19/11/2014

OS CÃES DE ALFENAS


(Hoje em Dia) - A Câmara Municipal de Alfenas, em Minas Gerais, aprovou lei que prevê o desconto de impostos municipais, como o IPTU, para pessoas que se dispuserem a adotar cães.

E por que não fazer o mesmo - de preferência - com quem adotar uma criança ou idoso em situação de abandono ? 

Muitos dirão que a culpa da miséria, no Brasil, é dos pobres, que fazem filhos demais. 

Se esquecendo, ou fingindo ignorar,  que  a nossa curva demográfica, já é, há anos, descendente,  e que a população brasileira tende a diminuir e envelhecer aceleradamente. 

Um quadro que tornará difícil, se nada for feito,  substituir nossa força de trabalho nos próximos anos, deixando o país sem recursos para fazer frente, no futuro, ao aumento das despesas da Previdência Social e do número de aposentados.

O que dá origem ao crescimento do número de bebês e crianças em situação de abandono, hoje, é a falta de informação, a gravidez precoce e as drogas e a violência, com grande número de pais jovens  presos ou assassinados.

Cada criança que se encontra em um abrigo ou orfanato e que ali cresce sem uma família, é parte do patrimônio humano brasileiro. Mas a maioria sai dessas instituições, ao completar 18 anos, sem preparo, orientação ou trabalho, e vai engordar a fila dos moradores de rua ou da marginalidade. 

Orientadas, treinadas, educadas, elas poderiam dar inestimável contribuição à nossa sociedade, caso houvesse estímulo  não para a adoção de cachorros, mas de pequenos brasileiros.

O que precisamos não é incentivar a adoção de cães, mas taxar rigorosamente a sua propriedade, e monitorá-los por meio de “chips”, punindo com pesadas multas quem os abandone. 

Se considerarmos o número de crianças que não são adotadas por causa da sua idade ou da cor de sua pele, a lei de Alfenas soa como um escárnio. 

Ou um insulto.

Um escárnio a todos os seres humanos, e  especialmente às crianças que se encontram ameaçadas pela fome, sede e doenças - como o ebola - em vários países do mundo.

Um insulto ao bom-senso, à lógica, à inteligência, quando se lembra que - com menos do que se gasta apenas de ração com um cachorro - é possível, por meio de instituições confiáveis, como os Médicos Sem Fronteiras, assegurar água potável e comida, por 30 dias, para uma criança,   como os milhares de órfãos refugiados de guerras estéreis e injustas como as da Síria e da Líbia.     

Com todos os eventuais defeitos que possamos ter, como indivíduos, os cães que nos desculpem, mas a prioridade maior de qualquer homem, mulher ou criança, deveria ser  com sua própria espécie - com a prática da solidariedade - na promoção da dignidade humana.

Se isso nos fosse ensinado nas escolas, e incentivado em nossa atitude e comportamento - inclusive com a isenção de impostos e outros benefícios - haveria menos estupidez, violência e egoísmo. E o mundo seria, certamente, outro.

13/11/2014

OS EUA E A EUROPA AGRADECEM - O CONGRESSO E A DESNACIONALIZAÇÃO DO MERCADO AERONÁUTICO BRASILEIRO.



(Jornal do Brasil) - Acordo “costurado” ontem, no Senado, permitiu a aprovação, em comissão especial, de medida provisória que prevê subsídios à aviação regional, da forma como pretendia a Azul Linhas Aéreas. 


Isso evitou que o projeto viesse a beneficiar indiretamente, fabricantes estrangeiros de grandes aviões, como a Boeing e a Airbus, e ajudou a indústria brasileira, por meio da Embraer, que, no entanto, adquire boa parte das peças de suas aeronaves no exterior.

A surpresa ficou por conta de uma alteração feita de última hora no texto, aprovando a compra de até 100% do capital de companhias de aviação brasileiras por estrangeiros, indo contra o que se pratica em boa parte do mundo.

