20 de mar de 2017

A OPERAÇÃO "CARNE FRACA" E A MISTIFICAÇÃO DO BRASIL.




Pode não parecer, mas as causas e conseqüências da Operação Carne Fraca - são, como as de sua "mãe" institucional - a "mãe" de todas as operações, como se diria ao tempo da invasão do Iraque - claramente políticas. 

No Brasil, resolveu-se, no bojo da Operação "Tira-Dilma", vender à população uma série de mitos, começando pelo de que se estaria travando uma guerra sem tréguas contra a corrupção, cujo objetivo é "passar a limpo" o país. 

Essa estratégia exige que não apenas a principal "operação" fique permanentemente em andamento e evidência, mas também que outras "operações" semelhantes sejam executadas indefinidamente, em ritmo ininterrupto, obedecendo a uma tática não escrita, mas amplamente disseminada, destinada a alimentar certa mídia de factóides, para que ela cumpra o papel de exagerar e replicar essa impostura para a população, já que os resultados dessa "guerra", como demonstram os que foram colhidos até agora pela própria Operação Lava Jato, são mais ilusórios que reais. 

Parece não haver outro motivo para que siga o clima de espetacularização das forças em ação, de busca de pelo em cabeça de ovo e de superdimensionamento de problemas relativos, que sempre existiram antes, para valorizar, nesse contexto, o trabalho da polícia, do Judiciário e do próprio Ministério Público. 

Parece não haver outra razão para que a corrupção, e, por extensão, institucionalmente, como se quer fazer crer, o governo passado, sejam condenados por todos os males nacionais, quando se sabe que a questão dos juros dos títulos públicos e da sonegação, por exemplo, envolvem recursos muito maiores e são muito mais deletérios, a longo prazo, para o país. 

No caso da Operação Carne Fraca, no calor da midialogia, vendeu-se, apressada e irresponsavelmente, ao mundo - por meio da montagem de uma verdadeira operação de guerra, já que não se aceita mais investigar ou trabalhar com discrição - a versão de que o sistema de produção de carnes no Brasil - o principal produtor de proteína animal do planeta - seria uma verdadeira Casa da Mãe Joana, totalmente contaminada por corruptores, corruptos e bactérias. 

As evidências que levaram à deflagração da "operação", são, na maioria, como ocorre, também, em alguns casos, com a "mãe de todas as operações", ilações frágeis, baseadas mais em interceptações telefônicas - que podem ser interpretadas subjetivamente ao sabor de quem as fez - e em um único depoimento de um fiscal, do que em provas incontestáveis, como o exame científico e sanitário de mercadorias apreendidas oferecidas à população. 

Ora, qual é o sujeito que já fez um churrasco, alguma vez na vida, que não sabe distinguir entre carne fresca de qualidade e carne estragada ou deteriorada, bastando para isso dar uma examinada no produto no balcão do supermercado ou do açougue antes de comprar?

Isso é uma simples questão de bom senso.

Mas a percepção que se pretende passar à população é a de que ela está sendo enganada, comprando e comendo, frequentemente, carne contaminada, como se fosse esse o padrão de uma indústria que atende a mais de 150 países e que é considerada uma das mais avançadas e sofisticadas do mercado mundial. 

Para isso - como se o papel da Polícia Federal fosse fiscalizar a qualidade da comida vendida no exterior - cita-se,  catando fatos pontuais lá fora -  a presença de um determinado tipo de salmonela em carne "barrada" na Itália - existem 2.600 subespécies dessa bactéria e muitos delas não fazem mal à saúde - quando o produto estava em conformidade com as regras da União Européia e posteriormente entrou normalmente em território europeu pelo porto holandês de Amsterdã. 

Com base na interpretação errônea, e não se sabe se proposital, de um telefonema entre dois funcionários de empresa, deduz-se que se estava misturando papelão em uma carga de carne de frango, versão que todo mundo anda citando agora pelas esquinas - dou um prêmio para alguém que já tenha encontrado essa substância misturada aos miúdos de um frango congelado ou resfriado no Brasil - quando os indivíduos "grampeados" estavam, na verdade, se referindo ao tipo de embalagem que seria utilizado para proteger e transportar o produto. 

Não se pode dizer que todos os frigoríficos brasileiros sejam santos ou que só haja "anjos" entre os fiscais do Ministério da Agricultura. 

Mas, com certeza, chama a atenção que, em um momento em que cai, devido à sua flagrante seletividade, a simpatia da população pela operação Lava Jato, comecem a explodir - em paralelo aos pedidos de apoio do juiz encarregado - em letras garrafais, na mídia, e com destaque nos telejornais de rádio e televisão, iniciativas com a mesma abordaagem "filosófica" e modus operandi, voltadas para assuntos que são de grande e direto interesse para os cidadãos, como a saúde e a alimentação. 

Parece que se busca mostrar, a todo instante, que o Judiciário e o Ministério Público estão trabalhando diuturna e abnegadamente - ao contrário dos "políticos", essa raça maldita que chega ao poder pelo voto e não por merecimento ou competência - em defesa da população. 

Quando, na verdade, em um total de quase 5.000 estabelecimentos industriais fiscalizados em nosso país, as unidades investigadas nessa última operação não chegam a pouco mais de 20, em sua maioria de embutidos e congelados, e isso, de forma restrita, em umas poucas - e delimitadas - regiões do Brasil, e os funcionários investigados passam de pouco mais desse número, entre os 11.000 servidores do Ministério da Agricultura. 

Não custa, também, lembrar que em muitos casos, na carne para exportação, a fiscalização, do abate - e até mesmo antes dele - ao transporte, é feita pelos próprios clientes.

Esse é o caso de Israel e dos países árabes, que para aqui enviam representantes, com o intuito de assegurar não apenas a qualidade dos produtos que estão comprando, mas se as condições de produção obedecem às suas regras religiosas, seguindo preceitos Kosher e Halal, o que ilustra não apenas o cuidado da indústria brasileira nessa área mas também o porquê de o Brasil ter se transformado - não por acaso - em um dos maiores exportadores de carnes do mundo. 

Mas como a idéia é aparecer ao máximo, buscando não apenas a espetacularização, mas, por meio de parte preponderante da mídia, uma verdadeira escandalização dos fatos, e a regra, no Brasil de hoje, é acusar e "vazar" primeiro, para explicar depois o que está ocorrendo, o que se conseguiu foi apavorar desnecessariamente a população.

Que adora ter, também, convenhamos, alguém pra "desancar" na fila do banco. 

Nada disso, no entanto, estaria ocorrendo, se certos métodos, como a escuta telefônica, a prisão preventiva e as conduções coercitivas, não estivessem se transformando, no Brasil, de exceção em regras mais que banais, quase obrigatórias, de investigação. 

Coloca-se um determinado setor econômico, um determinado indivíduo, uma determinada autoridade sob escuta, durante meses, até que o "investigado" use uma expressão ambígua em uma conversa ou um provável "crime" ou algo passível de ser interpretado pela opinião pública como "crime" venha a "acontecer", para que se produza um novo escândalo, uma nova "fase", uma nova operação. 

Enquanto isso, como está ocorrendo agora no caso das carnes, não interessa se vai cair, dentro do país, o consumo de um produto que é um dos esteios da economia nacional, preejudicando milhares de produtores, empresários e exportadores.

Se irá se arrebentar mais uma vez com a credibilidade das maiores empresas de um determinado setor da economia.

Se irá se armar os adversários externos do agronegócio brasileiro na área de proteína animal, beneficiando concorrentes que subsidiam seus criadores todos os anos com dezenas de bilhões de dólares e de euros, dando-lhes o pretexto de que necessitavam para reforçar seu protecionismo - já extremamente arraigado nessa área - em pleno processo - a nosso ver equivocado - de negociação de um acordo - que tem tudo para ser leonino - entre a União Européia e o Mercosul. 

Isso, justamente no momento em que o Brasil, no final do governo passado, voltou obter, a duras penas, autorização para exportação de carne bovina em natura para os EUA. 

E quando começamos a quebrar importantes barreiras sanitárias, não apenas com relação aos Estados Unidos, mas também na transformação dos chineses, em apenas oito meses, nos maiores importadores de carne bovina brasileira, com a liberação, por Pequim, no início do mês passado, de licenças de exportação para mais 17 frigoríficos brasileiros - de carne de boi, frango e porco - passarem a exportar para o país, o maior mercado do mundo. 

