01/08/2014

POR QUE OS EUA PERDEM


(Jornal do Brasil) - O Brasil e os Estados Unidos, cada um por suas  razões, acabam de retirar seu pessoal diplomático de Trípoli, na esteira da desastrada intervenção dos EUA e da OTAN na Líbia, que teve como consequência a entrega de uma das mais desenvolvidas nações do continente africano a uma matilha de quadrilhas radicais islâmicas, após a derrubada e o assassinato de Muamar Kadafi, em 2011.

Brasília está fechando sua embaixada para proteger seus funcionários. Os EUA, porque, assim como ocorreu no Iraque, foram taticamente derrotados e falharam em colocar no poder governos fantoches, apesar de terem destroçado política e socialmente esses países, deixando, como está acontecendo na Síria, como rastro de sua interferência, direta ou indireta, centenas de milhares de mortos e milhões de refugiados.       

Único país do mundo a possuir, sem necessidade de lastro, uma impressora de dinheiro em casa, e a contar com gigantesca máquina de inteligência, espionagem e propaganda, os EUA teriam tudo para, se quisessem, como diria o teórico da auto-ajuda Dale Carnegie, “ganhar amigos e influenciar as pessoas”, incentivando a paz e o desenvolvimento nos países mais pobres, por meio de “soft power”.

Cinco principais razões, no entanto, impedem a república norte-americana de fazer isso:

Em primeiro lugar, o grande business do medo, tocado, protegido, irrigado como frondosa e delicada árvore, todos os dias, por milhares de pseudo-intelectuais, “filósofos”, acadêmicos, “pesquisadores” e jornalistas, que vivem de provocar, induzir e realimentar as indústrias do anti-comunismo, do anti-islamismo, do “anti-chinesismo”, do anti-russismo, do anti-castrismo, do anti-bolivarianismo, etc.

Em segundo lugar, o complexo imperial da direita fundamentalista norte-americana, que acredita, piamente, ter herdado, dos pais fundadores, exclusivo e expresso mandato recebido – como as Tábuas da Lei -  diretamente das mãos de Deus, para conduzir o mundo e o destino da Humanidade.

Em terceiro lugar, a política interna, na qual democratas e republicanos, e concorrentes a indicações e a candidaturas, às vezes até do  mesmo partido, se acusam mutuamente de desdenhar a segurança, o que coloca a questão da defesa sempre em primeiro plano no embate político, partidário e eleitoral.

Em quarto lugar, os interesses de um imenso complexo industrial-militar que movimenta milhões de pessoas e centenas de bilhões de dólares na pesquisa, desenvolvimento e fabricação de novas armas, que precisam ter sua existência justificada e ser usadas de alguma forma.

E, finalmente, em quinto lugar, uma política externa e uma diplomacia que não conseguem sobreviver sem a desconfiança e a arrogância. Em seu trato com o resto do mundo, principalmente as nações menos favorecidas, os Estados Unidos poderiam usar a cenoura, mas preferem, como qualquer valentão de bairro, brandir o porrete, porque isso lhes dá  prazer e a ilusão de força.

Com base em mentiras, como a existência de armas de destruição em massa, os EUA mataram Saddam Hussein e derrubaram Muammar Kadafi, armando um bando de psicopatas que linchou, no meio da rua, a socos e pontapés, o líder líbio, transformando seu rosto em uma espécie de hambúrguer.

Era Kadafi um tirano? Quando convinha, a Europa e os EUA não se aliaram e fizeram negócios com ele, assim como com outros ditadores que são ou foram apoiados pelo “ocidente”, em estados como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes, ou em países como o Chile de Pinochet e a Indonésia de Suharto ?

Sob a liderança de Saddam Hussein, o Iraque chegou a ser um dos países mais prósperos do Oriente Médio, com uma infraestrutura invejável, boa parte dela construída por brasileiros nos anos 1970 e 1980; e a Líbia, sob Muamar Kadafi, tinha o maior IDH africano.

Hoje, depois de guerras fomentadas e promovidas pelo “ocidente”, os dois países estão entregues a rebeldes islâmicos radicais, perto dos quais Kadafi e Saddam Hussein pareceriam anjos. E os Estados Unidos, depois de um custo financeiro e humano incalculável, estão saindo de Trípoli e de Bagdá  escorraçados, como saíram do Vietnam e da Somália.

