17 de dez. de 2012

UMA SOCIEDADE DE MATADORES



       (HD) -      Uma sociedade que envia seus jovens ao mundo inteiro para matar, em nome dos negócios, não pode espantar-se com os massacres de seus adolescentes e suas crianças, como o de Columbine, e o de anteontem, em Newtown, em Connecticut. Muito da cultura norte-americana tem sido, desde a guerra deliberada contra os índios e o avanço para o Oeste, uma cultura da morte. Para formar exércitos de assassinos, é necessário adestrar  seus possíveis integrantes para matar sem vacilações. Para isso é preciso criar os mitos, como os do heroísmo, da coragem, da ousadia, da força física, da astúcia dos predadores,  contra os povos indefesos do mundo inteiro. É preciso reduzir o homem ao réptil que foi na origem dos tempos.
         Ao mesmo tempo, essa sociedade tem dado ao mundo excepcionais pensadores, escritores e cineastas que, de certa forma, procuram compensar a brutalidade construída para a defesa dos poderosos titãs das finanças e das corporações industriais que, há mais de cem anos, vem conduzindo a economia e a política internacional, em seu proveito.
        A idéia de matar é estimulada nos americanos desde a infância. Na adolescência, a arma de fogo, para muitos, é símbolo da masculinidade. E esse apego à violência e ao sangue tem sido exportado ao mundo inteiro pela sua fantástica indústria do entretenimento, na literatura, no cinema e, mais recentemente, nos jogos eletrônicos e nos enlatados da televisão.  
       A intimidade com o sentimento da morte gera também o medo, o pânico, e a vontade paranóica do suicídio. Todos os massacres nos Estados Unidos, e os que se repetem, por emulação, quase sempre terminam com a morte ou o suicídio dos assassinos.
       O massacre de sexta-feira foi o mais pavoroso dos últimos anos. Como lembrou o presidente Obama, as crianças jamais conhecerão a adolescência, a alegria do amor da paternidade e da maternidade. Morreram por nada e, por nada, morreu o assassino.
      Não há mais, no mundo, espaço para a segurança e a paz. A pequena cidade onde houve a tragédia era um oásis de sossego em Connecticut, um pequeno estado da Nova Inglaterra preferido por intelectuais e artistas americanos. Nos últimos dez anos, de acordo com as notícias, nela só houve um homicídio.
     Preocupam-se muitos em salvar os animais em extinção, como os primatas, as serpentes, os tigres. É bom que sejam salvos: habitam o nosso mesmo mundo. Mas o homem já se encontra em extinção há muito tempo, esvaziado que se encontra do humanismo que o distinguia da vida selvagem. Estamos voltando à pré-história, mas dotados de fuzis, metralhadoras, mísseis e armas nucleares.
     Ainda estamos chorando as crianças mortas, mas se o mundo continuar assim, de nossos olhos não descerão mais as lágrimas do sofrimento. 

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13 de dez. de 2012

O MANUAL DO GOLPE DE ESTADO


         

