26 de set de 2011

UMA SEMANA DE SETEMBRO

É quase certo que a semana passada tenha sido decisiva para a História deste século que se iniciou há dez anos, com os fatos misteriosos de Nova Iorque. A ONU, que não tem sido mais do que um auditório, espécie de ágora mundial, mas sem o poder político de que dispunham as praças de Atenas, ouviu quatro discursos importantes. Dois deles em nome da paz, do futuro, da lucidez e dois outros que ecoaram como serôdios. Dilma e Abbas, em nome dos que não aceitam mais essa divisão geopolítica do mundo; Netanyahu e Obama, constrangidos porta-vozes de um tempo moralmente morto. A assembléia geral estava separada em dois lados definidos, ainda que assimétricos.

A presidente do Brasil falava em nome das novas realidades, como a da emancipação das mulheres – pela primeira vez, na crônica das Nações Unidas, uma voz feminina abriu os debates anuais – e a impetuosa emersão de povos milenarmente oprimidos como agentes ativos da História. Mahmoud Abbas, embora em nome de uma pequena nação, representou todos os povos oprimidos ao longo dos tempos. Por mais lhe neguem esse direito, a Palestina é tão antiga que entre suas fronteiras históricas nasceu um homem conhecido como Cristo.

O holocausto judaico, cometido pelos nazistas, e que nos horroriza até hoje, durou poucos anos; o do povo palestino, espoliado de direitos com a ocupação paulatina de suas terras, iniciada com o sionismo no fim do século 19, dura há pelo menos 63 anos, desde a criação, ex-abrupto, do Estado de Israel, em 1948. Recorde-se que a criação de um “lar nacional” para os judeus estava condicionada à sobrevivência, em segurança, do povo palestino em um estado independente. A voz de Dilma, mais comedida, posto que representando nação de quase 200 milhões de pessoas no exercício de sua soberania política, teve a mesma transcendência histórica do apelo dramático de Abbas. A cambaleante comunidade internacional era chamada à sensatez política e à consciência ética. É duvidoso que ela corresponda a essa responsabilidade. Do outro lado, no discurso dissimulado e ameaçador de Netanyahu e na lengalenga constrangida de Obama, ouviram-se os rugidos dos mísseis tomawaks e o remoto estrondo que destruiu as cidades de Hiroxima e Nagasáqui, em 1945. Enquanto Netanyahu balbuciava, sem nenhuma coerência, as expressões de paz, seus soldados matavam um manifestante palestino na Cisjordânia ocupada.

Os dois arrogantes senhores não falaram em nome dos homens; bradaram em nome das armas e dos grandes banqueiros sem pátria que, desde os Rotschild, mantêm a força contra a razão naquela região do mundo. Como muitos historiadores já apontaram, os judeus ricos, sob a liderança da poderosa família de financistas, decidiram acompanhar o ex-pangermanista Theodor Herzl, na idéia de criar um estado hebraico, a fim de se livrar da presença constrangedora dos judeus pobres na Inglaterra e na Europa Ocidental.

Na origem da sua independência, os Estados Unidos ouviram a constatação sensata de Tom Payne, de que contrariava o senso comum a dependência de um continente, como a América do Norte, a uma ilha, como a Grã Bretanha. O governo norte-americano é hoje refém de um estado diminuto, como Israel, representado em Washington pelos poderosos lobistas, capazes de influir sobre o Capitólio e a Casa Branca, contra as razões históricas da grande nação.

Ao apoiar, vigorosamente, o imediato reconhecimento, pelas Nações Unidas, da soberania do Estado Palestino, Dilma não falou apenas em nome dos países emergentes, solidários com o povo acossado e agredido, cujas terras e águas são repartidas entre os invasores; falou em nome de princípios imemoriais do humanismo. Ela pôde dar autenticidade ao seu discurso com uma biografia singular, a de uma jovem que, na resistência contra um regime criado e nutrido ideologicamente pelos norte-americanos, foi prisioneira e torturada.

A presidente disse ao mundo que estamos, os brasileiros, trabalhando para que o Estado cumpra a sua razão de ser, ao reduzir as desigualdades sociais e ampliar o mercado interno, a fim de desenvolver, com justiça, a economia nacional. Embora com a prudência da linguagem, exigida pelas circunstâncias solenes do encontro, o que Dilma disse aos grandes do mundo é que eles, no comando de seus estados, não agem em nome dos cidadãos que os elegeram, mas das grandes corporações econômicas e financeiras multinacionais, controladas por algumas dezenas de famílias do hemisfério norte. O resultado dessa distorção são as crises recorrentes do capitalismo contemporâneo, com o desemprego, o empobrecimento crescente das nações, a insegurança coletiva e o desespero dos mais pobres. E os mais pobres não se encontram hoje apenas nos países do antigo Terceiro Mundo, mas nas maiores e orgulhosas nações. As ruas de Londres e de Nova Iorque, de Nova Delhi e de São Paulo são caudais da mesma miséria. Daí a necessidade de que se mude o projeto de vida em nosso Planeta. Para isso é preciso que as novas nações participem efetivamente da construção do futuro do homem.

Outro ponto axial de seu discurso foi o da necessária e urgente reforma da Organização das Nações Unidas, para que ela se restaure na credibilidade junto aos povos. Seu sistema decisório, construído na fase crucial da reacomodação do mundo, depois da tragédia da 2ª. Guerra Mundial, correspondeu a uma constelação circunstancial do poder, em que as maiores potências, possuidoras da bomba do juízo final, assumiam a responsabilidade de garantir hipotética paz, mediante o Conselho de Segurança. Contestado esse superpoder mundial pela consciência moral dos povos, desde o seu início, há quase duas décadas que se discute a sua ampliação democrática, mas sem qualquer conclusão efetiva. Dilma expressou a urgência de que isso ocorra, a fim de que o organismo possa ter a força da legitimidade política.

A paz, como a guerra, era, durante a Guerra Fria, um negócio a dois, e que só aos dois beneficiava. Sua disputa se fazia na periferia do sistema, a partir do conflito na Coréia, que inaugurou o sistema da divisão entre norte e sul, que se repetiria no Vietnã e em outros países.

Mais uma vez, no pacto Wojtyla-Reagan, a Igreja se somava ao dinheiro, para a aparente vitória do capitalismo, com a queda do muro de Berlim. Isso trouxe aos vitoriosos a ilusão de que a História chegara a seu fim, com a definitiva submissão dos pobres aos nascidos para mandar e usufruir de todos os benefícios da civilização.

Como registramos naqueles anos de Fernando Henrique, quando ele nos fez ajoelhar diante de Washington, os novos mestres do mundo se esqueceram de combinar com os adversários, como recomendou um filósofo mais atilado, o mestre Garrincha. A globalização, planejada para consolidar o condomínio dos países centrais, sob a hegemonia ianque, mediante a recolonização imperial, trouxe o efeito contrário, promoveu a unidade política dos países atingidos e se voltou contra seus criadores. Isso explica a emersão dos Brics. Foi em nome do futuro, das novas e poderosas forças humanas que se organizam, que o Brasil falou, por meio da presidente Dilma, em Nova Iorque.


