25 de jun de 2010

OS MILITARES E A POLÍTICA



Ao demitir, ontem, o general Stanley McChrystal do comando das tropas norte-americanas no Afeganistão, o presidente Obama venceu o primeiro
grande teste de autoridade em seu governo. A los militares, disse o presidente argentino Arturo Illia – “o se les manda, o se les obedece”. Obama mandou. Mandou, como Truman, em abril de 1951, demitiu o general MacArthur, velho herói da Guerra na Ásia, responsável pela democratização manu militari do Japão, por desobediência às diretrizes políticas estratégicas da Casa Branca no caso da Guerra da Coreia.

O argumento de Truman foi definitivo: a Constituição estabelece que os militares têm que se subordinar ao comando civil. Se não demitisse MacArthur, estaria faltando ao juramento que fizera, de sustentá-la e defendê-la. O general McChrystal, com toda a sua importância, se encontra a anos-luz da personalidade de MacArthur.

São difíceis as relações entre militares e o poder civil, em todos os tempos e em todas as latitudes. Já se tornou lugar-comum lembrar o aviso de Clemenceau de que a guerra é assunto muito grave para ser confiado aos militares. Mas há momentos em que o homem de Estado se vê obrigado a suportar militares petulantes. Nas discussões de ontem sobre o caso McChrystal, a historiadora Doris Kearis lembrou a desfeita sofrida por Lincoln, em 1862. Percebendo que o general McClellan, comandante das tropas da União contra os confederados, não estava atuando de acordo com suas diretrizes, resolveu visitar o chefe militar em sua residência, em companhia de dois auxiliares, para uma conversa amistosa. O general não estava, e os visitantes esperaram mais de uma hora. McClellan chegou, viu-os, passou por eles sem os cumprimentar, subiu as escadas, e mandou avisar que já se recolhera ao leito. O grande presidente engoliu a ofensa: não lhe convinha demitir logo o insolente militar, porque não tinha como substituí-lo no comando. Esperou dois anos para fazê-lo. McClellan estava sendo eficiente na luta, e chegou a ser chamado de Little Napoleon. Quando começou a esmorecer, foi facilmente substituído.

Os militares, pela própria natureza de sua formação, de seu trabalho e de sua posição na sociedade, sentem-se diferentes da população em geral. Em grande parte – e este é o caso do general McChrystal – são filhos de militares, passam a infância em companhia de crianças da mesma origem e se acostumam, desde cedo, a viver separados da sociedade civil.

O general George Marshall foi tido como o exemplo de discrição, de tal maneira que, segundo seus contemporâneos, evitava rir das anedotas de Roosevelt, para não demonstrar intimidade com o presidente. Nunca revelou os conselhos que, como o militar de mais alta posição nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, dava ao chefe de Estado. Mas nem todos agem assim.

No caso do Brasil, as vicissitudes de nossa formação trouxeram os problemas conhecidos. Ainda em 1826, Bernardo Pereira de Vasconcelos advertiu contra a decisão de Pedro I de mandar o Exército reprimir os revoltosos da Confederação do Equador, dando às comissões militares o poder de condená-los e os executar. Abriu-se o precedente para tudo o que veio depois.

O presidente Obama encarregou o general Petraeus de acumular o comando das operações do Afeganistão com as suas responsabilidades atuais, mas falta saber o que os Estados Unidos farão para sair de uma guerra já perdida – como perdida se encontra a do Iraque.

22 de jun de 2010

O PRAGMATISMO, O PODER E A ÉTICA


No monólogo da abertura de seu Doctor Faustus, Christopher Marlowe adverte: “Si peccasse negamus, fallimur, et nulla in nobis veritas”. Se não reconhecemos os nossos pecados, nada da verdade existe em nós.

A campanha eleitoral está se transformando em triste confronto entre o pragmatismo e a ética. Uma corrente de humanistas defende o princípio de que o verdadeiro pragmatismo é o que respeita os fundamentos imemoriais da ética. Esse pensamento encontra eco no conselho de que, na dúvida, devemos sempre apostar na honra.

Uma coisa, na construção do poder, é a concessão doutrinária. Para encontrar o centro – e não se governa senão pelo centro – os partidos podem ceder em seus programas e estabelecer pactos em que todos os contratantes ganham alguma coisa para perder outras. Mas há limites para esses acordos, quando envolvem a comunidade, e esses limites estão sendo esquecidos nas candidaturas presidenciais e em quase todas as estaduais.

Tanto o PSDB quanto o PT nasceram do discurso ético. Os dissidentes do PMDB, paulistas e mineiros, que se levantaram contra o poder dos governadores eleitos em 1986, apelaram para a social-democracia, em nome da moralidade política. O PT foi ainda mais autêntico em sua gênese, quando se reuniram os sonhadores com a igualdade social e os defensores dos bons costumes na administração do Estado. De repente, nos dois partidos, a luta por minutos e segundos nos programas de televisão conduz a arriscadas e pecaminosas concessões. Quando o PSDB negocia o apoio de Roberto Jefferson e cata os votos dos seguidores de Arruda no Distrito Federal, e o PT de Minas se vê tangido a apoiar o candidato do PMDB ao governo do estado, os princípios deambulam no deserto, escorraçados pelo ilusório pragmatismo.

O presidente, com todos os seus irrecusáveis méritos, parece estar testando a própria força, e criando obstáculos para ter o gosto de vencê-los. Isso se revela na construção das alianças estaduais, que devem servir de suporte à aliança nacional com o PMDB. Com o PMDB não, com uma parcela dele, que parece ter mais votos – embora tenha abandonado os princípios que lhe deram origem. Mesmo assim, o processo está sendo difícil. Na Bahia, os dois partidos marcham separados. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, está sendo muito improvável o acordo bipartidário, porque as lideranças regionais do PMDB, entre elas Pedro Simon e Luis Henrique, contestam a direção nacional, e apoiavam a candidatura de Roberto Requião à Presidência da República pelo partido. Requião teve mais de cem votos convencionais, o que não pode ser desprezado. Em São Paulo, o PMDB está dividido entre Quércia, que tem os votos do interior, e Temer, que presume controlar a máquina. Se isso ocorre em quase todos os estados, no caso particular de Minas é muito mais penoso. Depois de obter a aquiescência de Fernando Pimentel – velho companheiro da candidata Dilma Rousseff – para uma aliança formal com o candidato do PMDB ao governo de Minas, a direção nacional do PT se esforça em conseguir concessão bem mais difícil: a concordância de Patrus em aceitar a candidatura a vice-governador.
Patrus tem sido, em sua vida pública, homem de valores sólidos e translúcidos, como os cristais do Espinhaço, em cujas encostas nasceu. Os mineiros sabem que qualquer seja sua decisão, ela não será ditada por uma razão menor.

DIPLOMACIA SEM MEDO


Em entrevista ao Jornal do Brasil, o chanceler Celso Amorim atribuiu os ataques que a diplomacia de Lula recebe de alguns ex-embaixadores – todos eles vinculados ao governo de Fernando Henrique – à dificuldade de as pessoas se adaptarem aos tempos novos. É realmente o que está ocorrendo, não só com relação à diplomacia, mas a toda a sociedade atual, tanto no Brasil quanto em todos os países do globo. O mundo mudou, para melhor e para pior. Trotsky pregava a necessidade de uma “revolução permanente”, sem perceber que a História é, em si mesma, uma revolução sem fim, com seus momentos de avanço e de recuo, como ocorre no interior de cada período revolucionário visto isoladamente.

Comecemos pelo problema maior do século passado, que permanece: o artificial Estado de Israel. Foram as melhores as intenções dos países aliados ao criar aquele “lar nacional” para os judeus, depois do Holocausto. O Brasil tomou parte ativa nisso, coube a Oswaldo Aranha presidir a Segunda Assembleia Geral da ONU que aprovou a resolução. Poucos se recordam, no entanto, que, ao longo destes 62 anos, Israel, com o apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, jamais cumpriu o mandamento de respeitar a criação de um Estado palestino no mesmo território.

O Estado de Israel possui bombas atômicas – e dispôs-se mesmo a vendê-las ao regime racista da África do Sul, conforme revelou a imprensa britânica recentemente. Graças a isso, seus governantes mantêm os países vizinhos sob constante ameaça. Há quase 40 anos, quando houve a primeira revelação de que os cientistas de Israel estavam para armar o primeiro artefato nuclear, encontrei-me, na Europa, com dois amigos judeus nascidos no Brasil. Um deles, Louis Wiznitzer, estava exultante, porque Israel disporia de “uma arma de dissuasão”. O outro, o sociólogo mineiro Marcos Magalhães Rubinger, então em Genebra, estava desolado: “Estamos, como judeus, perdendo a última oportunidade de nos integrar à Humanidade, de renunciar a essa ideia particular de ‘povo diferente’ que nos atormenta”, me disse. Infelizmente, ambos já se foram.

Não se pode resolver o problema entre Israel e a Palestina sem que se resolva o problema entre Israel e seus vizinhos que, sendo muçulmanos, sentem-se no dever da solidariedade para com o sacrificado povo palestino. Isso explica a necessidade de negociar com o Irã, o mais poderoso dos países com maioria islâmica, como forma de esvaziar a tensão no Oriente Médio e retirar de Israel o pretexto para sua irracional política de aniquilamento paulatino dos palestinos.

Se as grandes potências são incapazes de promover a paz, os países que emergem como potências médias têm o dever de buscar o entendimento, de destravar o processo político. É nesse contexto que o Brasil está assumindo papel importante na sociedade mundial. O Brasil tem autoridade suficiente para isso. O que lhe estava faltando era coragem moral para assumir essa responsabilidade. De certa forma, não há nada de novo nessa postura, exposta por Ruy Barbosa há 103 anos, na II Conferência de Haia. Ali, diante da prepotência da Alemanha, da arrogância da Rússia tzarista e da presunção imperialista dos Estados Unidos, a delegação brasileira, chefiada pelo grande tribuno baiano, propôs a doutrina da plena igualdade política entre as nações soberanas. É na restauração dessa doutrina que o atual Itamaraty trabalha, sob a direção pessoal do presidente Lula.