Em “Von Kriege”, Clausewitz escreveu que “a guerra é a continuação da política por outros meios...” querendo afirmar a primazia da razão política sobre a força das armas. Para os Estados Unidos, a política é a continuação da guerra.

De uma guerra permanente que os opõe – como podemos ver pela espionagem contra seus próprios aliados, entre eles a Alemanha – ao resto do mundo.

Não por acaso, as únicas vezes em que os EUA foram efetivamente bem sucedidos, do ponto de vista bélico, foi quando lutaram claramente não em defesa de suas empresas e de sua elite, mas pela liberdade, no conflito contra a Inglaterra pela independência de seu território, e na Primeira e na Segunda guerras mundiais.

A Guerra Fria não passou de uma estratégia contínua e paranoide de isolar e enfraquecer a União Soviética, que saíra da Segunda Guerra Mundial e da Batalha de Berlim como uma nação vitoriosa, sem a qual o nazismo não teria sido derrotado.  

Hoje, embora não o admita, a direita norte-americana está extremamente preocupada com o avanço do BRICS e mais especialmente da China.

Nos próximos anos, se os EUA não mudarem, esse avanço será cada vez mais eficaz e inexorável.

Não pelo fato de que Pequim esteja se armando militarmente, assim como os outros BRICS. Mas porque, na maioria dos lugares em que chegam, países como o Brasil e a China o fazem por meio de obras, comércio, investimentos, portos, estradas, pontes, ferrovias. E os Estados Unidos, a OTAN, e seus aliados, por meio de mentiras, intrigas e discórdia, bombardeios, drones e porta-aviões.

30/07/2014

DILMA E O SANTANDER


(Hoje em Dia) - Diz a sabedoria popular que frango que acompanha pato acaba morrendo afogado. Sempre estranhamos, ao longo dos últimos governos, a excessiva atenção reservada, pela classe política brasileira, para o que existe de pior no empresariado ibérico, em especial o oriundo da Espanha a partir dos anos 90.

Criou-se em nosso país, com a entrada de  Madrid no Euro, a ilusão de que a Espanha, que passou a maior parte do século XX mergulhada em uma ditadura medieval e agrária, tivesse sido – pela simples troca da peseta por uma moeda mais valorizada - subitamente alçada ao desenvolvimento.

Nos séculos XIX e XX, em processo que vinha se consolidando desde a derrocada de sua Invencível Armada, Madrid viveu à sombra da Inglaterra e dos EUA, que se apossaram do que restou de seu império, na Guerra Hispano-Americana de 1898.

De Cervantes a Picasso, a Espanha deu grande contribuição ao mundo. Mas nunca foi o paradigma de empreendedorismo e de pujança  com que aportou por aqui à época do PROER e das grandes privatizações.

Desde 2008, pelo menos, sabe-se que a  “fortaleza” ibérica estava baseada em bilhões de euros em ajuda dos fundos da Comunidade  Europeia e em centenas de bilhões de euros em dívidas, que deixaram em seu rastro um desemprego de quase 30%, e milhares de famílias despejadas e de aposentados prejudicados pelos bancos.

Quando se fala no IDH espanhol, é preciso lembrar que, por trás dele, está uma das maiores dívidas per capita do mundo. E que, se não fosse o hábito de exportar seus problemas e seus desempregados para países como o nosso, a cada duas gerações, os espanhóis não teriam o padrão de vida que tiveram até alguns anos atrás.

Na época em que, na América Latina, havia maioria de governos neoliberais, os “empresários” espanhóis eram recebidos, por aqui, como nababos.      

E, o que é pior, continuaram a ter direito aos mesmos rapapés, depois da crise,  quando suas ”grandes” empresas, altamente endividadas, começaram a depender, como de água para um peixe no deserto, dos altíssimos lucros auferidos em território brasileiro.  

Sempre nos surpreendeu – e sobre isso escrevemos antes – o número de vezes em que o Senhor Emilio Botín - investigado, no passado, em seu país e execrado por boa parte da população espanhola - foi recebido em Palácio pela Presidente Dilma.