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22 de set de 2011

EM BUSCA DA RAZÃO PERDIDA

O presente sempre angustiou os homens, desde que há registros históricos, e sempre houve os que temiam o futuro, tanto quanto os que nele punham a esperança da espécie. Da mesma forma, não faltaram, e ainda não faltam, os que sonham com o retorno à improvável Idade do Ouro, que permanece arraigada na alma dos homens, e encontra a sua versão mais radical dentro das fronteiras do paraíso bíblico.

Sofrer e sonhar, esperar e temer, lutar e resistir, são as condições que o ato de viver nos impõe. A vida não é projeto dos deuses, nem condenação cósmica. A vida é feita pelos homens, e só por eles, e a história, com seus acertos e desatinos, não é bruxa, nem fada: ela é decidida, em cada minuto, pela vontade dos homens e pelos fatos que essa vontade determina.

O que torna mais pesada a angústia de nosso tempo é a magnitude dos problemas sociais. O mundo inflou nestes últimos 200 anos, com o consumo exacerbado dos bens não renováveis, pelo menos de acordo com os nossos conhecimentos atuais, e suas conseqüências. Uma coisa é resultado da outra: as descobertas científicas tornaram mais fácil a exploração da natureza e o aumento da população, mediante o aprimoramento da medicina, melhor nutrição, mais conforto. Infelizmente, tais conquistas da inteligência não se fizeram universais. A fome e as endemias convivem com a ostentação e o luxo dos muito ricos. Embora em certas regiões do mundo a miséria seja estatisticamente maior, não há cidade imune da qual o sofrimento insuportável tenha sido expulso. Enquanto um só ser humano não tiver direito ao pão de seu dia, à dignidade de um teto para a noite, ao respeito de seu semelhante, o mundo continuará sendo inóspito.

Assim como, no século 18, alguns pensadores discutiam o envelhecimento das idéias do Renascimento (embora o termo só viesse a ser criado por Michelet bem depois, em meados do século 19), há algumas décadas que o Iluminismo vem sendo analisado por autores importantes. Alguns pensadores marxistas encontram, em seus postulados, os germes do totalitarismo, ao mesmo tempo em que os nazistas e os fascistas continuam a atribuir à Revolução Francesa (que foi a sua expressão política), a origem das idéias, que consideram desprezíveis, como as da igualdade, da liberdade e da imperfeita democracia moderna.

Seria bom que retornássemos ao Iluminismo, e examinássemos seus acertos e suas falhas. Conseqüência natural do Renascimento, o Iluminismo foi um dos grandes momentos da inteligência dos homens. Ele se iniciara no século 17, e estava associado ao crescimento da burguesia como classe emergente e aspirante ao domínio político dos estados europeus. Antes que os franceses lhe dessem o grande impulso com a publicação da Enciclopédia, obra titânica do esforço pessoal de Diderot, o Iluminismo já crescia com os ingleses Milton, Locke, Hobbes, que associaram suas inquietações humanísticas aos projetos políticos, sem os quais a filosofia é inútil diversão da mente.

Se fosse possível resumir o sumo da razão do Iluminismo, talvez a encontrássemos ainda no século 17, com a frase linear de Spinoza, quando, em seu Tratactus Theologico-Politicus, diz que, ao examinar a vida, o comportamento e as crenças humanas, é necessário non ridere, non lugere, neque detestare, sed intelligere. Não devemos rir, nem lamentar ou detestar, mas entender. O Iluminismo, ao separar a inteligência da fé e distinguir a ciência - ou seja, o conhecimento - da religião, foi a busca do entendimento, o retorno à filosofia prática dos grandes gregos.

A inteligência, tanto no Renascimento, quanto no Iluminismo, esteve a serviço da política, em seu melhor e em seu pior sentido. É provável que a exaustão da inteligência, que encontrou o momento alto na Idade Moderna com a Enciclopédia e os excelsos pensadores do século 18, seja responsável pela assustadora crise dos estados contemporâneos. No Renascimento, os príncipes se cercavam de intelectuais, os uomini d’ingegnio, como foram Dante e Da Vinci, da mesma forma que buscavam seus chefes militares, os condottieri, entre eles, Castruccio Castracani, um dos modelos de Maquiavel, e os lendários Sforza. Durante o Iluminismo, os pensadores não estiveram perto do trono, porque eles estavam, como servidores da razão, contra o Estado absolutista, principalmente na França dos últimos luízes.

Para entender a anemia política dos estados de nosso tempo, é necessário examinar o desengajamento da maioria dos intelectuais de hoje, sem esquecer que a própria inteligência se encontra em crise.

As grandes revoluções humanas não surgem espontaneamente. Elas, de certa forma, existem como possibilidade desde o início da História, mas são contidas pelas forças reacionárias. As idéias que as suscitam permanecem latentes, na obra de um ou outro pensador, seja nos ensaios, no teatro, nas narrativas épicas ou na poesia. Em alguns momentos, ganham força, mediante a discussão e o debate, e triunfam, mesmo que, algumas vezes, de forma efêmera.

As idéias, sem embargo de sua energia própria, dependem da ação. Os intelectuais, dizia, sem muita justiça, um dos precursores do Iluminismo, Erasmo de Rotterdam, são naturalmente medrosos. Isso só é válido para uma minoria, e de menor dimensão. A regra tem sido outra. Foram numerosos os homens de pensamento que tombaram em pleno combate, nas prisões ou nas terríveis condições da clandestinidade. Sem ir longe no passado, o século 20 foi exemplar nessa necessidade da inteligência em se fazer ação, como ocorreu na na memorável resistência contra os nazistas, os fascistas e os franquistas – e na luta pela autodeterminação dos povos contra o totalitarismo imperialista. A política é a práxis da razão, e, sem ela, o pensamento permanece encapsulado na teoria, ou, seja, na contemplação.

O grande motor do século 19, o do fulgor do Iluminismo, foi L’Enciclopédie, Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et des Métiers. Tratou-se de uma empresa, que nasceu com o interesse comercial de editores franceses - chefiados pelo maior deles, na época, Le Breton - empenhados na tradução da Cyclopaedia, dicionário universal inglês de Ephraim Chambers. Le Breton convidou D’Alembert e Diderot para a tarefa. Ambos entenderam que não bastava a tradução de um dicionário que, circulando desde 1728, já se encontrava perempto, e se limitava a uma erudição de natureza clássica, distanciada das inquietações práticas de 1747. Se o dicionário de Chambers tratava das artes e das ciências, Diderot acrescentou, para a sua enciclopédia, os verbetes sobre os ofícios profissionais. Dedicou grande parte às ilustrações, que, sobretudo no caso dos ofícios, contribuíram para que a obra servisse como manual de instruções.