Se nossas grandes empresas, como a Gol, forem totalmente desnacionalizadas, o que ocorrerá quando gerentes norte-americanos ou europeus começarem a destratar funcionários nacionais de companhias aéreas aqui adquiridas, ou fizerem o mesmo com  viajantes brasileiros em nossos aeroportos ? 

Ou se a ANAC - Agência Nacional de Aviação Civil, ou as autoridades do Governo Federal tiverem suas regras contestadas, e forem processadas em tribunais de Atlanta ou Forth Worth, onde ficam situadas sedes de empresas estrangeiras, quando tentarem fazer valer sua autoridade, ou tomarem alguma decisão que contrarie, eventualmente, interesses de grupos como a Delta e a American Airlines ?   

Isso, sem falar de outros riscos, ligados à segurança nacional,  como a entrada clandestina de pessoal ou de equipamento não autorizado de outras nações em nosso território, caso a maioria das ações - e o comando de nossas companhias de aviação - venha a ficar em mãos estrangeiras, como se pretende, sem a exigência, ao menos, de uma maioria de capital nacional.

Mas o pior de tudo é a cabotinice, a cessão apressada de vantagens, com o mais absoluto desprezo pelos critérios de isonomia e reciprocidade.

Nem na Europa, nem nos Estados Unidos, empresas estrangeiras de aviação - incluídas as brasileiras - podem voar no mercado doméstico, e está vedado ao capital estrangeiro o controle de companhias locais de aviação. Na União Européia, empresas de fora desse grupo de países não podem adquirir mais de 49.9% das ações. E nos EUA, toda uma legislação protege o mercado com a intenção expressa de “garantir a proteção dos consumidores e dos empregos nos Estados Unidos.” 

Enquanto isso, no Brasil, queremos abrir, graciosamente, com uma canetada, aquele que já é o segundo maior mercado do mundo em número de aeroportos, e será, segundo a IATA - Associação Internacional de Transportes Aéreos, depois dos EUA e da China, o terceiro maior mercado doméstico do planeta, em 2017, daqui a apenas três anos, sem exigir absolutamente nada em troca.

O mercado brasileiro de aviação passou de 37,2 milhões de passageiros de avião em 2003, para mais de 100 milhões de passageiros em 2012, 88,7 milhões deles transportados em voos domésticos e 18,5 milhões nas rotas internacionais. O número alcançado em 2012 representou uma proporção de 55 passageiros transportados no modal aéreo para cada 100 habitantes no Brasil, enquanto que em 2003 essa mesma proporção era de 21 para 100.

É esse gigantesco negócio, com um enorme potencial de lucro e crescimento, que estamos entregando, de mão beijada, aos estrangeiros. Isso, caso não seja vetado o dispositivo apresentado ontem, pelo relator da MP 652, o senador Flexa Ribeiro, do PSDB do Pará, que revoga a parte do Código Brasileiro de Aeronáutica,  que exige que ao menos quatro quintos do capital votante das companhias aéreas instaladas no Brasil pertençam a cidadãos brasileiros.

O SOCIAL E O FMI



(Hoje em Dia) - O que é mais importante? O bem-estar humano, ou o Produto Interno Bruto ?


Para que serve a economia, quando ela apenas beneficia uma minoria, enquanto, em muitos países, o número de milionários cresce, mas se eleva ainda mais o índice de miseráveis? 

O fim mais lógico de toda atividade humana não deveria ser melhorar as condições de vida da maioria da população, com inegável e positiva influência no ambiente econômico?      
  
Tudo indica que o mundo assistirá a um acirramento do embate entre o “social” e o “econômico”, nos próximos anos.
Ou a uma fusão dessas duas abordagens, na implementação de uma “economia do social”, como instrumento para a promoção da prosperidade individual, coletiva e nacional, neste século.

Há algumas semanas, até mesmo o FMI, por meio de sua Diretora-Executiva, Christine Lagarde, destacou a importância, da permanência dos diferentes programas sociais brasileiros, tanto para a melhoria das condições de vida da população mais pobre, como para o crescimento e dinamização da economia.      


