15/05/2013

COMO MATAR OS JORNALISTAS


(HD)-O Brasil é um dos países mais perigosos para os jornalistas. Se excluirmos as zonas de guerra ou de conflito armado interno, o país se encontra à frente nessas estatísticas. Nove já morreram este ano. Aqui nenhum jornalista morre de balas perdidas, como é comum nos confrontos bélicos. Todas acham seu alvo. Só este ano, 4 jornalistas foram assassinados em nosso país – e 600, nos últimos dez anos, no mundo.
       Os jornalistas incomodam porque são insistentes testemunhas diante da opinião pública. E há aqueles que ousam ter uma posição política definida, quase sempre contra governantes autoritários e violentos. Desde a independência, matam jornalistas no Brasil. O primeiro  caso  foi o de Líbero Badaró, assassinado em São Paulo por sicários, a mando do desembargador Candido Ladislau Japi-Açu – mas há quem identifique o próprio Pedro I, como o real  mandante do crime.
      Líbero Badaró era italiano, e o seu assassino, alemão. Estava no Brasil havia pouco mais de três anos, era médico e jornalista. Fundou, um ano depois de chegar, “O Observador Constitucional”, que dirigia pesadas críticas ao Imperador.  Com o seu sacrifício, surgia o costume de matar jornalistas e, mais ainda, a impunidade.
    O desembargador, identificado como mandante pelo próprio assassino, foi transferido para o Rio de Janeiro, ali julgado e absolvido. Absolvidos foram ainda  o alemão Henrique Stock, que disparou a arma,  e o tenente Carlos José da Costa, que fora do Rio para São Paulo, a fim de organizar  a empreitada.
    Durante o Império e a República não foram poucos os jornalistas assassinados. Embora muitos fossem vitimados nas duas maiores cidades do país, Rio e São Paulo, os crimes, em sua maior parte, eram cometidos no interior do país, sem grande repercussão histórica.
     O assassinato é a última providência dos que detestam a liberdade de imprensa, que é apenas a liberdade de expressão ampliada pelos meios técnicos. Mas o homicídio dos jornalistas pode ser ainda mais nefando, quando  são submetidos à tortura, como ocorre nos regimes ditatoriais e ocorreu durante o regime militar. Vladmir Herzog e Mário Alves são os dois mártires mais conhecidos – mas houve muitos outros, de perfil mais modesto, submetidos à tortura e à morte pelo interior do país.
     Há também como amordaça-los: a intimidação, a ameaça à família, a via judicial, e os serviços de repressão. Agora, por exemplo, o governo dos Estados Unidos, que se proclamam a pátria da liberdade de expressão, se apropriou, mediante agentes secretos, clandestinamente, de gravações feitas pelos repórteres da Associated Press, em flagrante violação da Primeira Emenda da Constituição. Obama, eleito em nome da esperança, prefere defender o Tea Party, partido de extrema-direita, acusado de sonegar impostos.
    
    
           

     