Nunca é conveniente que um presidente da República receba pessoalmente homens de negócio, e muito menos se forem estrangeiros. Para isso existem os ministros, como o da Indústria e Comércio ou o da Fazenda, por exemplo.


Se tivesse evitado os sorrisos e as fotografias  que propiciou ao dono do Santander,  por tantas vezes, com certeza a Presidente Dilma estaria se sentindo, agora, menos constrangida – depois da carta desse banco a “investidores”,  desancando  a orientação e as expectativas econômicas de seu governo.   

27/07/2014

A TRAGÉDIA PALESTINA E A VITÓRIA DOS “ANÕES DIPLOMÁTICOS” SOBRE OS ISRAELENSES NA ONU.


(Jornal do Brasil) - O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, deve estar achando o máximo ter sido repentinamente elevado, pela rançosa e entreguista direita latino-americana - como o Sr. Andrés Oppenheimer - à condição de “superstar”, depois de ter chamado o Brasil de “anão diplomático” e de ter nos lembrado, com a autoridade moral de um lagarto, que “desproporcional é perder de 7 x 1”, referindo-se à Copa do Mundo, e não, matar e ferir mais de 3.000 pessoas e desalojar quase 200.000, para “vingar” um número de vítimas civis que não chegam a cinco.

Com acesso a drones e a sofisticados satélites de vigilância norte-americanos, e a compra de espiões em território “controlado” pelo Hamas – traidores e mercenários existem em todos os lugares - Israel poderia, se quisesse, capturar ou eliminar, com facilidade, em poucos meses, os responsáveis pelo lançamento de foguetes contra seu território, assim como alega contar com eficaz escudo que o protege da maioria deles.

O governo de Telaviv - e o Mossad - não o faz porque não quer. Prefere transformar sua resposta em expedições punitivas não contra os responsáveis pelos projéteis, mas contra todo o povo palestino, matando e mutilando - como fizeram os nazistas com os próprios judeus na Segunda Guerra Mundial- milhares de pessoas, apenas pelo fato de serem palestinos.      

Essa atitude, no entanto, não impediria que surgissem novos militantes dispostos a encarar a morte, para continuar afirmando – pelo único meio que bélico lhes restou - que a resistência palestina continua viva.

Do meu ponto de vista, nesse contexto de cruel surrealismo e interminável violência do confronto, para chamar a atenção do mundo, os palestinos, principalmente os que não estão ligados a grupos de inspiração islâmica, deveriam não comprar mais pólvora, mas tecido.

Milhares e milhares de metros de pano listrado, como aqueles que eram fabricados por ordem do Konzentrationslager Inspetorate, e das SS, na Alemanha Nazista, para vestir entre outros, os prisioneiros judeus dos campos de extermínio.

Os milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia e na Faixa de Gaza poderiam - como fez Ghandi na Índia - adotar a não violência, raspar as suas cabeças, as de suas mulheres e filhos, como raspadas foram as cabeças dos milhões de judeus que pereceram na Segunda Guerra Mundial, tatuar em seus braços, com números e caracteres hebraicos, a sua condição de prisioneiros do Estado de Israel, costurar, no peito de seus uniformes, o triângulo vermelho e as três faixas da bandeira palestina, para ser bombardeados ou morrer envoltos na mesma indumentária das milhões de vítimas que pereceram em lugares como Auschwitz, Treblinka e Birkenau.

Quem sabe, assim, eles poderiam assumir sua real condição de prisioneiros, que vivem cercados dentro de campos e de guetos, por tropas de um governo que não é o seu, e que, em última instância, controla totalmente o seu destino.

Quem sabe, despindo-se de suas vestimentas árabes, das barbas e bigodes de seus homens, dos véus e longos cabelos de  suas mulheres, despersonalizando-se, como os nazistas faziam com seus prisioneiros, anulando os últimos resquícios de sua individualidade, os palestinos não poderiam se aproximar mais dos judeus, mostrando-lhes, aos que estão do outro lado do muro e aos povos  do resto do mundo - com imagens semelhantes às do holocausto – que pertencem à mesma humanidade, que são, da mesma forma,  tão vulneráveis à doença, aos cassetetes, às balas, ao desespero, à tristeza e à fome, quanto aqueles que agora os estão bombardeando.