O terrorismo midiático e a irresponsabilidade é tanta, que certos jornais chegaram a afirmar - sem checar a informação - que o ácido ascórbico, supostamente usado pelas empresas para alterar a côr da carne é um produto cancerígeno, quando não se trata de outra coisa além da mais vulgar - e comezinha - vitamina "C". 

A engenharia brasileira já foi - sem caixão, faixa ou direito a velório - para o saco, levando com ela a indústria de petróleo e gás - ferida de morte pela sabotagem contra a Lei de Conteúdo Nacional - e a de infra-estrutura. 

A indústria naval, em trágico processo de sucateamento, com estaleiros e navios gigantescos, no valor de bilhões de reais, apodrece ao sol de cada dia, assim como vários projetos de defesa, iniciados pelos dois governos anteriores, depois de 2002, que se encontram paralisados por decisão judicial. 

Só estão em processo de conclusão e entrega, projetos que já estavam quase prontos quando Dilma saiu do poder, como a Transposição do São Francisco e o SGDC. 

O novo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, feito para substituir, depois de quase 20 anos, o BRASILSAT - cujo controle foi entregue por FHC aos mexicanos - está previsto para ser lançado amanhã, 21 de março, do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa, com a provável presença de Michel Temer. 

Produzido pela Thales  francesa, com a participação de técnicos e empresas brasileiras, sob especificações da Visiona, joint venture formada, no governo anterior, pela EMBRAER e a TELEBRAS, o novo SGDC irá assegurar, finalmente, canais mais confiáveis para a comunicação do governo e de nossas Forças Armadas, como resposta à espionagem - contra o governo brasileiro e a Petrobras - realizada durante o governo Dilma, e com certeza, ainda hoje, pelos norte-americanos, por meio da NSA. 
Qual será o próximo segmento da economia nacional a ser atingido pelo "furor" investigativo em curso, para continuar alimentando e movimentando a "roda da justiça" perante a opinião pública nacional? 

A quem interessa que se sabote e desvalorize, aos olhos da população, o setor produtivo, gerando dezenas de bilhões de reais em prejuízo? 

Quando há empresas "envolvidas" na Carne Fraca que, em apenas dois dias, já perderam 8% do seu valor de mercado? 

O Brasil precisa voltar a caminhar economicamente e o Judiciário e o MP necessitam aprender a fazer o seu trabalho sem motivações políticas e sem inviabilizar, como estão fazendo, o país - voltamos a insistir, é preciso que o discuta, imediatamente, lei proibindo que a justiça interrompa, por motivo de investigação, obras que estiverem em andamento, e que determine prazos máximos, também por lei, para interdição de indústrias em funcionamento - sob pena de que nossas maiores empresas abandonem o território nacional, levando não apenas suas sedes e recursos para o exterior - está aumentando a tributação de subsidiárias fora do país - mas também suas instalações industriais e seus empregos.

Quando, como se está vendo com Trump nos EUA, as maiores nações estão fazendo exatamente o contrário, privilegiando, beneficiando e exigindo que o capital nacional opere dentro de suas fronteiras. 

São ingênuos, para não usar outros termos, aqueles que pensam que as empresas estrangeiras são mais honestas ou competentes que as nossas, ou que elas terão algum compromisso com o Brasil, ou com os projetos estratégicos que poderiam, um dia, nos fortalecer no mundo cada vez mais complexo e competitivo do século XXI, em detrimento de sua lealdade com seus países de origem. 

Concluindo, de volta à carne, ela é fraca para muitos pecados, e não apenas os da gula, do copo, das drogas ou da luxúria. 

Embora não se incluam normalmente entre as "fraquezas" do corpo, o narcisismo, a vaidade, a egolatria e a arrogância, têm se incrustado cada vez mais na mente e nos corações de parte da geração que está chegando ao poder, no bojo da plutocracia nascida do cruzamento do "republicanismo" do PT com a conquista, por meio de concurso, das carreiras de Estado pela direita. 

Nos corações e mentes daqueles que se crêem ungidos por Deus para "salvar" a Nação, afastando-a da realidade - que, com todos os seus defeitos, compõe o mundo - levando-a para um universo mítico, maniqueísta e simplista, de bandidos e de mocinhos, de "homens de bem" e "gente do mal". 

Até agora, o que a suposta cruzada contra a corrupção em andamento tem conseguido, do ponto de vista prático, fora duas ou três prisões justificáveis, que poderiam ter sido feitas sem esse verdadeiro carnaval, eivado de absurdos e abusos, que já dura, em nosso país,   quase quatro anos, é criar partidos proto-fascistas para as eleições de 2018 - um deles não por acaso adotou, sem contestação, o mesmo logotipo da Campanha das 10 Medidas Contra a Corrupção do Ministério Público como símbolo - e destroçar vastos segmentos da vida nacional, na engenharia, na defesa, na infra-estrutura, e. agora, na indústria de alimentos e do agronegócio, sucateando obras e projetos, destruindo e eliminando empregos e investimentos, corroendo e derretendo o crédito e o valor das empresas, quebrando acionistas e fornecedores, e arrebentando, irresponsavelmente - com ajuda de parte da mídia - com a imagem do Brasil no exterior. 

Facilitando, decididamente, a vida de nossos concorrentes externos, nos mais variados campos da atividade humana, com permanentes e deletérias conseqüências para o futuro das novas gerações de brasileiros, incluídos os filhos daqueles de quem estamos falando. 

Isso, se eles não ingressarem também no serviço público, no futuro, para usufruir, ao contrário dos comuns mortais, das vantagens e salários - muitas vezes acima do limite constitucional - que pertencem ao mundo exclusivo e perfeito - tão afastado, às vezes, da geopolítica, da estratégia e do entendimento da História - em que vivem e atuam os seus pais.

16 de mar de 2017

A VACA SAGRADA E A SOMBRA DE WEIMAR



O fascismo tem por hábito, como certos vírus, se manifestar, primeiro, em pequenos e sintomáticos episódios, para depois se impor, como a peste fazia, no passado, como  uma  maligna epidemia que contamina e apodrece, de alto abaixo, as nações, em certos períodos absurdos e trágicos da História.

No futuro, quando os estudiosos examinarem os vergonhosos e perigosos anos  que estamos atravessando, a ilustrativa inquirição de menos de três minutos do Sr. Omar Serraglio, por um representante de uma emissora de televisão, logo após sua indicação para Ministro da Justiça e a sua pública, contrita,  humilde, quase balbuciante, confissão de prévia e incondicional submissão a certa operação jurídico-policial e, indiretamente, a subordinados que, teoricamente, deveriam ficar sob sua responsabilidade e autoridade como representante direto do Presidente da República, brilhará como mais um sinal premonitório do que nos espera nos próximos tempos - e dirá, como Chaplin fazia no cinema mudo, muito mais do que foi apenas visto ou entrevisto pelos telespectadores, na tela do nosso mais verdadeiro, platinado e orwelliano Big Brother, no momento do diálogo entre  entrevistador e entrevistado.

O senhor Omar Serraglio pertence a um governo fraco e acossado, que tem sua legitimidade contestada e que chegou ao poder devido a um processo eivado de absurdos jurídicos e descaradas manipulações, sucedendo a outro governo do qual fazia parte a mesma turma.

Um governo - o anterior - também igualmente fraco e acossado, permanentemente pressionado desde 2013, que, devido a um "republicanismo" oco e até certo ponto ingênuo, cedeu, com a ajuda do próprio Congresso, onde não deveria ter cedido, e armou parte de uma pequena burguesia ambiciosa, egoísta, conservadora, arrogante e ególatra, para a criação de uma plutocracia desinformada do ponto de vista estratégico e histórico, dando-lhe novas e discutíveis leis, desajeitada e apressadamente copiadas de outros países,  armas,  escudos e uma surreal "autonomia", para construir - sem voto e sem autorização explícita da população - um novo estado dentro do Estado.

Antes, quando aventado outro nome para o Ministério da Justiça, o do senhor Antônio Claudio Mariz de Oliveira, ele já havia sido imediata e olimpicamente impedido de sequer aproximar-se do cargo, sendo tratado, de público, como uma espécie de leproso, por haver tecido críticas à mesma operação e ao uso amplo, arbitrário e irresponsável da delação premiada.