Quando redigíamos este trabalho, Obama enviava ao Congresso sua mensagem com a nova estratégia norte-americana, que começa a reconhecer a responsabilidade de novos atores na cena internacional – entre eles, o Brasil. O famoso G-8 deixou de ser o clube dos donos do mundo, e a responsabilidade passa a ser do G-20 – grupo construído a partir da liderança brasileira entre os emergentes. Infelizmente, os maiores sabotadores da nova política externa independente se encontram em nosso próprio país – principalmente entre os que dominaram o Itamaraty no tempo de Fernando Henrique, o mais serviçal governante brasileiro ao interesse norte-americano em toda a história republicana.

17 de jun de 2010

O FUTEBOL E A POLÍTICA


As massas sempre demonstraram seu imenso poder. Sua força foi analisada por grandes pensadores do século passado, como Ortega y Gasset, em seu ensaio profético de 1930, La rebelión de las masas; Elias Cannetti, com Mass und Macht; e Serge Tchakhotine, em Le viol des foules par la propagande politique. Todos eles, de uma ou de outra forma, mostram como as massas podem atuar, em certas circunstâncias, como um só indivíduo. Ortega chama a esse indivíduo hombre-masa. Do ponto de vista filosófico, com todo respeito por Ortega, o melhor ensaio é o de Cannetti, ao identificar massa e poder: quem aglutina as massas e as sabe conduzir manobra o seu poder, como Hitler. Partindo da práxis, da experiência real, dos instrumentos totalitários da propaganda, o melhor ensaio é o do biólogo, psicólogo e agitador político russo Tchakhotine. Seu livro foi publicado em francês em 1938, quando o mundo estava entre três ideias básicas: o nazifascismo teuto-italiano, o socialismo marxista e a democracia capitalista-liberal anglo-americana.

Ortega publicou seu livro bem antes, em 1930, e seu grande mérito foi o de analisar a globalização dos anos 20, que levaria à depressão e à guerra, mas remontar o início dessa massificação do indivíduo ao começo da época moderna, ou seja, ao Renascimento e à Descoberta da América. Seu pensamento seria retomado, em seguida, pela Escola de Frankfurt e, de maneira magistral, por Marcuse em One-dimensional man, em 1964 – ano crucial para os brasileiros.

Podemos resumir esses três estudos em uma advertência: a de que a sociedade industrial capitalista tende a anular a individualidade, ao criar e manter uma massa universal uniforme e conformada. Uma massa de indivíduos que “pensa” estar exercendo sua liberdade de escolher, de pensar e de decidir. Não importa qual seja a sua bandeira. O que importa – como diz Cannetti – é que ela tremule como uma labareda.

Há 52 anos, quando “o mundo descobriu o Brasil”, conforme lema divulgado nestes dias, eu dirigia pequeno jornal diário, em Governador Valadares (que continua circulando até hoje). Havíamos perdido Copas anteriores e, de forma crucial, a de 1950, contra o Uruguai, no Maracanã.

Foi uma festa imensa, porque teve o gosto da recuperação do orgulho nacional. O Brasil, que havia perdido Vargas, quatro anos antes, e que começava a recuperar-se com o governo de Juscelino, explodiu diante da genialidade de dois meninos do povo, Garrincha e Pelé (nesta ordem, em meu juízo). Jornal do interior é, acima de tudo, jornal de opinião, e eu redigia rodapé de primeira página. Nele, moderei o entusiasmo geral, ao lembrar as terríveis dificuldades que o Brasil vinha encontrando para realizar o projeto de desenvolvimento de Vargas, naquele terceiro ano de Juscelino no poder.

Neste meio século conseguimos dar um grande salto econômico. A vitória de 1958 deve ter contribuído, e muito, para que o mineiro cumprisse a meta de avançar, conforme o slogan, 50 anos em 5. Vendo os fatos com tanto tempo de intervalo, sentimos a interação entre o entusiasmo popular da vitória com o esforço de desenvolvimento naquela segunda metade do governo. Infelizmente, no pleito de 1960, houve um demagogo que conseguiu dominar as massas, eleger-se, enveredar pela sedução totalitária e, com sua renúncia irresponsável, abrir caminho a duas décadas de ditadura.

Para manter a força positiva das massas, faltam os líderes sensatos. Para perdê-las, bastam os demagogos alucinados.

