25/09/2014

A ÁGUA E A SEDE




(Hoje em Dia) - O Brasil comemorou, no primeiro dia da Cúpula do Clima, na ONU, nos EUA, a redução em 79%, nos últimos 10 anos, do desmatamento. E o fato, ocorrido entre 2010 e 2013, de termos deixado de lançar na atmosfera, em média, a cada ano, 650 milhões de toneladas de substâncias que intensificam o efeito estufa, como o gás carbônico.

Lembrando que a maioria dos países desenvolvidos cresceram com base em economias sustentadas por altas emissões de poluentes - como o carvão e o petróleo - o discurso do governo brasileiro destacou também que, embora os países em desenvolvimento não queiram “repetir esse modelo”, eles não podem renunciar à luta pela melhoria das condições de vida de sua população, principalmente porque o avanço social não é incompatível com a preservação do meio ambiente.

Enquanto isso, no mesmo dia, em Itu - município com mais de 25 mil reais de renda per capita e alto Índice de Desenvolvimento Humano, situado no estado mais rico da Federação - moradores,  em sua maioria de classe média, saíram ás ruas para protestar contra racionamento de água, que já dura seis meses, e foram cercados e atingidos com balas de borracha, por uma tropa de choque da PM, depois de tentar invadir a sede do Legislativo Municipal.

Segunda-feira, a Primavera começou oficialmente, mas, segundo técnicos de organizações como o Instituto Nacional de Meteorologia e da Universidade de São Paulo,  o aumento da pressão atmosférica - que inibe a formação de nuvens - diminuirá a oferta pluviométrica e aumentará a evaporação, evitando a recuperação dos mananciais e dos níveis das represas e reservatórios da Região Sudeste até o próximo ano.

A questão da água,  em nosso país, é complexa, e até os animais - que não podem protestar, como os habitantes de Itu e de outras dezenas de cidades - sabem que a culpa não é só do clima, mas, principalmente, da ação do homem.

Desde a Descoberta, temos bebido a água da bica, e usado o rio como esgoto, como se ambos, bica e rio, não fizessem, como os lagos e os mares, parte de um mesmo sistema.

Onde haja um curso de água, desde que já esteja correndo dentro de nossas fronteiras, nele continuamos atirando impunemente nosso lixo e dejetos, humanos, agrícolas ou industriais; derrubando as árvores e a vegetação em suas margens; arrancando com jatos de água seus barrancos, no garimpo, na maior parte do tempo, infrutífero, de ouro, diamantes e outros minerais; assoreando o seu leito e envenenando suas águas com mercúrio e com agrotóxicos, a maioria deles já proibidos em outros países.

Precisamos, municípios, estados, União, combater  a destruição de nossos rios com a mesma energia e determinação com que se está tentando lutar contra o  desmatamento.  Ou quando ficarem prontas as grandes obras de irrigação que estão em curso, não haverá mais água para passar por elas.

22/09/2014

O QUE MAIS MATA: AS DROGAS OU A TENTATIVA DE REPRIMI-LAS ?


(Revista do Brasil) - Para a juventude, fazer o que não é permitido, afrontar as regras impostas pelos adultos e pelas “autoridades”, não deixa de se confundir, também, com certo tipo de ritual de passagem. Da mesma forma que o menino, na adolescência, questiona a autoridade do pai, e com ele compete, até certo ponto, na formação e afirmação de sua própria personalidade – e essa conquista de um espaço próprio independe de sexo –, tentar quebrar os limites impostos pelas gerações anteriores tem sido parte, há séculos, da própria evolução da humanidade. Isso talvez explique parte da popularidade das drogas nos últimos 100 anos.


Até serem proibidas, a maconha e a cocaína, antes restritas aos consultórios psiquiátricos e gabinetes dentários, como relaxantes e analgésicos, nunca foram vistas como uma forma de transgressão social. Foi justamente a partir da Lei Seca, nos Estados Unidos, que elas começaram a adquirir um caráter mais contestatório.


Na década de 1970, a maconha era a droga da contestação, o LSD, a da criação e do esoterismo, a heroína, a da autodestruição, e a cocaína, ainda, principalmente a das festas e da burguesia. Por um lado, o sistema aumentou a repressão ao seu consumo, como parte de sua reação a uma geração que contestava a Guerra do Vietnã e o complexo industrial-militar nos Estados Unidos, e tomava as ruas e as universidades em países como a França, o México e o Brasil.