Ora, em uma democracia, a não ser que o próprio Deus desça das nuvens, cercado por raios luminosos, acompanhado de trombetas e de uma coorte de anjos, ninguém pode estar  acima de críticas.

Não podem existir vacas sagradas, tabus, intocáveis, blindadas de toda e qualquer contestação, a não ser que se trate da própria Democracia, em nosso país, vítima, nos últimos tempos, de uma verdadeira farra do boi do ponto de vista do respeito ao voto, da independência dos poderes, da prevalência dos direitos individuais, entre eles o da ampla defesa e o de responder, em liberdade, até a condenação definitiva.

Essa democracia que vem sendo descarada, inexoravelmente, profundamente, desconstruída, descaracterizada, remendada, a todo momento, como um horripilante e mórbido cadáver frankensteiniano, exatamente para justificar, entre outros absurdos, os abusos da mesma vaca sagrada de que estamos falando.

Democracia que está sendo arrastada a passos largos para o brejo putrefacto do autoritarismo, cujos portais se  abrirão, anunciada e mais do que provavelmente, sobre nós, no "annus horribilis" de 2019.

Quando deputados vêm a público dizer que esse ou aquele sujeito não pode assumir esse ou aquele cargo, não em razão de crimes cometidos, mas por ter emitido determinada opinião.

Quando o nome de candidatos a ministro de estado tem que passar pela aprovação prévia, pública, de jornais e emissoras privadas de rádio e de televisão e de grupelhos corporativos representantes de uma plutocracia de terceiro escalão repentina e irresponsavelmente alçada à condução da República, quando não de movimentos proto-fascistas de bate-paus e arruaceiros.

Quando se estabelece - com a cumplicidade dessa mesma imprensa - todo um paradigma jurídico-midiático falso, mendaz, também incontestável,   para justificar o arbítrio, a destruição econômica do país e nossa abjeta submissão a potências estrangeiras às quais interessa estrategicamente o enfraquecimento nacional.

E não apenas o Congresso e os partidos, recuam, sucessivamente, em episódios grotescos e lamentáveis, mas a própria Suprema Corte se curva a essa intocada, inatingível, vaca sagrada - verdadeiro Tigre de Papel institucional que só alcançou a dimensão que tem porque não foi contido em seus arroubos desde o início por quem deveria impor limites à sua atuação e defender as Leis e a Constituição.

Quando procuradores vêm a público, estimulados por essa mesma banda da mídia, reles e irresponsável, "pagar sapo" e puxar as orelhas, em rede nacional, do Congresso Nacional - que mesmo que só tivesse ladrões, o que não é o caso - não caiu ali de paraquedas, mas pelo voto soberano de milhões de brasileiros, e, logo, tem muitíssimo mais autoridade e legitimidade que a de qualquer funcionário concursado; quando o Presidente da República tem que ficar antecipando, de público, que decisão tomará com relação a esse ou aquele assunto, mostrando que não pode mais dar um passo sem pedir, por meio da imprensa, licença a terceiros, estão lançadas as condições para a prevalência, no horizonte político, da extinção dos direitos de expressão e de opinião e da supressão da liberdade e do pleno exercício da cidadania.

É preciso que se diga que a defesa da Constituição, das instituições da República, da autoridade de quem foi escolhido pelo voto direto e secreto da população, não pode ser confundida, ou relegada, ou limitada, ou interpretada, ou anunciada como mera tentativa de se limitar essa ou aquela "operação", sob pena de se submeter o que é perene, o que é fundamento, no sentido do respeito à lei e do equilíbrio e da convivência das instituições, ao que é fugaz, circunstancial  e passageiro. 

É preciso distinguir rabo e cachorro. 

E parar de aceitar, passiva e acovardadamente, que o rabo continue, neste país, a abanar descarada e absurdamente o cachorro.
     
Afinal, a Vaca Sagrada não parece apenas estar dotada dos dons da onipresença, da onipotência, da infalibilidade. 

Ela age como um bovino eventualmente atingido por Encelopatia Espongiforme, que tivesse se introduzido, com a permissão tácita de certos setores do estado e de alguns segmentos da sociedade, na loja de louças do universo institucional brasileiro.

Onde está pisoteando e destruindo, a coices e chifradas, não apenas o que está escrito em nossa Carta Magna, mas também as garantias e as regras - incluídas as não escritas - que perfazem o frágil contrato social conquistado há apenas um átimo, em termos históricos, em um tempo em que milhões de brasileiros  enchiam as ruas para defender o Voto, a Liberdade, a Democracia e a restauração do Estado de Direito, e não a violência e o confronto, a antipolítica, o preconceito, a ignorância, a fúria repressiva, a arrogância e o arbítrio.

Em certas regiões do Nordeste, costuma-se dizer que criança que brinca com penico acaba comendo o que não deve.

As vaias sofridas pela Presidente Dilma Roussef na abertura da Copa do Mundo de 2014, deveriam ter sido vistas como um chulo, vulgar e ensurdecedor aviso do que estava se preparando a seguir.

Para qualquer um com um mínimo de bom senso, bastava ver o grau de infiltração de grupos fascistas (alguns se fazendo passar por anarquistas) em um movimento que aparentemente começou por causa do Passe Livre no transporte público, para saber que a intenção era sabotar e ferir de morte a governabilidade e derrubar quem estivesse ocupando a Presidência da República.

Esse processo não foi interrompido sequer pela campanha presidencial. Pelo contrário, exacerbou-se no próprio embate eleitoral. E continuou multiplicando-se, sem interrupção, depois da aparente vitória - de Pirro -  de Dilma Roussef nas eleições de 2014. 

Naquela ocasião, muitos já alertavam, à esquerda, que se fosse para ganhar por uma pequena margem de votos, talvez fosse melhor se afastar estrategicamente do poder por algum tempo, para reorganizar o partido e lamber as feridas, limpando o próprio PT e os paraquedistas, alguns oriundos até mesmo de outros partidos e governos, que haviam se aproximado da legenda por oportunismo, depois de 2002.

Da mesma forma que muitos avisavam, à oposição, desde 2015, que apostar na criminalização e judicialização da política, para derrubar Dilma, iria prejudicar igualmente a gregos e goianos, promover a antipolítica e em última instância, o Fascismo, abrindo caminho para a chegada de um pilantra ou de um maluco - eventualmente perigoso - à Presidência da República em 2019.

E que a violência e a virulência dos ataques contra Dilma, Lula e o PT, ainda queimariam, na praia, os barcos que poderiam permitir a formação de uma aliança mínima para combater a extrema direita como principal adversário, quando chegasse a hora da disputa.

Que, depois, a população jamais iria aceitar - e até agora não deu o menor sinal de que fará isso - a costura de um pacto em defesa do restabelecimento da política como instrumento de governo e da promoção da ordem constitucional, depois da destruição midiática, como um todo, dos representantes eleitos, promovida tanto pela imprensa quanto pela plutocracia - incluído o Ministério Público - despudoradamente mobilizada para o ativismo na defesa de seus interesses e de seu fortalecimento dentro da estrutura da República, com o surgimento, também em seus quadros, nesse processo, de demagogos prontos a se candidatar eventualmente a disputar o poder nos próximos anos.

Não era preciso ser vidente para adivinhar que qualquer tentativa de conversa entre os diferentes campos do espectro político brasileiro, depois de tantas mentiras, acusações mútuas, autodestruição desatada, seria vista pela opinião pública, como uma reunião de bandidos tentando se livrar da "justiça" e dos santos e impolutos vingadores do Judiciário e do Ministério Público.

Mas de nada adiantou a tentativa de se sugerir um mínimo de bom senso ao senso comum que levou dirigentes partidários e empresariais a se misturar, nas ruas, às multidões fascistas, achando que poderiam colocar coleira no monstro, baboso de ódio e de ignorância, que eles haviam ajudado a modelar com as próprias mãos.

O Brasil de hoje, o Brasil da Vaca Sagrada, está cada vez mais parecido com a Alemanha da República de Weimar, que abriu caminho para a ascensão do nazismo.  