27 de mai de 2010

ENTREVISTA COM O CHANCELER CELSO AMORIM PARA O JB


A sensação é inevitável, mesmo para quem, como o repórter, conhece o palácio há quase 50 anos: Niemeyer concebeu o novo Itamaraty para o chão e a paisagem de nosso surpreendente milênio, para o chão e a paisagem de outra e surpreendente nação, a dos brasileiros de hoje. O amplo salão de acesso é o vestíbulo de novo milênio e de nova consciência do mundo e de nós mesmos, nesse inquieto planeta, a cada dia menor em sua ubiquidade, a cada dia maior em sua dúvida quanto à própria sobrevivência.
Do novo Itamaraty são ausentes as vetustas colunas e a retilínia arquitetura do velho Itamaraty, no qual passeava a nobreza do barão do Rio Branco. As curvas de Niemeyer e a clareza dos salões, com a invasão da luz de Brasília, correspondem ao que somos, enquanto os cisnes idosos, sob a sombra das palmeiras do antigo palácio carioca, recordam o que fomos. As águas, mais leves, do Planalto, são outras, outras, mais próximas do chão, as plantas que adornam seus jardins. Outro, é claro, o chanceler, aliviado da obesidade de seu poderoso antecessor, posto que submetido a regime de viagens exaustivas, com o sono conturbado pelos fusos horários.
Celso Amorim é, em todos os seus gestos e palavras, o menos solene de todos os chanceleres conhecidos. Nenhum outro poderia ser o chefe da diplomacia com Lula na Presidência, nem com Itamar – mesmo incluídos os paisanos, isto é, os ministros políticos que, em alguns casos, se esforçam para adquirir caricatural physique du rôle. Amorim, o discutido presidente da Embrafilme que patrocinou a produção de Pra frente, Brasil, provavelmente não conseguiria o mesmo desempenho com um presidente vindo das velhas famílias do Império, ou das novas famílias de imigrantes enriquecidos em São Paulo.
A atualidade determina a pauta de nossa conversa: que perspectivas há, no caso do Irã? Amorim se move entre a cautela profissional e o natural orgulho da ação positiva brasileira no mundo atual. Confessa, de início, que não tinha muita convicção de que houvesse grande possibilidade de acordo entre os Estados Unidos e o Irã, mas, da mesma forma, entendia que era preciso tentar tudo, para obter alguma coisa.
– Sempre fomos muito bem tratados, tanto da parte do presidente (dos EUA) Obama, quanto da parte da secretária (de Estado) Hilary Clinton. Posso dizer que não havia divergências quanto ao resultado pretendido, que era o de obter garantias de que o Irã só iria usar a tecnologia nuclear para fins pacíficos, mas os meios não pareciam os mesmos. Nós acreditávamos, e continuamos acreditando, na persuasão, no convencimento, na conversa amistosa, na sinceridade de nossos propósitos. Eles, no entanto, se mostravam muito céticos, quanto à possibilidade de que o Irã viesse a aceitar as condições que haviam proposto em outubro passado. Creio que eles se mostraram surpreendidos com o resultado. É provável que não esperassem a aquiescência do Irã aos esforços da Turquia e do Brasil, que agiram como países soberanos, interessados na paz. Eles gostariam de ter iniciado o processo de punição antes de nossos entendimentos – e responderam com a decisão da secretária de Estado de propor as sanções às chamadas grandes potências.
Atrevo-me a observar que há uma diferença doutrinária, digamos, entre o presidente e sua competidora nas eleições primárias dentro do Partido Democrata, e que, provavelmente, Obama não pense exatamente como a secretária de Estado, que busca afirmar-se na ala direita de seu partido no Congresso. Amorim sorri com suave malícia. Ele sabe que eu não espero a contribuição de seu juízo, posto que, qualquer que ele fosse, seria diplomaticamente inoportuno.
E, agora, o que ocorrerá? – levo-o a retomar o seu pensamento. Amorim está otimista. Acha que os demais membros do Conselho de Segurança – sobretudo a China e a Rússia – podem concordar com a ideia, mas provavelmente não aceitem o conteúdo da resolução proposta por Washington.
Nesse momento, Amorim se desculpa, diante de um sinal de uma assessora que chega à porta. Deve atender a um chamado de seu colega turco, com quem estivera conversando antes de nossa entrevista. Não bem retornou ao Brasil, e está em contato permanente com Teerã e Ancara. De Teerã teve a promessa de que a carta, endereçada à ONU, reiterando os termos do acordo, que o governo de Ahmadinejad ficou de enviar até segunda feira, está sendo cuidadosamente redigida – e será enviada a tempo.
– Essas coisas levam tempo, recomendam a ponderação, reclamam consultas. Na diplomacia, tempo e paciência caminham juntos.
Acrescenta que, pouco a pouco, os norte-americanos e europeus compreenderão a necessidade de cautela. Isso, repete, fortalece seu otimismo, o mesmo otimismo de Lula. Lembra que, com o passar das poucas horas, já se percebem os sinais da prudência, por parte dos membros permanentes do Conselho, e com direito a veto.
Comento com o chanceler matéria divulgada pelo New York Times – que, como seu editorial, interpretava os fatos em favor da senhora Clinton – e a reação surpreendente nos comentários dos leitores. Até onde eu havia lido (mais ou menos dois terços de quase 300 intervenções). Não havia um só leitor que aprovasse a posição do Departamento de Estado. Todos apoiavam – e muitos com linguagem dura – os esforços do Brasil e da Turquia para desamarrar, e não cortar, como parecem pretender os alexandres do Complexo Industrial Militar dos Estados Unidos, o nó górdio iraniano. Amorim não os havia lido, pediu à assessoria que acessasse a matéria; sorriu, feliz, para ilustrar o superlativo: interessantíssimo.
Observo que podemos ver, no episódio, a situação dos Estados Unidos no mundo de agora. O ministro comenta que há vários artigos, firmados por observadores respeitáveis, sobre a resistência de Washington – e seus aliados – à entrada de novas potências, novospaíses, no jogo internacional.
– Até há pouco eles nos convidavam para conversar sobre o clima. Na OMC foram constrangidos a nos ouvir. Mas consideravam que assuntos de paz e segurança entre as nações eram coisas deles. Assim, quando o Brasil e a Turquia entram no jogo, é natural que reajam. A tentativa, mesmo que seja simbólica, de a Turquia e o Brasil agirem de forma diferente, sugere que a arquitetura da segurança internacional, sustentada por algumas autodesignadas forças e países, não pode manter-se por muito tempo.
Intervenho, para lembrar que os Estados Unidos têm oscilado, em sua História, entre os postulados de Hamilton e os de Jefferson. E quando a orgulhosa aristocracia da Nova Inglaterra se defronta com a eleição de um mestiço, com o sobrenome Hussein, há sinais claros de que alguma coisa mudou realmente naquele país. O chanceler resume em uma frase curta: foi uma mudança para melhor, mas seguramente não terá sido para o entendimento de parcela de suas elites.
– Há setores da sociedade norte-americana que, diante de um presidente com essas marcas biográficas, dele cobram uma posição mais dura, uma demonstração de força. Eu o vejo como homempropenso ao diálogo. Mas, sem dúvida, ele enfrenta dificuldades.
Provoco-o, lembrando algumas críticas que se fazem à diplomacia brasileira: não estaríamos desprezando a prioridade da aliança continental sul-americana, em favor de uma intervenção no Oriente Médio?
– Não, de forma alguma. O Brasil não pode desinteressar-se dos assuntos que afetam a paz mundial. Quando os nossos países, a Turquia e o Brasil, foram eleitos para o Conselho de Segurança, é claro que essa escolha acarretou-lhes a responsabilidade de cuidar da paz, em nome da comunidade internacional, e não somente em nome do próprio país ou de determinada região. Não há tema que mais afete a segurança internacional do que o do Oriente Médio. Em algum momento, e com razão, eu via na Palestina o perigo maior da região, mas, nesta hora, a questão nuclear do Irã é mais premente. Tendo a possibilidade de atuar, de maneira positiva, com um país da região, que é a Turquia – o que foi uma boa combinação – o Brasil procurou agir em busca de uma solução pacífica, como é de seu dever. Isso não foge à nossa vocação. Afinal, quando participamos da Segunda Guerra Mundial, o fizemos na defesa da democracia. No caso atual, não se trata da guerra mas da paz. Melhor ainda.
Diante das críticas, algumas acerbas, que alguns dos condutores da diplomacia brasileira, durante o governo passado, endereçam ao Itamaraty de hoje, permito-me observar que eles atuam como os famosos generais de pijama. Haveria uma categoria de “embaixadores de pijama”?
Amorim se embaraça um pouco com a pergunta e, antes de responder com a elegância que tem faltado a alguns de seus adversários, permite-se uma boutade: os pijamas dos embaixadores devem ser da grife Versace.
Indago-lhe se esse grupo de diplomatas age em decorrência de haver perdido sua posição eminente no Itamaraty de Fernando Henrique, ou se há alguma coisa ideológica mais profunda.
– Em primeiro lugar, eu prezo muito a liberdade de expressão, e acho perfeitamente válido que cada um dê a sua opinião. Também acho que não é por simples coincidência que determinados meios de comunicação busquem sempre os mesmos embaixadores com essa posição. Já li muitas outras manifestações diferentes, de outros diplomatas e de setores da sociedade que não encontram a mesma acolhida desses órgãos tão solícitos à crítica à nossa política externa. Prefiro não ver, nisso, a manifestação de quem deixou o poder. Na verdade, todos nós temos como missão defender o Brasil e defender algumas ideias importantes nas relações internacionais. Acho, no entanto, que algumas pessoas têm dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. O Brasil ascendeu muito rapidamente no cenário internacional, principalmente em razão do desempenho do presidente Lula, na conciliação entre a boa economia e a justiça social – e, é claro, também por sua atuação internacional. Como a mudança foi súbita, a cabeça de muitos com ela não se acostumou. Por isso, mesmo aceitando que criticam com boa-fé, atuam sempre com a preocupação de que “não podemos brigar com tal grande potência”. Quando atuamos em Cancun, no caso da OMC, e na divergência sobre a Alca, muitos disseram: “Mas, gente, vocês vão brigar com os Estados Unidos?”
O ministro cita a era Bush:
– Ora, mesmo na época de Bush, as relações entre Lula e o presidente texano foram boas. Trabalhamos juntos, com êxito, em vários programas. É claro que, nesses assuntos delicados de paz e segurança, as coisas são mais difíceis, levam mais tempo, mas os Estados Unidos irão compreender que a participação ativa do Brasil não se faz contra os interesses deles, porque já passou a época em que um só país pode dominar o mundo. Terá que haver uma governança realmente multipolar. Da mesma forma que, para muitos países é difícil entender essa mudança, é provável que pessoas que militaram durante muitos anos em situação diferente tenham dificuldade em entender que o Brasil hoje não só pode agir com independência, e defender seus interesses, ao mesmo tempo em que contribui para a ordem global. O fato é que a emersão dos Bric assustou um pouco. Conforme a gíria americana, há “new kids on the block”.
Relembro o discurso de posse de Celso Amorim como chanceler do presidente Lula. Ele recomendou aos jovens diplomatas que não tivessem medo, nem arrogância. A postura do Itamaraty, hoje, pode ser considerada de Realpolitik? Amorim aceita a expressão bismarquiana, na medida em que o Itamaraty atua de acordo com a dimensão da realidade mundial. Pondera, no entanto, que, mesmo não agindo no vazio, a postura brasileira é fundada em positivo idealismo humanista.
– Acho que não nos podemos mover em uma política determinada pelo interesse cru. Essa posição não me entusiasma, nem ao presidente. A política que reúne o nosso interesse como nação e os nossos ideais humanistas é a da solidariedade, e ela nos está trazendo maior reconhecimento nos foros internacionais. Atuamos no sentido da universalidade, o que nos leva tanto às grandes nações europeias, como nos permite trazer a Brasília ministros de 50 nações africanas, a fim de discutir os problemas da agricultura. Vamos a Israel, vamos à Jordânia, vamos à Palestina e ao Irã, porque nós não temos posição preconceituosa.
Arrisco-me a dizer que essa política brasileira, de respeito à igualdade entre as nações, foi enunciada por Ruy Barbosa em Haia. Amorim não só concorda, como considera Ruy Barbosa o patrono da diplomacia multilateral brasileira, da mesma forma que Rio Branco foi o patrono da diplomacia bilateral.
De muitas outras coisas – e algumas importantes – falou o chanceler, mas todas dentro da mesma linha de raciocínio. O Brasil cresceu muito, o mundo mudou muito, e é preciso enfrentar os problemas sem medo, mas sem as bravatas da adolescência. Entre as mudanças do mundo se encontra a instantaneidade da informação, que estimula a transformação dos indivíduos passivos em cidadãos atuantes, como se vê no mundo inteiro. Nossa autonomia de ação é um caminho do qual não poderemos retornar, a menos que estejamos dispostos a agachar-nos, depois que nos decidimos a andar de cabeça alta. O caso do Irã é emblemático, porque a sua solução contribuirá para a consolidação de nova ordem mundial, com o fortalecimento das Nações Unidas e o fim dos ditados imperiais das grandes potências. De qualquer forma, a vigilância na defesa do entendimento entre as nações – é o que podemos resumir de suas ideias – terá que se manter, e a cada dia mais, porque a paz é sempre uma conquista esquiva da razão política.

19 de fev de 2010

AS MUITAS MARGENS DOS RIOS



Guimarães Rosa encontra uma terceira margem de um rio, para nela colocar seu personagem sem nome. O conto tem, nisso, outro de seus enigmas: o filho que narra, o pai que navega nas águas altas, a mãe e mulher, que sofre, e o rio, não têm nomes. Ninguém tem nome, nada tem nome: a estória é feita de silêncios e de mistérios. Mas a grande força é a do rio. O rio chama o homem, talvez cansado de si mesmo, talvez cansado do mistério do próprio rio, todos os dias, o mesmo; todos os dias outro em suas águas iguais, sempre novas, vindas do céu e da seiva da terra. Para fugir do mistério, o personagem de Guimarães Rosa talvez tenha querido nele viver, tentar devassá-lo de dentro para fora.

Os rios são sempre semelhantes e muito diferentes. As margens podem ser parecidas, conforme a região; em matas e brejos, em barrancas e areais, em rochas e rasos secos. Mas os rios têm alma, e sua alma, como a dos homens, é vária; muda com seus indevassáveis humores.O rio mata e o rio salva; o rio canta e chora sobre as pedras, ou quando é afunilado pelos paredões, em canais esguios, e procura libertar-se, em busca do mar distante.

Tantos são seus mistérios que suas margens se multiplicam. Não há só a terceira margem, de que trata Guimarães, em um de seus textos mais maduros e mais instigantes. O mar pode ser belo, majestoso, imenso, promessa de infinito; mas os rios, dos córregos raquíticos aos mais largos e mais densos, estão mais próximos da condição humana, são metáforas da vida. Nascem em pontos altos, de águas ralas e mansas e vão descendo as encostas, caindo nas cachoeiras, esquivando-se das serras, crescendo com as tempestades, até desaparecerem no oceano. Dele, as águas subirão, para retornar, com o vento, às serras. Em seu curso, o rio vai recolhendo seus mortos, e registrando, nas águas menores, que afluem, à direita e à esquerda de seu caminho, o som do choro e o sal das lágrimas; o riso das crianças e os sons abaritonados dos machos e acontraltados das fêmeas, nos duelos de amor.

Em um rio também sem nome, James Joyce coloca o princípio e o fim de Finnegans Wake: “river run, past Eve and Adam, from swerve of shore to bend of bay...

Sempre vivi na beira de rios, alguns modestos como os meus melhores amigos, riozinhos de águas anãs, e outros densos de história, como o Reno, o Tevere, o Vltava, vaidosos e arrogantes. Pelo leito de alguns rios, naveguei; ora com cuidados, ora com fundada confiança. Os rios de Minas conheço-os quase todos, do São Francisco, que vai juntando os povos até o mar do Nordeste, ao Doce, que, sempre soturno, cai no mar do Espírito Santo; do Urucuia voluptuoso, ao Jequitinhonha desconfiado.

De todos os rios tenho a experiência do saber que emana de suas águas. Os povos ribeirinhos são sempre mais astutos, conhecem as idiossincrasias do tempo; lêem nos ramos que descem as águas o ânimo da natureza. Mas não podem evitar as cheias: os rios são guardiães incorruptíveis dos segredos da natureza. Sobem quando menos se espera e, enraivecidos e cruéis, invadem os vales. Seus leitos convocam as águas que descem as encostas, para arrastá-las, soterrar os descuidados, atrair os mortos às suas águas ressentidas.

