elevado consumo de álcool entre seus soldados, propuseram ao Brasil trocar petróleo - do qual grande parte de seu território era,  e continua, encharcado - por café brasileiro. Acreditavam que a nossa bebida contribuiria para aliviar o alcoolismo de suas tropas. Os Rockefeller, donos da Standard Oil e líderes das grandes petroleiras, impediram que fizéssemos o negócio.
      Com Getulio, dentro das amarras do tempo, começamos a levar o problema a sério, com o Conselho Nacional do Petróleo, criado em 1938, e sob a chefia do general Horta Barbosa. Todas as atividades petrolíferas se encontravam sob o controle do Estado, que poderia conceder a exploração e o refino, dentro dos interesses nacionais. Enfim, em 1953, criou-se a Petrobras.
       O lema da campanha popular, O petróleo é nosso, transcendia de seu enunciado. Não era só o petróleo que era nosso. Queríamos dizer que o Brasil, com o petróleo e tudo mais, pertencia-nos, como povo. Na medida em que a Petrobras  se consolidou — mesmo sobre o cadáver de Getulio — entendemos que éramos um povo capaz de conduzir, soberanamente, o seu próprio destino.
      Se não fosse essa consciência, adquirida nas lutas populares, Juscelino não teria sido eleito em 1955, e não teríamos dado o grande salto, dos cinqüenta anos em cinco, durante o seu qüinqüênio: construímos trechos de ferrovias, grandes eixos rodoviários e erigimos Brasília, porque a criação e os primeiros êxitos da Petrobras diziam-nos que éramos um povo tão capaz como qualquer outro, e poderíamos, com isso, construir definitivamente a nossa soberania.
      No entanto, a partir do governo presidido por Fernando Henrique Cardoso, a Petrobras tem sido submetida a lenta, mas criminosa, desconstrução. O Estado vendeu, no exterior, as ações preferenciais da empresa, transferindo assim, em forma de dividendos, os esforços dos técnicos e trabalhadores brasileiros, que, com o seu êxito, ajudaram-nos a criar a consciência de nação soberana.
    A Agência Nacional do Petróleo, ao que parece a isso autorizada pelo cimo do governo, decidiu colocar em leilão, hoje, e pelas regras que remontam a Fernando Henrique, centenas de lotes de exploração de petróleo na costa brasileira. Trata-se de áreas em que a Petrobras investiu centenas de milhões em pesquisa e que serão entregues, em sua maior parte, e ao que se prevê, a empresas estrangeiras.
    Segundo cálculos da Associação dos Engenheiros da Petrobras, divulgados pelo seu ex-presidente Ricardo Maranhão, e pelo seu atual vice-presidente, Fernando Siqueira, o valor desses depósitos fósseis é superior a um trilhão e cem bilhões de reais. As entidades representativas dos trabalhadores da Petrobras estão sem recursos para custear as ações  na Justiça, e a empresa não pode ou não quer tomar estas providências. É o caso de os donos do petróleo, ou seja, os cidadãos brasileiros, abrirem uma conta e contribuírem com o que cada um puder, para constituir um fundo de defesa do petróleo. De novo temos de ir às ruas para dizer que "o petróleo é nosso".   