Na Alemanha daquela época, a vaca sagrada era a suástica, e tudo o que ela representava, cuja sombra já se infiltrava, primeiro, junto às forças de segurança, e, depois, nos mais diferentes setores do estado alemão.

Antes mesmo da chegada de Hitler ao poder, ai de quem se atrevesse a contestar o tsunami em formação.

Poucas famílias não tinham pelo menos um membro no partido nazista, ou nas fileiras das S.A. de Ernst Rohm, para desfilar, vestido de uniforme, debaixo dos estandartes marrons e negros, pelas ruas do bairro em que morava.    

Capitaneados pelo Volkisher Beobachter, órgão oficial do Partido Nazista, rádios e jornais já eram, também, majoritariamente, de direita.

E falavam e escreviam contra o "perigo vermelho", da necessidade de defender os "homens de bem" arianos,  da família como base da sociedade - até mesmo para a procriação de futuros soldados para a Alemanha - e da dissolução da moral e dos bons costumes.

Como ocorre com certos grupos no Brasil de hoje, os nazistas cresceram com a denúncia da corrupção que eles diziam que estava amplamente disseminada no universo público, e com a apresentação de Hitler como o líder iluminado que iria acabar com essa roubalheira e falta de vergonha.

Como ocorre no Brasil de hoje, muitos juristas, procuradores e juízes foram fundamentais para o avanço do nazismo - ou para a derrocada da liberdade - dando ao regime, principalmente a partir das Leis de Nurenberg, o verniz e o arcabouço jurídico de que necessitava para eliminar os direitos e garantias individuais, estrangular a Democracia, extinguir outros partidos e agremiações políticas e promulgar leis discriminatórias e raciais que - começando pela proibição do uso pelos judeus dos bancos  das praças e parques - terminaria pelo erguimento das torres dos fornos crematórios, que, apenas em Aushwitz-Birkenau, engoliam cerca de 15.000 cadáveres por dia.

Mas nem mesmo os nazistas, salvo uma exceção - não bastando a Jurisprudência da Destruição, que arrebenta com empresas, empregos e projetos, no lugar de arrebentar com os corruptos (já passou da hora de o Congresso votar lei proibindo a Justiça e o MP de paralisar obras que estiverem em andamento) ousaram fazer o que se está fazendo em nossa República, agora, obrigando os relógios a andar para trás, do ponto de vista jurídico, recorrendo à mais nova jaboticaba (ou seria janoticaba?) do universo jurídico brasileiro.

A penalidade jurídico-retroativa, que transformou em crime as pedaladas fiscais que sempre foram permitidas e utilizadas pelos governos anteriores, foi a principal responsável pela derrubada de Dilma.

Sem ela, também, doações registradas legalmente, há anos, nos tribunais eleitorais, não poderiam ser, com base apenas em depoimentos de delatores presos provisoria e indefinidamente, agora consideradas crimes.

Nem o Caixa 2, anteriormente visto como uma espécie de contravenção que se resolvia com o pagamento de multas e a apresentação de contas na justiça eleitoral, jamais poderia, agora, por meio de acusações atravessadas de lavagem de dinheiro, e outros subterfúgios, também baseadas em delações "premiadas" de indivíduos sob custódia do Estado, ser retroativamente considerado crime, ainda mais sem a promulgação de qualquer lei nesse sentido.

Sem esse mudar de regras no meio do jogo,  sem a troca do modelo de pneu com o carro andando, sem a reinterpretação de leis por parte de pouco mais de uma dúzia de pessoas, que cede constantemente à pressão da mídia e da malta fascista, não se teria restringido ainda mais o direito de defesa, como ocorreu no caso da prisão após condenação em segunda instância.

A penalidade jurídico-retroativa  e a reinterpretação jurídico-retroativa são graves, não apenas porque justificaram a retirada do poder de uma Presidente da República que não foi pessoalmente acusada de crimes de corrupção e a prisão, sem condenação, de suspeitos que, à luz da legislação vigente, não poderiam estar na situação em que se encontram.

Elas são extremamente nefastas, principalmente, porque, institucionalmente, são elas que estão justificando o discurso mentiroso que sustenta a permanente sagração da vaca de que estamos falando.

O discurso mentiroso que diz que se montou uma quadrilha para quebrar e assaltar  a Nação, quando se sabe que sempre houve pedalada fiscal, doação de campanha por parte de empresas privadas, Caixa 2 e corrupção neste país. 

Ora, se o PIB avançou da décima-quarta para a nona maior economia nos últimos 15 anos; se a dívida bruta diminuiu com relação a 2002, e a líquida caiu quase pela metade; se o deficit do Rio de Janeiro, por exemplo, neste ano - e de outros estados, que está sendo usado como desculpa para impor um esquema safado de privatização entreguista -  equivale ao que o governo federal arrecadou em apenas 3 dias no primeiro mês do ano; se a renda per capita e o salário mínimo, em dólares, mesmo ao câmbio atual, ainda são muito maiores do que eram no final do governo FHC; se somos o quarto maior credor individual externo dos EUA, como afirmar, de cara lavada, diante da História, que este país foi quebrado nos últimos 15 anos?

Dilma Roussef pode ter errado, e feio, na dose das desonerações fiscais.

Mas essa queda de arrecadação, assim como a queda do  valor das commodities, que só agora volta, paulatinamente a se recuperar, nada têm a ver com corrupção.

Como sempre, é cômodo, para não dizer, hipócrita, dizer que falta dinheiro por causa  da corrupção, quando se sabe que o ralo que engole os recursos públicos é muito maior por causa dos juros pagos aos bancos, que se encontram entre os mais altos do mundo, e também devido à sonegação, por exemplo, que atinge também dezenas, senão centenas de bilhões de reais todos os anos.      

O discurso mentiroso que coloca corrupto que recebeu propina para se locupletar e tesoureiro de partido, sem nenhum sinal pessoal de enriquecimento ilícito, no mesmo plano.

O discurso mentiroso que diz que todo político é ladrão, quando vivemos, infelizmente - e isso não é privilégio brasileiro, ao menos na América Latina - em uma sociedade em que médicos falsificam com silicone suas impressões digitais para não ir trabalhar; ou aleijam pessoas, pelo resto da vida, para vender próteses ortopédicas desnecessárias, com a cumplicidade de empresas estrangeiras; policiais recebem, em muitos lugares, "semanões" do tráfico de drogas; agentes penitenciários introduzem bebidas, celulares e drogas dentro dos presídios; juízes quando apanhados delinquindo vão para casa e continuam recebendo integralmente seus proventos - que passam muitas vezes de cem mil reais por mês, muito acima, portanto do limite constitucional, assim como também ocorre com salários e vantagens de procuradores do Ministério Público.

O discurso mentiroso que diz que a Vaca Sagrada "recuperou", como se tratasse de dinheiro roubado, 11 bilhões de reais, quando iso vai levar 25 anos para ser feito e mais de 80% desse dinheiro - que   corresponde ao que o governo arrecada em média a cada três dias - está ligado não à descoberta de recursos ilícitos, mas a multas arbitrárias determinadas pela justiça brasileira em conluio com outras nações para que essas empresas possam, quem sabe, um dia, se o TCU e a CGU deixarem, além do Ministério Público - ou paga ou sai, na prática, do país - voltar a trabalhar para o governo. 

Enquanto o prejuízo causado por essa operação, em projetos interrompidos - muitos deles estratégicos, também na área de defesa - e sucateados, limitação creditícia, queda do valor de ações, quebra de acionistas, investidores, fornecedores, demissão de dezenas de milhares de trabalhadores contratados pelas maiores empresas de engenharia do país, já alcança, até agora, dezenas de vezes mais do que isso.

E, finalmente, o discurso mentiroso, que afirma, peremptoriamente, que a Vaca Sagrada de que falamos conta com apoio irrestrito do povo brasileiro e da opinião pública, e que, por isso, para muitos estaria acima do bem e do mal e suas eventuais agressões e atentados ao Estado de Direito seriam compreensíveis, até mesmo justificáveis, diante da perspectiva de um bem maior, o fim da corrupção em nosso país.

Mentira. 

Há toda uma infinidade de juristas, procuradores, jornalistas e até mesmo juízes, que vem se colocando contra essa operação, da forma como tem sido conduzida, e denunciado a manipulação e os abusos que a cercam.