14/05/2013

O PETRÓLEO É NOSSO



(JB)-A Petrobras desfigurou-se quando o governo dos tucanos paulistas e cariocas decidiu entregar a exploração do petróleo a empresas estrangeiras. Uma evidência da entrega: todos os países exportadores de petróleo cobram das empresas estrangeiras royalties, em média, de 80%: em petróleo. O Brasil, por decisão desses senhores, só cobra dez por cento do óleo extraído — e em moeda. Na realidade, essas empresas são donas de todo o petróleo produzido, cuja descoberta se deve à própria Petrobras. 
          Mais do que o petróleo, vindo do solo, a Petrobras extraiu da alma brasileira a sua orgulhosa consciência de povo. Essa consciência vinha sendo construída em difíceis passos políticos, confrontada com a cumplicidade das oligarquias coloniais com a Metrópole, na exploração do trabalho escravo e no saqueio sistemático da natureza, desde o século 17. É bom registrar que ela sempre se associou aos nossos recursos naturais, do pau-brasil ao ouro e a outros minerais.
        A Independência, em 1822, serviu para o surgimento de grupos mais atilados, com ideais democráticos e republicanos, ainda que prevalecessem os interesses oligárquicos. A confluência do movimento abolicionista com a campanha republicana, a partir de 1870, acabaria com as duas instituições caducas, a escravatura e a monarquia. Mas, fora a pequena elite pensante das grandes cidades, não havia consciência de nação. No campo, os grandes fazendeiros viam o país como um território repartido entre eles,  senhores das terras e dos que nelas trabalhavam e viviam.
       Só na segunda década republicana houve quem associasse o desenvolvimento industrial ao bem-estar dos trabalhadores — mas esses visionários foram violentamente reprimidos pelos governos, a serviço das oligarquias e das empresas estrangeiras. Elas controlavam as incipientes manufaturas e o comércio exterior com a venda de nossos produtos primários  - e a importação de bens de consumo, em sua maioria supérfluos.
      A partir dos anos 20, começou a esboçar-se o que podemos entender como a assunção do Brasil, como ele é: uma nação de imigrantes, mestiça de mamelucos e cafuzos, de negros e brancos, de europeus nórdicos e meridionais — e de gente do Oriente Médio e da distante Ásia. Nesse sentido, apesar de seus críticos, a Semana de Arte Moderna, de 1922, teve a sua marcante influência. O Brasil desembarcou definitivamente da Europa com o atrevimento dos intelectuais, muitos deles brasileiros de primeira geração, que tornaram nobre o que antes se considerava vulgar.
     Foi então que despimos as sobrecasacas, trocamos as ceroulas por cuecas, e as mulheres se livraram dos espartilhos para que suas formas desabrochassem sob a regência de uma sensualidade tropical.
     Nesses anos 20, em certos momentos sem uma orientação política e ideológica coerente, surgiram os partidos de esquerda e os movimentos de rebeldia militar com os tenentes, como a gesta heroica, mas prematura, da Coluna. Tudo isso conduziria à Aliança Liberal de 1930, empurrada, como sempre ocorre, pelo confronto de interesses políticos pessoais de personalidades fortes, associado ao conflito  das forças econômicas regionais.    
      É interessante notar que, nesses decênios iniciais do século 20, o petróleo já se situava no centro da disputa geopolítica das grandes potências — e desde a Primeira Guerra Mundial, com o desembarque inglês, comandado pelo coronel Lawrence, na Península Árabe. O livro de Essad Bey, A luta pelo petróleo, é a melhor fonte para entender as intrigas entre os estados e os milionários no esforço pelo controle das jazidas.
      Em 1928, como narra Monteiro Lobato em seu livro sobre o assunto (O escândalo do petróleo), os soviéticos, preocupados em diminuir o elevado consumo de álcool entre seus soldados, propuseram ao Brasil trocar petróleo - do qual grande parte de seu território era,  e continua, encharcado - por café brasileiro. Acreditavam que a nossa bebida contribuiria para aliviar o alcoolismo de suas tropas. Os Rockefeller, donos da Standard Oil e líderes das grandes petroleiras, impediram que fizéssemos o negócio.
      Com Getulio, dentro das amarras do tempo, começamos a levar o problema a sério, com o Conselho Nacional do Petróleo, criado em 1938, e sob a chefia do general Horta Barbosa. Todas as atividades petrolíferas se encontravam sob o controle do Estado, que poderia conceder a exploração e o refino, dentro dos interesses nacionais. Enfim, em 1953, criou-se a Petrobras.
       O lema da campanha popular, O petróleo é nosso, transcendia de seu enunciado. Não era só o petróleo que era nosso. Queríamos dizer que o Brasil, com o petróleo e tudo mais, pertencia-nos, como povo. Na medida em que a Petrobras  se consolidou — mesmo sobre o cadáver de Getulio — entendemos que éramos um povo capaz de conduzir, soberanamente, o seu próprio destino.
      Se não fosse essa consciência, adquirida nas lutas populares, Juscelino não teria sido eleito em 1955, e não teríamos dado o grande salto, dos cinqüenta anos em cinco, durante o seu qüinqüênio: construímos trechos de ferrovias, grandes eixos rodoviários e erigimos Brasília, porque a criação e os primeiros êxitos da Petrobras diziam-nos que éramos um povo tão capaz como qualquer outro, e poderíamos, com isso, construir definitivamente a nossa soberania.
      No entanto, a partir do governo presidido por Fernando Henrique Cardoso, a Petrobras tem sido submetida a lenta, mas criminosa, desconstrução. O Estado vendeu, no exterior, as ações preferenciais da empresa, transferindo assim, em forma de dividendos, os esforços dos técnicos e trabalhadores brasileiros, que, com o seu êxito, ajudaram-nos a criar a consciência de nação soberana.
    A Agência Nacional do Petróleo, ao que parece a isso autorizada pelo cimo do governo, decidiu colocar em leilão, hoje, e pelas regras que remontam a Fernando Henrique, centenas de lotes de exploração de petróleo na costa brasileira. Trata-se de áreas em que a Petrobras investiu centenas de milhões em pesquisa e que serão entregues, em sua maior parte, e ao que se prevê, a empresas estrangeiras.
    Segundo cálculos da Associação dos Engenheiros da Petrobras, divulgados pelo seu ex-presidente Ricardo Maranhão, e pelo seu atual vice-presidente, Fernando Siqueira, o valor desses depósitos fósseis é superior a um trilhão e cem bilhões de reais. As entidades representativas dos trabalhadores da Petrobras estão sem recursos para custear as ações  na Justiça, e a empresa não pode ou não quer tomar estas providências. É o caso de os donos do petróleo, ou seja, os cidadãos brasileiros, abrirem uma conta e contribuírem com o que cada um puder, para constituir um fundo de defesa do petróleo. De novo temos de ir às ruas para dizer que "o petróleo é nosso".   