As razões da repentina e grosseira resposta israelense contra o Brasil - que ressaltou, desde o início, o direito de Israel a defender-se - devem ser buscadas não no “nanismo” diplomático brasileiro, mas no do próprio governo sionista.

É óbvio, como disse Yigal Palmor, que no esporte bretão 7 a 1 é um número desproporcional e acachapante.

Já no seu campo de trabalho - a diplomacia –como mostrou o resultado da votação do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que aprovou, há três dias, a investigação das ações israelenses em Gaza, os “anões” diplomáticos - entre eles o Brasil, que também votou contra a posição israelense - ganharam por 29 a 1, com maioria de países do BRICS e latino-americanos. Só houve um voto a favor de Telaviv, justamente o dos EUA.

Concluindo, se Palmor – que parece falar em nome do governo israelense, já que até agora sequer foi admoestado - quiser exemplo matemático ainda mais contundente, bastaria  lembrar-lhe que, no covarde “esporte” de matar seres humanos indefesos – entre eles velhos, mulheres e crianças –  disputado pelo Hamas e a direita sionista israelense, seu governo está ganhando de goleada, desde o início da crise, pelo brutal - e desproporcional placar - de quase 300 vítimas palestinas para cada civil israelense.

          

25/07/2014

DE CEGOS E DE ANÕES


(Jornal do Brasil) - Se não me engano, creio que foi em uma aldeia da Galícia que escutei, na década de 70, de camponês de baixíssima estatura, a história do cego e do anão que foram lançados, por um rei, dentro de um labirinto escuro e pejado de monstros. Apavorado, o cego, que não podia avançar sem a ajuda do outro, prometia-lhe sorte e fortuna, caso ficasse com ele, e, desesperado, começou a cantar árias para distraí-los do medo.

O anão, ao ver que o barulho feito pelo cego iria atrair inevitavelmente as criaturas, e que o cego, ao cantar cada vez mais alto, se negava a ouvi-lo, escalou, com ajuda das mãos pequenas e das fortes pernas, uma parede, e, caminhando por cima dos muros, chegou, com a ajuda da luz da Lua, ao limite do labirinto, de onde saltou para  densa floresta, enquanto o cego, ao sentir que ele havia partido, o amaldiçoava em altos brados, sendo, por isso, rapidamente localizado e devorado pelos monstros que espreitavam do escuro.   

Ao final do relato, na taverna galega, meu interlocutor virou-se para mim, tomou um gole de vinho e, depois de limpar a boca com o braço do casaco, pontificou, sorrindo, referindo-se à sua altura: como ve usted, compañero... con el perdón de Dios y de los ciegos, aun prefiero, mil veces, ser enano...

Lembrei-me do episódio — e da história — ao ler sobre a convocação do embaixador brasileiro em Telaviv para consultas, devido ao massacre em Gaza, e da resposta do governo israelense, qualificando o Brasil como irrelevante, do ponto de vista geopolítico, e acusando o nosso país de ser um “anão diplomático". 

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, e os líderes de três das maiores potências espaciais e atômicas do planeta, além do presidente do país mais avançado da África, nação com a qual Israel cooperava intimamente na época do Apartheid, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv.

O governo israelense não consegue mais enxergar além do próprio umbigo, que confunde com o microcosmo geopolítico que o cerca, impelido e dirigido pelo papel que exerce, o de obediente cão de caça dos EUA no Oriente Médio.

O que o impede de reconhecer a importância geopolítica brasileira, como fizeram milhões de pessoas, em todo o mundo, nos últimos dias, no contexto da criação do Banco do Brics e do Fundo de reservas do grupo, como primeiras instituições a se colocarem como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, é a mesma cegueira que não lhe permite ver o labirinto de morte e destruição em que se meteu Israel, no Oriente Médio, nas últimas décadas. 

Se quisessem sair do labirinto, os sionistas aprenderiam com o Brasil, país que tem profundos laços com os países árabes e uma das maiores colônias hebraicas do mundo, como se constrói a paz na diversidade, e o valor da busca pacífica da prosperidade na superação dos desafios, e da adversidade.