Para outros, a questão social é tão importante, que a evolução de um país deveria ser medida por ela, e não pelo mero desempenho econômico. 


Em visita ao nosso país, o economista inglês Michael Green, diretor-executivo da Social Progress Imperative, foi direto ao ponto.

Ele apresentou um conceito criado por sua instituição, chamado de IPS, e defendeu a tese de que esse Índice de Progresso Social, e não o PIB, seria o instrumento mais adequado para medir o avanço das nações, já que ele reflete a evolução de toda a sociedade, e não apenas de uma pequena parcela que pode estar ficando mais rica em um determinado momento. 


Em sua participação no TED Global - Conferência realizada pela primeira vez no Brasil, que reuniu lideranças de vários países do mundo para a apresentação de projetos tecnológicos e sociais, no Rio de Janeiro, Green afirmou que: “o PIB é uma ferramenta para nos ajudar a medir o desempenho econômico, não nossa qualidade de vida, e não deve ser usado como base para formulação de políticas públicas, que é exatamente o que os políticos fazem desde que ele foi criado". E disse que o mundo “precisa “ de uma maneira melhor de mensurar nossas sociedades, a partir de coisas que são importantes para nós e que o PIB não mede”. 

O IPS se baseia em eixos como, as necessidades básicas humanas (nutrição e cuidados médicos, água e saneamento, moradia e segurança), fundamentos para o bem-estar (acesso ao conhecimento, à informação, saúde e sustentabilidade) e oportunidades (direitos individuais, liberdade individual, tolerância e inclusão, acesso à educação superior).  

Concluindo, Green sublinhou que a discussão sobre o PIB não deve interromper as políticas sociais, já que é possível, e até mesmo cumulativo,  conciliar progresso social e crescimento econômico.




10/11/2014

OS PILARES DA ESTUPIDEZ



(Jornal do Brasil) - Está em curso, há anos, nas "redes sociais" insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições. 


Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país. 




Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e  da vilania. 



Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação,  da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso. 



Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.



Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem "frouxos" e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro. 



São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.



São eles  que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no  Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das  Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embraer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.



O site SRZD, do jornalista Sidney Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam "assinado" um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a "overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares" e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder pelas urnas, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma "Cuba Continental".



Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse "manifesto" e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.



Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.



Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses,  em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas  de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?



Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?



Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras espatafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.





Ele acredita "piamente" que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoíno esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar. 


Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, "piamente", que é uma foto da mansão do "Lulinha", que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras "lendas urbanas", como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.



Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.



Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018.   



Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.



Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a liberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez —  já convenientemente traduzidos por "voluntários" para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão. 



Mas  fingem ignorar que 188 países condenaram, há alguns dias, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.



Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África,  com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola.   



Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba. 



Ou que há  poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios  com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores  estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.



Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um "pequeno" detalhe:  quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país. 



Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal. 



Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que "qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político". 



Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de "antidemocráticas" as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o agrônomo e assessor de marketing Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que "a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo".



E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman,  também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de "irresponsáveis" — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. 



É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição. 



Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização  de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de "políticos" de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.



Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já  que na maioria deles existem mecanismos de "moderação" que não têm sido corretamente aplicados nesses casos. 



A Lei 7.170 é  clara, e define como "crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito".



Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a  geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.



Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras,  enfrentando o autoritarismo. 



Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade. 



Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.  

05/11/2014

A UE E O BRASIL


(Hoje em Dia) - Mesmo estando - ao menos, na aparência - em plena negociação de um acordo de livre comércio com o Mercosul, a União Européia não consegue esconder sua verdadeira natureza.   

As autoridades da organização acabam de entrar com um processo contra o nosso país na Organização Mundial do Comércio - comandada pelo brasileiro Roberto Azevedo - pedindo que se abra um “painel” contra os incentivos dados, pelo Brasil, à indústria automobilística. 

