25 de abr de 2018

A EXPIAÇÃO DOS CAPRINOS E OS DEMÔNIOS DE PANDORA.




(Do blog com equipe) - Os artigos da grande imprensa dando conta de que a transformação do  ex-governador e atual Senador Aécio Neves em réu pelo STF estaria enfraquecendo as bases de uma suposta “teoria persecutória” do PT, reforçam ainda mais, no lugar de esvaziar, a tese da judicialização e criminalização da política brasileira.

As várias manifestações em torno desse eventual “efeito” colateral “positivo”, do ponto de vista antipetista, apenas vêm aumentar a consistência da hipótese que abordamos no artigo “O alvo final é Lula”, em maio de 2017.

Diretamente acessado, apenas em nosso blog, por mais de 175.000 internautas, esse texto dizia que a armação contra Aécio e, de certa forma, também contra Temer, teriam como motivação subjacente - além de prejudicar obviamente os envolvidos - abrir caminho para viabilizar e tornar mais palatável aos olhos do povo e da opinião pública, um fato muitíssimo mais grave, do ponto de vista político: a condenação e posterior prisão - como ocorreu agora - do ex-presidente Lula,  com o seu impedimento de participar das eleições presidenciais de 2018.

Lula está na cadeia porque precisa transformar-se, como aconteceu com Jango, JK, Getúlio e Tiradentes (qual era mesmo o nome dos  três Ministros Desembargadores da Suplicação, que, chegados de Lisboa em 1790, condenaram Joaquim José a ser executado, esquartejado e espetado em diferentes locais da Capitania das Minas e a ter sua casa arrasada e salgada para todo o sempre?) em mais um símbólico,   didático, histórico, exemplo e aviso, de que certos limites não podem, neste simulacro de nação, ser ultrapassados impunemente.

Mesmo que se conte com o apoio da maioria dos brasileiros, pertencentes  àquilo que o jornalista Elio Gaspari costuma referir-se como o andar de baixo.   

Condenado por uma “compra” de imóvel que  não ocorreu e por supostas reformas que - como pode ser atestado pelos vídeos do xexelento “tríplex” postados nas redes sociais após a invasão do MST - também nunca aconteceram, Luís Inácio Lula da Silva transformou-se, nos últimos anos, no mais odiado, emblemático e referencial bode expiatório de uma sociedade atrasada, escravagista, apátrida, patriarcal e entreguista.

Dominada e manipulada por pilantras de variada fauna e mantida sob secular e violento controle por descendentes de feitores de escravos e capitães do mato.

Que não suportou que um sem dedo torneiro mecânico chegasse à Presidência da República.

Recuperando, com o pagamento da divida com o FMI e a criação do BRICS,  um mínimo de respeito para o país no exterior.

E que se desse às nossas diferentes senzalas - entre elas aquelas em que quilombolas são pesados e sopesados em arrobas - um  pouco de atenção e de humanidade.

Mesmo que fosse para transformá-las em consumidoras de serviços e  produtos fabricados pela Casa Grande, em um sistema capitalista periférico desigual e escandalosamente selvagem.

Dominado por uma oligarquia anacrônica, composta de barnabés cuja arrogância só rivaliza com sua ignorância estratégica.

Por “coronéis” toscos pseudo formados na doutrina imbecil do Estado mínimo sem maior noção da importância pós-mercantilista do fomento ao mercado interno e nenhum compromisso com o futuro ou a soberania nacional.

E por viralatistas e testas de ferro de empresas e interesses estrangeiros.

Já Aécio Neves entrou na fila da expiação dos caprinos, em um país em que até a Presidente da República teve uma ligação telefônica gravada e vazada ilegalmente, porque foi escolhido como alvo para uma arapuca - que não merece nem pode ser descrita de outra forma - montada, ao que tudo parece, por setores do Ministério Público, em conluio com empresários pressionados pela necessidade de livrar-se a qualquer custo da prisão e dos enlouquecidos tentáculos lavajatianos.