Perseguida pela Igreja, uma vez que era essencialmente materialista, e incluída no Índex; mal vista pela monarquia, por reivindicar as liberdades políticas, a Enciclopédia passou por inúmeras dificuldades e chegou a ser proibida. Diderot foi preso por algum tempo, D’Alembert desistiu de ser o co-editor, a partir do volume oitavo, e os últimos tomos foram impressos e distribuídos clandestinamente. O custo era altíssimo. Quando relembramos que a composição, tipo por tipo, era manual, e as chapas, armadas uma a uma, em operação demorada, podemos imaginar o dinheiro necessário apenas para o trabalho tipográfico. Mais de dois mil gráficos trabalharam durante os vinte e um anos de edição, transcorridos entre o primeiro e o último dos 28 volumes, 11 deles só de ilustrações.

A Enciclopédia foi empreendimento revolucionário, e disso Diderot tinha plena consciência. A publicação serviu para derrubar os pilares do poder feudal de uma nobreza ociosa e parasitária, que consumia a maior parte dos recursos obtidos com o trabalho dos franceses; serviu como fermento da Revolução Francesa e a derrocada da monarquia; combateu a Igreja, que, sócia privilegiada da opressão e monitora do pensamento, ameaçava os intelectuais com os dogmas e mantinha os néscios submissos, mediante a ameaça do inferno. Como as luzes vinham de várias fontes, Diderot escolheu para o subtítulo da obra a trilogia do inglês Francis Bacon, que assim resumia as operações da mente: Memória, Razão e Imaginação.

Diderot foi mais do que seu diretor intelectual. Coube-lhe buscar os subscritores – o que representava para cada um deles a aplicação de uma pequena fortuna – entre os ricos mais esclarecidos, os pioneiros da indústria e do comércio e alguns banqueiros, como o mais eminente financista de Paris, Jacques Necker, que viria a ser a figura chave na Queda da Bastilha. Durante muito tempo, os enciclopedistas foram acolhidos no salão de Madame Necker, onde as novas idéias eram livremente debatidas.

O autor de “A Religiosa” agiu, ao mesmo tempo, como pensador, militante político e ativo empreendedor. Usando recursos que hoje encontramos na internet, como a remissão dos assuntos a outros verbetes, a inclusão das fontes de informação e referências bibliográficas, o que hoje chamamos de hiperlink. O texto incitava à ampliação crítica da informação, com o fantástico resultado que a História registra. E a empreitada fascinou todos os que a ela se associaram. O caso mais notável desse empenho foi o de Louis de Jacourt, um intelectual muito rico e de grande saber, que se formara em teologia, em Genebra, ciências naturais em Cambridge e medicina, em Leiden, na Holanda. Jacourt, sozinho, redigiu um quarto de todos os verbetes da Enciclopédia, sem cobrar um centavo pelo seu trabalho. Ao contrário, contratou vários assessores, que o ajudaram na exaustiva pesquisa daqueles tempos, e lhes pagou com seu próprio dinheiro.

Mesmo quando sua distribuição teve que ser clandestina, a Enciclopédia era discutida em todos os salões. Suas idéias estimularam o aparecimento de novos pensadores, que se somaras à elite da razão daquele tempo, formada por homens muitos deles nobres, como foram como Montesquieu, Grimm e Holbach. Eles se somaram a livres pensadores, como Voltaire, D’Alembert, Condorcet, Daubeton, Rousseau, Turgot e Quesnay, e a mulheres como Mme. D’Epinay, Sophie Volland, Mme Necker – e a notável proteção financeira a Diderot, de Catarina, a imperatriz da Rússia, para abrir o caminho do século seguinte.

O Iluminismo conduziu o mundo, durante o século 19 e a maior parte do século 20. A oposição que sofreu, com o Romantismo, foi débil, e só se manifestou de forma mais forte nas artes, sobretudo na literatura. Hegel e Marx, nas idéias sociais, ou seja, políticas, são dois dos maiores frutos do século 18. Um se seguiu ao outro, e de seu pensamento surgiram os grandes movimentos revolucionários do século passado. Apesar disso, os mais espetaculares resultados da especulação intelectual do século das luzes talvez tenham ocorrido na ciência e da tecnologia. A física e a química, impelidas, na maioria das vezes, pelas necessidades bélicas, avançaram, com os resultados fantásticos da vida cotidiana, principalmente na medicina. O espírito do mundo moderno é o da ruptura dos limites, na investigação do cosmos, na velocidade das comunicações e dos transportes, na voracidade do consumo e do conforto, na duração da vida. Enfim, no desequilíbrio.

Talvez nisso resida a antítese do enciclopedismo: ao avançar contra o ritmo natural do tempo, o homem pode ter perdido o domínio de sua própria história. Galileu tem uma frase inquietante sobre as relações entre o conhecimento e a insensatez: muito saber, muitas vezes, quer dizer muita loucura. A razão, sendo o uso da mente para a construção da autonomia, já representa, em si mesma, uma violação da natureza instintiva da espécie: talvez nessa intuição, Chesterton tenha afirmado que louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão – o que significa ler Galileu pelo avesso e entender que muita loucura pode significar muita prudência.

Mas no que se refere à política – que é a mais necessária das atividades humanas – o século passado foi o da exacerbação de um confronto milenar, que está nas glândulas da espécie, e que constitui o eixo das civilizações: o do egoísmo contra o altruísmo, dos ricos contra os pobres, dos fortes contra os débeis. É assim que poderemos ver em São Francisco de Assis a constatação de Chesterton – de resto um de seus grandes devotos – de que o louco é aquele que perdeu tudo, menos a razão. Não há outra forma para que a sociedade de Assis do século 13 poderia ver a conduta do jovem Bernardone, ao renunciar à vida confortável que a riqueza lhe permitia, romper com o pai, ao lhe devolver as roupas luxuosas que vestia e, com o manto pobre que o bispo de Assis lhe deu para cobrir a nudez, partir para outros atos de loucura, nos quais se escondia a mais pura razão. No século 20 tivemos testemunhos dessa aparentemente insana entrega à solidariedade, em nome do humanismo, que é sempre cristão, ainda que se identifique como agnóstico ou ateu, e mais cristão quanto menos acredite na recompensa eterna.

Foi assim que tivemos, entre outros, o forte testemunho de Simone Weil, nascida judia, convertida ao marxismo e, em seguida ao cristianismo, e que ao Vaticano conviria mais fazê-la beata do que conferir santidade ao espanhol Balaguer. Simone abandonou, ainda menina, as comodidades da família, viveu entre os oprimidos, quis participar da luta na Espanha, e um acidente a excluiu da atividade revolucionária, e sua renúncia a viver melhor do que viviam os mais pobres a levou à morte prematura, aos 34 anos, com tuberculose. São loucos, como Francisco e Simone, e muitíssimos outros, anônimos, que, no decorrer da História, perdem tudo, menos a razão.