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INFERNO EM CUBA


(HD)-Há, na ilha de Cuba, um campo de concentração que lembra os montados pelos nazistas na Europa de Hitler. Mais de uma centena de prisioneiros sem julgamento - já que não há nas leis nada que dê suporte legal apara tal ato - se encontram confinados desde_2002, em instalações precárias e provisórias,  submetidos desde então a maus tratos e tortura, física e psicológica. Quase todos eles se encontram há meses  em greve de fome. Depois da morte de nove deles, passaram a alimentá-los à força, prática condenada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU.
             É bom explicar que não é um presídio do governo de Cuba, mas, sim, estadunidense. Trata-se de parte da base naval de Guantánamo, ali instalada pelo governo dos Estados Unidos, depois da guerra vitoriosa contra a Espanha, em 1901. A partir de então, Cuba deixou de ser colônia de Madri para tornar-se  dependência política de Washington.
            A instalação formal da base e a assinatura de um tratado para a sua manutenção ocorreram em conseqüência da Emenda Platt, em 1903, pela qual Cuba perdia toda a sua soberania – imposta pela força. Ainda que Roosevelt, em 1934, tenha formalmente abolido a Emenda, o Tratado de cessão da base foi mantido. Pelo documento, a ocupação militar de Guantánamo durará enquanto isso for do interesse de Washington.
           Logo depois da Revolução Cubana, quando se iniciaram os desentendimentos com as empresas de petróleo americanas, mas ainda em 1959, Havana denunciou formalmente o Tratado: os Estados Unidos deviam retirar-se da base. No entanto eles, além de não tomar conhecimento da decisão de Fidel, intensificaram sua ação diplomática contra Cuba,  e a clandestina, a cargo da CIA e contra-revolucionários cubanos - que levou à frustrada tentativa de invasão da Baía dos Porcos.
           “Mais de 160 homens, que nunca foram acusados de nenhum crime, e menos ainda condenados por crimes de guerra, permanecem em Guantánamo, sem um fim à vista” – argumenta o Coronel Morris Davis, que foi o chefe dos promotores das comissões militares que julgaram (ilegalmente) os prisioneiros de Guantánamo, entre 2005 e 2007, durante o governo de Bush II.
           Davis lidera um movimento nos Estados Unidos que recolheu 190.000 assinaturas de seus concidadãos, em uma petição para fechar a base e libertar os prisioneiros, e a encaminhou ontem ao Congresso. Há mais de 3 anos que 86 prisioneiros de Guantánamo receberam - por falta absoluta de evidências de sua participação em atos de terrorismo - autorização para regressar a seus países. Têm medo de solta-los: onde quer que estejam, os prisioneiros de Guantánamo, contarão ao mundo sua história e, tendo sido tão vilipendiados, estarão disponíveis contra os EUA.
           Seqüestrados, enjaulados, torturados, humilhados, estão moralmente autorizados a dar o troco. 

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13/05/2013

ESTÓRIA DE DOMINGO-O MISSIONÁRIO


     
                  
         É provável que fosse um impostor, mas, nestes assuntos, mais do que em quaisquer outros, é bom ficar na dúvida. Ele apareceu logo depois que cinco dias e noites de chuvas pesadas abriram o céu ao sol. Nunca houvera registro de temporal como aquele: nas cento e vinte horas, precisamente medidas, entre o domingo e sexta-feira, as águas, como que exaustas, reduziam-se, de vez em quando, sem estiar, para depois se adensarem em cordas de meia polegada, que desciam diretamente do alto, e furavam o chão despindo os calhaus das encostas. Tudo começou à tardinha com o granizo grosso, que só poupou as poucas cafuas cobertas de sapê, capazes de amortecer as pedras de meia libra. No fim dos cinco dias, outra granizada, mas, de pedrinhas diminutas, como grãos de arroz, que se esfarinhavam nas mãos, deixando-as dormentes de frio.
        Vestia um hábito, que poderia ser franciscano, se não houvesse, sobre o peito, o estranho bordado com a cruz que, nas pontas dos braços, se abriam em flechas invertidas, cada uma delas cercando pequena esfera, com sinais desconhecidos. Falava uma língua estranha, para a qual não estávamos preparados. Para comunicar-se, arranjou pedaços de carvão e usou as paredes laterais da igreja, caiadas de novo para, em desenhos, anunciar-nos o inferno. Com espantosa habilidade, denunciou todos os adultérios do povoado e da comarca, colocando, lado a lado, as faces dos pecadores, homens e mulheres, facilmente identificáveis. Da mesma forma denunciou dois crimes de sangue, cuja autoria foi revelada em seus desenhos: os assassinos atirando nas vítimas, e as vítimas caindo.
          Imediatamente os homens mais importantes – muitos deles acusados em seus rabiscos – se conluiaram, para as providências. Alguns aconselharam acabar logo com aquele santo de meia-tijela, e decidiram chamar Nego Amâncio, pistoleiro oficial dos donos do lugar. Nego Amâncio, na certa avisado de quem se tratava, deu parte de doente: estava de mão tremendo e sem jogo nas pernas: como iria empunhar sua winchester de papo-amarelo? Talvez fosse melhor só expulsa-lo, aconselhou Betinho, ex-juiz de paz e um dos alcagüetados nos desenhos, inconfundível com seus óculos redondinhos, a pastinha de cabelo para a frente, disfarçando a calvicie, ao lado da mulatona Edivige, mulher do açougueiro e duas vezes mais volumosa do que o escasso amante. Para dizer a verdade, foi a denúncia mais surpreendente de todas. Estavam de acordo, desde que Betinho estivesse à frente do grupo e fosse portador da intimação ao estranho. Enquanto Betinho relutava e discutiam o que fazer, o estranho chamou o padre para fora da Igreja e lhe deu uma surra simbólica com a corda que lhe servia de cinto, objurgando-o com sentenças latinas pronunciadas de trás para a frente (como notou o próprio padre, devotado aos poetas pagãos). Em respeito a Deus, foi o que se deduziu depois, não disse porque estava tratando daquela maneira o sacerdote, mas toda a cidade sabia.
          Quando, finalmente, formaram a comissão decidida a livrar-se do estranho, não o encontraram mais.  Lavaram as paredes da igreja, o padre disse que tudo não passara de uma incursão do diabo, e, depois de prudente abstinência da carne, tudo voltou ao natural.