Os longos braços peludos e amacacados de uma “operação” equilibrada como um orangotango em loja de louça, que, no trato com o empresariado, já tinha ficado marcada   pela contumaz paralisação destrutiva de obras e projetos estratégicos e de defesa no valor de dezenas de bilhões de dólares e pela quebra das maiores empresas do país e de uma extensa cadeia de milhares de acionistas, investidores e fornecedores, com a eliminação - direta e indireta - de mais de um milhão de empregos.   

E pelo fato de ter, Aécio, se transformado, entre as lideranças mais tradicionais da política brasileira, em um ícone fácil do antipetismo.

Um símbolo capaz, caso venha a ser  condenado e preso, de dar uma ínfima  camada de verniz de isonomia a uma certa justiça que, no frigir dos ovos, é política, seletiva e parcial, cujas decisões tem sido contestadas e ridicularizadas por juristas do mundo inteiro.  

Afinal - diria a malta - se até Aécio, que apareceu trocando salamaleques e sorrisos com o juiz Sérgio Moro em foto que ficou famosa -  está correndo o risco de ser preso, como negar a imparcialidade da justiça ou aceitar que ela volte atrás colocando Lula de novo na rua, permitindo sua candidatura?

  • A Constituição que se exploda - pontificaria, finalmente, a turba - o importante é que no Brasil a lei vale para todos!

Homem de muita sagacidade, caberá aos historiadores do futuro investigar por quem o Sr. Aécio Neves deixou-se emprenhar pelos ouvidos para cometer o quase suicídio político de apoiar a tese do impeachment da Presidente Dilma Roussef, proposta pela figura esdrúxula e patológica de uma certa senhorinha paulistana, que para  isso foi paga pelo seu partido.

Ao aceitar contestar o resultado das eleições, replicando o discurso fascista de colocar em dúvida o sistema eleitoral brasileiro, e ajudar a tirar do poder uma presidente eleita, com base em um pretexto absolutamente furado do ponto de vista jurídico, o Sr. Aécio Neves foi levado a fazer o jogo da extrema-direita, que - como se pode ver pelo menos desde 2010 com uma simples busca nos comentários da internet - o odiou e desprezou durante a maior parte de sua vida pública.

E abriu a escura caixa de Pandora,   libertando, ou, no mínimo, cevando, a pão de ló, os demônios do lawfare, do punitivismo inquisitorial e da antipolítica que ameaçam devorá-lo agora.

Isso, quando se tivesse simplesmente defendido a sábia e equilibrada manutenção das regras do jogo democrático, dedicando-se a comandar uma oposição minimamente civilizada, estaria chegando a este momento de quase véspera das eleições como líder inconteste do PSDB e de um patrimônio de dezenas de milhões de votos.

Em grandes condições de ajudar a evitar - mesmo com uma eventual prisão de Lula - que o país descambasse, como descambou, para a beira do precipício em que se encontra, prestes a escorregar, por  falta de lucidez e de bom senso de diferentes personalidades do espectro político e social, ao final da apuração dos votos das próximas eleições, para a goela de um fascismo estúpido, truculento, perigosíssimo e absolutamente imprevisível  do ponto de vista histórico.

Tudo isso somado, não é preciso lembrar que a História escreve mais nas entrelinhas do que nas manchetes dos jornais que ainda sobrevivem nas bancas.

Contra a lógica política não há argumento.

A quem beneficia a condenação e a eventual ida de Aécio e de outros adversários políticos do PT para  a cadeia, sob a égide do ativismo “antipolítico” do Judiciário e do Ministério Público, em um contexto, uma batalha surda, que opõe procuradores, juízes e policiais a deputados e senadores e envolve, entre outras questões, o amplo direito de defesa e a lei do controle de abuso de autoridade?

