25/07/2014

DE CEGOS E DE ANÕES


(Jornal do Brasil) - Se não me engano, creio que foi em uma aldeia da Galícia que escutei, na década de 70, de camponês de baixíssima estatura, a história do cego e do anão que foram lançados, por um rei, dentro de um labirinto escuro e pejado de monstros. Apavorado, o cego, que não podia avançar sem a ajuda do outro, prometia-lhe sorte e fortuna, caso ficasse com ele, e, desesperado, começou a cantar árias para distraí-lo.

O anão, ao ver que o barulho feito pelo cego iria atrair inevitavelmente as criaturas, e que o cego, ao cantar cada vez mais alto, se negava a ouvi-lo, escalou, com ajuda das mãos pequenas e das fortes pernas, uma parede, e, caminhando por cima dos muros, chegou, com a ajuda da luz da Lua, ao limite do labirinto, de onde saltou para  densa floresta, enquanto o cego, ao sentir que ele havia partido, o amaldiçoava em altos brados, sendo, por isso, rapidamente localizado e devorado pelos monstros que espreitavam do escuro.   

Ao final do relato, na taverna galega, meu interlocutor virou-se para mim, tomou um gole de vinho e, depois de limpar a boca com o braço do casaco, pontificou, sorrindo, referindo-se à sua altura: como ve usted, compañero... con el perdón de Dios y de los ciegos, aun prefiero, mil veces, ser enano...

Lembrei-me do episódio — e da história — ao ler sobre a convocação do embaixador brasileiro em Telaviv para consultas, devido ao massacre em Gaza, e da resposta do governo israelense, qualificando o Brasil como irrelevante, do ponto de vista geopolítico, e acusando o nosso país de ser um “anão diplomático". 

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, e os líderes de três das maiores potências espaciais e atômicas do planeta, além do presidente do país mais avançado da África, país com o qual Israel cooperava intimamente na época do Apartheid, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv.

O governo israelense não consegue mais enxergar além do próprio umbigo, que confunde com o microcosmo geopolítico que o cerca, impelido e dirigido pelo papel executado, como obediente cão de caça dos EUA no Oriente Médio.

O que o impede de reconhecer a importância geopolítica brasileira, como fizeram milhões de pessoas, em todo o mundo, nos últimos dias, no contexto da criação do Banco do Brics e do Fundo de reservas do grupo, como primeiras instituições a se colocarem como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, é a mesma cegueira que não lhe permite ver o labirinto de morte e destruição em que se meteu Israel, no Oriente Médio, nas últimas décadas. 

Se quisessem sair do labirinto, os sionistas aprenderiam com o Brasil, país que tem profundos laços com os países árabes e uma das maiores colônias hebraicas do mundo, como se constrói a paz na diversidade, e o valor da busca pacífica da prosperidade na superação dos desafios, e da adversidade.

O Brasil coordena, na América do Sul e na América Latina, numerosas instituições multilaterais. E coopera com os estados vizinhos — com os quais não tem conflitos políticos ou territoriais — em áreas como a infraestrutura, a saúde, o combate à pobreza.

No máximo, em nossa condição de “anões irrelevantes”, o que poderíamos aprender com o governo israelense, no campo da diplomacia, é como nos isolarmos de todos os povos da nossa região e engordar, cegos pela raiva e pelo preconceito, o ódio visceral de nossos vizinhos — destruindo e ocupando suas casas, bombardeando e ferindo seus pais e avós, matando e mutilando as suas mães e esposas, explodindo a cabeça de seus filhos.

Antes de criticar a diplomacia brasileira, o porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmor, deveria ler os livros de história para constatar que, se o Brasil fosse um país irrelevante, do ponto de vista diplomático, sua nação não existiria, já que o Brasil não apenas apoiou e coordenou como também presidiu, nas Nações Unidas, com Osvaldo Aranha, a criação do Estado de Israel. 