E O OUTRO LADO DA LUA


Assim como são muitas as margens dos rios, há outros lados da Lua, além daquele que nos é oculto, e só as sondas vêem. Todos os dias ficamos sabendo de coisas novas na velha companheira da Terra. Sabemos que há, ali, água e, se há água, há algum oxigênio – e isso é bom sinal. Agora descobrimos que há também buracos, provavelmente túneis pelos quais emergiram as lavas vulcânicas, em passado muito distante.

Os mais jovens não conhecem a Lua velha, aquela que, mais do que o corpo celeste, era o apelo estético – e erótico. As fases da Lua moviam os hormônios – e, se ainda os movem, ninguém mais parece se dar conta disso. Moviam os hormônios e branqueavam os cabelos, como nos versos de Rogaciano Leite e Sílvio Caldas: “Meus cabelos cor de prata, são beijos das serenatas, que a Lua mandou pra mim...

Os poetas sonhavam de muitas formas com a Lua, e não só como inspiração romântica. O grande Cyrano de Bergerac, no século 17, combinava a literatura com a filosofia e a ciência, sem esquecer as conquistas amorosas e seu nariz imenso era visto como um atrevimento anatômico. Cyrano escreveu duas comédias notáveis, em que narra suas viagens aos estados e impérios da Lua e aos estados e impérios do Sol. Além de ser, assim, um precursor da ficção científica, Cyrano – militante político partidário de Mazzarini – foi também um crítico da arrogância da ciência e do obscurantismo da Igreja.

Um dia, talvez, conheçamos tudo sobre a Lua e é mesmo provável que ela se transforme em uma colônia da Terra. Mas os rios continuarão com seus mistérios, e suas infinitas margens, que correspondem às infinitas inquietações humanas. E o satélite, mesmo com suas águas polares, continuará desolador, porque lhe faltarão os rios, as cachoeiras, os barqueiros, os remansos e as ilhas solitárias.

O FAROL DE BERENICE


Falando dos rios e da Lua, devo lembrar a estória de Berenice. Tudo me diz que é falsa, mas Luís Sabino jurou-me que é verdadeira. Seu irmão mais moço, Elziro Sabino, preveniu-me que Luís – que já passava dos 80 – lera muito e misturava folclore, mitologia e mentira, não sabendo separar as lembranças em sua cabeça castigada pela malária e por algumas porretadas em briga de bordel de Pirapora.

Mas vamos ao farol de Berenice. Berenice fora menina que a mãe, em troca de um favor não explicado (Luís Sabino acredita que era o de se livrar do marido inválido) entregara ao diabo, para criar. Como o diabo não tinha corpo, nem casa, a menina foi induzida por ele a buscar guarida na casa de velha rameira de beira rio. Depois de adestrada nas artes do ofício, Berenice ficou embruxada e montou, em canoa de pau-ferro um farol mágico, que atraía os barqueiros noturnos. Atraia-os, seduzia-os, matava-os com sua saliva de cobra e seus corpos desciam o rio, para enganchar-se nos brejos das margens baixas.

Luis Sabino escapou da morte, quando a noite o apanhou, mor de um remo perdido, perto da barra do Paraopeba, e viu a luzinha na beira do rio. Com um remo só e de jeito, chegou e encontrou a mulher, nua, na canoa ancorada no toco de gameleira, iluminada pela luz da lua, que se refletia em um espelho pendurado na popa – o farol. “Eu tava meio perrengue e já sabia da malvada. Me peguei com Deus e por isso estou agora contando a história. A bruxa, quando eu refuguei, me jogou na água, mas nadei pra longe e acordei na praia”.

UM HOMEM LIVRE




Nos anos seguintes ao fim da Guerra de 1939-45, foi intensa a vinda de judeus para o Brasil. Muitos eram sobreviventes dos campos de concentração, que haviam perdido tudo durante a ocupação alemã nos países em que viviam antes, e dos quais foram arrastados para o Leste – uns para morrer e outros para o terrível sofrimento dos trabalhos forçados e da humilhação. As mulheres pareciam mais tocadas pela perseguição e algumas sofriam de permanente depressão.

Alguns tinham, no Brasil, parentes, mesmo distantes, que os acolheram. Outros recuperaram dinheiros antigos, nos bancos suíços, e podiam reiniciar a vida, com pequenos negócios. Mas havia os pobres, os judeus sem dinheiro, como os personagens de Michael Gold. Esses compravam e vendiam roupas usadas, eram mascates urbanos, viviam em rigorosa austeridade e podiam, assim, emprestar pequenas quantias para os mais pobres ainda, com juros suportáveis. Um deles, de quem me fiz amigo, me disse que a pior discriminação que sofria era de seu próprio povo. Ele – um sefaradim autêntico, com sua pele morena, seus fortes traços semíticos, magro, de pequena estatura, poderia ser modelo para algum pintor que desejasse retratar um judeu palestino dos tempos bíblicos.

Foi o primeiro judeu de quem ouvi uma clara condenação do sionismo. Ele me disse que o retorno a Israel era coisa dos judeus ricos, da Europa, que queriam distância dos judeus pobres e os queriam confinar nas aldeias palestinas. E me disse que sua gente tinha o direito de manter seus costumes e sua religião, como qualquer outro povo. Em troca, devia obedecer as leis e as normas dos países em que vivesse.

Era muito mais velho do que eu. Um dia desapareceu. Soube que fora para o Mato Grosso. Ele mesmo não era religioso. Não freqüentava a sinagoga, e como vivia sozinho no mundo, não estava sujeito ao problema de consciência na educação dos filhos. Com seu agnosticismo radical, me disse que, se os árabes e judeus da Palestina fossem apenas humanistas e não deístas, o mundo não só seria melhor no futuro, como teria sido melhor antes.

Isaac tinha suas leituras – e era um homem livre.

O HOMEM DE NAZARÉ E OS OUTROS HOMENS


Coisas da Política

As escavações de Nazaré, ao revelarem uma casa da época de Cristo – que pode ter sido a da família de Jesus – mostram a pobreza daquele tempo, em que os romanos afirmavam seu império sobre a Palestina, com seus soldados e Herodes. Somos tentados, ao examinar as circunstâncias históricas, a definir Jesus como um homem político, mas, para isso, temos que escoimar a expressão, tão maculada ela se encontra. A política, e essa reflexão nos serve nestas horas brasileiras, como servia em Jerusalém, é a mais importante das ações humanas, e todos nós devemos praticá-la, como Cristo a praticou contra o Império.

Vivendo em comunidade, tudo o que fazemos, e tudo o que deixamos de fazer, interfere no todo. Na política, como na física, podemos recorrer à famosa teoria do caos, de Edward Lorenz, e do efeito borboleta (dela intuído, embora de forma lateral). Assim como o bater de asas de uma borboleta, no Pacífico, pode determinar, pela ampliação das conseqüências físicas, o derretimento de uma geleira na Antártica, o ato de um cidadão qualquer pode desencadear processo político que venha a mudar o mundo. Seu gesto pode repetir-se, crescer ao ser emulado, mudar a História.

Cristo foi o jovem que saiu de Nazaré, esteve em algum lugar que os evangelhos não registram, nem ele revelou a seus discípulos, até que, homem feito, foi buscar, nas águas do rio, o batismo de João Batista. O pregador precisava de seu concurso, e ele o substituiu quando uma princesa volúvel recebeu de presente a cabeça do profeta. Sua ação foi política: como João, recusava o sistema. Contra ele, pregava - no meio do povo - a revolução, imediata, da igualdade e da justiça. Qualquer que seja a interpretação de sua presença e dimensão histórica, ele agiu, no plano da realidade de seu tempo, como político. Isso não lhe exclui, nem mesmo reduz, a transcendência. A transcendência se confirma na necessidade, naquele momento, e em toda a História, de sua presença no sentimento de todos os seres humanos. Todos os que o negam, o confirmam, em algum momento da vida. Confirmam-no quando se encontram em aflição e o confirmam quando são tocados por instantes de êxtase, de alegria e de indignação contra os opressores.

O Natal é a festa do nascimento de Jesus, porque é a festa do nascimento de todos nós. De acordo com alguns teólogos, nós nascemos com Cristo, porque só depois dele entendemos a vida como um compromisso com o amor. A mensagem de Cristo é mais poderosa do que as instituições que reivindicam o seu nome; é também mais poderosa do que a fé que as seitas recolhem e administram, nos negócios do mundo. Ela é a mensagem do filho do homem, para os homens; é a mensagem de um para o outro, para os outros. Nisso, os evangelhos podem ser traduzidos em uma frase: nós somos seres que só podemos nos entender como irmãos na igualdade: na face e nas mãos, nos olhos e nos lábios, na voz, no riso e nas lágrimas.

Nós somos o que somos, e seremos maiores no tempo e no mundo, quando formos iguais, uns diante dos outros. Para os humanistas e agnósticos que vivem a sua mensagem, embora possam duvidar da saga que lhe atribuem, Cristo é, do nascimento à morte; da gruta de Belém ao Calvário; da estrela radiosa e brilhante, que o saúda ao nascer, às trevas da agonia, uma resposta do homem à sua própria necessidade.

Como qualquer homem, na hora da morte, ele não tinha ângulo em que agarrar-se, estava a-gônico, de acordo com o léxico grego. Assim, como qualquer homem, recorreu a Deus, perguntando-lhe porque o abandonara. No reconhecimento de sua fragilidade humana, estava a grandeza de sua transcendência. Por isso, São Francisco de Assis, de inegável existência histórica, é o santo que dele mais se aproxima, ao despir-se e batizar-se com o vento, e reafirmar o amor, ao retomar, com a jovem Clara, o caminho de Cristo na encosta de Assis e na planície umbra, em cujo solo reabriu suas trilhas palestinas, e fundou, com os pobres, comunidade que incluía leprosos e miseráveis.

O Natal - para aqueles que não o celebramos como festa profana, festa do consumo - é uma reverência ao Mistério, que fez de um homem frágil, que não conseguia, sozinho – e este é outro sinal da transcendência – carregar a cruz, e aceitou que um certo Simão, cirineu, o ajudasse a subir a escalada do Calvário. Um cirineu qualquer, que vinha do campo, com seus braços e seu ombro, conforme o belo Evangelho de Lucas.