A quem quer ver Lula solto - com todas as consequencias políticas implícitas nessa alternativa - ou a quem quer ver o ex-presidente da República passar os próximos 12 anos trancado e isolado, a sete chaves, em  regime fechado, dentro da prisão?

Incluindo, natural e principalmente, a extrema-direita antipetista que é muitissimo mais radical - e potencialmente mais bem sucedida, eleitoralmente - que o PSDB, e que depende visceralmente de Lula continuar atrás das grades para chegar ao poder neste ano ?

Mas não se pode esquecer que os sempre inesperados meandros da História não apenas castigam.

Eles também abrem as asas da  necessidade e da oportunidade, para  redimir e ensinar.

Entre as muitas batalhas em andamento, está a importância, como vimos, de resgatar senão o prestígio, ao menos as prerrogativas institucionais dos representantes eleitos, segundo o espírito e  os princípios constitucionais.

Mas, mais premente do que tudo isso, é saber o  que farão, com o resto de inteligência e de serenidade que puderem reunir, os homens mais importantes do  Brasil, frente ao desafio que se coloca, nos próximos meses, diante deles, como uma implacável esfinge guardando um deserto quente e seco varrido pelos ventos do destino.

Invocados nas fogueiras das jornadas de junho, à sombra das bandeiras auriverdes sequestradas pelos inimigos da democracia, para onde nos levarão os demônios de Pandora, que começaram a germinar sob as arcadas do Supremo, nos idos do famigerado mensalão?

Decifra-me ou te devoro.

Não é preciso ser mandrake para responder à incontornável pergunta formulada neste  momento pela leonina quimera da história brasileira.

Ou  se costura uma ampla, urgente e democrática frente antifascista para a disputa das próximas eleições presidenciais, ou o fascismo será levado  ao poder no segundo turno, graças à esterilização eleitoral de Lula, com o apoio de uma vasta coalizão fisiológica que unirá - como já o está fazendo - em torno de seu seio venenoso e murcho o que existe de mais oportunista, tosco, maligno, mendaz e desprezível na sociedade - e na política - nacionais.

11 de abr de 2018

O GRANDE VENCEDOR



(Do blog com equipe) - A cada vez que alguém divulgar uma notícia fake na internet sabendo que no fundo, intimamente, está mentindo miseravelmente e não passa de um canalha vil e desprezível... .  



A cada vez que cidadãos que dizem se preocupar com a Liberdade, a Nação, o Estado de Direito e a Democracia, assistirem passivamente à publicação de comentários econômicos, jurídicos e políticos mentirosos, e a outras calúnias e absurdos na internet, mansa e passivamente, sem resistir nem responder a eles... 



A cada vez que alguém disser que o Brasil está quebrado por incompetência de governos anteriores quando somos o quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos, temos 380 bilhões de dólares - mais de 1 trilhão e 200 bilhões de reais - em reservas internacionais, o BNDES está pagando antecipadamente 230 bilhões de reais ao Tesouro e a divida bruta e líquida públicas são menores do que eram em 2002 com relação ao PIB...  

  

A cada vez que alguém gritar que temos que entregar o pré-sal, a PETROBRAS, a EMBRAER, a ELETROBRAS e a Amazônia para os EUA porque somos ladrões e incompetentes para cuidar do que é nosso, como se o governo e as empresas norte-americanas fossem um impoluto poço de honestidade e moralismo e até o genro do Rei da Espanha não tivesse sido  apanhado em cabide de emprego da Vivo depois que esta veio para o Brasil aproveitando a nefasta privatização da Telebras, feita por gente que depois ocupou aqui a Presidência dessa empresa espanhola...



A cada vez que alguém defender raivosamente o livre comércio quando o EXIMBANK e a OPIC norte-americanos emprestam mais dinheiro público que o BNDES no apoio a exportações  e Trump adota sobretaxas contra a importação de aço e aluminio brasileiros e para vender aviões ao governo dos EUA a EMBRAER é obrigada a instalar primeiro com participação minoritária uma fábrica nos Estados Unidos... 