O Iluminismo, que significara um outro salto da razão, não produziria só os movimentos de solidariedade, mas favoreceria, com a evolução industrial graças à inteligência técnica, a ascensão da burguesia capitalista, o imperialismo britânico e o colonialismo europeu, com a submissão da maioria da população do mundo. Impulsionaria, da mesma maneira, o mito da superioridade racial, que levou à estupidez do fascismo e do nacional-socialismo, com as duas grandes guerras mundiais, os milhões de mortos, e os conflitos continuados, sempre conduzidos pelos mais fortes contra os mais débeis do ponto de vista militar. Entre a invasão da Etiópia pela Itália e a da Líbia pelos paises europeus não há diferença essencial: é a arrogância dos que se acham superiores e que, por tal razão, se sentem com o direito aos bens naturais do mundo.

A luta contra o totalitarismo convocou os intelectuais do mundo inteiro, a partir da Guerra Civil da Espanha. O engajamento da inteligência ainda continuou, nas lutas contra os golpes militares na América Latina, no combate aos crimes cometidos pelos Estados Unidos no Vietnã, na resistência contra o racismo europeu. Embora muitos ainda permaneçam nas trincheiras da razão, o novo liberalismo dos anos oitenta, fortalecido pelo malogro do socialismo (para o qual contribuiu a traição de Gorbatchev e a capitulação da esquerda européia) conseguiu encabrestar a inteligência e afasta-la das preocupações políticas. É assim que se explica que a França de Clemenceau e Leon Blum, de De Gaulle e Mitterrand, esteja hoje entregue ao pigmeu Sarkozy, e que os Estados Unidos de Roosevelt e Eisenhower, depois da tragédia dos Bush, assista à erosão veloz da grande esperança que foi Obama. E nem se fale na Espanha, condenada a se entregar novamente à direita, saudosista do franquismo, depois da claudicação de Zapatero. Não falemos na Itália, entregue a um bufão, e, ainda assim, com a petulância de nos dar lições morais e recorrer ao Tribunal de Haia contra o exercício de nossa soberania.

Enfim, o mundo, sendo sempre o mesmo, piora – e reclama nova articulação da inteligência para a restauração da razão, ou da santa loucura, conforme os sentimentos de cada um de nós.

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21 de set de 2011

A VISITA DOS CONQUISTADORES

Com a arrogância de conquistadores em território ocupado, que lembra a visita de Hitler à França, em 23 de junho de 1940, Cameron e Sarkozy estiveram esta semana na Líbia. Há alguns meses, eles, com a cumplicidade de Obama e a genuflexão da ONU, lideraram a OTAN nos ataques aéreos ao país. Kadafi é tudo o que dizem dele. Megalômano, teria ordenado o atentado contra um avião de passageiros, que explodiu sobre Lockerbie, na Escócia, e matou 270 pessoas, em 1988, além de governar o seu povo com mão pesada. Kadafi não é inocente. Mas é um erro não admitir que ele usou dos recursos naturais do país, por ele nacionalizados, a fim de dar relativo bem-estar a seus compatriotas. Não só assegurou a assistência gratuita à saúde, em qualquer caso, como garantiu a educação de todos, incluída a universidade.

Aceitar esse fato é importante, a fim de pesar as conseqüências históricas da intervenção militar estrangeira, ainda em curso. É quase certo que Kadafi não disporá de tempo, nem de espaço para uma resistência duradoura e efetiva. É sem embargo prudente considerar que o vasto território líbio, que se estende pelo amplo deserto ao sul, foi apenas tocado, em seu litoral, pela supremacia dos meios bélicos estrangeiros. Se Kadafi se encontra sob a proteção de chefes tribais, encontra-lo nos areais do Saara será mais difícil do que localizar uma agulha no palheiro. Ele, que é ainda relativamente moço, terá condições – se contar com essa proteção política atávica – de iniciar operações de guerrilha contra os seus sucessores, com resultados imprevisíveis.

Nesse momento, e apenas nesse momento, Sarkozy e Cameron se sentem vitoriosos. Posam de condôminos dos Estados Unidos na aspiração imperial, e crêem que podem, em pouco tempo, liderar nova repartição colonial da África, como a ocorrida em Berlim, em 1884/85. Naquele tempo, a China estava de joelhos, a Rússia mergulhada no desatino dos Romanov, e os Estados Unidos mal iniciavam o seu projeto de expansão mundial. Com isso, Sarkozy e Cameron acreditam também injetar um pouco de oxigênio em seus países, que passam por crise econômica, política e financeira grave, em decorrência da subordinação de seus governos aos interesses dos grandes bancos europeus. Mas, como nos belos versos de Cazuza, o tempo não pára, e o futuro costuma repetir o passado.

Os dois líderes, com seu sorriso, que tudo indica ser provisório, estão felizes. Lideraram uma coalizão que tinha como propósito salvar vidas inocentes no confronto entre rebeldes e o governo – e fizeram, com sua intromissão nos assuntos internos de um país até então soberano, mais de vinte mil mortos. Para defender os direitos humanos, eliminaram os titulares de tais direitos que anunciavam garantir. Se não se tivessem envolvido no conflito, provavelmente não haveriam tantos mortos, mas não poderiam, agora, reivindicar a repartição do petróleo líbio - antes que possam repartir também o fosfato e outros minerais. Daí sua equivocada alegria.

O artigo 2º da Carta das Nações Unidas, estabelece que as relações entre os países devem obedecer aos princípios da igualdade de direitos e de respeito à autodeterminação dos povos. O bom senso, mais do que até mesmo os compromissos éticos – se os houvesse nas relações internacionais – recomendaria a não intervenção nos assuntos internos das comunidades políticas soberanas, qualquer que fosse o pretexto. Isso não ocorre. A não intervenção é uma retórica da hipocrisia, que tem sido violada sempre que é de interesse das nações mais bem armadas. Não há só hipocrisia, mas sobra o cinismo, como no caso líbio: para “proteger” os presumidos direitos humanos violados, as armas dos interventores mataram milhares de inocentes – e ainda mantêm o discurso que, com os resultados sabidos, passa a ser abjeto.

É da elementar compreensão da Realpolitik que uma rebelião armada contra qualquer governo seja reprimida pelo poder constituído. O governo de Kadafi era legitimado pelo consentimento dos líbios. Se eles se rebelaram contra esse poder, e se Kadafi reagiu com suas forças armadas, o conflito deveria ter sido resolvido sem qualquer intervenção externa. Provavelmente o descontentamento contra Kadafi e o seu desgaste pela longa permanência no governo absolutista, levassem os rebeldes à vitória, que seria legítima. E esses rebeldes, sem qualquer intervenção externa, reorganizariam, como bem entendessem, sua sociedade política. No momento em que sua aparente vitória se deve a forças externas, ela é frágil e pode ser provisória.

Cameron e Sarkozy, de acordo com alguns observadores, estiveram na Líbia a fim de contrapor-se à presença e provável influência de Erdogan no país. Ninguém sabe, exatamente, o que os membros do instável Comitê Nacional de Transição pensam dos problemas regionais (neles, o conflito entre Israel e a Palestina, a situação da Síria e do Irã, a alentadora dúvida da Arábia Saudita e os interesses estratégicos da Rússia e da China no Mediterrâneo), mas é natural que ouçam o premier turco, que representa um país com forte presença islâmica. Há a possibilidade de que o novo governo líbio, constituído de rebeldes, não venha a ser mero delegado dos estrangeiros, e assuma postura independente. Para isso contam com a simpatia das novas potências mundiais, como a Rússia – que pediu à ONU o fim da intervenção aérea no país - e a China.