4 de jan de 2010

AS AMEAÇAS DE MADAME CLINTON


A senhora Clinton fez “duras advertências” aos paises latino-americanos para que não mantenham relações cordiais com o Irã, prevenindo que isso acarretará “sérias conseqüências”. Não se referiu diretamente ao Brasil, mas, sim à Venezuela e à Bolívia. Na realidade, o recado não é para Chávez, nem para Morales: é para Lula. Morales e Chávez, em sua posição diante de Ahmadinejad, repetiram slogans conhecidos, sem conseqüências maiores. Lula foi fundo, ao defender o direito de qualquer país a desenvolver sua tecnologia nuclear, enquanto os paises detentores dos segredos atômicos não se dispuserem a desarmar suas ogivas. Lula foi claro nessa posição de lucidez, no diálogo com a chanceler Ângela Merkel, da Alemanha, sob o olhar do mundo, em direto pela Televisão.

Há uma razão adjetiva para os avisos da Secretária de Estado. O Brasil com o desempenho do chefe de Estado, está ocupando grande espaço no mundo, enquanto - mesmo com Obama - os EUA voltam a ser os agressores de sempre. O jornal El Pais publicou elogioso perfil do presidente, assinado pelo Primeiro Ministro da Espanha, José Luiz Zapatero. Depois de traçar a trajetória humana de Lula, e de examinar os êxitos de sua política econômica, concluiu o Primeiro Ministro: “A mi no me extraña nada que este hombre asombre al mundo”.

3 de jan de 2010

COPENHAGE E O MITO DE PALAMEDES



Palamedes é das personagens mais instigantes da mitologia grega. Rival de Ulysses e Diomedes na Guerra de Tróia, a ele se atribuem as primeiras idéias sobre o futuro do homem. Sendo visto como homem – e não como o titã Prometeu – ele pode ser considerado o pioneiro do desenvolvimento científico e tecnológico. De acordo com o mito, a ele coube a invenção do alfabeto, do sistema de pesos e medidas, do jogo de dados, do hábito de se comer a horas certas, da técnica de cunhar moedas, da divisão do dia em horas - e outras coisas mais. Platão (República, livro VII, 522) o cita como inventor da Aritmética, e lhe credita a sabedoria tática no cerco de Tróia.
Se houvesse tempo para isso, e a Conferência de Copenhague contasse com a assessoria de filósofos, seria interessante voltar a Palamedes e a Prometeu, para o início das reflexões sobre a Terra e o destino próximo do homem. Os gregos, que descobriram todos os caminhos, foram cautelosos no emprego da tecnologia. Talvez por causa da consciência da efemeridade da vida, que Heródoto resume, ao dizer que “o homem é, em tudo, e por tudo, um objeto do acaso”, e que o saber é resultado do sofrimento.
As grandes conferências internacionais servem – e nisso são importantes – para a discussão dos problemas e a divulgação das idéias e propostas, mas raramente trazem resultados práticos. No caso do meio ambiente há razões para o ceticismo. Há 37 anos houve a Primeira Conferência sobre o Meio Ambiente, promovida pelas Nações Unidas, em Estocolmo – bem perto de Copenhague. As circunstâncias me fizeram presente ao encontro, como correspondente deste jornal. Outras reuniões, entre elas a do Rio, em 1992, e a de Kyoto, trouxeram muitas esperanças, mas as esperanças esmaeceram com o tempo. Agora, ao que parece, os Estados Unidos e a China estão dispostos a assumir compromissos – o que renova a promessa de algumas medidas.
Voltar ao Paraíso, como pensam alguns ecologistas radicais, seria voltar a uma vida só suportável porque não havia alternativa. Hoje, depois que vivemos mais e melhor, graças à ciência e à tecnologia, ninguém de nossa civilização – a não ser alguns fanáticos – estaria disposto a conviver com as serpentes e os mosquitos, o corpo desnudo, comendo raízes e lagartos. Mas tampouco poderemos continuar contaminando os céus, os mares e o solo, a menos que estejamos resignados a morrer envenenados e soterrados pelos detritos. A ciência, que nos trouxe até aqui, poderá nos salvar, desde que deixe de ser mera servidora do sistema capitalista de produção e de apropriação privada dos resultados do trabalho comum.
O problema é essencialmente político. É necessário voltar a Palamedes, a seus pesos e medidas, a seus cálculos aritméticos, à administração das horas de cada dia e dos dias de cada existência humana. Com o respeito que merece a ciência, ela não poderá – como está ocorrendo – ditar a agenda histórica dos homens, a serviço do lucro. Quando - controlada pelo capitalismo industrial e financeiro - se transforma em tecnologia, costuma perder os parâmetros éticos. Talvez o desvio tenha surgido nestes dois últimos séculos, em que a ciência exata se afastou da filosofia e, ao se afastar da filosofia, desamarrou-se do humanismo que lhe dera origem, com a perversão do Iluminismo, denunciada pela Escola de Frankfurt.
A questão maior, e para a qual o conhecimento contemporâneo já oferece soluções, é a da energia. É estranho – e inquietador – que, no mesmo momento histórico em que surgem alternativas limpas ao petróleo, imensas jazidas são descobertas, no Brasil e no mundo. Um paradoxo dessa natureza e outros da atualidade, só serão resolvidos mediante o entendimento entre a ciência e a política. Para esse entendimento é preciso sabedoria, um dos recursos do homem que foi pouco usado e parece exaurido.
O Brasil é espaço crucial dessas discussões. Temos sido pioneiros no uso de recursos energéticos renováveis, como os da geração hidráulica de eletricidade. Mas os radicais, muitas vezes a serviço de interesses externos, querem nos impedir de construir hidrelétricas, como é o caso de uma Ong qualquer que incita os indígenas contra o governo. Os índios de Belo Monte “escreveram” uma carta a Lula, ameaçando um banho de sangue, se a construção da represa prosseguir. Cabe aos responsáveis pela segurança nacional identificar que “índios” foram os redatores do documento e encontrar o texto original, provavelmente em inglês.

UM ESTRANHO COMPORTAMENTO



O homem público não deve fazer negócios, nem o negociante fazer política. Quando o homem de negócios decide entrar para a vida pública, deve separar bem os dois interesses. Os mais prudentes entregam a direção de suas empresas a sócios ou subordinados de sua confiança, a fim de se dedicarem apenas aos assuntos públicos.
Há homens de negócios – e Sílvio Berlusconi é um deles – que acham fácil comprar seus mandatos (e, de forma direta ou indireta, os compram) como adquirem uma mansão residencial, um iate de 100 metros ou uma empresa de petróleo.
Desde que começou a reunir a grande fortuna que tem, Berlusconi é acusado de não ter escrúpulos, e de se associar à Máfia. Uma grande empresa brasileira de comunicações montou, nos anos 80, com transmissores em Mônaco, emissora de televisão que tinha seus estúdios em Roma. Não conseguiu crescer, nem mesmo manter-se no mercado. Sílvio Berlusconi, já poderoso senhor da televisão, parece ter contado com seus amigos de Palermo. Os equipamentos de retransmissão da TV Monte Carlo, como as de outros competidores eram sistematicamente danificados por desconhecidos no interior da Itália.
Há quem suspeite de que, no estranho comportamento de Berlusconi haja manifestação de demência precoce. Não parece normal a atração alucinada por call-girls, o uso de sapatos de solado alto, para aumentar a estatura, o hábito de enfiar o dedo no nariz em público e sugá-lo com a boca, e gestos semelhantes, além das sucessivas gafes políticas. É difícil acreditar em sua plena lucidez.

PAISAGEM SICILIANA



O motorista do pequeno ônibus de turismo parou, a um sinal do rapaz na beira da estrada estreita, no caminho de Ragusa. Pensei que o estranho iria embarcar, mas foi o motorista que, depois de nos pedir um minuto, desceu, ao encontro do outro. Ao voltar, nos disse que uma ponte caíra, à frente, e teríamos que esperar um pouco. O pouco foram duas horas. Só o chofer era da Sicília. Todos os outros vinham do norte da Itália, menos o casal de nossa idade, que era de Nápoles. Ao lado do caminho, na encosta de uma colina, os galhos dos olivais se moviam com o vento. Na margem esquerda ovelhas pastavam. O pastor as vigiava, sentado na carroceria de uma camionete velha. Mais adiante, quase na curva da estrada, que fechava a visão do Sul, havia 4 cruzes. Achei estranho que, em estrada tão estreita, que não permitia correr, tivesse havido um acidente com quatro mortos. Meu companheiro de viagem, napolitano, disse-me, baixinho, que os acidentes tinham sido de lupara (a cartucheira siciliana), não de veículos, e fez, com o indicador, o gesto conhecido de quem preme um gatilho.
Depois de uma hora de espera, começamos a ficar impacientes. A tarde chegava e, com ela, a fome. No carro só havia água. Nada nos indicava um lugar perto onde comprar o que fosse para comer. O motorista disse que esperava um sinal de que poderíamos avançar. A ponte era pequena, de madeira, e seria reparada logo. Mais algum tempo, outro homem apareceu e disse ao motorista que devíamos voltar. O motorista nos disse que aquele percurso da excursão estaria cancelado, a menos que quiséssemos fazer uma volta de 30 quilômetros. Retornamos à estrada principal, a caminho de Agrigento, onde pernoitaríamos.
No hotel, pela televisão, soubemos que houvera um acerto de contas na estrada, com três mortos em emboscada atribuída à máfia – mas ocorrida uma hora depois que mudamos o itinerário. No dia seguinte, o motorista havia sido substituído por outro. De Agrigento, seguimos para Palermo, por outra estrada.