A cada vez que alguém vangloriar o estado mínimo, quando os EUA - que está mais endividado que o Brasil - está programando investir mais de um trilhão de dólares de dinheiro público em  obras de infraestrutura para reativar a economia, tem apenas no Departamento de Defesa mais funcionários federais que todo o governo brasileiro e todo mundo - principalmente a China -  sabe que não existem naçõoes fortes sem estados fortes, ou sem empresas nacionais privadas ou estatais poderosas que é preciso preservar e defender...   



A cada vez que alguém defender a volta de militares golpistas ao poder - porque milhares de militares legalistas foram contra o golpe de 1964 e foram perseguidos depois por defender a Constituição e a Democracia - abrindo mão de votar e suspirar e sentir o cabelo da nuca arrepiar quando vir um reco passar por perto...



A cada vez que alguém afirmar que em 1964 não houve um golpe contra um Presidente eleito, consagrado pelo apoio popular, poucas semanas antes, em um plebiscito amplamente vitorioso...



A cada vez que alguém defender a tortura e a volta dos assassinatos da ditadura, sabendo que em um regime de exceção ninguém está a salvo do guarda da esquina, como aprenderam golpistas que desfilaram pedindo o golpe de 1964 e depois tiveram filhos e parentes assassinados ou torturados pela repressão... 



A cada vez que alguém achar normal - desde que não seja seu parente - que, sem flagrante, uma pessoa possa ser levada para depor pela polícia sem ter sido antes previamente intimada a depor pela justiça...    



A cada vez que informações sigilosas de inquéritos em andamento forem vazadas propositalmente por quem deveria preservar o sigilo de justiça, para determinadas e particulares emissoras de televisão...    



A cada vez que alguém aceitar que um cidadão pode ser acusado,  condenado e encarcerado sem provas e apenas pela palavra de um investigado preso que teve muitas vezes sua prisão  sucessiva imoralmente prorrogada, disposto a tudo para sair da cadeia a qualquer preço...



A cada vez que alguém achar que algum cidadão pode ser acusado de ser dono de alguma propriedade sem nunca ter tomado posse dela ou sequer possuir uma escritura que prove que  é sua...



A cada vez que alguém acreditar que um apartamento fuleiro que vale menos de um milhão de reais pode ter servido de propina para comprar a dignidade de alguém que comandou durante oito anos uma das maiores economias do mundo...



A cada vez que alguém soltar foguetes por motivos políticos, celebrando sua própria ignorância e imbecilidade...



A cada vez que alguém aceitar promulgar leis inconstitucionais para ceder à pressão dos adversários adotando um  republicanismo pueril e imaturo...



A cada vez que a lei aceitar tratar de forma diferente - ou igualmente injusta e ilegal - aqueles que são iguais... 



A cada vez que um juiz ou procurador emitir - sem estar a isso constitucionalmente autorizado - uma opinião política...



A cada vez que juízes ou procuradores falarem em fazer greve para defender benesses como auxílio-moradia quando já ganham muitas vezes - também de forma imoral - perto ou mais de 100.000,00 reais, muito acima, portanto, do limite constitucional vigente, que é o salário de ministros do STF... 



A cada vez que alguém defender que "bandido bom é bandido morto" até algum parente se envolver em um incidente de trânsito ou em uma discussão de condomínio com algum agente prisional, guarda municipal ou agente de polícia...



A cada vez que alguém comemorar a morte de alguém por ele ser supostamente "comunista", ou negro, viciado, gay ou da periferia...



A cada vez que alguém ache normal - e com isso vibre - que candidatos defendam o excludente automático de ilicitude para agentes de segurança pública que matem "em serviço", em um país em que a polícia já é a que mais mata no mundo...



A cada vez que alguém achar que só ele tem o direito ou, pior, a exclusividade de usar os símbolos nacionais e o verde e amarelo - que pertencem a todos os brasileiros...