Para quem ocupava o poder, era interessante associar a utopia e a luta por um mundo melhor a uma espécie de fuga, de negação ao equilíbrio e à responsabilidade, favorecida pelo consumo de entorpecentes. Por outro lado, apertar a repressão aumentava também a demanda e o preço dessas substâncias, criando um mercado de bilhões de dólares, que favorecia, paradoxalmente, o enriquecimento fácil de parte do próprio sistema. Surgiram os cartéis de produção, transporte e comercialização, a partir da Bolívia, do Peru, da Colômbia e do México, que se transformou em corredor para o acesso ao mercado norte-americano, o maior do mundo.


E, como ocorreu na época da Lei Seca, o lobby do proibicionismo como única resposta da sociedade às drogas ilícitas criou, nos países produtores e consumidores, uma rede de milhares de advogados, jornalistas sensacionalistas, deputados e senadores que se elegem sob a égide do “combate à violência”, ONGs de todo o tipo e policiais corruptos, que sobrevivem, direta ou indiretamente, da repressão vigente.


Hoje, no Brasil, a situação chegou a tal ponto que a pergunta que deveríamos nos fazer é a seguinte: o que mata mais, as drogas ou a estrutura do aparato de repressão a elas?

Tivemos, em nosso país, mais de 600 mil homicídios nos últimos dez anos. A população carcerária aumentou exponencialmente, e o número de crimes continua crescendo. Em nome do combate às drogas, morrem, todos os anos, policiais e traficantes, “aviões” e moradores, inocentes, da periferia. As prisões estão se enchendo, dia a dia, de pessoas que, muitas vezes, misturam substâncias químicas em casa, e que disputam o direito de vender essas substâncias – basicamente anfetaminas – como se fossem derivadas da cocaína.


Milhares de brasileiros têm sido assassinados ou roubados, dentro de suas casas, para que viciados possam comprar sua próxima pedra. Esse verdadeiro beco sem saída tem levado países como o Uruguai e alguns estados norte-americanos a mudar, paulatinamente, a forma de se tratar a questão das drogas ilícitas, começando pela maconha, cuja produção e consumo, inclusive para fins medicinais, têm sido progressivamente liberados.


As drogas – incluindo o álcool e o tabaco – são um problema de saúde pública e não de polícia. No Congresso, na imprensa, na sociedade, precisamos entender que a repressão, como único caminho, só vai levar a mais mortes, e a cada vez mais violência.

   

19/09/2014

O LATIDO E A MORDIDA


(Hoje em Dia) - Nascida em 1949, para evitar que os países da Europa Ocidental caíssem sob a influência soviética, e não para responder a uma suposta agressão  "comunista" de forças do Pacto de Varsóvia, que só viria a surgir 6 anos depois, a Organização do Tratado do Atlântico Norte volta e meia tenta fazer algo para dar ao mundo a impressão de que teria algum outro papel que não o de apenas ajudar a submeter a Europa aos interesses norte-americanos.

Mais que uma organização militar de defesa contra supostos inimigos externos, a OTAN (NATO por sua sigla  inglesa) sempre foi um instrumento de controle dos EUA sobre o velho continente. Esse é um processo que se estabeleceu com a chegada de milhares de soldados norte-americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, e que se fortaleceu e estendeu, depois, com sua permanência, no pós-guerra, em bases instaladas em diferentes países, que iam da Alemanha à Espanha.

Como os tentáculos de uma aranha, diversas subestruturas foram estabelecidas com o tempo, e diferentes organizações civis foram criadas, em várias nações, relacionadas a Aliança Atlântica, com interesses na indústria armamentista, e em uma gigantesca rede de centenas de empresas e militares de soldados, fornecedores e funcionários cobrindo toda a Europa.

Com isso, os EUA tornaram improvável que, entre esses países, se levantasse, novamente, alguém que pudesse ameaçá-los, e, para evitar que governos hostis, ou "independentes" viessem a assumir o poder  nesses estados, foi criado o "Gládio" - uma organização clandestina estabelecida, primeiro, na Itália, na Guerra Fria, e que depois se estendeu para diversos países. 

Desse grupo terrorista secreto de inspiração anticomunista, que pode ser melhor conhecido com a leitura de livros como, Gladio. Die geheime terrororganisation der Nato, do autor alemão Jens Mecklenburg, publicado em 1997, pela editora Elefanten Press Verlag , de Berlim, faziam parte diversos agentes recrutados entre ex-nazistas e ex-fascistas de diversas nacionalidades, que depois se envolveram com vários atentados terroristas e ações antidemocráticas, como os massacres de Peteano e da Piazza Fontana, na Itália; o golpe militar de 1967, na Grécia; o massacre da Praça Taksim, em 1977, em Istambul, na Turquia, e o golpe militar de 1980, no mesmo país. 

A sua existência foi reconhecida, denunciada e exposta em 24 de outubro de 1990, pelo Primeiro-Ministro italiano, Giulio Andreotti, e pelo Parlamento Europeu, em novembro do mesmo ano.  