INFERNO EM CUBA


(HD)-Há, na ilha de Cuba, um campo de concentração que lembra os montados pelos nazistas na Europa de Hitler. Mais de uma centena de prisioneiros sem julgamento - já que não há nas leis nada que dê suporte legal apara tal ato - se encontram confinados desde_2002, em instalações precárias e provisórias,  submetidos desde então a maus tratos e tortura, física e psicológica. Quase todos eles se encontram há meses  em greve de fome. Depois da morte de nove deles, passaram a alimentá-los à força, prática condenada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU.
             É bom explicar que não é um presídio do governo de Cuba, mas, sim, estadunidense. Trata-se de parte da base naval de Guantánamo, ali instalada pelo governo dos Estados Unidos, depois da guerra vitoriosa contra a Espanha, em 1901. A partir de então, Cuba deixou de ser colônia de Madri para tornar-se  dependência política de Washington.
            A instalação formal da base e a assinatura de um tratado para a sua manutenção ocorreram em conseqüência da Emenda Platt, em 1903, pela qual Cuba perdia toda a sua soberania – imposta pela força. Ainda que Roosevelt, em 1934, tenha formalmente abolido a Emenda, o Tratado de cessão da base foi mantido. Pelo documento, a ocupação militar de Guantánamo durará enquanto isso for do interesse de Washington.
           Logo depois da Revolução Cubana, quando se iniciaram os desentendimentos com as empresas de petróleo americanas, mas ainda em 1959, Havana denunciou formalmente o Tratado: os Estados Unidos deviam retirar-se da base. No entanto eles, além de não tomar conhecimento da decisão de Fidel, intensificaram sua ação diplomática contra Cuba,  e a clandestina, a cargo da CIA e contra-revolucionários cubanos - que levou à frustrada tentativa de invasão da Baía dos Porcos.
           “Mais de 160 homens, que nunca foram acusados de nenhum crime, e menos ainda condenados por crimes de guerra, permanecem em Guantánamo, sem um fim à vista” – argumenta o Coronel Morris Davis, que foi o chefe dos promotores das comissões militares que julgaram (ilegalmente) os prisioneiros de Guantánamo, entre 2005 e 2007, durante o governo de Bush II.
           Davis lidera um movimento nos Estados Unidos que recolheu 190.000 assinaturas de seus concidadãos, em uma petição para fechar a base e libertar os prisioneiros, e a encaminhou ontem ao Congresso. Há mais de 3 anos que 86 prisioneiros de Guantánamo receberam - por falta absoluta de evidências de sua participação em atos de terrorismo - autorização para regressar a seus países. Têm medo de solta-los: onde quer que estejam, os prisioneiros de Guantánamo, contarão ao mundo sua história e, tendo sido tão vilipendiados, estarão disponíveis contra os EUA.
           Seqüestrados, enjaulados, torturados, humilhados, estão moralmente autorizados a dar o troco. 
  