O DESABAMENTO EUROPEU


         
            (JB)- A morte de Giulio Andreotti e a frustração dos franceses no primeiro aniversário de François Hollande, na chefia do Estado, podem significar o fim de um ciclo histórico na Europa, iniciado com o Tratado de Roma de 1957. A idéia de que a união dos países do continente em torno dos interesses econômicos comuns, e, para tanto, da renuncia de parcela de suas soberanias de forma a afastar, para sempre, os conflitos bélicos, parece agora desfazer-se como um castelo esculpido em neve.
           Para o bem e para o mal, sobretudo para o mal, Andreotti já era uma personalidade pública, aos 25 anos, em 1944, quando se aproximou de De Gasperi, que foi um dos esteios da República Italiana, surgida depois da derrota do Eixo. Assim, como seu jovem seguidor, ele elegeu-se deputado dois anos depois, e se manteve no centro da vida política italiana durante 48 anos, até 1992.
           Alcides De Gasperi foi um dos mais empenhados políticos na construção da unidade européia. Nascido no Tirol, sob jurisdição austríaca, De Gasperi foi cidadão austríaco e se elegeu deputado para o parlamento de Viena em 1911. Permaneceu leal à Áustria-Hungria até o fim da Primeira Guerra Mundial, quando a área em que nascera foi incorporada à Itália.
        Elegeu-se então deputado, opôs-se ao fascismo, foi preso por Mussolini e, ao cumprir a pena, conseguiu abrigar-se no Vaticano, como funcionário da Biblioteca da Santa Sé. Com a derrota do fascismo, foi cooptado pelos americanos, com o apoio da Igreja, para se opor aos comunistas e socialistas. Nomeado primeiro ministro na transição, ainda sob a monarquia, em 1945, conduziu o plebiscito que optou pela República e continuou na chefia do governo.
           Desde    1951, quando se concertou a Comunidade do Carvão e do Aço, até a morte, em 1954, a sua obstinação em prol da unidade do continente foi fundamental para a conclusão do Tratado de 1957.
          Passados 56 anos, a Europa parece retornar ao início do século 20, com o confronto geopolítico entre a Alemanha, a França – e o resto da Europa. Derrotada militarmente, a Alemanha busca, agora, na
economia, o império político. Embora sua chefe de governo não disponha de qualquer virtude como líder, o apoio dos grandes bancos do mundo e das corporações industriais de seu país, que recuperaram  a forte presença internacional (Basf, Siemens, Krupp, Bayer e tantas outras) autoriza a sua arrogância.
          A única esperança era a de que François Hollande (como agiram antes Clemenceau e De Gaulle) resistisse ao projeto de Berlim. Mas isso não ocorreu. Contrariando as razões da esquerda, sob cuja bandeira se elegeu, Hollande decidiu obedecer às ordens dos grandes banqueiros que dominam, com Mário Draghi, o Banco Central Europeu e acatar as exigências de “austeridade” de Frau Merkel. Ora, essa política, condenada por grandes economistas, como Paul Krugman, enfraquece todas as outras economias européias, enquanto favorece a Alemanha, em sua condição de país mais industrializado e mais capitalizado do continente.
         Ontem, na França, prosseguiram as manifestações contra a política de cortes no orçamento social do governo Hollande. Do outro lado do Reno, Frau Merkel deve estar tranqüila: quanto mais instáveis a França, a Espanha, Portugal e Grécia, melhor. E muito melhor se a situação piorar ainda mais em Londres.