           (HD)- Cúrzio Malaparte escreveu, em 1931, seu livro político mais importante, Técnica del colpo di Stato: envenenamento da opinião pública, organização de quadros, atos de provocação, terrorismo e intimidação, e, por fim, a conquista  do poder. Malaparte escreveu sua obra quando os Estados Unidos ainda não haviam aprimorado os seus serviços especiais, como o FBI - fundado sete anos antes - nem criado a CIA,  em 1947. De lá para cá, as coisas mudaram, e muito. Já há, no Brasil, elementos para a redação de um atualizado Manual do Golpe.
               Quando o golpe parte de quem ocupa o governo, o rito é diferente de quando o golpe se desfecha contra o governo. Nos dois casos, a ação liberticida é sempre justificada como legítima defesa: contra um governo arbitrário (ou corrupto, como é mais freqüente), ou do governo contra os inimigos da pátria. Em nosso caso, e de nossos vizinhos, todos os golpes contra o governo associaram as denúncias de ligações externas (com os países comunistas) às de corrupção interna.
              Desde a destituição de Getúlio, em 29 de outubro de 1945, todos os golpes, no Brasil, foram orientados pelos norte-americanos, e contaram com a participação ativa de grandes jornais e emissoras de rádio. A partir da renúncia de Jânio, em 1961, a televisão passou também a ser usada. Para desfechá-los, sempre se valeram das forças armadas.
            Foi assim quando Vargas já havia convocado as eleições de 2 de dezembro de 1945 para uma assembléia nacional constituinte e a sua própria sucessão. Vargas, como se sabe, apoiou a candidatura do marechal Dutra, do PSD, contra Eduardo Gomes, da UDN. Mesmo deposto, Vargas foi o maior vitorioso daquele pleito.
              Em 1954, eleito pelo povo Vargas venceu-os, ao matar-se. Não obstante isso, uma vez eleito Juscelino, eles voltaram à carga, a fim de lhe impedir a posse.  A posição de uma parte ponderável das Forças Armadas, sob o comando do general Lott, liquidou-os com o contragolpe fulminante. Em 1964, contra Jango, foram vitoriosos.
          A penetração das ONGs no Norte do Brasil, e a campanha de coleta de assinaturas entre a população dos 7 Grandes - orientada, também, pelo Departamento de Estado, que financiava muitas delas – para que a Amazônia fosse internacionalizada, reacenderam os brios nacionalistas das Forças Armadas. Assim, os norte-americanos decidiram não mais fomentar os golpes de estado cooptando os militares, porque eles passaram a ser inconfiáveis para eles, e não só no Brasil.
           Washington  optou hoje pelos golpes brancos, com apoio no Parlamento e no Poder Judiciário, como ocorreu em Honduras e no Paraguai.  Articula-se a mesma técnica no Brasil. Nesse processo, a crise institucional que fomentam, entre o Supremo e o Congresso, poderá servir a seu objetivo – se os democratas dos Três Poderes se omitirem e os patriotas capitularem.

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11 de dez. de 2012

MANIFESTO DOS INTELECTUAIS LANÇADO NO RIO DE JANEIRO


               Dezenas de intelectuais brasileiros se reuniram ontem, no Palácio da Cultura,  no Rio, para o lançamento de um manifesto em defesa do Brasil e da paz mundial, e a criação de um instituto que atue na difusão dessa idéia. Uma comissão, formada por Luis Pinguelli Rosa, Márcio Pochman, Luís Soares, Pedro Celestino, Renato Guimarães, Roberto Amaral, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães e Ubirajara Brito, fez uma análise da situação internacional e da atualidade política interna do Brasil, concluindo que há uma ofensiva antidemocrática no mundo inteiro, diante da crise vivida pelo sistema capitalista. Como no passado, essa crise pode conduzir a novos e extensos conflitos mundiais, e é preciso mobilizar os cidadãos na defesa das liberdades democráticas e da paz.