Em reunião na cidade de Newport, há poucos dias, a OTAN usou "a ameaça russa na Ucrânia", como pretexto para montar uma força de intervenção rápida.   

Vai usar essas tropas - se a ONU autorizar - em países pobres e desarmados como a Líbia e o Iraque, cujos antigos regimes apoiou indiretamente no passado.

No caso da Rússia e da China - com seus milhares de mísseis e ogivas atômicas - o cão sabe que ladra, mas não morde.
   


18/09/2014

A LISTA DE SCHINDLER E A LISTA DE GAZA


(Hoje em Dia) - Há poucos dias, foi demitido, do Colégio Andrews, no Rio, um professor que propôs aos seus alunos que refletissem e respondessem sobre a existência de eventual relação entre o comportamento do governo israelense em Gaza e o sofrimento infringido aos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.     

Pode-se discutir se existe alguma ligação entre uma coisa e outra. Isso irá depender da visão de cada um. O que não se pode impedir ou proibir é que se faça esse tipo de perguntas. Há poucas semanas, por exemplo, um manifesto de 327 judeus, sobreviventes do holocausto, foi publicado nos EUA, chamando o que ocorreu em Gaza de genocídio, e judeus, inclusive ortodoxos, tem se manifestado, no mundo inteiro, contra política de agressão israelense (foto). O texto dos sobreviventes judeus respondia a outro, divulgado pelo Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, que acusava os palestinos de estarem matando suas próprias crianças.
  
Wiesel faz parte de uma constelação de escritores que emigraram para os EUA no pós-guerra, e abraçando a nacionalidade norte-americana, fizeram de sua condição de judeus um passaporte para o sucesso em uma nova vida e um novo mundo.

Outros escritores judeus sobreviventes, como Primo Levi, preferiram se suicidar, anos depois do fim da II Guerra, por não suportar, entre outras coisas, viver em um planeta em que seus algozes das SS foram deixados livres pelos EUA, para servir como linha de frente de um eventual conflito contra os mesmos soldados russos que o  libertaram de Auschwitz, assim como teriam libertado também Wiesel, se este não tivesse sido transferido antes para Buchenwald.

No filme "A lista de Schindler", o diretor Steven Spielberg narra saga de um empresário de sangue alemão nascido na Morávia, antiga Tchecoslováquia, em sua luta para salvar, corrompendo oficiais nazistas, cerca de mil prisioneiros judeus que trabalhavam para ele, em uma fábrica instalada dentro do campo de Plaszow, na Polônia.
   
Quando de sua libertação, os “judeus de Schindler”, escolhem uma frase para honrar a escolha de seu benfeitor, de tê-los livrado da morte nos campos de extermínio:

"Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro."

Gostaria de pensar que os judeus da “Lista de Gaza” que assinaram o manifesto nos EUA, foram escolhidos por Deus para sobreviver porque sua coragem os fez enfrentar de cabeça erguida o nazismo e os campos de extermínio, da mesma forma que agora enfrentam o sionismo, em defesa da dignidade e da liberdade humanas.

O judeu universal que enriqueceu com sua combatividade e talento a caminhada da história, não faz distinção entre o judeu e o não judeu.

Para ele, assim como para os “judeus de Schindler”, cada ser humano, judeu, palestino, brasileiro, é a humanidade inteira.
Na lista de Schindler, não dá para incluir mais ninguém. 

Na “lista de Gaza”, eu colocaria, para honrá-lo, mais um nome: o do professor João Monteiro, do Colégio Andrews, que tentou, com algumas perguntas, ensinar seus alunos a pensar, e foi demitido por isto.