Mais uma vez, na História, a paz do mundo depende do Mediterrâneo, esse lago que une os três maiores continentes do planeta.

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16 de set de 2011

OS VAMPIROS, AS REMESSAS DE LUCRO E A TRAGÉDIA DA DESNACIONALIZAÇÃO.

A informação de que as remessas de lucros e dividendos por parte de multinacionais – especialmente do setor financeiro e de telecomunicações – atingiram mais de 34 bilhões de dólares nos últimos 12 meses dá uma idéia da sangria com a qual estamos alimentando - com a nossa força de trabalho e de consumo - nossas ex-metrópoles coloniais, cada vez mais parecidas com um bando decrépito de vampiros lutando para não voltar ao pó.

Essa soma, de 34 bilhões de dólares, representa mais de 60% do total do déficit em conta corrente, que deve passar de 50 bilhões de dólares neste ano, apesar do aumento – que mais uma vez colocou em xeque as agourentas “previsões” dos “agentes” do “mercado” – de mais de 70% no superávit comercial deste ano.

Um caudaloso amazonas de dinheiro, que está indo para o exterior, todos os anos, em troca de absolutamente nada.

De lá, como nos tempos das caravelas, as naus só tem trazido duas coisas:

Espelhinhos, em forma de press-releases, que depois são publicados aqui pelos mesmos enganadores que continuam defendendo, na mídia, que fizemos um excelente negócio entregando para os estrangeiros nossas empresas estratégicas e nosso mercado interno nos anos 90.

E centenas de “técnicos” e “executivos”, que estão invadindo, todas as semanas, nosso mercado de trabalho - ao ritmo de mais de 50 mil licenças expedidas pelas autoridades nos últimos meses - vindos de países em crise que, como é o caso da Espanha, estão com uma taxa de desemprego de mais de 20%.

Isso quer dizer que, enquanto o Brasil luta, desesperadamente, para desvalorizar o real e aumentar as exportações, minadas por um dólar artificialmente baixo, nosso dinheiro vai para o ralo, para salvar da quebra empresas incompetentes de países idem, que só conseguiram aportar aqui nos anos 90, graças a dinheiro subsidiado da União Européia e a financiamentos – pasmem - do próprio BNDES.

Para citar apenas um caso - de uma empresa não necessariamente européia, mas de um país que está hoje com uma dívida de mais de 4 trilhões de dólares, por estar sustentando duas guerras perdidas - a American Southern Energy comprou a Eletropaulo, que tinha centenas de milhões de reais em caixa, com financiamento a juros subsidiados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

Não satisfeita de botar a mão nesse dinheiro, e de não investir o que devia na expansão da infra-estrutura da empresa, a AES atrasou várias prestações durante o Governo Fernando Henrique Cardoso, a ponto do Governo Lula ter sido obrigado a entrar na justiça em Nova Iorque para recuperar ao menos parte do prejuízo, conseguindo fazer isso com a constituição da Brasiliana, holding que reúne os ativos desse grupo no Brasil, e da qual o BNDES teve de ficar sócio.

E o que ganhamos com o maior processo de esquartejamento, desmonte e desnacionalização da economia brasileira em 500 anos de história, feito a toque de caixa e vendido como a grande panacéia para a situação do país naquele momento?

A dívida líquida praticamente dobrou em oito anos. O dólar estava a quase quatro reais em 2002. No mesmo ano, o salário mínimo valia cerca de 80 dólares. Um saco de arroz chegava a custar 12 reais no supermercado da esquina. A SELIC estava em quase 25% ao ano. Devíamos 40 bilhões de dólares ao FMI. Nossas reservas internacionais líquidas eram de menos de 20 bilhões de dólares. E isso sem contar a dívida externa do setor privado e o que devíamos ao Clube de Paris.

Para completar o descalabro, pagamos, hoje, graças a essas competentes privatizações, as mais altas tarifas do mundo em telefonia celular e internet, segundo pesquisa feita em 187 países pela União Internacional de Telecomunicações.

Agora, cada vez que um brasileiro que cai no conto das multinacionais compra um chip da Vivo, da OI, da TIM ou da Claro, paga uma conta de luz – dependendo da distribuidora – ou faz uma operação bancária com o Santander, estamos mandando esse dinheiro para uma viagem sem volta, com passagem só de ida, para países que na época não tinham nenhuma empresa que pudesse se comparar à Telebras, e que, como desenvolvedores de tecnologia de telefonia celular, eram excelentes produtores bacalhau e azeitonas.

Povos que ostentam uma renda per capita 3 ou 4 vezes maior do que a nossa – o que muitos brasileiros acham uma grande vantagem - mas que tem uma dívida per capita 4 ou 5 vezes superior à sua renda.

Controlados por governos tão competentes e avançados na administração de sua economia que estão agora, com a discutível exceção do México, literalmente quebrados, e dependendo, para continuar em pé, do nosso dinheiro e dos nossos mercados.

E agora, o que fazer para sair dessa armadilha?

Como desmontar mais essa bomba-relógio financeira - a outra é a dos juros - que montaram para nós, alegre e despreocupadamente, nos últimos anos do século passado?

Fazer uma campanha na internet para que os brasileiros consumam com um mínimo de consciência e boicotem produtos e serviços das empresas multinacionais que estão sangrando o país ?

Exigir que parte dessa fabulosa quantia fique no Brasil, onde poderia, não fosse a criminosa irresponsabilidade de quem vendeu a nação a preço de banana, estar gerando renda e emprego para milhões de brasileiros?

Por muito menos, quando se falou em taxar a remessa de lucros das multinacionais, os Estados Unidos promoveram e financiaram o Golpe Militar de 1964.

Criar grandes estatais brasileiras para conquistar ao menos uma parcela desse mercado e segurar parte desse dinheiro dentro do Brasil?

Isso seria um deus nos acuda! Basta ver a reação hidrófoba com que foi brindado o governo quando se falou em colocar a Telebras para trabalhar direto com o público na prestação de serviços de banda larga.

Emprestar dinheiro do BNDES para as empresas de capital nacional, para diminuir o tamanho da sangria?

Isso também não pode, como se viu no caso da OI. Atrapalha a “livre” concorrência. Para os “agentes” do “mercado”, o normal é o BNDES fazer o contrário: emprestar dinheiro para grupos estrangeiros comprarem nossas empresas dentro do Brasil.

O Governo, como sempre acontece, vai ser acusado de estar re-estatizando a economia e interferindo no mercado, como se, no mundo em que a China está prestes a dominar, as maiores empresas não fossem estatais, e cada país não defendesse, descaradamente, os interesses de seus grupos e marcas em seus mercados internos ou no exterior.

Como a questão é urgente – a Nação não agüenta um rombo maior do que esse no balanço de conta corrente no ano que vem - sugiro o caminho mais curto e mais contundente.