10 de dez. de 2012

AS ESTATAIS ESTRANGEIRAS E O MERCADO NACIONAL


     (Carta Maior) -Com a intenção de “normalizar e simplificar a governança estratégica” do gigantesco grupo de armamentos EADS, assegurando, ao mesmo tempo, que a Alemanha, a França e a Espanha, protejam os seus legítimos “interesses estratégicos”, os governos dos três países acabam de fechar  acordo para manter 24 por cento das ações  nas mãos dos estados francês e alemão e 4 por cento sob propriedade do estado espanhol. Mantêm, assim, o domínio do grupo, que controla, direta e indiretamente várias empresas prestadoras de serviços na área de defesa, no Brasil, como é o caso da Cassidian.
       Enquanto no Brasil é pecado o Estado meter-se em outras áreas que não sejam segurança, saúde e educação, países admirados por muitos como paradigmas de capitalismo avançado e do livre-mercado, asseguram a propriedade  do Estado em áreas estratégicas da economia - e nem por isso o mundo vem abaixo.
       Vamos aos fatos. A participação da Espanha no capital da EADS (abreviatura da denominação, em inglês, da European Aeronautic Defense Space Company), mediante a CASA (Construcciones Aeronauticas S.A) deve ser conhecida. Embora tenha nascido da iniciativa privada, em 1923, a empresa foi sendo absorvida pelo estado espanhol, a partir de 1943, e, desde 1992, a participação estatal é de 99,2%.
       Além da construção aeronáutica, o estado espanhol comanda as empresas ferroviárias, de construção, navais e de armamento. É com essas empresas que a Espanha quer invadir o mercado brasileiro, aproveitando o financiamento farto e barato no BNDES.
     O instrumento dessa operação é uma instituição chamada SEPI - Sociedade Estatal de Participações Industriais. E atentem bem para a palavra estatal. A SEPI - a exemplo de organizações congêneres como as existentes na Alemanha, na França, ou na Itália, com o IRI -  não está presente apenas como sócio temporário, mas exerce sua tarefa permanente de controle nacional dos setores estratégicos da atividade econômica.
           No Brasil, esse é um assunto tabu. O BNDES pode financiar empresas estrangeiras, e até mesmo estatais, como é o caso da DCNS, que constrói o estaleiro onde serão montados os submarinos que compramos à França. No entanto, não admitem que o Brasil possa ter uma empresa estatal para assegurar diretamente a presença do Estado onde ela é necessária, seja como controlador, seja como indutor do processo de desenvolvimento, como ocorre lá fora.
       O temor da opinião dos "analistas" do "mercado" e de certa parcela dos meios de comunicação, já totalmente entregue aos interesses estrangeiros, chegou a tal ponto  que os maiores absurdos são vistos como absolutamente normais.
         É o caso, por exemplo, da projetada concessão operacional do Aeroporto do Galeão.  Uma empresa controlada pelo Estado francês, a ADP (Aeroports de Paris) disse, claramente, que só entra no negócio se a INFRAERO (ou seja, o estado brasileiro) estiver em posição minoritária. E o governo brasileiro, como mostra a mudança no formato do modelo, obedece.
        É preciso definir o caminho correto para que o Brasil possa se desenvolver em ritmo acelerado sem abrir mão da sua de sua autonomia e da sua soberania, agora e no futuro. 
       Ao contrário do que aconteceu no passado, e tem acontecido ainda, o BNDES só deveria financiar empresas autenticamente brasileiras, inclusive estatais, que possam negociar de igual para igual, em cada setor, com as estatais de outros países, como fazem, sem nenhum pudor, as outras nações.  Os estrangeiros que quiserem entrar no Brasil, principalmente no filé das obras de infraestrutura, que se submetam às nossas leis e condições - e tragam o seu próprio dinheiro.