08/09/2014

AS ESCOLHAS DE MARINA



(Jornal do Brasil) - A política, assim como o futebol, é uma caixinha de surpresas.  
Lembrando isso, recomenda-se avaliar com atenção as que, parece, pode estar nos reservando a agora candidata do PSB à Presidência da República. 
Marina Silva precisa tomar cuidado para não querer ser “mais realistas que o rei”, com relação ao “mercado”. Uma entidade etérea, inefável, incongruente e contraditória, alçada, pela incompetência estratégica dos últimos governos, e vontade de parcela da mídia convenientemente azeitada para fazê-lo, a invisível fiador, diríamos quase um condutor, do processo político brasileiro. 
Ansiosa por agradar ao sistema financeiro e aos especuladores, que estão fazendo fortuna na bolsa com o jogo de expectativas em torno das eleições de outubro, a senhora Marina Silva apressou-se a divulgar, entre outros pontos de seu programa de governo, sua intenção de rever o MERCOSUL – citando, para isso, a Aliança do Pacífico - e a política de empréstimos do BNDES.   
Com relação a tratados comerciais, o mundo já aprendeu que é melhor negociar em grupo do que separadamente.  
A Europa, que por aqui costuma ser apresentada - junto com os EUA - como paradigma de livre comércio, até agora não conseguiu fechar sua proposta para o MERCOSUL, porque o viés protecionista de muitos setores de sua economia, especialmente a agricultura, não lhe permitiu fazer isso. 
Quanto ao BNDES, vários segmentos  do empresariado nacional já declararam, em alto e bom som, que sem o apoio da instituição não é possível concorrer, nem aqui, nem no exterior, com empresas multinacionais que contam com generosos subsídios de bancos estatais de fomento semelhantes, em seus respectivos países. 
Afinal, vender perfume, como fazem bem sucedidos empresários do setor no exterior - não é o mesmo que vender aviões, foguetes de saturação, serviços de engenharia de bilhões de dólares para outros países. Isso, ninguém faz sem ajuda, e quem acreditar no contrário, ou é ingênuo, ou não tem a menor noção de estratégia nacional. 
A Aliança do Pacífico não é um acordo de livre comércio, mas um factoide e um mito.  
Não dá para tratar como nações de um bloco comercial à parte, e antagônico politicamente ao Brasil e ao Mercado Comum do Sul, países como o Peru e o Chile, que são membros associados ao próprio MERCOSUL, e que já possuem, na prática, uma aproximação tão grande conosco na área comercial, que somos nós, e não o México, o seu principal parceiro comercial latino-americano. 
O comércio entre os países da Aliança do Pacífico é tão “significativo”, que há 15 dias, em uma primeira rodada de negócios da AP, realizada na Colômbia, o volume de acordos fechados não chegou a pífios 100 milhões de dólares. 
O Brasil quer aprofundar sua integração comercial com todos os países sul-americanos – o intercâmbio brasileiro com o Peru, por exemplo, aumentou em 8 vezes nos últimos 10 anos – e já propôs a Santiago, Lima e Bogotá um tratado de livre comércio a partir de 2016.    
Só não podemos fazer a mesma coisa com o México, nação que está amarrada por tratado aos Estados Unidos, e que seria utilizada como plataforma de exportação por Canadá e EUA para colocar produtos com isenção de impostos em nosso território, como já o fez no caso da indústria automobilística. 
Há estudos mexicanos que mostram que há carros fabricados naquele país que tem apenas 30% de peças locais, enquanto no Brasil o conteúdo local médio quase chega a 60%, e há veículos em que alcança 90%.  
Para se ter uma ideia do que ocorre com o comércio exterior mexicano, esse país importa tantas peças da China, que seu déficit com Pequim chegou a 51 bilhões de dólares no ano passado.  
O segredo do “avanço” industrial mexicano está na localização das “maquiladoras”, do outro lado da fronteira de um dos maiores mercados do mundo; em proventos miseráveis – um salário mínimo mexicano equivale a 10,99 reais por dia – e em uma carga tributária de 12%, o que, segundo a CEPAL e o FMI, não permite que esse país responda minimamente a suas graves demandas sociais ou de infraestrutura.  
Nos últimos dez anos, o México cresceu menos de 30%, e o Brasil quase 50%, e   acaba de cair 6 posições no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, ficando sete lugares atrás do Brasil. Na educação, para ficar apenas em um exemplo, segundo o ranking de Shangai, recentemente divulgado, os mexicanos tem apenas uma universidade entre as primeiras 200 do planeta, enquanto nós - que segundo aqui se fala estamos muito mais atrasados do que eles - temos 6 instituições superiores de ensino  nessa lista,  inclusive, uma, a USP, entre as primeiras 150 do mundo. 
Nem a Aliança do Pacífico é uma maravilha, nem o MERCOSUL um inferno.  
A Bolívia de Evo Morales, com baixíssima dívida externa e reservas internacionais que já chegam a metade do PIB, está virando exemplo de administração econômica bem sucedida, até do ponto de vista de certas "agências" e consultorias internacionais.
E a Argentina, com todos seus problemas, transformou-se nesta semana no primeiro país latino-americano a fabricar, com recursos próprios, um satélite geoestacionário de telecomunicações, que será lançado no dia 16 de outubro, pela Arianespace, em Kourou, na Guiana Francesa. 
Com um custo de 270 milhões de dólares e fabricado pela estatal INVAP e a Empresa Argentina de Soluciones Satelitales, o ARSAT-1, de 1.300 quilos e 15 anos de vida útil, é o primeiro de uma série de três, e deverá fornecer serviços de telefonia, acesso á internet e transmissão de dados para a Argentina e países limítrofes, entre eles, o Brasil.