CONFLITOS INTERMINÁVEIS



Uma interessante teoria – de que trata Bárbara Tuchman, em sua “The March of Folly: From Troy to Vietnam” - é a de que a Guerra de Tróia não terminou. A mítica expedição a Tróia, de que alguns arqueólogos encontraram escassos indícios, cresceu em grandeza graças a Homero (ou a rapsodos mais antigos, dos quais se teria valido o poeta).
Nessa tese histórica, as guerras nunca terminam: a exaustão as suspende, em tréguas demoradas, mas elas sempre retornam, porque os conflitos só poderiam ser resolvidos pelo bom senso. E o homem é animal insensato.
O editorial de Le Monde, de ontem, trata da rivalidade entre Paris e Londres, que voltam a disputar (se é que deixaram de disputar um dia) a hegemonia econômico-financeira européia. Os ingleses, conforme o diário francês, acusam a França de agir no propósito de substituir a City como centro financeiro mundial. E os franceses se defendem. Franceses e ingleses – sem contar com confrontos ainda mais antigos – se encontram nesse jogo de distanciamentos e aproximações desde o século 14, quando se iniciou a Guerra dos Cem Anos, que na verdade durou 116 (de 1337 a 1453). Novos confrontos viriam no decorrer dos séculos e, em um deles, Richelieu se revelaria também grande guerreiro, ao estabelecer o cerco ao bastião de La Rochelle, em poder dos huguenotes, sob patrocínio britânico. Em outro, Napoleão perderia seu bastão em Waterloo.
Ingleses e franceses souberam unir-se, no século passado, tanto para o bem, como para o mal. Para o bem, juntaram-se na Primeira Guerra Mundial e na Segunda. No intervalo, vergonhosamente cabisbaixos e amedrontados em Munique, diante de Hitler, traíram seus aliados tchecos.
Os ingleses aderiram à idéia da União Européia sem entusiasmo. Não aceitaram a moeda comum, o euro, o que foi grave restrição. Os observadores europeus mais argutos viram, nessas reservas, a fidelidade de Londres ao nacionalismo anglo-saxão: aderir plenamente à Europa, fortalecê-la, debilitaria a posição imperial dos Estados Unidos. Isso explica a posição de Mme. Thatcher, quando se opôs à reunificação da Alemanha, há vinte anos. Não militaram, para suas restrições, apenas as duas guerras do século passado, em que, unidos aos franceses, os ingleses enfrentaram os alemães. Houve também a intenção de manter a Inglaterra na situação privilegiada de parceira mais íntima de Washington na Europa. Uma Europa continental fortalecida que, eventualmente estará sob a liderança de uma ou outra nação, não interessa à visão de longo prazo do país que, desde a ocupação normanda, no século 11, ainda que historicamente assimilada, olha com desconfiança para além da Mancha.
A Suécia pretende assegurar o estatuto de cidade santa de Jerusalém, e garantir a parte leste da cidade para capital de um futuro Estado da Palestina. Insurge-se o país nórdico contra a “judeização” da cidade em que nasceu o cristianismo. Os palestinos têm sido expulsos sistematicamente de Jerusalém-Leste: no ano passado foram expelidos mais de 4.700. Esta é outra questão histórica que remonta às Cruzadas e a Ricardo Coração de Leão. Mas não deixa de se relacionar também com a Inglaterra moderna, em que surgiu o sionismo, e cujo governo deu apoio político à colonização da Palestina pelos judeus da Europa.
A Argentina busca agora o apoio da Península Ibérica em suas queixas contra a União Européia, que reconheceu a soberania inglesa sobre as Ilhas Malvinas. Isso tem significado econômico importante: os britânicos calculam que haja, no mar em seu entorno, reservas de mais de 60 bilhões de barris de petróleo. A Argentina, senhora das ilhas, foi expulsa do arquipélago em 1833, por tropas britânicas, mas nunca renunciou a seu direito de soberania, reconhecido, entre outras nações, pelo Brasil. As Nações Unidas, a partir de 1965, têm instado os ingleses e argentinos a um acordo sobre as ilhas, até então de pouco valor econômico, de solo gelado e sem árvores, varrido de ventos e só coberto de pastagens para ovelhas. Em 1982, a Argentina cometeu a imprudência de tentar recuperá-las militarmente, e foi delas mais uma vez rechaçada. Na época, o Brasil negou espaço aéreo aos aviões britânicos. Washington – ao esquecer a Doutrina Monroe, contra a presença de colônias européias nas Américas – recusou-se a repor material bélico aos argentinos, não obstante os acordos entre os dois paises.

OS DESPREZADOS SINAIS DE PERIGO


No exame dos processos revolucionários da História, nota-se sempre a falta de consciência das elites políticas. Como os movimentos levam décadas, com avanços e retrocessos, os episódios passam a ser rotineiros, e sempre se espera que o tempo administre a situação. Pouco a pouco, no entanto, como previne a lógica dialética, a quantidade se transforma em qualidade: os fatos, somando-se, exigem uma reação. Nos últimos anos temos assistido, no Brasil e no mundo, a manifestações de inconformismo da cidadania que deviam assustar. Deixando de lado o que se passa em outros países, porque a cada um basta o seu cuidado, a situação em nosso país merece reflexões.
Ontem, manifestantes ocuparam as dependências da Câmara Distrital, em Brasília, impedindo a sessão ordinária da casa. Há algum tempo, a própria Câmara dos Deputados foi invadida e depredada por manifestantes. Por enquanto são grupos pequenos, mas, a cada nova manifestação, os contingentes crescem. No Rio e em São Paulo, as ações armadas lembram confrontos insurrecionais. Não se pode dar conotação política clássica aos atos de violência do crime organizado, mas é sempre política, de uma forma ou de outra, a violência armada contra o Estado. Não adianta menosprezar os capitães do crime. Eles contam com pequenos exércitos, recrutados entre os que não têm futuro, sem estudos, sem afeto, sem esperança, e sem razões ideológicas que possam contê-los.
A corrupção é um crime, como qualquer outro. Quando se rouba do Estado, rouba-se da sociedade. A sociedade não é ente abstrato: é a soma dos indivíduos que trabalham e que, direta ou indiretamente, financiam as atividades públicas. É natural que cada um dos cidadãos se sinta, pessoalmente, roubado. Roubado do dinheiro que falta para cuidar de seus filhos, dar vida mais tranqüila à família, tomar sua cerveja aos domingos com os amigos, enquanto assiste a uma partida de futebol.
O presidente da República voltou a falar em uma assembléia nacional constituinte. Essa poderá ser a saída para dotar o Estado de instrumentos jurídicos que venham a tornar mais legítima a representação popular e a dificultar os atos de corrupção, concussão e peculato. Mas será difícil adotar regras hábeis de convocação da assembléia com o parlamento que temos. Se os cidadãos se decidissem a, mediante o instrumento da iniciativa popular, exigir do Congresso essa convocação, dentro das cautelas necessárias, talvez houvesse uma saída política para a crise ética que tende a agravar-se com o processo eleitoral.
Há, entre os servidores permanentes do Estado, os que se preocupam com a necessidade de reforma das instituições para o aprimoramento ético da administração. Em Salvador se reuniu, no fim de outubro, o XIV Congresso Internacional sobre a Reforma do Estado e da Administração Pública. Entre os representantes brasileiros se encontravam o ex-ministro do STF, Sepúlveda Pertence, e o padre Ernanne Pinheiro, assessor da CNBB, ambos membros da Comissão de Ética Pública do Governo Federal. Pertence, em sua exposição, mostrou os avanços, ainda tímidos, obtidos pela vigilância dos órgãos controladores do Estado, entre eles, a própria comissão de que faz parte. Apesar de tudo isso, nós sabemos que estamos longe de impor a moralidade na prática cotidiana da administração, em todas as esferas de governo.
A convocação de uma assembléia constituinte não traz a segurança de que a situação melhore, se os eleitores não entenderem que o país não é dos banqueiros, dos grandes proprietários rurais, nem das transnacionais, que hoje dominam os parlamentos. Ele é de todos os que trabalham e produzem, e até mesmo daqueles que não conseguem trabalhar.
A melhor forma de combater a podridão está na consciência de responsabilidade dos cidadãos que exercem algum tipo de influência sobre os pouco informados. É necessário criar grupos de discussão entre os vizinhos, examinar o quadro local, levantar o passado dos candidatos, e recomendar os que tenham um passado coerente e sério. Não é difícil saber como se estão comportando os parlamentares de hoje, e identificar os que mereçam a confirmação do mandato. É fácil saber quem defende o povo e a nação e os que vendem o país e seu mandato.
No passado, os corruptos estavam protegidos pelo segredo. Hoje a tecnologia já permite gravar cenas como aquela dos três “fiéis” pedindo a seu Senhor – que não o nosso – que os proteja em suas falcatruas. Chegamos ao limite da tolerância.

QUE SE SUBVERTA O CORAÇÃO


O historiador britânico Arnold Joseph Toynbee foi criticado por ser mais moralista e cristão do que observador objetivo do curso da ascensão e queda das civilizações. Ao contrário de Marx, que subordina a História à economia, e de Spengler, que identifica determinismo na condução dos fatos humanos, no interior de cada sociedade em particular, ele não vê as civilizações isoladas. Elas se comunicam, e cada uma delas tem alguma coisa a ver com as outras. Toynbee morreu certo de que as civilizações crescem com a esperança, quando se nutrem de forças espirituais, e decaem quando seus líderes esmorecem, perdem o elã criativo, desistem da continuidade no tempo.
Quando já passara dos setenta anos, (entre 1961 e 1964), Toynbee fez as suas últimas viagens de trabalho à África. Ele se interessara pela História em Atenas, quando era ainda muito jovem e fora estudar na Grécia. Passado mais de meio século, atravessou o Mediterrâneo para examinar a diferença entre as duas Áfricas, a árabe e a negra. Seu livro, publicado inicialmente na Inglaterra, sob o título de “Between Niger and Nile” (Oxford University Press, 1965), é quase um trabalho jornalístico. Nele analisa o drama dos povos do continente, em seu esforço por livrar-se do colonialismo e, nos paises já independentes, das suas seqüelas.
No prefácio da edição francesa do livro, redigida em 26 de junho de 1972, três anos antes de morrer, Toynbee afirma que “a mais profunda necessidade da África, e, assim, do mundo, é a de que se revolucione totalmente o coração” do homem. Essa advertência, quase uma prece, cabe em situação não prevista por Toynbee naquele texto: o encontro de Copenhague. Os líderes do mundo estão em um daqueles momentos estudados por Toynbee, nos quais a sobrevivência da civilização depende da coragem de conduzir as mudanças capazes de preservar as conquistas do passado e assegurar o melhor da cultura construída. É disso que se trata. Por mais estejam presentes, na velha Dinamarca, os conselhos da ciência, o problema real está no coração dos homens.
Se fôssemos capazes de examinar a civilização atual com olhos estrangeiros, seria difícil nela encontrar alguma lógica. É uma civilização que rompe com o Humanismo que a fez surgir e que a sustentou, seja em nome da fé, seja contra a fé, durante os últimos vinte e cinco séculos. Muitos defendem a sociedade industrial que surgiu, com o refino do petróleo, há um século e meio, como um benefício fabuloso para o homem. Hoje podemos viajar rapidamente de um continente a outro. Não só vivemos mais tempo, com o progresso da medicina, como vivemos mais no tempo. Os instrumentos de comunicação e as máquinas industriais nos permitem produzir em uma hora mais do que em dias, durante o passado. De repente descobrimos que estamos envenenando a nossa casa e não temos outra disponível.
Os cientistas apontam caminhos para salvar o planeta do aquecimento provocado pela atividade humana. Mas esses caminhos, todos a partir da possibilidade de substituir os combustíveis fósseis por fontes limpas de energia, podem resolver um dos problemas, mas não todos. Temos que encontrar outros módulos para a vida, e isso depende da revolução nos sentimentos do homem, na subversão que sobreponha a solidariedade real, o humanismo real, ao egoísmo que se exacerba na ânsia de lucro do capitalismo contemporâneo.