13/05/2013

ESTÓRIA DE DOMINGO-O MISSIONÁRIO


     
                  
         É provável que fosse um impostor, mas, nestes assuntos, mais do que em quaisquer outros, é bom ficar na dúvida. Ele apareceu logo depois que cinco dias e noites de chuvas pesadas abriram o céu ao sol. Nunca houvera registro de temporal como aquele: nas cento e vinte horas, precisamente medidas, entre o domingo e sexta-feira, as águas, como que exaustas, reduziam-se, de vez em quando, sem estiar, para depois se adensarem em cordas de meia polegada, que desciam diretamente do alto, e furavam o chão despindo os calhaus das encostas. Tudo começou à tardinha com o granizo grosso, que só poupou as poucas cafuas cobertas de sapê, capazes de amortecer as pedras de meia libra. No fim dos cinco dias, outra granizada, mas, de pedrinhas diminutas, como grãos de arroz, que se esfarinhavam nas mãos, deixando-as dormentes de frio.
        Vestia um hábito, que poderia ser franciscano, se não houvesse, sobre o peito, o estranho bordado com a cruz que, nas pontas dos braços, se abriam em flechas invertidas, cada uma delas cercando pequena esfera, com sinais desconhecidos. Falava uma língua estranha, para a qual não estávamos preparados. Para comunicar-se, arranjou pedaços de carvão e usou as paredes laterais da igreja, caiadas de novo para, em desenhos, anunciar-nos o inferno. Com espantosa habilidade, denunciou todos os adultérios do povoado e da comarca, colocando, lado a lado, as faces dos pecadores, homens e mulheres, facilmente identificáveis. Da mesma forma denunciou dois crimes de sangue, cuja autoria foi revelada em seus desenhos: os assassinos atirando nas vítimas, e as vítimas caindo.
          Imediatamente os homens mais importantes – muitos deles acusados em seus rabiscos – se conluiaram, para as providências. Alguns aconselharam acabar logo com aquele santo de meia-tijela, e decidiram chamar Nego Amâncio, pistoleiro oficial dos donos do lugar. Nego Amâncio, na certa avisado de quem se tratava, deu parte de doente: estava de mão tremendo e sem jogo nas pernas: como iria empunhar sua winchester de papo-amarelo? Talvez fosse melhor só expulsa-lo, aconselhou Betinho, ex-juiz de paz e um dos alcagüetados nos desenhos, inconfundível com seus óculos redondinhos, a pastinha de cabelo para a frente, disfarçando a calvicie, ao lado da mulatona Edivige, mulher do açougueiro e duas vezes mais volumosa do que o escasso amante. Para dizer a verdade, foi a denúncia mais surpreendente de todas. Estavam de acordo, desde que Betinho estivesse à frente do grupo e fosse portador da intimação ao estranho. Enquanto Betinho relutava e discutiam o que fazer, o estranho chamou o padre para fora da Igreja e lhe deu uma surra simbólica com a corda que lhe servia de cinto, objurgando-o com sentenças latinas pronunciadas de trás para a frente (como notou o próprio padre, devotado aos poetas pagãos). Em respeito a Deus, foi o que se deduziu depois, não disse porque estava tratando daquela maneira o sacerdote, mas toda a cidade sabia.
          Quando, finalmente, formaram a comissão decidida a livrar-se do estranho, não o encontraram mais.  Lavaram as paredes da igreja, o padre disse que tudo não passara de uma incursão do diabo, e, depois de prudente abstinência da carne, tudo voltou ao natural.