Talvez, assim, ele também descobrisse por quais razões o país que disse ser irrelevante foi o único da América Latina a enviar milhares de soldados à Europa para combater os genocidas   nazistas; comanda órgãos como a OMC e a FAO; bloqueou, com os BRICS, a intervenção da Europa e dos Estados Unidos na Síria, defendida por Israel, condenou, com eles, a destruição do Iraque e da Líbia; obteve o primeiro compromisso sério do Irã, na questão nuclear; abre, todos os anos, com o discurso de seu máximo representante, a Assembleia Geral da Nações Unidas; e porque — como lembrou o ministro Luiz Alberto Figueiredo, em sua réplica — somos uma das únicas 11 nações do mundo que possuem relações diplomáticas, sem exceção – e sem problemas - com todos os membros da ONU.  

Finalmente, lembremos ao Senhor Yigal Palmor, uma marcante diferença entre nossos dois países, com um último exemplo da "irrelevância" brasileira no contexto geopolítico: enquanto Israel depende em quase tudo - incluindo sua sobrevivência militar - dos norte-americanos, o Brasil é o quarto maior credor individual externo do tesouro dos Estados Unidos.  

23/07/2014

O PRÍNCIPE E O SEM TETO


(Hoje em Dia) - O príncipe George, filho de Catherine Midleton e do príncipe William, da Inglaterra, completou ontem um ano de vida. 

Segundo a AFP, “em comemoração à data, a coroa britânica divulgou imagens exclusivas do menino de cabelo louro, vestindo um macacão azul e uma camisa azul marinho”, registradas, há alguns dias, em um museu londrino. “ao qual o duque e a duquesa de Cambridge levaram seu filho para ver uma exposição sobre borboletas”. Em uma das imagens George aparece andando, cena saudada como "Os primeiros passos seguros do futuro rei da Inglaterra", pelo Sunday Telegraph.

É triste. Mas devemos cumprir o doloroso  dever de informar, que, segundo um último balanço, também publicado ontem, 143 crianças palestinas, 80 delas com menos de 12 anos de idade, não poderão ver as borboletas do museu britânico, nem nenhuma outra que estiver voando por aí,  por terem perecido, segundo a UNICEF, desde que começou a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

Nem elas poderão fazê-lo, nem o pequeno bebê de onze meses, que morreu no hospital, depois de ter ficado trinta e cinco horas, soterrado, com sua família, sob um prédio em construção que desabou em Aracaju.
    
A humanidade está – infelizmente – cada vez mais fútil.  Incapazes de revestir sua própria vida de maior interesse, enriquecendo-a com um pouco de cultura, ou dos sentimentos de justiça e solidariedade, milhões de pessoas mergulham no culto a “celebridades”, às vezes tão efêmeras e descartáveis como lâminas de barbear, e acompanham suas peripécias pelas publicações disponíveis nas salas de espera e nos salões de cabeleireiro.

O pequeno príncipe britânico, herdeiro da opulência de um império que cresceu pela exploração de dezenas de colônias e povos como os indianos, ou os aborígenes canadenses e australianos, acaba de entrar na lista – tão ridícula como absurda - das “dez crianças mais poderosas do mundo”.

O pequeno sem teto brasileiro, um mês mais novo que ele, morreu de frio e inanição, no escuro, debaixo das ruínas  do prédio em construção - no qual sua família dormia por não ter outro lugar para ir - porque sua mãe não conseguia se mover para aquecê-lo e amamentá-lo.


Os meios de comunicação noticiaram os dois fatos, cada um, naturalmente, em sua correspondente seção. Uma, festiva, perto das notas de variedades ou editoriais de moda. A outra, nas notícias de polícia, ou de cidades, lamentando, como não poderia deixar de ser, o desabamento do prédio e as vítimas do acidente de Aracaju.


Faltou alguém somar os dois meninos, e pensar, ao menos por um segundo, em seus diferentes destinos. Perguntando-se, porque, em pleno Século XXI, algumas crianças ainda nascem em suntuosos palácios, enquanto outras continuam morrendo debaixo de bombas em Gaza, ou sob os escombros de uma marquise, porque não tinham - como certo menino que nasceu em uma manjedoura - outro lugar para se abrigar.