Se corrupção fosse resolvida com repressão, na China, onde é punida com a pena de morte, ela não mais existiria.

Se todo contato ou troca de interesses entre partidos e empresas fosse corrupção, nos EUA, o lobby não teria sido legalizado, praticamente desde início da democracia norte-americana.

E até mesmo na Itália, a Operação Mãos Limpas - modelo da Vaca Sagrada que temos aqui - tem sido acusada de ter desestruturado o Estado, desnacionalizado a economia, ter alinhado o país aos interesses norte-americanos, sem ter acabado com a corrupção, que continua grassando na velha bota do Mediterrâneo, como mostra o escândalo da Mafia Capital, além de ter, historicamente, praticamente entregue o país a um aventureiro, chamado Silvio Berlusconi.    

Por isso é importante saber para onde está nos conduzindo a "nossa" Vaca Sagrada, com o triunfo do discurso da antipolítica, neste e no próximo ano.

Se seus resultados, do ponto de vista econômico e até mesmo jurídico, são em boa parte desastrosos, muitíssimo piores serão suas consequências políticas e históricas, para a Nação e para a República. 

Para onde caminharão o centro e o centro-direita em 2018?

E as multidões vestidas com o glorioso uniforme da CBF, com os seus ídolos - está faltando um novo bicho ao lado do pato - e bonecos de borracha? 

O Brasil de hoje está cada vez mais parecido com a República de Weimar, que antecedeu a chegada do nazismo ao poder na Alemanha.

Dois anos antes da ascensão de Hitler, a Alemanha - e  o capitalismo - estavam - como agora - em crise, agravada pelo crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929.

A esquerda se encontrava enfraquecida depois da brutal repressão promovida pelos sociais democratas, que incluiu a tortura e o assassinato de suas lideranças - algumas delas oriundas da própria social-democracia - como Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo - hoje nomes de rua e de praça em Berlim - no início de 1919.

E, enquanto sociais democratas e comunistas se digladiavam, Hitler organizava, paralelamente, à margem do processo político visível, oficial, suas forças, com o recrutamento de milhares de seguidores.

O que seria feito, ou melhor, já está sendo realizado, por aqui, por meio do Whatsapp e de redes sociais, por  "pré-candidatos", que estão, na verdade, há meses, em plena campanha presidencial, "ignorada" ou tolerada pela justiça, para a Presidência da República.

As forças policiais e o Judiciário já estavam coalhadas de simpatizantes nazistas, seduzidos pelo discurso hitlerista,  que culpava a esquerda, os políticos de modo geral, os judeus e os estrangeiros, e, em última instância, a Democracia, pela  desordem e a crise econômica, e, principalmente, a  corrupção.    
       
E assim como hoje, com a chegada de Trump à Presidência dos EUA, o mundo caminhava, premonitoriamente,  para uma guinada para a extrema-direita, estúpida, imbecil, integral e raivosa, cuja ponta do iceberg era a conquista do Estado pelos fascistas, na Itália, mas que incluía também a consolidação do poder por Salazar, em Portugal e a polarização da situação na Espanha, que  levaria à Guerra Civil espanhola e ao covarde golpe franquista - com apoio militar fascista e nazista - contra a esquerda republicana e a democracia.

Considerando-se essa situação, não é de estranhar que, nas eleições de 1930, depois do lançamento do Mein Kampf - livro escrito por Hitler numa espécie de hotel de luxo onde ficou preso, com todo o conforto, por 9 meses, após uma fracassada tentativa de  golpe de estado - obra na qual o futuro líder da Alemanha professava inequívoca e radicalmente seu profundo anticomunismo e antissemitismo  - os nazistas tenham crescido de 2,5% para 18,3% dos votos e se transformado na segunda força política da Alemanha.

Como eles fizeram? 

Mesmo tendo minoria dos votos, se transformaram em uma espécie de "tertius", aproveitando a divisão das forças políticas que deveriam ter se unido para derrotá-los.

Colocaram seus bate-paus nas ruas para atacar aqueles que se opunham a eles e tumultuar o processo, e uma vez instalado o caos, forçaram a indicação de Hitler como chanceler, uma espécie de primeiro-ministro, para, com cumplicidade da parte mais conservadora do grande capital alemão, "pacificar" e  "colocar ordem" no país.

Uma vez no poder, em 1933, os nazistas ficaram à vontade para dar novo golpe dentro do golpe branco que já haviam dado.

Incendiaram o prédio do Reichstag, o Parlamento alemão, (ler aqui sobre o episódio), acusaram um jovem esquerdista holandês, que mal falava alemão, Marinus van der Lubbe, e um grupo de comunistas ligados ao Comintern - uma organização internacional comunista comandada pela União Soviética - esses últimos soltos depois por falta de provas - pelo crime, e, com essa desculpa, impuseram ao então Presidente alemão, Paul Von Hindenburg, distorcendo dispositivos da própria Constituição anterior da República de Weimar, uma Lei sobre Medidas para a Defesa do Estado, que:

1 - Suspendia a maioria das liberdades civis garantidas pela República de Weimar - liberdade pessoal, liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito de associação e de reuniões públicas, privacidade nos correios e telefones, proteção da casa e propriedades.

2 e 3 - Passava ao Governo central do Reich poderes normalmente delegados aos estados.

4 e 5 - Estabelecia pesadas penas por delitos específicos, incluindo a pena de morte para a queima de edifícios públicos.

6 - Afirmava que o decreto entrava em vigor no dia da sua publicação, mas com efeito retroativo (olhaí a penalidade jurídico-retroativa!)  o que possibilitou decretar a pena de morte para Marinus van der Lubbe - logo depois executado - bode expiatório e suposto "causador" do incêndio.

O incêndio do Reichstag,  transformou-se, do ponto de vista histórico e também jurídico, na pedra angular da fundação do III Reich, dando aos nazistas não apenas a maioria dos votos nas eleições seguintes, mas também o pretexto que eles esperavam para eliminar a esquerda alemã. 

Comunistas e socialistas foram afastados do Parlamento, centenas de pessoas foram presas naquela mesma noite, por tropas paramilitares das SA, e levadas para porões clandestinos onde foram torturadas e assassinadas - calcula-se em 25.000 mortos de esquerda o saldo do episódio - o PKD, o Partido Comunista Alemão e outras agremiações políticas, foi cassado,  alteraram-se e se promulgaram, com o beneplácito e a ajuda de um judiciário e de uma polícia infiltrados por simpatizantes, novas leis, entre elas aquelas criadas para consolidar o terror contra os judeus.

Por ironia, o comissário encarregado de investigar o incêndio, Walter Zirpins, publicou, ainda durante o regime nazista, uma obra jurídica cinicamente denominada Strafrecht leicht gemacht, "O direito penal ao alcance de todos", em que defendia o uso indiscriminado - como ocorre no Brasil de hoje - da prisão preventiva, e, complementarmente, também dos campos de concentração,   como medidas destinadas a acelerar o processo penal e facilitar a "reeducação" de infratores.

Nos meses que se seguiram, capturados, na calada da noite, em suas casas, os social democratas do SPD - o PSDB da época, na Alemanha - entre eles aqueles que haviam, no início, subestimado Hitler, achando que ele era um palhaço passageiro a quem poderiam controlar e usar contra os comunistas, também tomaram, finalmente, com suas famílias e amigos, o caminho de campos como Dachau e Bergen-Belsen.

De seus deputados e dirigentes, que estavam no poder alguns anos antes, poucos sobreviveriam ao final da guerra, moídos pela mesma máquina assassina que transformou em cinzas - e em adubo ou sabão, dependendo do lugar -  os comunistas, os socialistas, os ciganos, os homossexuais, os católicos, os portadores de síndrome de Down, de paralisia infantil, de esquizofrenia, de depressão e de outras doenças mentais, as Testemunhas de Jeová - e os descendentes daqueles a quem, segundo a lenda, esse deus teria oferecido, um dia, depois de ficarem  vagando no deserto por 40 anos, a prometida terra de Canaã.

7 de mar de 2017

O "ACORDO" DE ODEBRECHT, A OPERAÇÃO LAVA JATO E A SUA FANTÁSTICA "RECUPERAÇÃO" DE RECURSOS.