O DESABAMENTO EUROPEU


         
            (JB)- A morte de Giulio Andreotti e a frustração dos franceses no primeiro aniversário de François Hollande, na chefia do Estado, podem significar o fim de um ciclo histórico na Europa, iniciado com o Tratado de Roma de 1957. A idéia de que a união dos países do continente em torno dos interesses econômicos comuns, e, para tanto, da renuncia de parcela de suas soberanias de forma a afastar, para sempre, os conflitos bélicos, parece agora desfazer-se como um castelo esculpido em neve.
           Para o bem e para o mal, sobretudo para o mal, Andreotti já era uma personalidade pública, aos 25 anos, em 1944, quando se aproximou de De Gasperi, que foi um dos esteios da República Italiana, surgida depois da derrota do Eixo. Assim, como seu jovem seguidor, ele elegeu-se deputado dois anos depois, e se manteve no centro da vida política italiana durante 48 anos, até 1992.
           Alcides De Gasperi foi um dos mais empenhados políticos na construção da unidade européia. Nascido no Tirol, sob jurisdição austríaca, De Gasperi foi cidadão austríaco e se elegeu deputado para o parlamento de Viena em 1911. Permaneceu leal à Áustria-Hungria até o fim da Primeira Guerra Mundial, quando a área em que nascera foi incorporada à Itália.
        Elegeu-se então deputado, opôs-se ao fascismo, foi preso por Mussolini e, ao cumprir a pena, conseguiu abrigar-se no Vaticano, como funcionário da Biblioteca da Santa Sé. Com a derrota do fascismo, foi cooptado pelos americanos, com o apoio da Igreja, para se opor aos comunistas e socialistas. Nomeado primeiro ministro na transição, ainda sob a monarquia, em 1945, conduziu o plebiscito que optou pela República e continuou na chefia do governo.
           Desde    1951, quando se concertou a Comunidade do Carvão e do Aço, até a morte, em 1954, a sua obstinação em prol da unidade do continente foi fundamental para a conclusão do Tratado de 1957.
          Passados 56 anos, a Europa parece retornar ao início do século 20, com o confronto geopolítico entre a Alemanha, a França – e o resto da Europa. Derrotada militarmente, a Alemanha busca, agora, na
economia, o império político. Embora sua chefe de governo não disponha de qualquer virtude como líder, o apoio dos grandes bancos do mundo e das corporações industriais de seu país, que recuperaram  a forte presença internacional (Basf, Siemens, Krupp, Bayer e tantas outras) autoriza a sua arrogância.
          A única esperança era a de que François Hollande (como agiram antes Clemenceau e De Gaulle) resistisse ao projeto de Berlim. Mas isso não ocorreu. Contrariando as razões da esquerda, sob cuja bandeira se elegeu, Hollande decidiu obedecer às ordens dos grandes banqueiros que dominam, com Mário Draghi, o Banco Central Europeu e acatar as exigências de “austeridade” de Frau Merkel. Ora, essa política, condenada por grandes economistas, como Paul Krugman, enfraquece todas as outras economias européias, enquanto favorece a Alemanha, em sua condição de país mais industrializado e mais capitalizado do continente.
         Ontem, na França, prosseguiram as manifestações contra a política de cortes no orçamento social do governo Hollande. Do outro lado do Reno, Frau Merkel deve estar tranqüila: quanto mais instáveis a França, a Espanha, Portugal e Grécia, melhor. E muito melhor se a situação piorar ainda mais em Londres.