O Brasil coordena, na América do Sul e na América Latina, numerosas instituições multilaterais. E coopera com os estados vizinhos — com os quais não tem conflitos políticos ou territoriais — em áreas como a infraestrutura, a saúde, o combate à pobreza.

No máximo, em nossa condição de “anões irrelevantes”, o que poderíamos aprender com o governo israelense, no campo da diplomacia, é como nos isolarmos de todos os povos da nossa região e engordar, cegos pela raiva e pelo preconceito, o ódio visceral de nossos vizinhos — destruindo e ocupando suas casas, bombardeando e ferindo seus pais e avós, matando e mutilando as suas mães e esposas, explodindo a cabeça de seus filhos.

Antes de criticar a diplomacia brasileira, o porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, deveria ler os livros de história para constatar que, se o Brasil fosse um país irrelevante, do ponto de vista diplomático, sua nação não existiria, já que o Brasil não apenas apoiou e coordenou como também presidiu, nas Nações Unidas, com Osvaldo Aranha, a criação do Estado de Israel. 


Talvez, assim, ele também descobrisse por quais razões o país que disse ser irrelevante foi o único da América Latina a enviar milhares de soldados à Europa para combater os genocidas   nazistas que dizimaram milhões de hebreus; comanda organizações multilaterais de porte mundial, como a OMC e a FAO; coordena missões de estabilização e pacificação em lugares como o Haiti e o Líbano; bloqueou, com os BRICS, a intervenção da Europa e dos Estados Unidos na Síria, defendida por Israel, condenou, com eles, a destruição do Iraque e da Líbia; obteve o primeiro compromisso sério do Irã, na questão nuclear; abre, todos os anos, com o discurso de seu máximo representante, a Assembleia Geral da Nações Unidas; e porque — como lembrou o ministro Luiz Alberto Figueiredo, em sua réplica — somos uma das únicas 11 nações do mundo que possuem relações diplomáticas, sem exceção – e sem problemas - com todos os membros da ONU.  

Finalmente, lembremos ao Senhor Yigal Palmor, uma marcante diferença entre nossos dois países, com um último exemplo da "irrelevância" brasileira no contexto geopolítico: enquanto Israel depende em quase tudo - incluindo sua sobrevivência militar - dos norte-americanos, o Brasil é o quarto maior credor individual externo do tesouro dos Estados Unidos.  

23/07/2014

O PRÍNCIPE E O SEM TETO


(Hoje em Dia) - O príncipe George, filho de Catherine Midleton e do príncipe William, da Inglaterra, completou ontem um ano de vida. 

Segundo a AFP, “em comemoração à data, a coroa britânica divulgou imagens exclusivas do menino de cabelo louro, vestindo um macacão azul e uma camisa azul marinho”, registradas, há alguns dias, em um museu londrino. “ao qual o duque e a duquesa de Cambridge levaram seu filho para ver uma exposição sobre borboletas”. Em uma das imagens George aparece andando, cena saudada como "Os primeiros passos seguros do futuro rei da Inglaterra", pelo Sunday Telegraph.

É triste. Mas devemos cumprir o doloroso  dever de informar, que, segundo um último balanço, também publicado ontem, 143 crianças palestinas, 80 delas com menos de 12 anos de idade, não poderão ver as borboletas do museu britânico, nem nenhuma outra que estiver voando por aí,  por terem perecido, segundo a UNICEF, desde que começou a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

Nem elas poderão fazê-lo, nem o pequeno bebê de onze meses, que morreu no hospital, depois de ter ficado trinta e cinco horas, soterrado, com sua família, sob um prédio em construção que desabou em Aracaju.
    
A humanidade está – infelizmente – cada vez mais fútil.  Incapazes de revestir sua própria vida de maior interesse, enriquecendo-a com um pouco de cultura, ou dos sentimentos de justiça e solidariedade, milhões de pessoas mergulham no culto a “celebridades”, às vezes tão efêmeras e descartáveis como lâminas de barbear, e acompanham suas peripécias pelas publicações disponíveis nas salas de espera e nos salões de cabeleireiro.

O pequeno príncipe britânico, herdeiro da opulência de um império que cresceu pela exploração de dezenas de colônias e povos como os indianos, ou os aborígenes canadenses e australianos, acaba de entrar na lista – tão ridícula como absurda - das “dez crianças mais poderosas do mundo”.