A cada vez que um ministro da Suprema Corte se calar quando for insultado publicamente por juízes e procuradores ou por um energúmeno qualquer nas redes sociais...



A cada vez que alguém acreditar que água de torneira - abençoada por um sujeito na tela da televisão -  cura o câncer, que a terra é plana, ou que Hitler - obrigado a suicidar-se durante a Batalha de Berlim pelo cerco das tropas soviéticas - era socialista... 



A cada vez que alguém achar que é normal que institutos de certos ex-presidentes tenham ganho milhões com a realização de palestras de um certo ex-presidente e outros institutos de outros ex-presidentes tenham de ser multados em todo o dinheiro ganho por palestras de outro ex-presidente...



A cada vez que alguém ache normal que alguém vá para a cadeia por não ter comprado um apartamento e outros sequer sejam investigados por ter comprado várias outras propriedades imobiliárias por preços abaixo do mercado...  

   

A cada vez que uma emissora de televisão, pratique, nas barbas do TSE, impune e disfarçadamente, política, “filtrando” e exibindo depoimentos “espontâneos” de cidadãos de todo o país, para defender subjetivamente suas próprias teses - ou aquelas que mais lhe agradem - em pleno ano eleitoral... 



A cada vez que alguém adotar descaradamente a chicana e  o casuísmo, impedindo que se cumpra a Constituição, porque está apostando na crise institucional e foi picado pela mosca azul quando estava sentado na principal cadeira do Palácio do Planalto…  



A cada vez que ministros do Supremo inventarem dialetos javaneses ou hermenêuticos lero-leros para justificar votos incompreensíveis e confusos que vão contra a Constituição e que a História não esquecerá nem absolverá...   



O Fascismo estará mais perto da vitória. 



E não perdoará, em sua orgia de ódio, violência e hipocrisia, nem mesmo aqueles que agora estão empenhados, por burrice, oportunismo ou covardia, em chocar o ovo da serpente e abrir-lhe o caminho para o triunfo.

5 de abr de 2018

A DEMOCRACIA ESTÁ MORTA. É PRECISO PROVIDENCIAR COM URGÊNCIA SUAS EXÉQUIAS, ANTES QUE OS URUBUS A DEVOREM






(Do  blog, com equipe) - Um caixão de pinho está barato.


Custa pouco mais de 500 reais, embora o Campo da Esperança - nunca um nome foi tão apropriado - informe que houve reajuste na tabela e o preço do jazigo de uma gaveta tenha saltado de    R$ 638,50 para R$ 668,89 e que a locação de uma capela para velório padrão 1 - o que quer que queira dizer isso - passará a custar R$ 253,34 e não mais R$ 241,83.

Considerando-se a condição física e de saúde da falecida, podem também servir, à moda nordestina e graciliana, apenas alguns sacos - que poderão ser costurados por quem a isso se habilite - desses que se encontram, todas as manhãs, nas caçambas de lixo, desde que não tenham sido furados pelos ratos e pelos pombos que ali comparecem para tomar a sua primeira refeição ao amanhecer.

Ou se pode, quem sabe,  fazer uma vaquinha, se  alguém se habilitar a comparecer e enfiar a mão no bolso.

Ou lançar na internet uma campanha de financiamento coletivo, dessas de modestíssimo orçamento e prazo mais curto ainda,  limitado pela premência do objetivo e das circunstâncias, de não mais de meia hora, por favor.     