Contribuindo, não se sabe se conscientemente ou não, para dar uma "levantada na bola" da operação,  e enganar e manipular a população, parte da mídia comemora, no alto de suas páginas, a suposta "recuperação" - que poderá levar cerca de 25 anos,  prazo que algumas empreiteiras terão para "pagar" as penalidades - de mais de 11 bilhões de reais, pela Lava-Jato.  

Como se bilhões em dinheiro "roubado" dos cofres públicos estivessem voltando, vitoriosamente, para os cofres do  erário.

E os prejuízos econômicos causados por essa operação, em empregos, quebra de acionistas e fornecedores  e projetos sucateados e interrompidos, não fossem muitíssimo maiores do que a quantia publicada nas manchetes em letras garrafais.

Pura conversa.

Primeiro, porque esse dinheiro não foi "recuperado", já que ainda não foi totalmente pago.

E em segundo lugar, porque não se recupera o que não se tinha antes.

Nem esses recursos foram desviados para contas secretas na Suíça, nem se comprovou, até agora, inequivocamente, com base em provas factuais, que houve desvios ou superfaturamento nesse fantástico montante.

Mais de 90% dessa soma - certa imprensa ainda fez o favor - não se sabe se também propositalmente - de misturar alhos com bugalhos colocando no mesmo saco dinheiro apreendido e recursos derivados de acordos de leniência - será "arrecadado" por meio de multas punitivas, impostas às empresas como parte da estratégia que exige que elas reconheçam publicamente, em amplo e contrito "mea culpa", os seus "erros" e pecados cometidos contra nossos "homens de bem" e nossa nunca hipócrita ou dissoluta sociedade.

Tudo como na época da Santa Inquisição - ou dos processos stalinistas - com os "culpados" tendo que corroborar, nesse meio tempo, a tese do MP que transformou automática e retroativamente doações legais ou de Caixa 2 - tanto faz umas como as outras -  realizadas desde 2002, em "propina", além de concordar em pagar também, à vista ou a prazo,  bilhões de reais para não ter que fechar, quase que obrigatoriamente, suas portas.

Quem explicou isso muito bem, para quem sabe ler nas entrelinhas, foi o advogado do Sr. Marcelo Odebrecht,  Theodomiro Dias Neto, que deu a entender que seu cliente, contra sua vontade, teve que se dobrar às exigências e ao discurso do Ministério Público, sob pena de sua empresa acabar definitivamente:

"Um acordo de colaboração premiada - afirmou o advogado - não é um acordo de pessoas, de partes em posições simétricas. Há uma relação de total assimetria de poder nessa relação. O acordo de colaboração premiada é um acordo de rendição, em que uma parte está se rendendo à outra. 

O que é importante, é fundamental e um desafio para você fazer um acordo é que no caso de uma empresa ninguém faz um acordo para morrer(ou você faz o acordo ou "morre",  diríamos nós). Você faz um acordo para sobreviver".

Esclarecendo, em entrevista ao UOL - já que para bom entendedor um pingo é letra - as verdadeiras condições em que  Marcelo Odebrecht, depois de quase dois anos detido sem flagrante - fechou, "voluntariamente", o "acordo" que ainda deve mantê-lo preso, "exemplarmente", em regime fechado, até o final de 2017, enquanto outros "delatores", especialmente aqueles apanhados com dinheiro de corrupção em suas contas, estão curtindo, há tempos, um uísquinho, nos confortáveis sofás de suas salas.

Resta saber, agora, até onde irão as consequências políticas e a extensão e profundidade da "rendição", ou melhor, da "colaboração", do senhor Marcelo Odebrecht à Lava Jato e ao Ministério Público, tanto no caso de Dilma e do PMDB, como no do PSDB, considerando-se não apenas as afirmações feitas até agora pelo ex-executivo do grupo,  mas também a dos numerosos, mais de 70, "delatores" "premiados" da empresa, que acompanharam a "decisão" tomada por seu ex-chefe.

19 de fev de 2017

O ESCÂNDALO A-DARTER



Ou de como a tentativa de assassinato da Odebrecht pode ferir de morte a construção  do mais avançado míssil da Força Aérea Brasileira.

Está dando  certo o implacável, mesquinho, totalmente desvinculado da estratégia e dos interesses nacionais, cerco, montado pela Procuradoria Geral da República, para arrebentar com a Odebrecht, não apenas dentro do Brasil, mas, em conluio com os EUA, também na América do Norte e, com base em "forças tarefas" conjuntas, nos mais diferentes países da América Latina.

Pressionada pela perseguição além fronteiras da Jurisprudência da Destruição da Lava-Jato e pela estúpida, desproporcional, multa, de 7 bilhões de reais estabelecida a título de punição, pelo Ministério Público brasileiro, em parceria com o Departamento de Justiça norte-americano, a Odebrecht não está conseguindo vender boa parte dos ativos estratégicos que tenta colocar no mercado, para evitar sua bancarrota e total desaparecimento, com a paralisação de dezenas de bilhões em projetos, muitos deles estratégicos, dentro e fora do país, e a demissão de milhares de colaboradores que trabalham no grupo, que já foi obrigado a se desfazer de mais de 150.000 pessoas nos últimos dois anos.

Com o cerco à empresa, que bem poderíamos classificar de mera tentativa de assassinato, considerando-se o ódio com que vem sendo tratada a Odebrecht pelos nossos jovens juízes e procuradores - já que poderiam ter sido presos eventuais culpados sem praticamente destruir a maior multinacional brasileira de engenharia - coloca-se sob risco direto,  não apenas a construção do futuro submarino nuclear nacional (e de outros, convencionais), mas também a produção dos mísseis A-Darter, destinados aos caças Gripen NG BR, que se encontram em desenvolvimento pela MECTRON, empresa controlada pela Odebrecht, em cooperação com a DENEL sul-africana.

Não tendo conseguido negociar a MECTRON, incluída em sua lista oferecida ao mercado, a Odebrecht pretende, agora, esquartejar a companhia e vender seus projetos um a um - entre eles o desse avançado mísil ar-ar - para quem estiver interessado em ficar, entre outras coisas, com  parte do know-how desenvolvido pelo Brasil nessa área, desde a época do míssil "Piranha".

Enquanto isso, a Presidência e o Congresso fazem cara de paisagem. 

Quando, diante desse absurdo, o mínimo que a Comissão de Defesa Nacional - por meio de CPI para investigar o caso - o Ministério da Defesa e o Ministério da Aeronaútica deveriam fazer seria pressionar e negociar no governo o financiamento da compra da MECTRON por uma empresa da área, como a AVIBRAS, por exemplo, com recursos do BNDES, ou injetar dinheiro do Banco - agora emagrecido em 100 bilhões de reais "pagos" antecipadamente ao Tesouro - para que comprasse provisoriamente a MECTRON, assegurando que seu controle ficasse com o Estado, ao menos até o fim do programa A-Darter, ou que se estabelecesse uma estratégia voltada para impedir sua desnacionalização. 

O problema é que o BNDES, como faz questão de afirmar a nova diretoria, pretende mudar de foco para dar atenção - o que quer que isso signifique - a projetos que beneficiem "a toda a sociedade". 

Será que seria possível que a finalização do desenvolvimento de um míssil avançado  para os novos caças de nossa Força Aérea, destinado a derrubar aviões inimigos em situação de combate, em que já foram investidos milhões de dólares, viesse a ser enquadrado  nessa categoria e na nova doutrina de funcionamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - que já bloqueou 1.5 bilhões que a Odebrecht teria a receber por obras no exterior - ou estaríamos pedindo demais e exagerando na importância do caso?   

15 de fev de 2017

COM OLHOS EM GAZA




Não é segredo para ninguém que há grandes parcelas da população brasileira que estão cada vez mais, irremediavelmente e contagiosamente cegas, cultural e ideologicamente, como os habitantes da cidade imaginária do livro ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, do escritor português José Saramago.

Sem necessariamente sofrerem - por estarem cegas de ódio - no sentido do verso de temática "sansoniana" do poeta britânico, também cego, John Milton, "sem olhos em Gaza", que inspirou até uma ópera rock e foi usado por seu compatriota, Aldous Huxley, para batizar um livro homônimo de 1936.     

Ninguém precisa ter tido uma babá de qualidade, ou ter lido os Irmãos Grimm no original, para saber que quando se exagera na dose, o feitiço acaba virando contra o feiticeiro.