O ALERTA DE DELFIM


(Hoje em Dia) - Com a lucidez e elegância de estilo que lhe são habituais, o Professor Delfim Netto publicou artigo, na semana passada, com o nome de “uma nota de três em circulação”, abordando os riscos da diminuição do número de operadoras no mercado nacional, com graves prejuízos para o usuário de serviços de internet, telefonia e transmissão de dados no Brasil. 
Como já dissemos anteriormente, por trás do que “analistas” saúdam, nos jornais, como “consolidação”, está o desejo de César Alierta, principal executivo da Telefónica da Espanha - segundo publicou o jornal espanhol El Pais - de “mandar” no mercado brasileiro, convencido “pela tíbia oposição do governo e dos reguladores”, de que se caminha,  inexoravelmente, para uma diminuição do número de empresas no mercado, das cinco atuais, para apenas três. 
César Alierta, dá a entender também o El Pais, acredita, há anos, que o Brasil é a galinha dos ovos de ouro do mercado global de telecomunicações, e por isso, estaria empenhado a disputá-lo, a ferro e fogo, com concorrentes como o dono da Claro, Carlos Slim.   
Para isso, desrespeitando as leis que  regulam a competição em nosso país - ou, quem sabe, confiando na “tibieza” das autoridades do setor - comprou parte da Telecom Itália, para tentar “concorrer” consigo mesmo, controlando duas operadoras, a Vivo e a TIM, simultaneamente, no Brasil.  
Como houve resistência a essa manobra, ele lançou, agora, uma oferta bilionária pela compra da francesa GVT. 
Com a saída da GVT, que muitos consideram a melhor em banda larga, a Telefónica espanhola se livraria de um grande competidor, ganharia bilhões de euros em “sinergias” e se distanciaria, na liderança, de seus concorrentes, passando a “mandar”, de fato, no Brasil.       
O Professor Delfim Netto termina assim o seu artigo: 
“A defesa da competição está inscrita na Constituição de 1988. Cabe às instituições regulatórias e de defesa do consumidor aplicá-la e dar estabilidade e previsibilidade ao jogo competitivo, ao mesmo tempo em que devem exigir que todos os atores respeitem os limites que elas lhes impõem. Alegar a necessidade de concentração para “estimular o aumento dos investimentos em tecnologia e produzir mais inovação”, é uma afirmação tão verdadeira como uma nota de R$ 3.” 
Como mostra a  disputa eleitoral, não há mais distinções entre a política e a economia. 
Entender como as grandes empresas, principalmente as estrangeiras, disputam, repartem, controlam, dominam, os mercados de cada país, em setores essenciais para o desenvolvimento e a soberania das nações, como a telefonia deveria ser do interesse político de todo cidadão consumidor. 
Quando diminui a concorrência somos nós, todos nós, que ficamos expostos a ser “depenados”, em troca de serviços de qualidade discutível, para que os lucros sigam sendo despachados, aos bilhões, todos os anos, para matrizes de empresas estrangeiras no exterior.

29/08/2014

A IMPRENSA OCIDENTAL E O GUETO DE GAZA


 
(Revista do Brasil) - Nas últimas semanas tem chamado a atenção, mais uma vez, a diferença de tratamento entre dois temas e dois países: a Rússia, no âmbito da crise ucraniana, e ­Israel, no contexto de seu confronto com o Hamas e a destruição física e humana da Faixa de Gaza. Moscou – cujo governo pode ter, naturalmente, seus defeitos – tem sido acusada de agir como potência agressora no país vizinho, quando, na verdade, está defendendo o último espaço teoricamente neutro que lhe restou após a queda do muro de Berlim. Quando do fim da União Soviética, e do próprio desarme nuclear da Ucrânia, os Estados Unidos comprometeram-se a não atrair os países do antigo Pacto de Varsóvia para a órbita da Otan, e, assim, não cercar, com tropas hostis, o território russo.

De lá para cá, em menos de 20 anos, várias nações, entre elas a República Tcheca, a Hungria e a Polônia, abdicaram de qualquer neutralidade e se agregaram à aliança ocidental, envolvendo a Rússia com um anel de aço. Nele, não existem apenas soldados inimigos, mas também podem ser colocados mísseis com capacidade de atingir as principais cidades do país em poucos minutos, e em menos da metade do tempo do que levariam suas armas nucleares para chegar ao território dos Estados Unidos.

Quando da “independência” da Ucrânia, em 1989, ficaram dentro de seu território milhões de russos étnicos que haviam compartilhado durante anos, com os ucranianos, a cidadania soviética. Esses cidadãos não aceitam se aliar ao “ocidente” para combater sua própria gente, sua própria história, sua própria cultura, que estão também nos territórios russos que existem do outro lado da fronteira.