O importante, da parte de quem com ela conviveu; de quem um dia a defendeu; de quem a ajudou na sua volta; depois da prisão e do exílio, ao Brasil; de quem vibrou a cada passo que ela dava, enquanto crescia, mais uma vez,  no coração do povo, depois de pisoteada e conspurcada nos anos de chumbo; de quem tentou avisar, pregando no deserto, que ela iria novamente para o saco, devido à irresponsabilidade golpista e às hesitações, equívocos e à inação estratégica da esquerda, principalmente na internet e no campo da comunicação; é que ela não fique sem enterro, ou jogada em uma vala comum, como indigente, embora, usando certa licença poética, fosse, digamos, mais democrático ou mais justo com tantos que morrem anonimamente, neste país, que seu cadáver fosse apenas desovado, na calada da noite, no meio do mato, nos muitos cemitérios clandestinos que cercam as metrópoles brasileiras.      

Usando o Whats App, que é mais barato, é preciso que se comunique ao mundo,  e à família, incluídos aqueles primos distantes que por canalhice ou covardia não irão aparecer no enterro, que a Democracia morreu ontem, pouco depois da meia noite, depois de vários atentados e longa perseguição e sabotagem que durou mais de 10 anos, no plenário do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes,  em Brasília.

Não foi por falta de aviso.

O julgamento do mensalão, com a importação e adaptação calhorda da Teoria do Domínio do Fato, para dar vida a uma denúncia feita por ladrões apanhados roubando nos Correios, para implementar a transmutação mentirosa de um esquema até então legal de financiamento de campanha no “maior escândalo da História do Brasil” foi o primeiro deles.

As famigeradas Jornadas de Junho, ao estilo Primavera Árabe, imediatamente infiltradas por golpistas e defensores dos assassinatos e torturas da ditadura, e de uma intervenção militar, foram o segundo.

Houve também o Golpe  no Paraguai, contra Lugo.

A primeira votação do impeachment de Dilma e a segunda.

O primeiro julgamento de Lula e o segundo.

E agora o terceiro, promovido por um esquema jurídico que aceitou distorcer, de fato, a interpretação de suas leis e a essência da Constituição, para impedir a qualquer custo a candidatura de um cidadão que está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e a sobrevivência política de sua agremiação partidária.

O republicanismo pueril e a adoção, por um governo de esquerda, de novas leis fascistas, depois de cair no conto do vigário do combate à corrupção, também deveriam ter servido de alerta de que estávamos encampando a arbitrariedade e a hipocrisia e nos encaminhando para um regime cada vez mais nefasto, perigoso e infame. 

Na ânsia de acalmar a cadela de Brecht -   o monstro insaciável do fascismo - fomos levando, qual Abraão para o holocausto, filho por filho, cedendo, como a Chapeuzinho Vermelho indo para a anunciada e inexorável cena na casa da Vovó, a  cada vez que era abordada pelo lobo no caminho.

Sempre acreditando, com uma ingenuidade - ou arrogância, o que não deixa de ser a mesma coisa - dignas de piedade, que o caçador e a salvação iriam aparecer depois da próxima curva.

Now Ines is dead.

A partir do Lulaço de ontem - como deverá ficar conhecido na história brasileira - fica decretado e totalmente estabelecido e sancionado pela maioria dos Ministros da Suprema Corte que qualquer cidadão pode ser condenado sem provas a mais de 12 anos de prisão em regime fechado, com base na mera delação de desafetos ou de investigados presos prévia e “provisoriamente” por semanas ou meses.


Pelo testemunho, sem provas tangíveis,  de quem a isso foi obrigado pela pressão dos acusadores e a imperiosa motivação de recuperar - ainda que de tornozeleira - sua liberdade.

Que não poderá um cidadão - ou melhor, sua mulher - desistir, no meio do caminho, da compra de um apartamento, que apesar disso ele será  considerado - apesar de não ter nenhuma escritura em seu nome - seu proprietário.

Mesmo que esse bem tenha sido publicamente usado e indicado como garantia em negócios, dívidas e contratos, pela construtora que ergueu o empreendimento.

Que bastará, sem fundamento, a confirmação automática de uma injustiça em segunda instância, para que, no lugar de ser corrigida, ela seja reiterada e o cidadão vá para a prisão, inapelavelmente.