18/07/2014

OBAMA, PUTIN E A QUEDA DO AVIÃO MALAIO.



(Jornal do Brasil) - Despachos urgentes de agências internacionais dão conta da queda de um avião Boieng 777, da Malaysia Airlines, que saiu ontem, às 12.15, hora local, do aeroporto de Amsterdam, na Holanda, com destino a Kuala Lampur, capital malaia.

A queda da aeronave, que levava 290 pessoas, nas imediações de Krasni Luch, perto de Shaktarsk, em território ucraniano, próximo da fronteira com a Rússia, ocorre em um momento em que - coincidentemente? - boa parte da opinião pública mundial ainda tem a sua atenção voltada para a tragédia do misterioso desaparecimento, sem deixar pistas, de um avião do mesmo modelo, e da mesma companhia, sobre o Oceano Índico, em 8 de março deste ano, com 223 passageiros, entre eles, 150 cidadãos chineses, a bordo.

Segundo agências de notícias ocidentais, o acidente ocorreu em território controlado por separatistas de etnia russa, que foram imediatamente acusados, pelo governo ucraniano, de terem derrubado o avião, usando mísseis terra-ar.

Em conversa telefônica, anteriormente agendada, com o Presidente Obama, dos EUA, o Presidente russo, Vladimir Putin, negou peremptoriamente essa possibilidade, também desmentida pelo líder dos separatistas do Leste da Ucrânia, Alexander Borodai.

Como o avião se encontrava há dez mil metros de altura, ele só poderia ser abatido, teoricamente, por mísseis de uma bateria antiaérea, e não pelos projéteis portáteis usados, normalmente, pelos combatentes independentistas da região, que têm entre 3 e 4 mil metros de alcance.

Afastada a hipótese da explosão de uma bomba a bordo, e em caso de confirmação de que a queda do avião malaio - que contava com 15 cidadãos norteamericanos entre seus passageiros - foi provocada pelo disparo de um míssil, é preciso desconfiar das versões apressadamente apresentadas pelas autoridades do atual governo ucraniano.

É estranho que o incidente aconteça justamente depois da recente derrubada de um avião militar da Ucrânia, por rebeldes separatistas, e quando os Estados Unidos estão anunciando novas sanções contra a Rússia.

E isso, em um momento em que o Presidente Vladimir Putin acaba de colher importantes vitórias diplomáticas, junto com o seu colega chinês, Xi Jinping, em périplo pela América Latina, no contexto da Cúpula dos BRICS de Fortaleza, e do lançamento do Novo Banco de Desenvolvimento e do Fundo de Reservas do grupo.

Considerando-se a permeabilidade da vasta fronteira que separa a Rússia e a Ucrânia,  e os estreitos contatos na área de defesa - incluindo a fabricação de armamentos - que existiam entre os dois países, desde os tempos da antiga União Soviética, seria fácil, para qualquer uma das partes em confronto, derrubar uma aeronave usando  um  foguete ar-ar de origem russa disparado de outro avião, hipótese que está sendo investigada, com base em informações de satélites, tanto por Washington como Moscou neste momento.  

É preciso não esquecer que, quando da queda de Yanukovich, teoricamente precipitada por disparos feitos por policiais contra manifestantes da Praça Maidan, correu a versão, ainda não totalmente desmentida, ou devidamente esclarecida, de que os tiros teriam partido, na verdade, de franco-atiradores ligados a facções da extrema-direita neonazista ucraniana, com a intenção de jogar a opinião pública contra o governo que estava no poder em Kiev até fevereiro deste ano.    

A HORA DOS BRICS


(Hoje em Dia) - Irônica às vezes, mas nunca desatenta, a história não desperdiça oportunidades, em sua caminhada pelo tempo, para estabelecer mudanças, que às vezes se tornam prementes, no contexto da disputa dos povos e nações pelo poder.