Antes da queda do governo que estava no poder até fevereiro, os russos subsidiavam o gás vendido à Ucrânia, e procuravam estabelecer com ela maiores laços econômicos, para que o país não caísse totalmente sob a influência dos Estados Unidos e da União Europeia. Manobras ocidentais romperam o precário equilíbrio existente dentro da sociedade ucraniana, levaram à queda de Yanukovich e à ascensão, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, de membros de partidos neonazistas a um governo de um país europeu. A isso, se seguiu a ocupação, por Putin, da mais russa das regiões ucranianas, a Crimeia. Por mais que a imprensa dos Estados Unidos diga o contrário, no mundo real nem o governo ucraniano nem o atual governo israelense podem ser “vitimizados”.

O magnata Petro Poroshenko chegou ao poder no rescaldo da derrubada de um governo eleito, sob um pretexto que até hoje é colocado em dúvida: a morte de civis na etapa final das manifestações da Praça­ Maidan, por policiais ligados ao regime anterior, quando, na verdade, há fortes indícios de que os tiros foram disparados por franco-atiradores neonazistas, interessados em criar um fato que servisse de “ponto de virada” na situação ucraniana.

No caso da derrubada, não do governo Yanukovich, mas do avião malaio que caiu no leste da Ucrânia, é preciso perguntar: a quem interessava o crime?

Com vários aviões de guerra abatidos nas últimas semanas, e impossibilitado de retomar, pelas armas, grandes cidades como Donetsk e Karkhov, o governo ucraniano encontra na queda de um avião civil, com grande número de passageiros ocidentais a bordo, um excelente “ponto de virada” para tentar impedir que os independentistas de etnia russa continuassem a derrubar suas aeronaves, e colocar Putin contra a parede, obrigando-o, por sua vez, a pressioná-los.

Afinal, o presidente russo acabara de marcar importantes pontos em seu jogo de xadrez contra os Estados Unidos, retornando de vitoriosa viagem à América Latina, na qual participara da criação do Banco e do Fundo de Reservas do Brics, e mostrara que tem suficiente jogo de cintura para se furtar às tentativas “ocidentais” de isolá-lo internacionalmente.

E o que teria ocorrido, caso – como disseram fontes russas – tivesse sido atingido o avião de Vladimir Putin, que cruzou a mesma rota do voo da Malaysia Airlines? Os ucranianos não teriam da mesma forma – com a ajuda da imprensa “ocidental” e como fizeram com o avião malaio – acusado os rebeldes de ter derrubado o avião presidencial russo, por engano? Em todo caso, os últimos interessados e os que tinham mais a perder com a explosão do avião da Malaysia Airlines teriam sido exatamente os russos e os rebeldes ucranianos.

Enquanto a imprensa ocidental acusa os rebeldes e, eventualmente, o próprio Kremlin,­ de ter derrubado o avião de passageiros, Obama afirma que Israel – que acusa sem confirmação o Hamas de sequestro e assassinato de três adolescentes – “está apenas se defendendo”, na Faixa de Gaza, e é acompanhado, nisso, pelos mesmos “analistas” e editorialistas que atacam o comportamento da Rússia na Ucrânia.

Há pouca diferença dessas campanhas com outras, como a que afirmou, durante anos, sem nenhuma prova, que havia armas de destruição no Iraque. A imprensa nazista passou anos recorrendo ao mesmo tipo de gente, de “analistas” raciais a “entendidos” em geopolítica, para explicar e contextualizar os perigos do judaísmo para o mundo, e a sua vinculação com os bolcheviques comunistas.

Quando a Alemanha de Hitler dominava a Europa, os nazistas costumavam matar dez reféns para cada soldado alemão que sofria um atentado. Na ofensiva de Tel-Aviv em Gaza, a mídia “ocidental” parece achar normal que a proporção de civis mortos e feridos, seja de mais de 20 palestinos para cada israelense atingido em combate ou pelos foguetes artesanais do Hamas, e que boa parte do território – com mais de 4 mil habitantes por quilômetro quadrado – já tenha sido destruída, deixando mais de 100 mil desabrigados.

Ao bombardear mulheres e velhos, meninos e meninas, apartamentos e ruas de Gaza, Israel implantou, regou e alimentou, com ossos e sangue – como faziam os nazistas com suas experiências com repolhos no campo de extermínio de Maidanek – um ódio profundo e incomensurável em nova geração de palestinos, da mesma forma que, ao destruir o Iraque, os Estados Unidos abriram caminho para Bagdá e Mossul para os terroristas da Al Qaeda.