Se a UE, antes mesmo de assinar um acordo de livre comércio com o Mercosul, já pretende sabotar a indústria brasileira, combatendo medidas que beneficiam diretamente empresas europeias instaladas no Brasil, como a Fiat e a Volkswagen, já é possível  imaginar o que ela fará quando já não houver qualquer barreira à entrada de seus produtos no Brasil. 

Se o acordo Mercosul-Europa não avança, é por atitudes como essa, e por resistências dentro da própria UE, principalmente na área agrícola, onde somos mais competitivos. 

É ilusão pensar que abriremos espaços na Europa e nos EUA, se cedermos à sua chantagem. O mercado mundial já se encontra quase que definitivamente  dividido. A América do Sul, e, no futuro, a África - e não a Europa ou os EUA -  são o pedaço que nos coube nesse bolo. 

Não estamos, como o México, colados na fronteira dos Estados Unidos. Não podemos reduzir nossos salários em dois terços, para chegar ao que recebem os trabalhadores mexicanos. Lá, o salário mínimo é de cerca de 11 reais por dia. Nem é possível diminuir o índice de formalização e os direitos de nossos trabalhadores para atrair “maquiladoras” e apenas montar peças  de terceiros. O déficit do México com a China, por exemplo, passou, nesse quesito, de 50 bilhões de dólares no ano passado. 

Da mesma forma, não podemos achar que os EUA e a Europa  nos abrirão seus mercados, extremamente protegidos, se nunca os abriram no passado. 

É possível, sim, nos integrarmos à cadeia produtiva global, mas sem abrir mão de uma visão estratégica. O sucesso da EMBRAER é prova disso. 

 

A não ser que compremos matrizes industriais no exterior, como têm feito, com êxito, outros países do BRICS, como os indianos e os chineses, que já adquiriram marcas como a Jaguar, a Land Rover e a Volvo, nunca teremos acesso a seu mercado, e a tecnologia, como já não temos hoje. E os lucros continuarão sempre com as mesmas multinacionais. 

É portanto, um absurdo, que, ainda assim, tenhamos que enfrentar pressões da UE, tanto para colocar nossos produtos lá fora, como para abrir nossas fronteiras para a importação, praticamente forçada, de produtos feitos em seu território.

O tempo passa, mas a história não muda. Os europeus, mesmo quando mergulhados na crise - segundo suas próprias previsões, a União Européia crescerá apenas 0.4% este ano -  sempre verão a América Latina como uma colônia, a não ser que  nos recusemos a assumir esse papel e essa postura.


23/10/2014

O CABO DO GOOGLE


(Hoje em Dia) - Com a demora da decisão sobre o BRICS CABLE, provocada, entre outras razões, pela crise da Ucrânia, neste ano, os concorrentes passaram à frente e o Google, a estatal uruguaia ANTEL, a Angola Cables e a Algar, brasileira, resolveram fazer um novo cabo de fibra ótica, destinado a aumentar a capacidade de tráfego entre o Brasil e os EUA.Como não dá para controlar o fluxo de informações na internet, uma maior parte dos dados brasileiros dirigidos a outros destinos, como a Europa e a Ásia, passarão por território norte-americano, facilitando ainda mais o trabalho da NSA, e de outras agências de inteligência dos Estados Unidos.

Em novembro de 2013, ou há menos de um ano, o jornal The Washington Post publicou, com o uso de dados e cópias de slides da própria NSA, matérias explicando como a Agência Nacional de Segurança intercepta a comunicação entre servidores do próprio Google e os de outras companhias como o Yahoo, e como essa agência também tem acesso a dados estocados em “nuvem” por companhias privadas de TI dos Estados Unidos.

Para diminuir a preocupação dos usuários, o Google e outras companhias como a Apple, têm aumentado o grau de privacidade de seus novos produtos e serviços, principalmente sistemas operacionais para celular.