Influenciada pelos uivos da malta fascista que vem governando indiretamente o país e defende na internet que é preciso "respeitar a fila" e "acabar com os petistas primeiro", para depois "cuidar dos outros", a justiça errou feio quando impediu a posse de Lula como Ministro, e não puniu, como deveria, o grampo ilegal - pois que não autorizado pela Suprema Corte - contra a então Presidente da República, nem o rápido e ignominioso vazamento para a imprensa de seu conteúdo.

Antes, como agora, a nomeação de ministros é prerrogativa pessoal e exclusiva do chefe do Poder Executivo e ninguém deveria ser considerado culpado ou impedido de ocupar qualquer cargo público, sem ter sido julgado definitivamente, ou ter tido direito à mais ampla defesa.

Ao não "errar" de novo, no entanto,  no caso do Sr. Moreira Franco, em semelhante circunstância, parece ficar cada vez mais claro, para o homem comum que não padeça ainda de microcefalia, que não se está tratando os gregos como os troianos, e que pau que dá em chico, continuará dando em chico mesmo, de forma seletiva e permanente, sem nenhuma vergonha ou constrangimento. por parte de certos segmentos do Judiciário e do Ministério Público.

Com suas unhas impecavelmente limpas, escovadas e aparadas, suas togas brilhantes, bem cortadas e engomadas, e suas lentes de contato opacas e importadas, cobertas pela fina gaze que cobre os olhos da estátua que existe em frente à sede do STF, a Justiça pode até fingir que é cega. 

Mas tem muita gente, nas mais diferentes camadas sociais, que não o é. 

continua enxergando.

14 de fev de 2017

MOVIMENTO CONTRA VENDA DE ATIVOS DA PETROBRAS (A PREÇO DE BANANA) OBTÊM MAIS UMA VITÓRIA.




O Movimento contra a Venda de Ativos da Petrobras (a preço de banana) que merecia existir com esse nome e ser institucionalizado em todo o país, acaba de obter mais uma vitória.  

Considerando que a Petrobras não comprovou ter havido ampla publicidade da oferta do ativo - o que é a mais pura verdade - o que poderia ter aumentado o número de interessados e elevar o preço do "negócio".

E também que a operação não indica ser economicamente viável, parecendo que "está a haver uma simples transferência de patrimônio público rentável a terceiros sem uma contrapartida justa para a vendedora e, frise-se, para os interesses nacionais", o Juiz  Marcos Antônio Garapa de Carvalho,  em resposta a ação do Sindicato dos Petroleiros Alagoas Sergipe, suspendeu a venda pela Petrobras de 90 por cento da Nova Transportadora Sudeste (NTS) ao consórcio liderado pelo grupo canadense Brookfield, por 5,19 bilhões de dólares.

Não se trata  apenas de saber se o Governo Federal está ou não com a razão nas decisões que vem adotando, a torto e à direita, a canetadas.

Mas o porquê dessas decisões, como o pretendido fim da exigência de conteúdo nacional; o repasse às operadoras de telefonia -  na maioria estrangeiras - de cerca de 100 bilhões de reais em patrimônio público; a transferência "antecipada" de 100 bilhões de reais ao Tesouro pelo BNDES - que deveria ter sido contestada no STF - e outras, no campo da educação e da previdência, por exemplo, que afetam direta e profundamente o destino da Nação e de dezenas de milhões de cidadãos brasileiros, estarem sendo tomadas a toque de caixa - na maioria das vezes por meia dúzia de "iluminados" ou por um Congresso dócil, encurralado pelas atuais circunstâncias pólíticas - sem ampla discussão com a população e a sociedade.

Principalmente quando se considera que se trata, com todas as dificuldades que o país vive no momento - boa parte delas de implacável pressão exercida sobre o governo anterior - de um governo-tampão, que por mais que queira convencer que está nos conduzindo por uma ponte para o futuro, está nos guiando, como a uma fieira de cegos, por uma pinguela - cada vez mais frágil e periclitante - que não sabemos se poderá resistir até um zumbídico e aterrador final de 2018.

As vitórias  obtidas na campanha em defesa dos ativos da Petrobras pelo Sindicato dos Petroleiros de Alagoas - em exemplo que precisa ser imediatamente multiplicado por instituições semelhantes de todos os estados do país - mostram que, na ausência de debate pela sociedade, e frente à complacência, cumplicidade e interesses de boa parte da mídia com relação ao que está ocorrendo, o caminho é municiar de informações a Justiça, para que esta possa exigir uma discussão mais ampla dos temas que compõem a agenda subalterna e  entreguista que - apesar de possuirmos 370 bilhões de dólares em reservas internacionais - se assenhoreou do país.

É preciso agradecer aos deuses do invisível e perene panteão da Pátria que, atento, da colina da História, nos contempla, que ainda existam juízes lúcidos, justos e patriotas, com uma visão estratégica dos interesses nacionais e do povo brasileiro, e não apenas com a mentalidade punitiva, imediatista e irresponsável daqueles que professam e praticam a Jurisprudência da Destruição que vem, nos últimos anos, destroçando nossas maiores empresas, projetos e programas, bilhões de reais em patrimônio de investidores, acionistas e fornecedores, e centenas de milhares de empregos, nas pequenas e grandes cidades, em todos os quadrantes do território nacional.

9 de fev de 2017

TRUMP E A FARSA DA GLOBALIZAÇÃO



(RBA- Rede Brasil Atual) - O fato de o IED - Investimento Estrangeiro Direto - ter se mantido históricamente alto na era Lula-Dilma - (na faixa dos 60, 70 bilhões de dólares por ano) e estar conservando o mesmo patamar agora, no atual governo, mostra que o Brasil não precisa rastejar, como um verme, para conseguir capital externo.

E que, por mais que seja conservador, esse capital não pensa, radicalmente, o Brasil, com um viés cegamente ideológico, como certos segmentos mais mesquinhos e burros do capital nacional costumam fazer, de vez em quando, infelizmente, na maior parte das vezes, em detrimento próprio.

Os  estrangeiros investem no Brasil não apenas porque se trata de um país atraente, e eventualmente mais barato, como está agora, para aquisições, por causa do câmbio, mas principalmente porque somos um dos mais importantes mercados do mundo, onde todos precisam estar se quiserem crescer.

Além de termos também a vantagem de poder contar com fundamentos macroeconômicos sólidos, como dívidas bruta, líquida  e externa relativamente baixas, menores do que eram em 2002  e as sextas maiores reservas internacionais do planeta, que continuam nos conferindo, como mostram os dados oficiais do Tesouro dos EUA, a posição de quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos.

Desde que os ingleses impuseram aos chineses, com a vitória nas Guerras do Ópio, a obrigação de consumir essa substância, e a China teve que entregar Hong Kong à Inglaterra e abrir 50 portos ao comércio ocidental, muitos deles, a partir daí, ocupados permanentemente por navios de guerra britânicos, para assegurar o tráfico de drogas por parte da Grã Bretanha, ajudando a diminuir os déficits que os ingleses tinham com os chineses, que o mundo minimamente instruído sabe que o "livre" comércio é um subterfúgio colonial e uma tremenda balela.

Existe uma globalização construtiva, estabelecida pela integração e a cooperação, com a busca do desenvolvimento e da paz, principalmente no sentido sul-sul, como ocorre no caso do  BRICS, da UNASUL e da CELAC, por exemplo.

E existe a globalização dos salões dos convescotes de Davos, da OCDE, do TPP e da malfadada Aliança do Pacífico,  a globalização tout court

Um conto do vigário que favorece as nações mais fortes contra as mais fracas, e, cada vez mais, o interesse das multinacionais e dos grandes grupos econômicos, em detrimento dos países e de seus povos, de forma a explorar seus mercados, insumos e recursos naturais, sua "vocação" e capacidade produtiva, sua mão de obra, seus indivíduos, não para obter um desenvolvimento mais equilibrado e justo da Humanidade, mas para alcançar o mais exagerado, avassalador e egoísta lucro  possível.