Se não for possível aplicar várias dessas saídas ao mesmo tempo, aproveitar a baixa das bolsas para a compra direta de participação nessas empresas, dentro ou fora do Brasil, usando recursos do fundo soberano ou das reservas internacionais, para recuperar ao menos uma parcela dos gigantescos recursos que estão nos seqüestrando, à base de quase 100 milhões de dólares a cada dia.

Não podemos continuar tirando dinheiro do bolso de milhões de brasileiros para sustentar, em Madrid ou Barcelona, a boa vida dos acionistas da Vivo ou as estripulias e as fraudes do Sr. Emilio Botin.

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15 de set de 2011

A HORA DO MEDO

Nota do blog: reproduzo abaixo, sem qualquer alteração, o texto do artigo que publiquei, no dia 12 de setembro de 2001, no Correio Braziliense. Ele foi redigido na tarde do dia dos atentados, sob o calor dos fatos. Nada a acrescentar, a não ser as crianças trucidadas no Afeganistão, no Iraque, e, agora, na Líbia , sem falar nas que morriam antes e continuam a morrer na Faixa de Gaza.

Mauro Santayana


Qualquer que tenha sido o grupo terrorista responsável pelo surpreendente ataque contra Nova York , o alvo foi o modelo de sociedade que os Estados Unidos adotaram e pretendem impor ao mundo. O golpe pode ter sido desfechado por palestinos ou curdos, iraquianos ou corsos, líbios ou porto-riquenhos, como pode ter sido obra da direita norte-americana.

Pode significar represália contra a morte de crianças palestinas pelos mísseis israelitas, como pode expressar a vingança dos direitistas internos contra a execução do detonador de Oklahoma.

Um amigo norte-americano me disse, recentemente, que os seus compatriotas se encontram exaustos. Já não se orgulham, como se orgulhavam antes, de seu way of life.

Fortalecida a hegemonia mundial com a derrota do grande adversário, os Estados Unidos só têm sustentado a sua grandeza mediante uma economia fundada na virtualidade eletrônica e na ameaça que representam seus arsenais militares. No interior do país aumenta a pobreza, com a redução real dos salários e o endividamento cada vez maior das famílias norte-americanas. Não há sinais de melhora à vista. Anuncia-se forte recessão mundial, assunto de que tratamos, neste mesmo espaço, na semana passada e ainda não foi encontrado o caminho para enfrentá-la.

Depois da penosa depressão dos anos 30, a grande saída para a economia do país foi a guerra: Pearl Harbour lhes deu o pretexto, mais interno do que externo, para a participação no conflito e essa participação os levou ao comando da economia global. E agora? Já houve quem comparasse a explosão do World Trade Center, símbolo do capitalismo globalizador, ao ataque de dezembro de 1941 à grande base naval da Ásia.

Mas as coisas não são exatamente as mesmas. Em 1941, havia uma guerra em curso, e a Alemanha, tendo rompido o pacto Molotov-Ribbentrop, já estava ocupando grande parte da União Soviética. A Inglaterra sofria os ataques aéreos, desfechados pela Luftwaffe, a França estava ocupada havia mais de um ano, sofrendo, além da presença militar do inimigo, o vexame que representava o governo capitulacionista de Vichy.

Toda a simpatia do ocidente e dos povos submetidos ao Eixo estava com os Estados Unidos e seu grande presidente Franklin Roosevelt.

Hoje não ocorre o mesmo. O presidente dos Estados Unidos, e essa é a conclusão da grande imprensa norte-americana, é um texano bisonho, escolhido em pleito controvertido, que declarou guerra aos interesses do mundo quando rejeitou os compromissos do Protocolo de Kyoto e serve de chacota aos humoristas. Nós, brasileiros, temos ainda outras preocupações com Mr. Bush: ele e seu vice-presidente declararam, recentemente, que os países devedores devem vender suas florestas para pagar a dívida externa. Como não existem mais florestas na África, já sabemos para quem é o recado.

Pode ser que os falcões do Pentágono aproveitem o clima de vingança para optar por uma guerra contra todos, e Blair já fala em solidariedade das democracias, mas, se assim agirem, os Estados Unidos correm imenso risco.

Não é possível, nestas primeiras horas, identificar os responsáveis, ainda que possam surgir numerosas versões no calor dos fatos. Um exame sereno da situação mostra, no entanto, que seria muito difícil, ainda que não improvável, a um grupo de terroristas estrangeiros seqüestrar tantos aviões, sem qualquer suspeita e, mais ainda, atingir o coração do sistema militar, que é o Pentágono. Se o grupo é estrangeiro, é conveniente acreditar em algum tipo de cumplicidade interna.

A verdade poderá assustar mais ainda os dirigentes americanos: nada seria pior do que uma sublevação interna nos tempos modernos. Não seria como a Guerra da Secessão, com os interesses delimitados pela geografia, mas uma explosão de descontentamento difuso. Na Casa Branca não se encontra Abraham Lincoln, habita-a Mr. Bush, o que não é o mesmo.

O mais triste é saber que morreram pessoas inocentes, que nada têm a ver com os donos do mundo. Muitas das vítimas eram apenas turistas que visitavam as grandes e orgulhosas torres. As torres simbolizam, na arquitetura, a petulância dos que pretendem erguer-se à altura dos céus, como pontes erguidas para o absoluto. Outras eram apenas os descuidados e confiantes passageiros dos aviões.

Compraram os seus bilhetes, telefonaram para as famílias, leram os seus jornais e, antes da morte, se assustaram ao ver que voavam entre os grandes edifícios da cidade.

Qualquer que venha a ser a reação dos

Estados Unidos, o mundo mudou, será outro depois das explosões de Nova York e a fragilidade do sistema se tornou evidente.

Não há pessoas invulneráveis à violência de nosso tempo; não há tampouco povos invulneráveis. A mais poderosa das armas é ainda o homem e a sua disposição para a morte, em nome de uma causa, de um dever, ou, simplesmente, de um equívoco.

No fundo, o que está em jogo é a probabilidade ou não de a humanidade vencer esse tempo que, para citar o grande humanista norte-americano Thomas Paine, põe à prova a alma dos homens.

Em Belfast, os protestantes tentam agredir as crianças católicas a caminho das escolas.

No Oriente Médio, os israelitas matam outras crianças, como represália a ataques dos palestinos. Nas cidades norte-americanas, crianças assassinam professores e outras crianças nas escolas e o seu exemplo é seguido no mundo inteiro, até mesmo em nosso país.

O medo é nosso vizinho mais próximo e entra em nossa casa pelos canais de televisão.

O medo em Nova York poderá, ao agravar-se, igualar-se ao medo que se apossou da orgulhosa Cartago, tal como, sucintamente, o descreveu, com merveilleuse désolation, o grande Montaigne:

“Não se ouviam senão gritos pavorosos. Viam-se os moradores saírem de suas casas, atacarem-se uns aos outros, entrematarem-se, como se se tratasse de inimigos que tivessem vindo ocupar a cidade. A isso chamaram terror pânico, em homenagem a Pan...”