A Apple anunciou que no IOS-8 todos os dados pessoais do utilizador, como fotos, mensagens ou e-mails, ficarão protegidos pela senha do usuário, tornando impossível o acesso aos seus dados, mesmo que sejam solicitados judicialmente.

O Google também anunciou que o novo Android Lillipop também vai encriptar automatica e obrigatoriamente os dados do usuário que tenha seu tablet ou smartphone protegido por senha.

Como não chamou a Telebras para entrar no consórcio - parece que é proibido pensar em fortalecer a Telebras no Brasil, embora nada se faça para impedir o monopólio espanhol sobre nosso mercado, com a compra da GVT pela Telefónica, dona da Vivo e da antiga Telesp - o governo precisa cobrar, da Algar, única empresa nacional participante, que medidas de segurança serão adotadas para proteger as informações originadas em nosso território, e fazer o mesmo com o Google.

Naturalmente, o governo norte-americano reagiu contra essas decisões. O diretor do FBI, James Comey, disse que as empresas “estão indo longe demais” na preocupação com a privacidade dos usuários e pediu mais poderes para as autoridades, que, na sua opinião, foram gravemente afetados no que chamou de “era pós-Snowden”.

No caso do cabo ótico do Google, ainda assim é preciso saber quem dominará o negócio, se a empresa norte-americana, ou os uruguaios, angolanos e brasileiros envolvidos.

Não porque isso vá fazer, eventualmente, muita diferença, considerando-se que os dados e informações poderão ser interceptados pela NSA em sua chegada, ou ao passar pelos EUA, mas, pelo menos, para deixar claro que estamos atentos ao assunto.

09/10/2014

DE NOVO, O MÉXICO.




(Carta Maior) - No último dia 25 de setembro, há apenas alguns dias, portanto, um grupo de alunos de uma escola rural de segundo grau do Estado de Guerrero, resolveu realizar um protesto contra as más condições de ensino.  
  
Perseguidos, atacados e presos por policiais, e levados para um quartel, por ordem do Chefe de Polícia, Francisco Salgado Valladares, e do Prefeito, Jose Luis Abarca - que se encontra foragido - foram entregues  a um grupo de narcotraficantes conhecido como  “Guerreros Unidos”, comandado por um tal de “El Chucky”, e levados para local desconhecido.  
  
Poucos dias depois, 28 corpos foram encontrados, queimados, em uma fossa coletiva na periferia de Ayala, e 43 estudantes - que estavam se formando como futuros professores para dar aulas na zona rural - continuam desaparecidos. 
  
De que trata essa história? De um novo roteiro cinematográfico, prestes a ser filmado por Hollywood ? De um “thriller", recentemente publicado nos EUA, que, no final, levará aos motivos do crime e à  punição dos culpados? 
  
Ou, simplesmente, de mais uma notícia, envolvendo uma nação cuja renda, segundo a OCDE, é de menos de sete dólares por dia; um país que tem o menor salário mínimo da América Latina, equivalente a 10.99 reais por jornada; no qual apenas 25% das pessoas tem acesso à internet; que acaba de cair seis posições no ranking de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial, ficando por trás do Brasil; e, segundo a OIT, 60% da força de trabalho está na informalidade; mais de 75% da população não tem cobertura previdenciária, e, segundo a CEPAL, 13% dos habitantes são indigentes e 40% da população está abaixo da linha de pobreza? 
  
Quem responder que país é esse ganha um taco ou uma empanada no primeiro restaurante mexicano da esquina. 
  
Esse é um país que quase nada fabrica, mas que monta muita coisa produzida por terceiros, a ponto de  ter tido, devido à importação de peças e componentes,  um déficit de 51 bilhões de dólares com a China no ano passado. 
  