O que distingue as nações bem sucedidas daquelas que chafurdam no barro do subdesenvolvimento é a presença do Estado como elemento fiscalizador e indutor do avanço nacional, para conduzir os países em meio aos desafios e oportunidades de um mundo cada vez menor, assegurando uma forte presença do capital estatal na economia, o decidido apoio a empresas locais, e a utilização de uma "livre" iniciativa que na verdade não pode ser absolutamente, totalmente "livre" na medida em que deve servir também  como instrumento para a promoção social e estratégica do progresso nacional, em prol da criação de empregos, da melhora da renda, e da conquista do desenvolvimento, com investimentos induzidos, obrigatórios, se for o caso,  em áreas como a infraestrutura, a tecnologia e a defesa, por exemplo.

É isso que os EUA já faziam, antes de Trump, com a compra, com a utilização de bilhões de dólares do Tesouro, de ações de empresas norte-americanas para que estas não quebrassem, na crise de 2008.

Imaginem se fosse tentado fazer o mesmo com a Petrobras, no Brasil, com o uso de uma parte mínima, que fosse, do 1.5 trilhão de reais que temos em reservas internacionais, para fazer frente à crise que atingiu a companhia, sobretudo, com a queda do preço do petróleo. 

O governo que tomasse essa atitude seria imediatamente taxado de comunista e os fascistas ocupariam as ruas com seus patos, bonecos infláveis e outros utensílios de borracha - para derrubar o Presidente da República.

No entanto, foi esse tipo de estratégia que a China adotou, de forma persistente, nas últimas quatro décadas, para superar séculos de domínio ocidental, e a que a está levando ao topo entre os principais países do mundo. 

Confiantes no tamanho do seu mercado e no seu destino de potência, que existe como estado organizado há cinco mil anos, os chineses - ao contrário do que afirmam os trolls mendazes e desinformados que pululam em nossas redes sociais -  fecharam, primeiro, no lugar de escancarar, suas fronteiras ao capital estrangeiro, depois da vitória da revolução e só as abriram, seletivamente, para parceiros escolhidos a dedo, quando se consideraram seguros o suficiente para isso, exigindo-lhes transferência de tecnologia e aporte de capital, em regime quase sempre de joint-venture minoritária com empresas estatais locais.

Ao mesmo tempo em que criavam, por outro lado, uma nova burguesia,  capaz de competir e de vender ao resto do mundo, desde que ela se mantivesse submetida, políticamente, ao projeto nacional chinês,  tanto do ponto de vista interno quanto do externo, na conquista de novos mercados e na compra, de forma regulada e dirigida, de empresas estrangeiras que pudessem contribuir estrategicamente para a vitoriosa consecução desse projeto.

A mesma burguesia que estamos destruindo no Brasil, neste momento, com a quebra programada, judicializada, de  nossas maiores empresas, justamente as que possuíam uma forte presença internacional. 

Ora, a diferença entre grandes e pequenos países, é que os primeiros perseguem continuamente seus interesses, e muitas vezes o fazem - quando não é possível estabelecer uma permanente aliança -  colocando-os acima dos anseios da própria iniciativa privada, que deve se submeter, em última instância, à coletividade, ou, no mínimo, ao projeto de poder de suas nações de origem.

Independentemente de seu rancoroso anti-islamismo, de seu mal disfarçado apoio aos supremacistas brancos, de sua política fascista e higienista, que pretende expulsar e impedir a chegada de imigrantes e matar pobres e negros por falta de assistência médica, com o fim, entre outras coisas, do Obamacare; e de sua intenção de reabrir as prisões clandestinas da CIA; do ponto de vista econômico o que Trump quer fazer, desta vez de forma clara, descaradamente, sem subterfúgios, nos Estados Unidos, é, de certa maneira, a mesma coisa que os governos comunistas estão fazendo na China.

Ele vai aprofundar e organizar, minimamente, a relação siamesa que sempre houve entre a iniciativa privada norte-americana e os governos dos EUA, principalmente os mais conservadores, desde a Guerra de Independência contra a Inglaterra, usando como fator estratégico o seu vasto mercado, para fazer frente à "globalização".

Desse projeto faz parte exigir, em troca de acesso aos consumidores dos EUA, a manutenção de fábricas e a criação de empregos dentro do país, mesmo para as grandes empresas multinacionais originalmente norte-americanas, e obter contrapartidas de qualquer empresa estrangeira que queira exportar para os Estados Unidos, como a cobrança de impostos, por exemplo.

Se a China, segunda maior economia do mundo, faz isso todo o tempo,  se a Europa é uma fortaleza protecionista, que sobretaxa ou regula até a entrada de alimentos, porque os EUA, como maior mercado do mundo, não se utilizariam dessa condição geopolítica em seu próprio benefício? - deve estar pensado, por baixo da peruca ruiva, o mais novo e topetudo ocupante da Casa Branca.

Na década de 1960, ficou famoso um comercial de fusca da Doyle Dane Bernbach, que, apresentando ao público norte-americano o carrinho projetado a pedido de Hitler pelo desenhista  Ferdinand Porsche, dizia, simplesmente: PENSE PEQUENO - no sentido da defesa dos conceitos que se pretendia associar ao produto, de simplicidade, praticidade e economia.

No patético Brasil dos dias de hoje, as elites e a plutocracia estrategicamente medíocre que se assenhora cada vez mais da República, se acostumaram a pensar pequeno, não no sentido da conhecida peça publicitária da DDB, uma das maiores agências de publicidade do século passado, mas porque, infelizmente, pequena é a sua estatura moral e mental, escassos são seu patriotismo e hombridade e grande é a sua abjeção e seu complexo de vira-lata, desde a época em que seus  predecessores se acostumaram, após servir, a comer as migalhas que caíam da mesa de banquete dos estrangeiros de turno no comando do Brasil.

Quando algum governo, empresa ou partido tenta pensar diferente, com visão estratégica, em defesa da criação de empregos, da estruturação de empresas  estatais em busca da consecução dos grandes objetivos nacionais; muitas vezes minima e  empiricamente definidos; ou em benefício de grandes empresas brasileiras, que possam fortalecer a Nação internamente - incluída sua capacidade de defesa - e projetá-la positivamente no exterior, no sentido de um Brasil mais respeitado e mais forte, uma velha e conhecida parcela da mídia que também pensa pequeno e subalternamente, aliada aos canalhas que odeiam e desprezam, bovina e estupidamente, o país, sempre se levanta e interfere, ajudando a montar e a promover o bloco da quinta-coluna que canta, ao som de rufos e tambores, o vergonhoso samba do entreguismo.

E nosso projeto de Nação, com as mais variadas desculpas, subterfúgios e bandeiras - principalmente a do combate à corrupção, costumeiramente usada contra Getúlio, Jango e JK - é mais uma vez interrompido, fazendo com que tenhamos que retroceder como caranguejos, enquanto outras nações de nosso porte ou maiores do que nós - é preciso não esquecer que ainda somos o quinto maior país em extensão e população e a nona economia do mundo - avançam, por não ter pejo em atuar descaradamente em defesa de seus interesses, sem levar em consideração - ou apenas usando-os como biombo, quando eventualmente lhes interessa - conceitos como o dessa pseudo "globalização".         

Com a eventual saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico e do NAFTA (cujas consequencias para o México foram déficits comerciais cada vez maiores e uma queda na renda da população, que hoje é menor, em dólar, do que era antes do acordo) Trump está abrindo, indubitavelmente - quer se goste ou não disso - uma nova era para os EUA.

Resta saber se de alguma forma isso servirá de lição para as elites, a plutocracia e o governo brasileiros, sempre tão babosos com tudo o que ocorre nos Estados Unidos da América do Norte, abrindo-lhes os olhos para o que está acontecendo no mundo, no sentido da necessidade de um projeto estratégico, nacionalista e desenvolvimentista para este país, ou se isso servirá para que o Brasil vista definitivamente, agora com suas grandes empresas e projetos praticamente destruídos -   sela,  freio, pelego, cabresto e ferraduras, para aprofundar nossa abjeta subalternidade e a entrega de nossas riquezas e mercados ao exterior, por meio entre outras medidas impensadas, de uma acelerada entrada do país no TPP, e em um precipitado ou mal negociado acordo, entre o Mercosul e a União Europeia.

Na contramão do que estão fazendo as nações e regiões mais poderosas e mais fortes (não há ninguém mais protecionista que os EUA, a China e a Europa) que dividem conosco o primeiro pelotão da economia mundial ao fim deste primeiro quarto do século XXI.