Em um país em que há cem milhões de processos em andamento e 40% dos cidadãos que se encontram atrás das grades são presos provisórios, na maioria das vezes sem acesso a qualquer tipo de assistência jurídica.

Fica, ainda, complementar e paralalemente estabelecida, a prevalência de uma tal de “jurisprudência democrática”, a Lei Pilatos, o iudex vulgus.

Bastando para a prisão do cidadão, ainda  sem trânsito em julgado, que a turba se junte  nas ruas para escolher entre  Barrabás ou Cristo.

Fazendo “justiça” na base do coro irracional dos latidos babosos cheios de  perdigotos de ódio e hipocrisia.

Para, como nos mais reles linchamentos no início do século passado no sul dos Estados Unidos, prelibar o ruído da quebra do pescoço do “bandido”, procurando, com um pedaço de corda na mão e um brilho sádico e concupiscente nos olhos, a árvore ou o poste em que se dará a execução.     

Como certas flores do deserto, que só merecem florescer por curtos períodos, de décadas em décadas, a democracia brasileira está, mais uma vez, morta.

É preciso que algum amigo comunique o fato ao Instituto Médico Legal, para que seu corpo seja recolhido da frente do prédio da Suprema Corte e não comece, com o avanço das horas e da putrefação,  a incomodar seus augustos ministros e os ilustres vizinhos do Palácio do Planalto e do Congresso  Nacional.

Aqueles que amam a Pátria e a Liberdade  precisam  enterrar, sem mais delongas, ilusões e falsas esperanças o seu cadáver.

E tomar vergonha na cara e organizar, rapidamente, em sua memória, com equilíbrio e lucidez, uma frente ampla e democrática, para combater nas urnas os demônios do fascismo, que já começam a sobrevoar, em círculos, como abutres, a Praça dos Três Poderes, atraídos pelo odor da carcaça em decomposição.              

3 de abr de 2018

AS AMEAÇAS À JUSTIÇA ANTES DOS JULGAMENTOS DE LULA.




(Do blog com equipe) - Todas as vezes que se aproxima a data de um julgamento que envolva o destino de Lula, surgem também denúncias da existência de supostas ameaças contra juízes e desembargadores.

Aconteceu isso, segundo deu a entender Sérgio Moro, depois da vergonhosa condução coercitiva do ex-presidente.  

Com o julgamento dele em Curitiba - quando apareceram boatos e notícias "fakes" de que a esquerda iria partir para a violência - o que ajudou a justificar o clima de aberta hostilidade contra seus apoiadores na capital paranaense.

Com o julgamento dos recursos da sua defesa quando foi noticiado que os desembargadores do TRF da Quarta Região que o recondenaram depois por unanimidade, também estariam sendo ameaçados.  

E de novo, por coincidência, às vésperas do julgamento do habeas corpus de Lula no STF, com as recentes declarações do Ministro Luis Edson Fachin de que ele e membros de sua família estariam também recebendo chamadas intimidatórias. 

De comum, a recusa dos ameaçados de detalhar como e quais teriam sido as ameaças, e a postura da polícia de não comentar os "fatos" para não "atrapalhar" as investigações.

Ora, se o ministro Fachin, e também os desembargadores do TRF-4 dizem que foram ameaçados, não há porque duvidar de sua palavra.

O que não se pode é afirmar que essas ameaças tenham sido feitas pela esquerda, como querem fazer parecer, subrepticiamente, alguns meios e veículos de comunicação.

Porque elas podem, tranquilamente, ter partido da própria direita, tanto para jogar contra a esquerda a opinião pública, quanto para justificar depois o "rigor" e a posição contrária a Lula no próprio julgamento.

Mesmo que essa decisão já tenha sido previamente anunciada aos quatro cantos, com a antecipação do voto, como já fez de forma militante, com relação à prisão em segunda instância, o próprio Ministro Edson Fachin por tantas vezes.