Quando foi criado pelo economista Jim O’ Neill, do Goldman Sachs, o termo BRIC, hoje, BRICS, estava voltado para orientar especuladores e “investidores” para a obtenção de rápidos lucros, investindo em países de grande potencial de crescimento nos primeiros anos do Século XXI.

Certamente, ao criar o termo, O’ Neill não percebeu que, ao reunir em uma mesma sigla, quatro das maiores nações do mundo em território e população, elas poderiam descobrir, entre si, afinidades e pontos de contato mais profundos, que as características marcadamente econômicas que atraíam os clientes de sua empresa de consultoria em 2001.

Se tivesse parado para pensar, um pouco mais, na ocasião, em termos geopolíticos, ele poderia ter percebido que esses países não demorariam a se unir sob um ponto comum: o fato de todos terem sido dominados, explorados, e tido seu desenvolvimento tolhido, no passado, pelas alianças estabelecidas pelos países mais ricos, ao longo dos séculos XIX e XX, para assegurar seu domínio político e econômico sobre o resto da humanidade.

Em junho de 2003, por iniciativa brasileira, criou-se, em Brasília, o IBAS, um fórum de diálogo sul-sul, entre Brasil, Índia, e - premonitoriamente - a África do Sul.

Exatamente seis anos depois, em 16 de junho de 2009, o então BRIC, reunindo Brasil, Rússia, Índia e China, faria sua primeira  Cúpula Presidencial na cidade russa de Ekaterinemburg, à qual se seguiriam os encontros de Brasília, em 2010, Sanya, na China, em 2011 - quando incorporou-se a África do Sul - Nova Déli, na Índia, em 2012,  Durban, na África do Sul, em 2013, e, agora, Fortaleza, Brasil, em 2014. Reunião na qual, pela primeira vez, o Grupo BRICS estabelece mecanismos comuns de atuação, apresentando-se, sem subterfúgios, não mais como um acrônimo econômico, mas como uma aliança geopolítica de alcance mundial, que pode vir a influenciar, decisivamente, a evolução do mundo, nos próximos anos.  

A imprensa ocidental sempre se dedicou, nos últimos anos, a desestimular e desacreditar o BRICS, apresentando-o como um saco de gatos de nações contraditórias e em certos termos concorrentes e como uma marca a mais, em um planeta por si só já pródigo em siglas de todo tipo, a maioria tão decorativas quanto inoperantes.

O estreitamento paulatino dos laços diplomáticos, comerciais e de defesa entre os BRICS, e, agora, o lançamento de seu banco, e de um fundo de reservas, com um montante de 150 bilhões de dólares, representa o primeiro desafio concreto à hegemonia ocidental nos últimos 200 anos. Abre caminho para um mundo novo, multipolar, mais justo, mais equilibrado.


      