NOVAS PROVAS DE UM CRIME


Começa-se a provar, agora, o que muitos sabiam, e alguns de nós denunciamos: antes dos atentados de 11 de setembro de há oito anos, os Estados Unidos já planejavam invadir o Iraque e eliminar Saddam Hussein. Entre os mais irados defensores dessa decisão de extermínio se encontrava a Senhora Condoleeza Rice. É provável que, daqui a pouco, saibamos muito mais sobre o atentado contra o World Trade Center, e é bom preparar o espírito para o horror que nos podem trazer as revelações.
Não é segredo para as pessoas bem informadas que a eleição do segundo Bush foi precedida de uma conspiração chefiada por Paul Wolfowitz, Richard Perle, Donald Rumsfeld e Dick Chenney, com o famoso Projeto para o Novo Século Americano, elaborado ainda em 1997. O documento é claro em seu objetivo de estabelecer um duradouro império dos Estados Unidos sobre o mundo, ao aproveitar-se da queda do sistema socialista. Mas previne que, para seu êxito, faltaria um fato extraordinário e dramático que empolgasse e unisse toda a sociedade americana. Esse fato ocorreu, menos de nove meses depois da posse de Bush, com os atentados de 11 de setembro. Como as coincidências têm raízes – conforme o estudo de Koestler – é preciso cavar no solo da História para ver as que ligam os falcões de 1997 à destruição das torres de Manhattan quatro anos depois.
Agora surgem novas provas (porque as evidências já haviam sido identificadas) de que Saddam Hussein já desmantelara todas as suas armas de destruição em massa, desde 1991. O inquérito britânico sobre o envolvimento do país na guerra contra o Iraque, chefiado por John Chilcot, membro ativo do Conselho Privado da Rainha, mostra que muito antes de setembro de 2001, membros dos serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Inglaterra discutiram como eliminar Saddam, mas seus superiores os dissuadiram, porque isso estava contra a lei. Meses antes dos ataques de setembro, o encarregado pela ONU de inspecionar o desarmamento do Iraque, Hans Blix, comunicara ao governo britânico que nada havia a temer, e que Saddam acabara com as instalações suspeitas. Ainda assim, criou-se a fantástica versão de que ele dispunha de meios para, em 45 minutos, destruir qualquer um dos países vizinhos, insinuando-se que o alvo seria Israel.
“O sistema de inteligência falhou no Iraque” – disse ontem, a John Chilcot, Tim Dowse, um dos altos responsáveis pela estratégia política do Foreign Office durante o governo Blair. Os Estados Unidos foram à guerra contra Hussein, com o primeiro Bush; continuaram a agressão com Clinton; invadiram o Iraque com o segundo Bush por causa do petróleo, e não em razão da alegada crueldade do dirigente muçulmano. Quando se discute a natureza não democrática dos governos islamitas, como o do Iraque, do Afeganistão e do Irã, todos se calam sobre a Arábia Saudita, cujo regime sempre foi o mais obscurantista de todos. A razão é simples: os sauditas são aliados incondicionais dos anglossaxões - desde a Primeira Guerra Mundial - contra os seus vizinhos, menos despóticos no exercício do poder autocrático. Nesse aspecto, o Iraque era o mais liberal dos regimes islamitas, na tolerância com os costumes e com as outras crenças religiosas. Todos se lembram de que seu vice-presidente e encarregado das relações internacionais era Tarik Aziz, um cristão católico, que se encontra preso em Bagdá.
Não obstante essas evidências, o governo norte-americano, sob Obama, não parece disposto a reconhecer a responsabilidade de seus predecessores pelos atos criminosos. É provável que, na próxima terça-feira, anuncie o envio de mais tropas para o Afeganistão, segundo o New York Times. Seja pela pressão dos círculos mais poderosos de seu país, seja pelo temor de cumprir o que prometera em sua campanha, desvia-se para a direita, e se submete ao complexo industrial-militar que dita a política bélica dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial.
Esse retorno ao belicismo não se limita ao Oriente Médio e à bacia do Cáspio. Além das bases da Colômbia (que os Estados Unidos consideram vitais para “controlar a América do Sul” desde que, a partir delas, podem atingir qualquer ponto do continente) o Pentágono pretende instalar bases no Peru, o que nos diz respeito. É preciso pensar no Iraque e em Saddam, quando se intensifica a campanha contra o Irã, com a repetição dos mesmos movimentos. A única forma de promover a paz e evitar o sacrifício de gerações inteiras, é respeitar o direito de autodeterminação e desenvolvimento de todos os povos

PERFIL DO AMIGO


De vez em quando lhes conto, neste espaço, alguns episódios de minha amizade com Granadeiro, orgulhoso vira-lata, cego de um olho (que perdeu em luta com algum bicho feroz, e eu suponho que tenha sido um tamanduá-bandeira), mas com seu charme especial, posto que invariável namorador. Todos os cães que conheci, antes e depois dele, só se interessavam pelas fêmeas no cio. Granadeiro não era assim. Mesmo com o risco de ser rejeitado, era terno e carinhoso com todas as cadelas que cruzavam seu caminho, em qualquer hora. Aproximava-se com jeito, e lhes roçava e cheirava o focinho (não fazia como os outros); rosnava, com ritmo, como se entoasse uma balada irlandesa. Chegada a hora da partida, voltava a cara muitas vezes para trás, saltava como um nijinsky de seu povo, e caminhava lentamente, dando, assim, recados de saudade, sem esquecer o dever de acompanhar o amigo de viagem sem rumo.
Nós nos entendíamos com o olhar. Ele sabia quando eu estava preocupado, com as provisões do embornal diminuindo, sem sinais de morador por perto. Vinha, lambia minhas mãos, e saia apressado, sentindo o vento. Daí a algum tempo, voltava, rosnava, e me intimava a segui-lo. Seu faro para torresmo, ovos e feijão, base da solidariedade dos pobres, era infalível. Havia sempre um rancho diante de seu focinho, com alguém de bom coração para nos saciar e ouvir minhas histórias. Sempre vivi disso. Seu faro ia ao coração: nunca, naqueles anos de companheirismo, conduziu-me a alguém que não prestasse. Acho que ele era protegido por um anjo canino, um cachorrinho de asas que o ajudava a ajudar-me – e que devia se entender com o meu próprio anjo da guarda, como Granadeiro e eu nos entendíamos. Assim sendo, e andando à frente, às vezes saía da trilha e se embrenhava no mato. Eu o seguia, porque bobo não era. Assim me desguiava dos capões espessos, das encostas pedregosas em cujas grutas as onças partejam e protegem suas crias. Confesso que era meio fedorento, situação que eu remediava, sempre que podia, lavando-o em águas limpas das veredas, com sabão preto e buchinha de folhas de arnica, arruda ou alecrim do campo.

ALDO MORO, BATTISTI, E O "COMPROMISSO HISTÓRICO"


O caso Battisti evoca trágica experiência política do século passado. Os episódios de 1978, que causaram a morte de Aldo Moro, ocorreram diante da insanidade dos extremos e da incapacidade de as elites se reunirem no centro político, que Berlinguer e Moro propunham com o seu Compromisso Histórico.
Moro era um católico que estava à esquerda de De Gasperi e de Giulio Andreotti, próximo de pensadores franceses identificados na esquerda, como Jacques Maritain – que provavelmente conhecera, quando o filósofo tomista fora embaixador junto ao Vaticano, entre 1945 e 1948. Ele temia que o confronto ideológico, no movimento católico, impedisse o governo de centro na jovem república italiana. Como líder de sua corrente – a dos “doroteanos”, que dispunha de ponderável votação, Moro participou dos governos democrata-cristãos até 1976, quando a ala direita se impôs com a entrega do governo a Giulio Andreotti, seu principal adversário. Entre 1976 e 1978, Moro articulou a retomada do entendimento entre os comunistas e os democratas cristãos em busca de uma saída histórica, proposta por Enrico Berlinguer em 1973. O entendimento era combatido com vigor por Andreotti, pelo Vaticano, pela Máfia e pelos Estados Unidos.
Havia doze anos que, com a criação da República, e o confronto entre as duas correntes partidárias, sob a influência das duas superpotências, a Itália estivera à margem da guerra civil. Em 1978 – com a reabilitação do pensamento de Gramsci, e dez anos depois da invasão de Praga, que eles combateram – os comunistas italianos já estavam muito mais distantes dos soviéticos na construção do diálogo com os cristãos e do eurocomunismo. A situação estava madura para que a Itália se livrasse dos efeitos da guerra fria e buscasse um projeto nacional de desenvolvimento e de presença mais forte na Comunidade Européia que se formava. Nos meses que antecedem o seqüestro e a morte de Aldo Moro surge o estranho movimento das Brigadas Vermelhas. O grupo, conforme voz corrente, era liderado pela chefia misteriosa de um Gran Vecchio. Embora, na época, Andreotti não tivesse ainda 60 anos (nascera em 1919) seu porte encurvado dava-lhe aparência bem mais idosa. Há indícios de que as Brigadas teriam sido criadas por Andreotti, com a ajuda da Máfia, da CIA, e dos serviços secretos italianos, a fim de impedir, com atos de terrorismo, o “Compromesso Storico”, de centro-esquerda. Dele foi aliado intransigente Francesco Cossiga, hoje irado defensor da extradição de Battisti.
A quem, realmente, serviam as Brigadas Vermelhas, que seguiam, na retórica política, a Rote Armee Fraktion, do grupo Baaden-Meinhof da Alemanha? Sabe-se, pelo relato dos seqüestradores de Moro, que os dois grupos se encontraram algumas vezes em Paris, mas os italianos tinham meta precisa: combater o entendimento entre comunistas e os democratas-cristãos de Moro. Qualquer amador em política poderia deduzir que o seqüestro de Moro, por um grupo que se apresentava como de esquerda, seria um grande trunfo para a direita. É sempre bom lembrar o exemplo do agente cabo Anselmo, aqui no Brasil. Os brigadistas queriam a liberdade de 13 dos seus, em troca da vida de Moro. Cossiga e Andreotti a isso se opuseram, apesar dos apelos dramáticos do ex-primeiro ministro ao governo e até ao Papa Paulo VI, de quem era amigo pessoal.
Battisti pertencia a um grupo à margem das Brigadas Vermelhas, mas a serviço do mesmo objetivo. É provável que esse grupo fosse constituído de fanáticos, que agiam sem outras ligações, ou de simples inocentes úteis, recrutados pelos seguidores del Gran Vecchio. Em qualquer caso, foi instrumento de interesses muito maiores do que ele, muito maiores do que os do pequeno bando de alucinados de que fazia parte. Com seus vagos ideais aos 22 anos, ou cooptado pelos agentes da direita, dissimulados como de esquerda, o que é comum, é um homem acabado, condenado à prisão perpétua e à privação do sol. É provável que o Presidente Lula esteja informado dessas circunstâncias históricas, na hora de decidir o destino de Battisti.
Em tempo: Andreotti foi condenado, em 2002, a 24 anos de prisão por ter, em associação com a Máfia, mandado matar o jornalista Mino Pecorelli, que iria publicar documentos provando seu envolvimento no assassinato de Moro. Tendo em vista sua idade, a Suprema Corte livrou-o da cadeia.