10/05/2013

COMO OS BANCOS LUCRAM COM A FOME DO MUNDO



     (JB)-Em 1973, quando o muro de Berlim ainda dividia o mundo em dois blocos econômicos e políticos, o então presidente do Banco Mundial, Robert McNamara, disse que todas as nações deviam esforçar-se para acabar com a pobreza absoluta – que só existia nos países subdesenvolvidos – antes do novo milênio. Naquele momento os países ocidentais ainda davam alguma importância à política de bem-estar social, não só como um alento à esperança de paz dos povos, mas também como uma espécie de dique de contenção contra o avanço do socialismo nos países do Terceiro Mundo. A Guerra do Vietnã  com seu resultado desastroso para os Estados Unidos, levou Washington a simular sua boa vontade para com os povos pobres. Daí o pronunciamento de McNamara.
           O novo milênio não trouxe o fim  da miséria absoluta, embora tivesse havido sensível redução - mais em conseqüência do desenvolvimento tecnológico - com o aumento da produtividade de alimentos e bens de consumo primário, do que pela vontade política dos governos.
           Na passagem do século, marcada pelo desabamento das Torres Gêmeas, o FMI, o Banco Mundial – e a própria ONU - reduziram suas expectativas, prevendo, para 2015, a redução da pobreza absoluta à metade dos índices registrados em  1990. Em termos gerais, essa meta foi atingida cinco anos antes, em 2010. A extrema pobreza, que atingia 41.7% da população mundial em 90, caiu para 22% em 2008 – graças à fantástica contribuição da China e da Índia, conforme adverte Francine Mestrum, socióloga belga, em recente estudo sobre o tema.
           Por outro lado, o número absoluto de pobres na África Negra dobrou no mesmo período. A China que, pelo número dos beneficiados, puxou o trem contra a desigualdade, já chegou a um ponto de saturação. Com o seu crescimento reduzido, como se espera, a China levará muitos decênios para baixar o número de seus pobres absolutos à metade.
           Considera-se alguém absolutamente pobre quando tem a renda per-capita inferior a US$ 1,25 centavos por dia: mais ou menos R$ 2,50, ou seja, 75 reais ao mês. Esse critério é, no mínimo, cínico. É possível viver com esse dinheiro? Há quem possa: os trabalhadores das multinacionais nas tecelagens e confecções de Bangladesh e de outros países da Ásia do Sul não chegam a ganhar cinco reais ao dia.
         O governo de Bangladesh, em seu portal, declara ser o país “de portas abertas“ (open-door), com todas as garantias e vantagens legais aos investidores, principalmente nas zonas especiais de produção para a exportação (Export Processing Zones). Em Bangladesh a privatização de empresas públicas chegou à perfeição, e a miséria dos trabalhadores, também – conforme a meta do neoliberalismo.
            A insuspeita Fundação Gates divulgou interessante estudo sobre o controle dos preços dos alimentos pelos bancos, por intermédio dos fundos especulativos (hedge). Da mesma forma que os bancos atuam no mercado derivativo com as primes do mercado imobiliário, fazem-no com os estoques de alimentos, o que aumenta espantosamente os preços da comida, sem que os produtores se beneficiem. Um exemplo, citado pelo estudo, que tem o título sugestivo de “People die from hunger while banks make a killing on food” – as pessoas morrem de fome, enquanto os bancos se enriquecem de repente, especulando com os alimentos.