Um país que importa comida de nações como os EUA e o Brasil, porque não é auto-suficiente sequer em alimentos, e que,  embora tenha feito dezenas de tratados de livre comércio, dirige  90% de “suas” exportações para apenas dois lugares, o Canadá e os EUA, país a cujo ritmo de crescimento econômico está  totalmente atrelado, e que é sede das maiores empresas instaladas em seu território e o principal, quase único, destino, das mercadorias “maquiadas” e dos lucros gerados, graças aos baixíssimos salários, por sua economia - um trabalhador da indústria automobilística mexicana recebe um terço do que ganha, em dólar, um brasileiro pelo mesmo trabalho. 
  
Lembramos, de novo, esse país, porque ele continua a ser citado, agora por lideranças da Rede Sustentabilidade, como exemplo de país bem sucedido na América Latina. 
  
O Brasil de hoje já tem problemas suficientes para serem discutidos no debate em curso, que nos separa da votação do segundo turno.  
  
Citar o México nesse contexto, e ainda por cima como paradigma  de desenvolvimento, só pode ser fruto de má fé ou desinformação. 
  
   
  

   
  

OS EUA E O NOVO “TRÁFICO NEGREIRO” NO NORTE DO BRASIL


(Hoje em Dia) - Agentes da DEA (Agência de Controle de Drogas dos Estados Unidos), trabalhando em conjunto com autoridades peruanas, produziram relatórios recentes comprovando, por meio de escutas, o envolvimento de policiais locais com máfias peruanas, equatorianas e bolivianas, dedicadas ao transporte ilegal de emigrantes africanos e haitianos para o Brasil.

Vinda de diferentes países, e por caminhos também variados, até Epitaciolandia ou Brasileia, no Acre, a imigração haitiana e africana no Brasil é uma questão humanitária, mas também geopolítica, econômica e estratégica.

Ao contrário de refugiados sírios e iraquianos, que, ameaçados de morte, fome e estupro, não tem como pagar um avião, os haitianos ou africanos que chegam por aqui, gastam, somente com “coyotes”, entre 15.000 e 18.000 reais cada um.

Por essa razão, ao não combater e desestimular,  rigorosamente, esse fluxo, o governo brasileiro está incentivando a drenagem de milhões de dólares da economia de nações extremamente pobres, não para o nosso país, mas para as mãos de agentes corruptos e traficantes do Equador e do Perú, da Bolívia e do Brasil.

Justificando a intervenção de agentes norte-americanos em nossas fronteiras, e a própria imigração ilegal de países como a Bolívia e o Perú. Fortalecendo, assim, o faturamento, o funcionamento, não apenas desse moderno tráfico negreiro, mas também a produção, transporte e venda de drogas, já que - como demonstra a investigação da DEA - os mesmos criminosos que atravessam cocaína na fronteira, o fazem com haitianos e imigrantes asiáticos e africanos.

Com os 6.000 dólares obtidos com a escravização de sua família para agiotas, durante meses ou anos, em sua cidade de origem - uma pequena fortuna entregue a ”coyotes”, apenas para chegar ao Brasil - um haitiano, um caboverdiano, um senegalês, poderia montar pequeno negócio artesanal ou agrícola em seu próprio país, e dar ocupação e renda a membros de sua   família.

Aplicado em uma viagem sem volta, esse capital se evapora em poucos dias, sem oferecer nenhum benefício ou segurança no destino.
Cinqüenta mil pessoas já passaram pela rota que, saindo da África ou das Antilhas, passa pela República Dominicana, Espanha, o Panamá, o Equador, o Perú e a Bolívia para chegar ao Brasil.

Centenas se amontoam, como gado,  todos os dias, na fronteira, e muitos já podem ser vistos, deambulando, sem destino, pelas ruas de várias cidades  brasileiras. São tratados como escravos no caminho e no Brasil, devido à sua condição de ilegais, estão sujeitos a todo tipo de exploração.

Quanto tempo vai levar até que, pressionada pelo tráfico,  e recrutada e treinada antes mesmo de entrar em nosso território, parte deles comece a ser usada como “mulas”?

Ou se organize, em redes, para introduzir e vender drogas dentro do Brasil ?