O pequeno sem teto brasileiro, um mês mais novo que ele, morreu de frio e inanição, no escuro, debaixo das ruínas  do prédio em construção - no qual sua família dormia por não ter outro lugar para ir - porque sua mãe não conseguia se mover para aquecê-lo e amamentá-lo.


Os meios de comunicação noticiaram os dois fatos, cada um, naturalmente, em sua correspondente seção. Uma, festiva, perto das notas de variedades ou editoriais de moda. A outra, nas notícias de polícia, ou de cidades, lamentando, como não poderia deixar de ser, o desabamento do prédio e as vítimas do acidente de Aracaju.


Faltou alguém somar os dois meninos, e pensar, ao menos por um segundo, em seus diferentes destinos. Perguntando-se, porque, em pleno Século XXI, algumas crianças ainda nascem em suntuosos palácios, enquanto outras continuam morrendo debaixo de bombas em Gaza, ou sob os escombros de uma marquise, porque não tinham - como certo menino que nasceu em uma manjedoura - outro lugar para se abrigar.

18/07/2014

OBAMA, PUTIN E A QUEDA DO AVIÃO MALAIO.



(Jornal do Brasil) - Despachos urgentes de agências internacionais dão conta da queda de um avião Boieng 777, da Malaysia Airlines, que saiu ontem, às 12.15, hora local, do aeroporto de Amsterdam, na Holanda, com destino a Kuala Lampur, capital malaia.

A queda da aeronave, que levava 290 pessoas, nas imediações de Krasni Luch, perto de Shaktarsk, em território ucraniano, próximo da fronteira com a Rússia, ocorre em um momento em que - coincidentemente? - boa parte da opinião pública mundial ainda tem a sua atenção voltada para a tragédia do misterioso desaparecimento, sem deixar pistas, de um avião do mesmo modelo, e da mesma companhia, sobre o Oceano Índico, em 8 de março deste ano, com 223 passageiros, entre eles, 150 cidadãos chineses, a bordo.

Segundo agências de notícias ocidentais, o acidente ocorreu em território controlado por separatistas de etnia russa, que foram imediatamente acusados, pelo governo ucraniano, de terem derrubado o avião, usando mísseis terra-ar.

Em conversa telefônica, anteriormente agendada, com o Presidente Obama, dos EUA, o Presidente russo, Vladimir Putin, negou peremptoriamente essa possibilidade, também desmentida pelo líder dos separatistas do Leste da Ucrânia, Alexander Borodai.

Como o avião se encontrava há dez mil metros de altura, ele só poderia ser abatido, teoricamente, por mísseis de uma bateria antiaérea, e não pelos projéteis portáteis usados, normalmente, pelos combatentes independentistas da região, que têm entre 3 e 4 mil metros de alcance.

Afastada a hipótese da explosão de uma bomba a bordo, e em caso de confirmação de que a queda do avião malaio - que contava com 15 cidadãos norteamericanos entre seus passageiros - foi provocada pelo disparo de um míssil, é preciso desconfiar das versões apressadamente apresentadas pelas autoridades do atual governo ucraniano.

É estranho que o incidente aconteça justamente depois da recente derrubada de um avião militar da Ucrânia, por rebeldes separatistas, e quando os Estados Unidos estão anunciando novas sanções contra a Rússia.

E isso, em um momento em que o Presidente Vladimir Putin acaba de colher importantes vitórias diplomáticas, junto com o seu colega chinês, Xi Jinping, em périplo pela América Latina, no contexto da Cúpula dos BRICS de Fortaleza, e do lançamento do Novo Banco de Desenvolvimento e do Fundo de Reservas do grupo.

Considerando-se a permeabilidade da vasta fronteira que separa a Rússia e a Ucrânia,  e os estreitos contatos na área de defesa - incluindo a fabricação de armamentos - que existiam entre os dois países, desde os tempos da antiga União Soviética, seria fácil, para qualquer uma das partes em confronto, derrubar uma aeronave usando  um  foguete ar-ar de origem russa disparado de outro avião, hipótese que está sendo investigada, com base em informações de satélites, tanto por Washington como Moscou neste momento.  