Pan é um deus destes tempos, modernos e americanos, of course: os gregos o criaram para cuidar da masturbação e do medo.

A DIALÉTICA DA INDEPENDÊNCIA

Entre muitos outros danos causados pelo regime militar, houve o da banalização, no pior sentido, dos símbolos nacionais, entre eles as festas da independência. Mais do que um dia de desfiles e de discursos repetitivos, sete de setembro deveria ser - como em algum tempo foi - motivo de reflexões sobre a nossa história e o destino que pretendemos.

Como tudo na vida dos homens, a independência das nações nunca é situação completa, conquista definitiva. Trata-se de um processo, do qual a declaração de autonomia, como a de Pedro I na beira do Riacho do Ipiranga, é apenas um episódio. A independência se faz em nossos atos cotidianos, da mesma forma que ela pode ser negada diariamente, na corrupção, na timidez, no medo, na falta de crença em nossa gente ou na submissão aos outros povos. Ao aceitar a presumida superioridade de outras nações, renegamos a nossa, da mesma forma que diminui a nossa dignidade imaginar que somos superiores a qualquer outro povo. Não podemos obrigar ninguém a amar a própria pátria, mas é do direito de qualquer nação desprezar os que a desprezam.

Não é independente a nação que, para manter o bem-estar e a segurança de seus membros, explora outras, militarmente mais débeis. Atenas e Roma foram dois impérios importantes, e os mais conhecidos da Antiguidade clássica, mas seria impróprio considerar sua soberania como independência. Independentes são os povos que mantêm, com os vizinhos, relações de igualdade, ainda que possam obter vantagens comerciais, graças ao engenho de seus homens de negócios ou à singularidade de seus recursos naturais. Quando, no entanto, sua prosperidade se assenta nas armas, por mais poderosas pareçam, elas dependem dos povos que exploram. Tomemos exemplos mais recentes dessa negativa dialética do que convencionamos chamar independência, o dos Estados Unidos. Como pode ser independente um país que, de acordo com seu então presidente, George Bush filho, é “viciado em energia”, e deve mover guerras distantes, a fim de garantir o suprimento de petróleo? Como se vê, não são os paises árabes que dependem dos Estados Unidos.

Nenhum país do mundo foi tão bem dotado pela História, com imensos recursos naturais, entre o Pacífico e o Atlântico. Mas o sistema de vida que adotaram os fez dependentes do saqueio dos bens naturais e do trabalho semi-escravo de outros povos. Assim o fizeram na América Latina, na Ásia, na África e no Oriente Médio. Não se trata de um juízo moral – embora também caiba – mas da constatação de um movimento histórico destes dois últimos séculos.

Essa análise sucinta não exclui a liderança natural de alguns povos, quando ela se exerce mediante a solidariedade, embora isso seja raro. A Realpolitik histórica mostra que, quase sem exceção, o império se exerce mediante a força ou a ameaça da força. É esta realidade que obriga as nações ao desenvolvimento científico e tecnológico e à manutenção de corpos militares bem armados e adestrados, com a esperança de que o seu emprego nunca venha a ser necessário.

Enquanto o mundo não for, em si mesmo, independente, isto é, enquanto o egoísmo, pessoal e das nações, mover os homens, vale a advertência de que a paz só se obtém mediante a expectativa da guerra.

O processo de independência, que se iniciou quando começamos a ter consciência de nação, chega, no início do século 21 a um bom momento. Daqui a onze anos fará dois séculos da criação formal do estado brasileiro, embora a data seja apenas marco simbólico. Ainda enfrentamos dificuldades, mas já podemos considerar que o processo vem avançando, na medida em que se exerce, embora compulsoriamente pela ação do governo, a solidariedade nacional. Com isso, ampliou-se o mercado interno, com a evolução mais rápida da economia e da cultura. É aqui que mora o perigo: os que sempre exploraram os nossos recursos e o nosso trabalho, com a cumplicidade de maus brasileiros, não titubearão em tentar conter o nosso avanço. Não podemos, confiados no êxito destas horas, baixar a guarda. Temos que empregar os recursos obtidos pela inteligência e pelos esforços de nossos trabalhadores, nos investimentos produtivos, na ciência, na tecnologia, na educação – mas, sobretudo, no fortalecimento de nosso poder bélico. O destino já nos dotou de uma natureza suficientemente rica, o que nos poupa de sonhos expansionistas, mas nos obriga a defender o nosso solo e o nosso povo com todos os recursos das armas e da honra.

É assim que devemos ver, no simbolismo da data, o compromisso da nação consigo mesma e com o destino da humanidade. Isso significa reforçar os pactos de ação solidária com os paises que compartilham da mesma visão do mundo futuro que nos estimula.

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http://jaderresende.blogspot.com/2011/09/dialetica-da-independencia.html

4 de set de 2011

OS JUROS E O BANCO CENTRAL

Os defensores da plena autonomia do Banco Central consideraram um erro a redução da taxa Selic, de meio ponto percentual, para 12% ao ano – ainda assim, a mais alta entre as economias industrializadas. Sempre que isso ocorre, os mesmos interesses se erguem, na defesa dos rentistas. Como as moedas não copulam, nem partejam, quem paga os juros é o trabalho, que produz a mais valia obtida pelo capital. Desculpem se a expressão é marxista, mas qualquer um que pense um pouco não precisa de Marx e seus textos contestados pelo fundamentalismo mercantil, para chegar à verdade. Como trabalho se entenda também a administração das empresas produtivas, seja diretamente pelos acionistas ou gerentes contratados. Mas o rentista clássico, que vive longe das máquinas ou, que, como banqueiro, manipula o dinheiro alheio - e leva à angústia e ao desespero os devedores, os estados à falência, como está ocorrendo agora, com o desemprego e a violência - sua atividade não pode ser vista como produtiva, por mais se esforcem os seus porta-vozes, ao expor os argumentos de uma pseudo-filosofia econômica. Esse “senhorio” da moeda, em nome de falsa racionalidade técnica, que está sempre a serviço do capital, e não das pessoas, tem sido responsável pelas grandes crises do capitalismo moderno, como a História demonstra.

O Banco Central – e os lugares comuns têm a sua força – vem sendo, no Brasil, mais do que em outros países, a central dos bancos. Ora, seus diretores, por mais geniais sejam, não dispõem de legitimidade política para cuidar da moeda, que é o símbolo mais forte da soberania nacional. A moeda representa os bens da comunidade, acumulados com o trabalho de gerações sucessivas. Para que assegure seu valor real, ela deve ser emitida por quem tenha a legitimidade política para fazê-lo: os eventuais governantes do Estado, como detentores da vontade nacional. Sem voto, nos estados democráticos como se identifica o nosso, não há poder legítimo. De duas, uma: ou o Banco Central se submete às decisões políticas do governo nacional, ou se estará sobrepondo ao poder dos eleitos para conduzir o Estado, e, assim, colocando-se acima da soberania do povo.