Quando se tornar impossível a sobrevivência e a permanência, dentro das estreitas fronteiras de sua gaiola de escombros, cercada por muros e arame farpado, dos quase 2 milhões de palestinos que vivem em Gaza, será que os israelenses se inspirarão em seus algozes de um outro gueto, o de Varsóvia? Lá, judeus de toda a Europa foram amontoados, sem água, luz, comida ou aquecimento, durante meses a fio, para morrer de tifo e outras doenças contagiosas. Finalmente, foram levados para campos – como Israel pode fazer com os palestinos – se quiser, teoricamente, assisti-los “humanitariamente”.

A outra opção é entrar – como fizeram os SS do Brigadeführer Jürgen Stroop há exatamente 71 anos – com tanques e lança-chamas no meio das ruínas, no Gueto de Varsóvia, e caçar, um por um, os sobreviventes, até o último homem, mulher ou criança, como se fossem ratos.
As ações do governo israelense são muito contestadas por parte da oposição israelense e também por integrantes da comunidade judaica espalhados pelo mundo. Mas a julgar pelo noticiário da imprensa “ocidental”, essas vozes dissonantes tampouco existem.


28/08/2014

O BRASIL E OS PRÓXIMOS ANOS


 
(Jornal do Brasil) - À medida que estamos mais perto da eleição, se evidencia também a necessidade de avaliar as opções estratégicas que aguardam o Brasil nos próximos anos.   
Hoje, muita gente acha que se nos aproximarmos muito do mundo em desenvolvimento, como a América do Sul, África e as potências emergentes às quais estamos unidos no BRICS - Rússia, Índia, China, África do Sul - estaremos nos afastando cada vez mais da Europa e dos EUA.
Há, entre certos tipos de brasileiros, os que continuam cultuando apenas o que existe em Nova Iorque, Miami ou Paris, como se não existisse mais nada neste mundo, e os arranha-céus mais altos do planeta não estivessem sendo construídos – para ficar apenas no símbolo de modernidade e pujança das “skylines” que fizeram a fama dos EUA – em cidades como Moscou, Dubai, ou Xangai.
Ataca-se a China por censurar o Google, mas não se atacam os EUA por usarem a internet para espionarem e chantagearem milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo nações de quem se dizem “aliados” como é o caso do Brasil e da Alemanha.
Atacam-se os países do MERCOSUL por nos impor barreiras comerciais, mas não a Europa e os Estados Unidos por terem feito conosco exatamente o mesmo, nos últimos 200 anos, bloqueando – sempre que puderam - o desenvolvimento de tecnologia em nosso continente e absorvendo, antes e depois de  nossa independência, basicamente matérias-primas.
Muitos esquecem que o MERCOSUL, com todas suas barreiras, continua o maior, e, às vezes, o único destino para nossas manufaturas. Que só para países como a Venezuela temos aumentado nossas exportações nos últimos anos.
Isso, enquanto têm diminuído nossas vendas e nossos ganhos – e os do resto do mundo - com a Europa e os EUA, no esteio das  consequências de uma crise que já dura vários anos e que teve sua origem na desorganização e irresponsabilidade de do sistema financeiro que está sediado ao norte da linha do Equador.     
A pergunta que cabe que nos façamos nos próximos anos é a seguinte: a que mundo pertencemos?
Ao da Europa e dos EUA, que sempre nos trataram como colônia e cidadãos de segunda classe a ponto de termos tido milhares de brasileiros expulsos de seus aeroportos há pouquíssimo tempo?           
Ou ao mundo em desenvolvimento, onde a cooperação e a necessidade de agregar centenas de milhões de pessoas a uma vida mais digna abre a porta para a oportunidade da realização de acordos e negócios que podem influenciar e melhorar também nosso futuro?
Assim como ocorre na área comercial e diplomática, o Brasil precisa melhorar sua condição de negociação com os EUA e a Europa na área de defesa, usando, para isso, a perspectiva e a ameaça, sempre presentes, de  nos aproximarmos, também nessa área, cada vez mais dos BRICS.
Os Estados Unidos e a Europa sempre se mostraram refratários a transferir tecnologia sensível ao Brasil e a outras nações latino-americanas.
Os avanços conseguidos nesse campo pelos governos militares foram feitos a fórceps,  como ocorreu nas áreas bélica e aeroespacial, depois do rompimento, pelo Governo Geisel, dos acordos de cooperação com os EUA na área militar, e a aproximação com a Alemanha no campo da utilização pacífica da energia atômica.
Os países “ocidentais” só aceitam transferir um mínimo de tecnologia bélica para países como o Brasil, quando a isso se veem obrigados pelas circunstâncias.