A ESCALADA DO OLIMPO


(Jornal do Brasil) - Com quase 2.800 metros de altitude,  o Monte Olimpo é o mais alto da Grécia e símbolo maior da mitologia grega, presente de Gaia a Zeus para a morada dos deuses.
Os autores gregos da Antiguidade situam-no entre as nuvens, e Aristófenes disse que Sócrates era nefelibata, e sobre as nuvens passeava.
Os gregos cultuavam seus deuses,  com os jogos que se celebravam de quatro em quatro anos,  em Olímpia e em outras cidades do Arquipélago.
Era uma competição entre cidades e atletas em busca da glória. Um grande poeta, Pindaro, vivia de lhes cantar a fama,  em troca de dinheiro.  
    Dele é o belo verso em que o homem é apenas  o sonho de uma sombra. Mas traz o consolo para a fugacidade da vida: quando o sol nos traz seu calor e sua luz, como a vida é bela…
Vivemos hoje como nos tempos gregos: de quatro em quatro anos, temos, revezando-se,  a Copa do Mundo e, como os gregos, os Jogos Olímpicos , carregados da mesma paixão  que opôs Atenas a Esparta.
Com a paixão do ódio, o facínora Adolf Hitler recusou-se a cumprimentar o negro norte-americano Jesse Owens, o mais destacado atleta dos Jogos de 1936, em Berlim, com quatro medalhas de ouro e a quebra de 4 recordes mundiais em 45 minutos.
        O Führer gastara milhões de marcos para promover a Alemanha no mundo e  obter o reconhecimento dos povos, mas sobretudo para demonstrar a superioridade da “raça ariana”.
     Os dirigentes nazistas, como Ribbentrop, Goering e Goebbels,  ofereceram faustosas recepções e jantares aos chefes de Estado e personalidades mundiais, presentes durante a competição - mas o seu gesto, de negar-se a apertar a mão negra do  grande atleta, desmoronou os seus esforços.
      Ainda que os dignitários europeus e norte-americanos, ali presentes, fossem  tão racistas quanto ele, a opinião dos trabalhadores e intelectuais do mundo foi de repúdio ao  ditador.
     Hitler sonhava uma aliança com os norte-americanos e ingleses, que ele considerava arianos como ele mesmo, com o objetivo de exterminar os judeus e escravizar todos os outros povos; assim, como manobra tática, determinara a suspensão - durante os jogos - das “Leis de Nuremberg”, que regulavam as normas antisemitas. Mas já sonhava com a Endlösung, com a  solução final, que levaria à morte de milhões de judeus, ciganos e eslavos.
      Em nossos dias, que ainda há pouco coincidiram com a Copa do Mundo, vemos como os jogadores e torcedores vivem a euforia olímpica, durante os noventa minutos de cada partida, eventuais prorrogações e disputas de pênalties, e na memória dos embates.
      Mas há uma diferença entre os  torcedores e os craques que entram em campo:  os segundos, além de sonhar com a glória - é o caso de Pelé que se diz apenas torcedor - sonham ainda mais com o dinheiro, que nunca utilizam para o bem comum e, sim para si mesmos.
      Os jogadores, com poucas exceções, são egoístas. Presumem-se acima do bem e do mal, e são, de fato, apátridas, só vestindo a camisa de seus patrões, nunca a de seu povo; só envergam as cores nacionais -  nas partidas amistosas, e nas disputas da Copa - poluídas de anúncios comerciais exclusivos, em que faturam bom dinheiro, em parceria com a Fifa e as confederações. Mas nem por isso merecíamos o score melancólico de 7a1 - e, menos, ainda, dos alemães.
       Tivemos a humilhante derrota  diante deles,  que venceram a partida final  com a Argentina.         
   Tão arrogantes quanto alguns de nossos adversários foram  as melancólicas desculpas do Sr. Scolari.  Nele, a vaidade consegue superar a tartamudez da linguagem e a cara e o espírito de perdedor.
   E para o sofrimento de nossa alma, houve cidadãos brasileiros que se disseram torcedores da Holanda e da Alemanha. São os saudosistas do 2 de Julho de 1822, quando a Bahia repudiou a Independência Nacional e combateu as forças brasileiras, ou os desmemoriados do afundamento dos navios brasileiros nas costas de Sergipe em agosto de  1942, o que nos impeliu a levar a pátria   ao chão italiano.
       Afinal, o que é Pátria? Na célebre conferência que pronunciou na Sorbonne, no fim do século 19, Ernest Renan disse que uma nação se faz e se mantém na solidariedade cotidiana entre seus membros. Assim são as pátrias. Quando as pessoas reagem como esses - como diria Nelson Rodriges -  novíssimos vira-latas,  ao rejeitar seu próprio povo nada merecem a não ser nosso repúdio.       

     Para glorificar a Pátria não podemos exaltar outras bandeiras, mas, sim, abraçar a nossa, com toda a força de nosso coração. Quem desdenha a Pátria, desdenha a si mesmo.

13/07/2014

OS ESTADOS UNIDOS E O "COMBO CONTROL"




O domínio do monitoramento, produção e distribuição de conteúdo nas redes globais de comunicação e entretenimento.