A CERIMÔNIA DE PARIS



Quando as guerras eclodem, os contendores, cada um de seu lado, tentam responsabilizar os inimigos pelo conflito. Quando elas terminam, cabe aos vencedores, com o êxito, ditar a versão que predomina. Em 1868, a rainha Isabel II, da Espanha, foi deposta. Em junho de 1870, o dirigente espanhol Juan Prim decidiu oferecer o trono de Madri ao príncipe prussiano Leopold Hohezollern-Sigmaringen, e encontrou o apoio do primeiro ministro da Prússia, o aclamado Otto von Bismarck. Como essa aliança entre a Espanha e a Prússia ameaçava a posição da França na Europa, os franceses determinaram a seu embaixador, Vicent Benedetti, que se entrevistasse com o rei da Prússia, Guilherme I, que se encontrava na localidade de Ems, no interior do país. O encontro foi cordial: o embaixador, em nome de seu governo, pedia ao soberano garantias de que essa aliança não significaria uma ameaça aos franceses. Um telegrama, com o teor da conversa, foi enviado a Bismarck. Bismarck reescreveu a mensagem, com a versão de que houvera insulto verbal entre o rei e o embaixador. No mesmo dia, divulgado essa versão do telegrama em Berlim e em Paris, acirraram-se os ânimos. Napoleão III, então soberano francês (Napoleon, le petit, segundo Marx), cinco dias depois – em 19 de julho – declarou guerra à Alemanha. Foi uma típica manobra de provocação, que encontrou no orgulho e na ilusão de seu próprio poder dos franceses, a resposta que Bismarck pretendia. O chanceler sabia que os franceses, não obstante sua superioridade de meios, não seriam capazes de mobilizar seus contingentes – e a Alemanha já tinha todos os seus movimentos preparados. Assim, em pouco mais de dois meses de campanha, a França foi derrotada, e Bismarck a humilhou, ao unificar os estados alemães sob a hegemonia de Berlim e coroar Guilherme I como Imperador da nova Germânia nos salões do Palácio de Versailles, em Paris.
Anteontem, sob o Arco do Triunfo, em Paris, Frau Merkel e Sarkozy celebraram o que definiram como a reconciliação entre os dois paises, ao lembrar os 91 anos do fim da Primeira Guerra Mundial que foi, de certa forma, a continuação da Guerra de 1870. A Alemanha não conseguira, com a vitória contra Napoleão III, a hegemonia continental. Mesmo derrotada, a França se reerguera com o grande desenvolvimento econômico que se seguiu, e continuava como a grande referência dos valores europeus. Muitos historiadores acreditam que Moeltke, o lendário comandante dos exércitos alemães, planejou toda a campanha da guerra de 1914. Ele havia construído os movimentos estratégicos da Alemanha em um possível conflito a Oeste, com a França e, a Leste, com o Império Russo. John Keegan, em seu estudo sobre a Primeira Guerra Mundial, inicia com a enigmática afirmação de que “the armies make plans”, e que uma vez estabelecidos esses planos, os militares se encarregam de criar os motivos para colocá-los em execução.
O fato é que o assassinato de um príncipe austríaco em Sarajevo deu aos alemães, aliados de Viena, o pretexto que desejavam, a fim de continuar o conflito anterior, em agosto de 1914. Oito milhões de combatentes – alemães, franceses, italianos, russos, ingleses e norte-americanos, mas também de outras nacionalidades – tombaram naqueles quatro anos e dois meses que durou a guerra. Seis milhões de civis também morreram no conflito que quebrou uma tradição, a de evitar a destruição de alvos civis. Os alemães, com os grandes canhões Krupp, destruíram a cidade de Liége, na Bélgica. O esforço aliado – com a participação, ainda que quase simbólica, nos meses finais da guerra, dos Estados Unidos – derrotou finalmente os alemães. Foi a vez de os franceses exercerem o orgulho da vitória. Um cartaz com o título soberbo de “On les a”, percorreu a Europa, mostrando um galo – símbolo do país – sobre a figura de um alemão caído.
Em 1939, Hitler retomava o projeto de Bismarck, alimentado também pelo desejo da revanche sobre a derrota de 21 anos antes. A cerimônia de 11 de novembro significa, realmente, a grande conciliação? Há uma coisa que incomoda: tanto em Berlim, quanto em Paris, cresce a intolerância contra os “extracomunitários”, e se discute a afirmação de uma “identidade européia” que deixa de ser a do humanismo, e se associa à limpeza étnica do continente, já defendida há quase 80 anos – a partir de Berlim. Ainda agora, a Holanda decidiu expulsar 26.000 refugiados de seu território, e outros países se preparam para fazer o mesmo.

ALÉM DE UM JULGAMENTO

A retomada do julgamento, pelo STF, do pedido de extradição de Césare Battisti, deve ser analisada sem emoção, o que não é fácil. Há, no caso, o interesse do estado italiano, e, a ele se contrapondo, o interesse de nosso país. Se não os houvesse, os juízes atuariam conforme os seus sentimentos naturais de simpatia ou aversão diante do réu, conforme as provas apresentadas e a legislação pertinente. Assim costuma ser, desde o julgamento mitológico de Orestes, matricida que as Fúrias queriam punir e que a proteção de Apolo e da deusa Atena absolveu, ao influir na decisão dos seres humanos que constituem o tribunal, conforme a trilogia de Ésquilo.
Também aquele julgamento poderia ser interpretado como “político”, uma vez que Orestes não estava sendo julgado apenas por ter matado a mãe e seu amante. Ele havia exercido vingança política contra os assassinos de um rei e usurpadores do trono. Em Les Mouches, versão de Sartre do mito, essa razão política foi clara, e se associou à situação da França sob ocupação alemã em 1943, quando a peça foi encenada. Orestes encarnava, na metáfora sartreana, a Resistência Francesa. Ao que parece, e felizmente para Sartre, os alemães não entenderam a alegoria.
Deixando de lado a dúvida se o STF devia ou não decidir sobre esse ato do Executivo, uma vez que, ao ser provocado, o alto tribunal, em qualquer situação, é quem diz se é ou não competente, cabe, sim, discutir o problema da intromissão do governo italiano. Se o governo atual da Itália fazia da extradição uma questão de honra nacional, cabia-lhe agir pelos canais diplomáticos, e com discrição. Podemos admitir a sua pretensão de punir, de acordo com suas leis, alguém que considera um subversivo que teria agido como assassino comum. O que não podemos tolerar, é a arrogância dos italianos, que se dirigiram aos brasileiros como se fôssemos uma república bananeira ou feitoria do litoral africano.
As ofensas foram intoleráveis. Como se recorda, elas não se limitaram a criticar a decisão do asilo concedido a Battisti: chegaram a insultar o nosso povo. O deputado da Liga Norte, Ettore Pirovano, disse que não éramos um país conhecido por seus juristas, mas, sim, pelas suas dançarinas. O governo Lula tem sido paciente com os italianos. Podemos arriscar que Juscelino, em seu lugar, não só teria suspendido as relações diplomáticas, até receber as necessárias desculpas de Roma. E se estivesse no Planalto alguém da têmpera de Floriano Peixoto, as relações seriam rompidas no ato.
O que está em discussão é mais do que o destino de um homem, seja ele culpado em sua terra ou inocente dos crimes que lhe atribuem. Isso não é o mais importante, quando se trata da soberania do Estado brasileiro e da dignidade de nosso povo. A protérvia dos italianos não pode ficar sem resposta. O governo “exemplar” de Berlusconi cometeu erro crasso, ao reagir, como reagiu, à decisão de nosso Ministro da Justiça. Ao fazê-lo, provocou a natural reação de muitos setores da vida brasileira, que seriam indiferentes à sorte de Battisti. E levou esse erro ainda mais longe, ao dirigir-se ao Supremo Tribunal Federal para, nele, contestar uma decisão do poder executivo nacional. Se ele recorresse ao Tribunal de Haia, acataríamos, com todo o respeito, o seu direito em fazê-lo. Tanto é assim que o anúncio do governo de fato de Honduras, de que recorreria à Corte de Haia contra o Brasil, não causou qualquer espanto.
Bater às portas da nossa Suprema Corte como fizeram os italianos, é aleivosia sem precedentes em nossas relações externas. E essa atitude não se modificou. Ao enviar ao Brasil seu representante, Ítalo Ormanni, chefe do Departamento de Justiça do Ministério da Justiça Italiana, a fim de assistir ao julgamento, Roma reafirmou a intenção de constranger os ministros do Supremo com a sua presença.
Conforme a interpretação de eminentes juristas, a decisão do STF, nesse caso, não é a final. O Presidente da República pode agir conforme lhe facultam a Constituição e as leis, e negar a extradição, sem que isso seja ato de hostilidade contra o Supremo.
É estranho que muitos se sintam preocupados com a Itália. Sob Berlusconi, os governantes de um país que conheceu alguns momentos de esplendor na Historia, não se encontram em condições de dar lições a quem quer que seja.