A quem interessa manter os juros altos? Há um axioma, que nunca se respeitou no Brasil, de que a taxa de juros não pode superar a taxa de crescimento do PIB. O raciocínio, empírico, é irretorquível: uma sociedade não pode pagar mais de juros do que o que ela obtém com o seu trabalho. A tradução de um leigo, como o colunista, é simples: trata-se de uma extorsão cometida pelo sistema financeiro contra os que trabalham e produzem. É mais do que uma transferência de recursos, é uma usurpação do poder real sobre a sociedade. Isso explica a dívida pública acumulada como confisco de parcela dos resultados do trabalho dos brasileiros.

É um mistério que o país continue crescendo dentro desse sistema. Talvez ele se explique se considerarmos as estatísticas uma ficção. É provável, portanto, que o nosso PIB real seja maior do que o IBGE constata no exame do comportamento da economia. Se assim for, que viva a informalidade, menos sujeita à expropriação dos bancos e aos instrumentos de aferição oficial.

A economia não é, como dizem os que a conhecem melhor, ciência exata. Deveria ser ciência moral, mas não é, a não ser que ouçamos alguns santos, que dela trataram, como Santo Antonino de Florença, do século XV, autor do clássico de teologia “Summa Moralis” e feroz combatente contra a usura.

Os economistas, de modo geral (menos, é claro, os mais competentes) costumam fazer de seu ofício uma espécie de culto esotérico, com confusas fórmulas algébricas e aleijões lógicos. Como recomendava Lord Keynes, eles deveriam encarar o seu trabalho com a mesma modéstia com que os dentistas encaram o seu. O certo é que todas as aplicações da inteligência, ou todos os saberes, se assim entendemos as ciências, se encontram a serviço das relações de poder. Isso faz com que a economia volte à sua denominação clássica, da qual seus profissionais de hoje buscam fugir: economia política. Fora da política, que trata do poder, não há economia, nem há coisa alguma. O Banco Central, como administrador da moeda, deve sim, submeter-se à legitimidade do poder político.

Para lembrar um empresário e homem público brasileiro, que nos deixou recentemente – José Alencar – a taxa de juros cobrada no Brasil (e cobrada sobretudo do Estado, com a cumplicidade de alguns de seus servidores) é um assalto.

A Presidente Dilma deixará um extraordinário legado para a história se salvar desse assalto os bolsos da sociedade brasileira.


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http://www.jourliq.com/economia/2011/09/02/os-juros-e-o-banco-central/

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http://liberdadeaqui.wordpress.com/2011/09/02/os-juros-e-o-banco-central/

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http://aposentadodesconfiado.wordpress.com/2011/09/02/o-banco-central-e-os-juros/

OPOSIÇÃO, GOVERNO E ESTADO

A reação, entre alguns de seus companheiros, e na chamada base aliada do governo, demonstra que a proposta do senador Aécio Neves, de apoio da oposição à Presidente Dilma Roussef, em seus esforços para a governabilidade e moralização administrativa, não foi bem entendida, ou foi muito bem entendida, dependendo da boa fé ou da má fé de cada um. A preocupação do representante de Minas transcende ao cotidiano político, embora não o despreze. É certo que o ex-governador não pretende encerrar a sua carreira na Câmara Alta, mas atribuir sua atitude ao mero projeto pessoal é um erro, mais do que uma injustiça.

Ao contrário dos estereótipos, que caricaturam os mineiros como individualistas provincianos, eles são atentos às coisas do mundo. Não é por acaso que as idéias francesas estiveram na origem do movimento de Vila Rica, do mesmo modo que os inconfidentes se inspiraram na revolução da independência dos Estados Unidos.

São as coisas do mundo que nos aconselham a buscar, tanto quanto possível, a coesão interna. Há que se distinguir, embora seja difícil, o que é Estado e o que é governo. É inadmissível que se faça oposição ao Estado, e é necessário que se fiscalize o governo. Combater a corrupção é fortalecer o Estado, e assegurar o apoio necessário à chefe de governo, na missão que o destino lhe está confiando de disciplinar a administração pública, é dever de todas as pessoas honradas e dos políticos responsáveis. O saneamento da administração é indispensável para o cumprimento da política social do governo, que visa a libertar a população da miséria e promover a sua plena integração na vida econômica e cultural de nosso tempo, mediante o desenvolvimento econômico do país.

Por mais inconveniente seja a análise, está claro que começam a se definir, na política e na sociedade, dois campos bem identificados, e nessa divisão não interferem necessariamente as escolhas ideológicas, que permanecem subjacentes. De um lado se encontram as pessoas que não suportam mais tantos escândalos, e que se somam à Chefe de Estado.

Do outro, estão os interesses corporativos, partidários e não partidários, vinculados por uma espécie de omertà siciliana, que promovem e protegem o assalto ao bem comum. Ainda agora, a cidadania se encontra perplexa, diante da absolvição, pelos seus pares, de uma deputada, representante do Distrito Federal, mesmo diante de claríssima prova de corrupção passiva. Acobertada pelo voto secreto, maioria confortável negou a cassação de seu mandato, sob o argumento de que seus atos foram anteriores ao mandato. Não houve, no caso, qualquer pudor: feliz e orgulhosa do veredicto que a fez inocente, ela foi cumprimentada, entre outros colegas, pelo líder do PT na Câmara.

São tempos estranhos, os nossos. Tempos em que não há mais recato, tanto nos costumes sociais, quanto nos costumes políticos. Perdeu-se a cerimônia.

A constelação partidária que aí está será alterada, se não antes, logo depois das eleições municipais do ano que vem. Haverá a natural linha divisória não entre os partidos, mas no interior de cada um deles. Situação e oposição não serão as mesmas. Embora não possamos prever como se comporão os dois lados, a realidade tornará perempto, de uma ou de outra forma, o equivocado ditame do STF que dá aos partidos a propriedade sobre os mandatos eletivos.

Por outro lado, a inexorável marcha do tempo está impondo a renovação na liderança política brasileira. Há, entre as pessoas que se encontram na fase da boa maturidade, personalidades que revelam ter boa visão do processo político e social. São líderes como Aécio e Eduardo Campos que, embora herdeiros de antigos homens públicos, não têm por que renegar a ascendência. Seus avós,Miguel Arraes e Tancredo, embora tivessem divergências ocasionais, sempre serviram ao Brasil com o melhor de sua honra e de sua razão. E não há só eles, que são homens de centro-esquerda. Há, mesmo entre os conservadores, nomes novos, desvinculados dessa forma penumbrosa de fazer política.

Quando a senhora Dilma Roussef chegar ao fim de seu mandato – qualquer que venha a ser o processo de sua sucessão, ou de sua reeleição, se for o caso – não estarão com ela todos os que a cercaram na cerimônia de posse e no início de seu governo, e com ela estarão muitos dos que não a apoiaram nas eleições do ano passado. As circunstâncias mudam, o mundo envelhece e rejuvenesce, hoje mais rapidamente do que ontem, e as pessoas também mudam.