Isso ocorre no caso em que estejamos prestes a alcançar certos avanços sozinhos – e aí eles se aproximam para “monitorar” e “medir” nossos avanços- ou se tivermos outros parceiros, como China ou Rússia – dispostos a transferir para nossas empresas, técnicos ou cientistas, esse conhecimento.
Depois do tímido esforço de rearmamento iniciado na última década, virou moda, nos portais mais conservadores, se perguntar contra quem estamos nos armando, se vamos invadir nossos vizinhos, ou, ridiculamente combater os Estados Unidos.
Muitos se esquecem, no campo da transferência de tecnologia na área de defesa, que sempre fomos tratados pelos Estados Unidos como um inimigo ao qual não se deve ajudar, em hipótese alguma, a não ser vendendo armas obsoletas ou de segunda mão.
No programa FX, de compra de caças para a Força Aérea, a BOEING norte-americana só concordou em transferir tecnologia para a Embraer – acordo que teria, antes de concretizado, de ser aprovado pelo congresso norte-americano – depois que os franceses, com o RAFALE, e os suecos, com o GRIPPEN NG BR, já tinham concordado em fazer o mesmo. E isso quando vários oficiais da Força Aérea brasileira se manifestavam nos fóruns, torcendo abertamente pelo SUKHOI S-35 russo.
O melhor exemplo do que pode ocorrer, em caso de conflito, principalmente com algum país ocidental, se dependermos da Europa ou dos EUA para nos defendermos, é o argentino.
Na Guerra das Malvinas, as mesmas empresas que, antes, forneciam armas e munição para que o Regime Militar massacrasse a população civil, em nome da “guerra interna”, das “fronteiras ideológicas” e do “anticomunismo”, deixaram de fornecer armas e peças de reposição às forças armadas daquele país, para que não fossem usadas contra a Inglaterra.
Os Estados Unidos só concordariam em fornecer armamento avançado ao Brasil, mas nunca no nível do deles, caso aceitássemos nos transformar em seus cães de guarda na América do Sul, como o faz Israel no Oriente Médio; ajudássemos a criar uma OTAN no hemisfério sul; ou concordássemos, como é o caso da Itália ou a Espanha, em participar em “intervenções” como as feitas por Washington em países como a Líbia, o Iraque e o Afeganistão, correndo o risco de  indispor-nos com milhões de brasileiros de origem árabe e de virar, de um dia para o outro, alvo de ataques, em nosso próprio território, de organizações radicais islâmicas.
Nos últimos anos, conseguimos desenvolver uma nova família de armas individuais 100% nacional, as carabinas e fuzis IA-2, da IMBEL; uma nova família de blindados leves, a Guarani, dos quais 2.050 estão sendo construídos também em Minas Gerais; desenvolvemos o novo jato militar cargueiro KC-390, da Embraer, capaz de carregar dezenas de soldados, tanques ligeiros ou peças de artilharia; voltamos a fortalecer a AVIBRAS, com a compra do novo sistema ASTROS 2020, e o desenvolvimento de mísseis de cruzeiro com o alcance de 300 quilômetros; estamos construindo no Brasil cinco novos submarinos, um deles a propulsão nuclear e reator nacional, com a França, um estaleiro e uma nova base para eles; desenvolvemos a família de radares SABER; foi fechada, com transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto com a Suécia, a construção em território brasileiro de 36 caças GRIPPEN NG-BR (foto); conseguimos fazer, no Brasil, a “remotorização” de mísseis marítimos EXOCET; foi fechada a transferência de tecnologia e está sendo desenvolvido, com a África do Sul, o novo míssil ar-ar A-DARTER; foram comprados novos navios de patrulha oceânica ingleses; helicópteros e baterias antiaéreas russas; e aumentou-se a aquisição e a fabricação de helicópteros militares montados na fábrica da HELIBRAS.
Esses projetos, que envolvem bilhões de  dólares, não podem, como já ocorreu no passado, ser interrompidos, descontinuados ou abandonados, nos próximos anos, pelo governo que assumir o poder a partir de janeiro de 2015.
Vivemos em um planeta cada vez mais multipolar, no qual os Estados Unidos e a Europa continuarão existindo e seguirão tentando lutando para se manter à tona contra uma lógica – e inexorável – tendência à decadência econômica, militar e geopolítica.
Nesse contexto, os EUA e a Europa têm que ser olhados por nós como potências que estão no mesmo plano, militar ou político, que a China, a Rússia, a Índia ou o próprio Brasil.
Como quinto maior país em população e extensão territorial, o Brasil tem a obrigação de negociar, e entrar no jogo, com todas essas potências, de igual para igual, e, nunca mais de forma subalterna. Sob a pena de perder o lugar que nos cabe neste novo mundo e neste novo século.