(Jornal do Brasil) - Imaginemos, apenas por uma vez, que  o empertigado Phileas Fogg, e seu criado Passepartout, do livro A Volta ao Mundo em 80 dias fizessem sua viagem agora, e não, como imaginou Júlio Verne, no segundo semestre de  1872.

Em cada cidade em que chegassem, ao adentrar o quarto de hotel, desfazer as malas e mexer no controle remoto, eles certamente se surpreenderiam, ao ver, na estranha tela retangular que chamamos de televisão, fosse qual fosse o país em que estivessem, sempre as mesmas cenas, repetidas, sem cessar, em inglês, ou dubladas e legendadas no idioma local.  

Surgida como alternativa à programação da televisão aberta, a tv por assinatura tornou-se, hoje, o retrato mais bem acabado de um mundo culturalmente unipolar, em que as crianças consomem os mesmos desenhos animados, as mulheres vêem os mesmos programas culinários, os homens assistem à mesma programação esportiva, todos riem das mesmas piadas e tem a cabeça feita e as preferências moldadas por documentários e telejornais estabelecidos dentro das mesmas premissas e abordagem política.

Esse processo de imbecilização progressiva já é tão natural, e dura há tantos anos, que, para as novas gerações, que assistem sempre a mesma coisa, com a única diferença de ser apresentada em seu próprio idioma, fica fácil esquecer que toda essa maçaroca, dos animes à “filosofia”, vem de uma mesma origem e obedece a uma mesma estratégia de controle e pasteurização.

O início foi o telégrafo. Depois, veio o rádio. Impossibilitados, pela tecnologia da época, de tomar seu controle globalmente, os Estados Unidos rapidamente viram no Cinematógrapho dos Irmãos Lumiére uma forma de projetar os mitos sobre o heroísmo e a superioridade dos norte-americanos para além de suas fronteiras.

Para isso, era preciso controlar não apenas a produção de conteúdo, a partir dos grandes estúdios, em Hollywood, mas, também, e principalmente, a distribuição, em um grande número de países. O rádio só resistiu ao cinema, como meio de comunicação e controle de massas, até o advento da televisão. No início, o conteúdo televisivo era local, por ser transmitido obrigatoriamente ao vivo. Depois, com o advento do videotape, ele foi rapidamente dominado pelo país que tinha o maior estoque de conteúdo próprio, os Estados Unidos.

Finalmente, com o passar dos anos, e o avanço da tecnologia, os Estados Unidos conseguiram, finalmente estabelecer o tripé por meio do qual estão estendendo sua influência sobre dezenas de países.  

Esse tripé, que poderíamos chamar de Combo Control, ou Combo de Controle, é o mesmo que  é oferecido, atualmente, pelas operadoras de telecomunicações:

A internet - cuja rede foi estabelecida inicialmente por eles, e é amplamente dominada por suas empresas, como o Google, a Apple, a Microsoft - que serve para a disseminação de conteúdo, o monitoramento de opiniões e atividades contrárias aos Estados Unidos e para a espionagem e a chantagem do  usuário até o nível mais pessoal.

O telefone celular, que hoje se confunde cada vez mais com o computador, e que serve não apenas para monitorar as ligações e seu conteúdo, mas também para estabelecer a localização física de eventuais adversários, até mesmo para sua captura ou assassinato.

E a TV a Cabo, que transformou-se em uma matriz centralizada  para a padronização e distribuição, em escala global, de um conteúdo que é sempre o mesmo, para cada país, e os mais diferentes segmentos em que se divide o público televisivo.

Tudo isso é feito, por meio tanto dos grandes grupos de produção de conteúdo, como a Warner, a FOX e a CNN, como dos grandes grupos de distribuição  de sinais, por meio de cabo ou satélites.

Com a recente compra da Direct TV, controladora da SKY no Brasil, a AT&T, American Telephone and Telegraph Corporation, dos Estados Unidos, tornou-se líder na distribuição de tv a cabo no Brasil e na América Latina.

Na semana passada, a ANATEL - Agência Nacional de Telecomunicações, “comemorou” a chegada da tv a  cabo, no Brasil, ao número de 18 milhões e setecentas mil residências.