É preciso não esquecer que, quando da queda de Yanukovich, teoricamente precipitada por disparos feitos por policiais contra manifestantes da Praça Maidan, correu a versão, ainda não totalmente desmentida, ou devidamente esclarecida, de que os tiros teriam partido, na verdade, de franco-atiradores ligados a facções da extrema-direita neonazista ucraniana, com a intenção de jogar a opinião pública contra o governo que estava no poder em Kiev até fevereiro deste ano.    

A HORA DOS BRICS


(Hoje em Dia) - Irônica às vezes, mas nunca desatenta, a história não desperdiça oportunidades, em sua caminhada pelo tempo, para estabelecer mudanças, que às vezes se tornam prementes, no contexto da disputa dos povos e nações pelo poder.

Quando foi criado pelo economista Jim O’ Neill, do Goldman Sachs, o termo BRIC, hoje, BRICS, estava voltado para orientar especuladores e “investidores” para a obtenção de rápidos lucros, investindo em países de grande potencial de crescimento nos primeiros anos do Século XXI.

Certamente, ao criar o termo, O’ Neill não percebeu que, ao reunir em uma mesma sigla, quatro das maiores nações do mundo em território e população, elas poderiam descobrir, entre si, afinidades e pontos de contato mais profundos, que as características marcadamente econômicas que atraíam os clientes de sua empresa de consultoria em 2001.

Se tivesse parado para pensar, um pouco mais, na ocasião, em termos geopolíticos, ele poderia ter percebido que esses países não demorariam a se unir sob um ponto comum: o fato de todos terem sido dominados, explorados, e tido seu desenvolvimento tolhido, no passado, pelas alianças estabelecidas pelos países mais ricos, ao longo dos séculos XIX e XX, para assegurar seu domínio político e econômico sobre o resto da humanidade.

Em junho de 2003, por iniciativa brasileira, criou-se, em Brasília, o IBAS, um fórum de diálogo sul-sul, entre Brasil, Índia, e - premonitoriamente - a África do Sul.

Exatamente seis anos depois, em 16 de junho de 2009, o então BRIC, reunindo Brasil, Rússia, Índia e China, faria sua primeira  Cúpula Presidencial na cidade russa de Ekaterinemburg, à qual se seguiriam os encontros de Brasília, em 2010, Sanya, na China, em 2011 - quando incorporou-se a África do Sul - Nova Déli, na Índia, em 2012,  Durban, na África do Sul, em 2013, e, agora, Fortaleza, Brasil, em 2014. Reunião na qual, pela primeira vez, o Grupo BRICS estabelece mecanismos comuns de atuação, apresentando-se, sem subterfúgios, não mais como um acrônimo econômico, mas como uma aliança geopolítica de alcance mundial, que pode vir a influenciar, decisivamente, a evolução do mundo, nos próximos anos.  

A imprensa ocidental sempre se dedicou, nos últimos anos, a desestimular e desacreditar o BRICS, apresentando-o como um saco de gatos de nações contraditórias e em certos termos concorrentes e como uma marca a mais, em um planeta por si só já pródigo em siglas de todo tipo, a maioria tão decorativas quanto inoperantes.

O estreitamento paulatino dos laços diplomáticos, comerciais e de defesa entre os BRICS, e, agora, o lançamento de seu banco, e de um fundo de reservas, com um montante de 150 bilhões de dólares, representa o primeiro desafio concreto à hegemonia ocidental nos últimos 200 anos. Abre caminho para um mundo novo, multipolar, mais justo, mais equilibrado.


      