     Como exemplo, o estudo cita o Fundo Armajaro, da Grã Bretanha, que comprou 240.000 toneladas de cacau (7% da produção mundial) e as reteve, até que obter o maior preço da mercadoria nos últimos 33 anos.
     “Os preços do trigo, do milho e do arroz têm subido significativamente, mas isso nada tem a ver com os níveis de estoque ou das colheitas, mas, sim, com os traders, que controlam as informações e especulam no mercado” – conforme Olivier de Schutter, relator das Nações Unidas sobre o Direito à Alimentação.
     Os neoliberais sempre usam o argumento canalha de que o único caminho rumo ao enriquecimento geral e à igualdade é a do mercado sem  nenhum controle do Estado, dentro da fórmula de Mme. Thatcher: o pobre que quiser viver melhor, que se vire.  A Sra. Francine Mestrum, em seu estudo, contradiz a falácia:
     “Em primeiro lugar, a transferência direta de recursos, que Lula iniciou no Brasil, provou ser efetiva ajuda direta aos extremamente pobres para ir adiante, em busca de empregos; ou para criar seu próprio emprego; para melhorar os padrões de saúde e reduzir o trabalho infantil. Este é o principal argumento para o desenvolvimento desses sistemas, e o próprio Banco Mundial os endossa”. Como sabemos, são vários os países em desenvolvimento que adotaram iniciativas semelhantes.
     Enquanto a Alemanha obriga os países europeus a cortar até o osso seus orçamentos sociais - deixando como saldo  o aumento espantoso do número de suicídios ou das pessoas mortas por falta da  assistência médica do Estado e, a cada dia mais trabalhadores  obrigados a buscar, na lata de lixo, o que comer - os bancos continuam acumulando, e de forma criminosa, dinheiro e poder como nunca.
    O HSBC mundial, que ganhou do governo FHC o Banco Bamerindus, e que tem no Brasil o seu terceiro mercado mais lucrativo do mundo, teve que pagar quase dois bilhões de dólares de multa, em acordo feito com o governo norte-americano, por ter, comprovadamente, lavado dinheiro do tráfico de drogas. Como se sabe, mesmo depois de ter pedido desculpas públicas pelo crime, o HSBC foi acusado, em março deste ano, de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e remessa ilegal de recursos ao Exterior pelas autoridades do governo argentino.
      Enquanto menos de um por cento dos seres humanos controlarem, mediante sua riqueza, toda a população do mundo, a igualdade irá sendo empurrada cada vez mais para o futuro, e serão considerados nutridos os que ganharem cinco reais ao dia.
      Só há uma saída para o impasse: a mobilização política dos cidadãos de cada país do mundo, em uma organização partidária e ideológica nítida em seus princípios e objetivos e em sua ação coerente, a fim de colocar coleiras nos banqueiros. E será sempre salutar ver um banqueiro na cadeia, como está ocorrendo, menos do que é necessário, nos Estados Unidos. 

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08/05/2013

UMA VITÓRIA DO SUL


         
(HD)-A eleição do Embaixador Roberto Azevedo para a direção geral da Organização Mundial do Comércio é uma vitória dos paises emergentes, com o Brics à frente, e da habilidade diplomática do Itamaraty.
             Como se noticiou ontem, o Brasil teve, contra o seu candidato, os Estados Unidos, parte da América Latina e a União Européia, com exceção de Portugal. Segundo se soube, Portugal se somou aos países africanos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (que nos apoiaram firmemente ao empenho dos diretores dessa organização), de que é membro, dissociando-se da unanimidade européia. O candidato adversário foi o mexicano Hermínio Blanco.
             Dois pontos devem ser destacados no resultado do pleito. O primeiro deles é o geopolítico. A visita de Obama ao México e à América Central é mais uma iniciativa, na história das relações entre as duas metades do hemisfério, para assegurar a presunção imperial de Washington sobre o espaço geográfico que ele sempre considerou seu pelo Destino Manifesto. Como convém lembrar, em seu famoso Curso de Filosofia da História, Hegel previu que, em algum momento do futuro, o eixo da civilização estaria no confronto entre os Estados Unidos e a América do Sul.
           Obama está, com outras palavras, propondo a integração do México em seu país. Como cerca de um terço de seu território foi anexado da nação vizinha, os Estados Unidos iniciam agora, 165 anos depois, o processo de conquista do território que sobrou.
            A expedição meridional do presidente norte-americano não se isola dos últimos movimentos de Washington com o propósito de impedir a unidade econômica e política da América do Sul e do Caribe. Quando olhamos o mapa de nosso continente, é impossível negar a importância do Brasil, que ocupa quase a metade do território. Isso não significa que devamos aspirar ao domínio hegemônico da região, ou à liderança de seu destino político, mas, isso sim,  ser ouvidos nos assuntos de interesse comum.
         Foi contra o Brasil, a Venezuela e a Argentina que o México, o Peru, a Colômbia e o Chile se aliaram a Washington para criar a Aliança do Pacífico, com ostensivo patrocínio da Espanha.
            Outro ponto, embora o discurso oficial  o negue, é o da reação à política neoliberal vigente no mundo. Os mais ricos apoiaram Blanco; os mais pobres preferiram Azevedo. Essa realidade deve orientar o nosso futuro imediato. A partir de Lula, as nossas alianças naturais no mundo foram sendo identificadas e assumidas.
         Embora não nos seja conveniente criar atritos com os países centrais, temos que convir que os nossos amigos encontram-se  entre as nações do hemisfério sul, e do Brics.  É certo que nem tudo são flores nas relações internacionais, por mais fortes sejam os interesses econômicos e geopolíticos que os unem. Mas não é difícil saber quem está mais próximo de nós, e com quem podemos contar nas horas difíceis.