Em um país sério, ela estaria, no Congresso e fora dele, estudando uma legislação que nos permitisse oferecer uma alternativa a esse imenso público, que extrapolasse o sempre imutável menu das dezenas de canais norte-americanos.   

10/07/2014

A RESSACA






(Jornal do Brasil) - "Quem teme ser vencido tem a certeza da derrota."

No Day After da histórica goleada de sete a um, da Alemanha sobre a seleção brasileira, no Mineirão, a frase de Napoleão Bonaparte ajusta-se, sem dificuldade, à campanha do Brasil na Copa do Mundo de 2014.

Jogamos, desde o início, não como se estivéssemos disputando nossa vigésima copa do mundo, em nossa própria casa, mas como se pisássemos terra alheia, e praticamente estreássemos nesse tipo de competição.

Para qualquer espectador arguto, já estava escrito o que iria acontecer. Bastava observar a expressão entre aérea e preocupada do senhor Luiz Felipe Scolari, antes do início dos jogos. E interpretar, com a clareza  da fumaça branca saindo das chaminés do Vaticano, em dia de eleição do Papa, o espetáculo de indulgência e autocomiseração que se seguiu à vitória, por um triz, contra o Chile, ao final da disputa de pênaltis.    

O Brasil perdeu, e o pior, perdeu feio, mais pela atitude do grupo do que pela “sacola” de gols que tomamos dos teutônicos no jogo da desclassificação. E, isso, porque não soubemos, desde o início, nos impor - e cantar de galo - dentro das linhas dos retângulos verdes de nosso próprio terreiro.

É certo que aprendemos, depois da Copa das Confederações do ano passado, ao menos a cantar - sem balbuciar ou mascar chicletes - o hino nacional, “à capela”, junto com a torcida.

Mas faltou confiança no país. Nacionalismo. E nos deixamos dominar, em campo, pelo mesmo “complexo de vira-latas” que, muitas vezes nos atrapalha e tolhe fora dele.

Tínhamos tudo - os estádios, a torcida, o fato de estar em casa  - para conquistar, com talento e determinação, no peito e na raça, extraordinária vitória.

Não nos preparamos, no entanto, como fizeram outras seleções, nem como devíamos, nem como guerreiros. Perdendo ou ganhando, choramos mais que nossos adversários, jogando, quase sempre,  menos do que eles.   

Enfim, a derrota só se esquece com a glória, e não adianta tentar salvar a cara, futebolisticamente, jogando melhor para ganhar - se possível for - o terceiro lugar desse torneio.

Para 2018, quem sabe, será preciso estudar outra forma de escolher nossos atletas, que não seja a arrogância e onipotência de quem é mais firme em uma entrevista coletiva, do que no treinamento e capacitação de seus comandados, e que - com mais garra de vencedor do que cara de loser - precisava exibir energia e determinação na beira do gramado.  

Não é possível que um país com 200 milhões de habitantes e milhares de jogadores de futebol tenha que depender sempre da mesma meia dúzia de estrelas, que jogam do outro lado do oceano.   

Com a Copa, o Brasil deu muito aos deuses do futebol em sua visita. Templos, público, emoções, espetáculo. Mas não foi o suficiente para nos concederem os louros da vitória.
  
Agora, depois da ressaca, voltemos ao que importa.

Muito mais relevantes, para o futuro do Brasil, do que ganhar o Campeonato Mundial de Futebol de 2014, será a criação do Banco dos BRICS - uma espécie de Banco Mundial dos Países emergentes - logo depois da Copa, na Cúpula dos Presidentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, em Fortaleza. Seguida do lançamento de um fundo de reservas, com capital de 100 bilhões de dólares que funcionará como alternativa ao FMI - Fundo Monetário Internacional, para o Grupo.

E, principalmente, o resultado das eleições deste ano, em que se elegerão deputados, governadores, senadores e quem irá ocupar a cadeira da Presidência da República a partir de 2015.