A ESCALADA DO OLIMPO


(Jornal do Brasil) - Com quase 2.800 metros de altitude,  o Monte Olimpo é o mais alto da Grécia e símbolo maior da mitologia grega, presente de Gaia a Zeus para a morada dos deuses.
Os autores gregos da Antiguidade situam-no entre as nuvens, e Aristófenes disse que Sócrates era nefelibata, e sobre as nuvens passeava.
Os gregos cultuavam seus deuses,  com os jogos que se celebravam de quatro em quatro anos,  em Olímpia e em outras cidades do Arquipélago.
Era uma competição entre cidades e atletas em busca da glória. Um grande poeta, Pindaro, vivia de lhes cantar a fama,  em troca de dinheiro.  
    Dele é o belo verso em que o homem é apenas  o sonho de uma sombra. Mas traz o consolo para a fugacidade da vida: quando o sol nos traz seu calor e sua luz, como a vida é bela…
Vivemos hoje como nos tempos gregos: de quatro em quatro anos, temos, revezando-se,  a Copa do Mundo e, como os gregos, os Jogos Olímpicos , carregados da mesma paixão  que opôs Atenas a Esparta.
Com a paixão do ódio, o facínora Adolf Hitler recusou-se a cumprimentar o negro norte-americano Jesse Owens, o mais destacado atleta dos Jogos de 1936, em Berlim, com quatro medalhas de ouro e a quebra de 4 recordes mundiais em 45 minutos.
        O Führer gastara milhões de marcos para promover a Alemanha no mundo e  obter o reconhecimento dos povos, mas sobretudo para demonstrar a superioridade da “raça ariana”.
     Os dirigentes nazistas, como Ribbentrop, Goering e Goebbels,  ofereceram faustosas recepções e jantares aos chefes de Estado e personalidades mundiais, presentes durante a competição - mas o seu gesto, de negar-se a apertar a mão negra do  grande atleta, desmoronou os seus esforços.
      Ainda que os dignitários europeus e norte-americanos, ali presentes, fossem  tão racistas quanto ele, a opinião dos trabalhadores e intelectuais do mundo foi de repúdio ao  ditador.
     Hitler sonhava uma aliança com os norte-americanos e ingleses, que ele considerava arianos como ele mesmo, com o objetivo de exterminar os judeus e escravizar todos os outros povos; assim, como manobra tática, determinara a suspensão - durante os jogos - das “Leis de Nuremberg”, que regulavam as normas antisemitas. Mas já sonhava com a Endlösung, com a  solução final, que levaria à morte de milhões de judeus, ciganos e eslavos.
      Em nossos dias, que ainda há pouco coincidiram com a Copa do Mundo, vemos como os jogadores e torcedores vivem a euforia olímpica, durante os noventa minutos de cada partida, eventuais prorrogações e disputas de pênalties, e na memória dos embates.
      Mas há uma diferença entre os  torcedores e os craques que entram em campo:  os segundos, além de sonhar com a glória - é o caso de Pelé que se diz apenas torcedor - sonham ainda mais com o dinheiro, que nunca utilizam para o bem comum e, sim para si mesmos.
      Os jogadores, com poucas exceções, são egoístas. Presumem-se acima do bem e do mal, e são, de fato, apátridas, só vestindo a camisa de seus patrões, nunca a de seu povo; só envergam as cores nacionais -  nas partidas amistosas, e nas disputas da Copa - poluídas de anúncios comerciais exclusivos, em que faturam bom dinheiro, em parceria com a Fifa e as confederações. Mas nem por isso merecíamos o score melancólico de 7a1 - e, menos, ainda, dos alemães.
       Tivemos a humilhante derrota  diante deles,  que venceram a partida final  com a Argentina.         
   Tão arrogantes quanto alguns de nossos adversários foram  as melancólicas desculpas do Sr. Scolari.  Nele, a vaidade consegue superar a tartamudez da linguagem e a cara e o espírito de perdedor.
   E para o sofrimento de nossa alma, houve cidadãos brasileiros que se disseram torcedores da Holanda e da Alemanha. São os saudosistas do 2 de Julho de 1822, quando a Bahia repudiou a Independência Nacional e combateu as forças brasileiras, ou os desmemoriados do afundamento dos navios brasileiros nas costas de Sergipe em agosto de  1942, o que nos impeliu a levar a pátria   ao chão italiano.
       Afinal, o que é Pátria? Na célebre conferência que pronunciou na Sorbonne, no fim do século 19, Ernest Renan disse que uma nação se faz e se mantém na solidariedade cotidiana entre seus membros. Assim são as pátrias. Quando as pessoas reagem como esses - como diria Nelson Rodriges -  novíssimos vira-latas,  ao rejeitar seu próprio povo nada merecem a não ser nosso repúdio.       

     Para glorificar a Pátria não podemos exaltar outras bandeiras, mas, sim, abraçar a nossa, com toda a força de nosso coração. Quem desdenha a Pátria, desdenha a si mesmo.