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06/05/2013

OS CAIXOTES DE EIKE E OS EMPREGOS EM ALGECIRAS


      
(HD)- Com bilhões de dólares emprestados pelo BNDES, e mais ajuda do governo a caminho para seus negócios,  o Brasil tem sido generoso  com o empresário Eike Batista.  Sendo esse o caso, e indo mal os seus negócios, dependentes cada vez mais de dinheiro público, o mínimo que ele poderia fazer seria preferir, sempre, empresas nacionais como parceiras, e criar empregos no Brasil.
      É estranho, portanto, que para as obras do Porto de Açu, no Rio de Janeiro, a LLX, de Eike Batista, tenha escolhido para a construção de um gigantesco cais, com estrutura pré-moldada, uma empresa espanhola, a FCC – Fomento de Construcciones y Contratas.
      Mesmo considerando-se que essa empresa possa ter mais know-how em construção de portos  - e que alguns pretendem prestar generosa ajuda à Espanha – seria necessário, no presente caso, se obter um mínimo de contrapartida.
      As condições do contrato, no valor de 448 milhões de dólares, deveriam incluir a obrigatoriedade da realização de um consórcio com uma empresa brasileira para a execução da obra.     Quando a encomenda envolve dinheiro público, essa é uma exigência comum em muitos países do mundo.
     Nos EUA, por exemplo, a EMBRAER, para fornecer 20 aviões ao governo dos Estados Unidos, foi obrigada a se unir minoritariamente a uma empresa local, construir e inaugurar  nova fábrica na Flórida.
     Em Açu, essa empresa espanhola foi contratada diretamente, sem exigência de acordo local, e, muitíssimo mais grave, sem a exigência sequer de construir, no Brasil, as peças pré-fabricadas usadas para a execução do projeto.
    Como resultado, 700 empregos deixaram de ser criados em nosso país e foram transferidos para  Algeciras na Espanha. Ali foram armados e concretados 10 gigantescos caixotes de concreto com 45 metros de comprimento, 24 de largura, e 18 de altura, e 10.000 toneladas cada um (ver foto). Cinco deles estão atravessando o oceano nesse momento em uma viagem de quase 8.000 quilômetros rumo ao Brasil.
    Será que no Brasil de Itaipu, de Oscar Niemeyer, e do BNDES, banco que empresta dinheiro ao Sr. Eike Batista, não havia ninguém capaz de produzir aqui mesmo esses caixotes de concreto armado? Se esses cubos  tivessem sido pré-moldados no Brasil, ficariam muito mais baratos.
     Há ainda que se considerar os custos  de içá-los para o convés de um navio semi-submersível e atravessar com eles o oceano.
      A PEMEX, companhia de petróleo mexicana, interessada em tecnologia de certo estaleiro ibérico, não teve dúvida. Foi até lá, na semana passada, e comprou o controle do negócio.
       No Brasil, usamos bilhões de dólares dos recursos públicos para financiar multinacionais espanholas, como ocorreu com a Vivo.
      Ou perdoamos suas dívidas aos bilhões de reais, como o CARF perdoou ao Santander, para que continuem explorando nosso povo, e sigam enviando, todos os anos, bilhões e bilhões de euros em remessa de lucros para a Espanha.