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9 de dez. de 2012

OSCAR E OS MINEIROS



  (HD)             - Oscar Niemeyer iniciou sua carreira individual no Rio, com o projeto pioneiro da Obra do Berço, quando usou, pela primeira vez em seu trabalho, persianas de concreto (brise-soleil), invenção de Le Corbusier, mas utilizado pelo suíço na horizontal. Niemeyer foi o primeiro a usá-lo no sentido vertical, no que foi seguido no mundo inteiro). Mas foi em Minas, como Oscar sempre dizia, que encontrou a sua grande oportunidade, no Conjunto da Pampulha. Ele foi apresentado a Juscelino por Israel Pinheiro, então secretário da Agricultura, Indústria e Comércio de Benedito Valadares, que o convidara a Belo Horizonte para projetar um cassino no Acaba Mundo (hoje, o Bairro Sion, em que havia grandes erosões, na encosta que suporta o Belvedere).
          Oscar não achou o local interessante, e, por isso, Israel chamou Juscelino, já prefeito, e ambos optaram pela Pampulha. Quando o arquiteto fez 75 anos, em 1982, em entrevista que lhe fiz, narrou-me o episódio com bom humor. A idéia da Igrejinha foi sua. Já que haveria ali um cassino, Juscelino deveria erigir uma igreja, para que os jogadores pudessem rezar, em busca do perdão ou do consolo de Deus. “Assim, Juscelino, você vai evitar muitos suicídios”.
          Se não fossem os mineiros, confessava, com exagero, ele não teria sido o arquiteto que foi. É claro que a força de seu talento seria revelada em qualquer lugar e em qualquer circunstância. Mas só o arrojo de Juscelino permitiria dar ao grande arquiteto a liberdade de fazer o que fez na Pampulha e o que fez em Brasília.
         No texto publicado, lembrei um verso fascinante do poeta espanhol (e Prêmio Nobel) Vicente Aleixandre, sobre Picasso: el mundo era una línea en la mano del niño. Voltei a recordar o verso de Aleixandre, agora, na morte de Oscar.
          A linha de Picasso, por mais fantástica tenha sido, está limitada à geometria de seus quadros. A linha de Oscar deixou a prancheta para construir palácios e igrejas, e grandes museus – que acolhem e protegem também as linhas de Picasso, aprisionadas em suas telas.
         Oscar, sendo um libertário por natureza, chamou dois outros rebeldes para fazer a Igreja de São Francisco (também a escolha do santo foi dele): Portinari, para revestir as paredes e pintar a Via Sacra, e Burle Marx, para os jardins. Portinari, comunista como Niemeyer, arrostou o episcopado de Belo Horizonte, pintando São Francisco ao lado de um cão vira-lata, e não de um lobo; e substituindo os pombos de Assis por urubus dos céus mineiros. Nada mais natural do que pintar o mais humilde dos santos junto às mais desprezadas das aves – explicou o pintor.
        A Igreja não só se opôs às linhas arquitetônicas do templo – que poderiam ter sido góticas ou barrocas – mas pelo fato de que Oscar era um não católico, e sim um homem livre, que conduziria sua liberdade até as vésperas de seus 105 anos.

5 de dez. de 2012

JUSTIÇA É COISA SÉRIA


          (JB) -   Vamos deixar a um canto o julgamento da Ação 470. Trata-se de um fato consumado. Ao julgar os réus daquele processo, o Supremo Tribunal Federal passou a ser julgado – não pelos meios de comunicação, que o têm aplaudido; não pelos setores da classe média do Sul e do Sudeste, que se sentem ressarcidos moralmente, com a condenação de correligionários de um apedeuta nordestino, operário metalúrgico, que conseguiu eleger-se e governar o país. Para todos esses, o Supremo foi o Areópago dos tempos míticos, com os juízes sob a presidência, invisível, mas infalível, da deusa Atena. Mas há quem examine as  a situação com outros olhos.
             O jornalista mineiro José das Dores Vital acaba de publicar um ensaio delicioso, “Como se faz um bispo”, mostrando o jogo que se esconde na escolha de um novo prelado na hierarquia católica. As revelações do Ministro Luis Fux, publicadas no fim de semana pela Folha de S. Paulo, sobre os seus esforços a fim de se tornar Ministro do STF, sugerem um best-seller, como o  de Vital.
           Seria muito interessante mostrar como se escolhem alguns dos mais elevados magistrados da República. Muitos deles, pelo que andam anunciando, pretendem ser os arcontes do Estado Nacional, e pairar sobre todos os seus poderes, assentados no monte de Ares (ou de Marte, em latim), dedicado ao deus da guerra. 
            Fux conta como pediu a Deus, e a todo  mundo, que o indicassem para ocupar uma vaga no Supremo: de João Pedro Stédile, do MST, a Delfim Neto, incluindo José Dirceu e outros réus da Ação 470 que ele, Fux, julgaria. Segundo a Folha de S. Paulo, um seu emissário, em seu nome, solicitou ao jornal que ele fosse ouvido. E foi muito bem entrevistado, por uma das mais argutas e ferinas jornalistas brasileiras, Mônica Bérgamo.
           Diz o juiz que ficou “estarrecido” com as provas contra Dirceu e os outros e, assim, votou pela condenação dos réus. Estarrecidos estamos todos nós, com as suas revelações. Fosse ele um juiz de tempos mais antigos, é provável que se declarasse suspeito e se eximisse de participar do julgamento. Não por se sentir tentado a absolver, por gratidão; mas, sim, por se sentir tentado a condenar exatamente por ter sido ajudado. Há uma desconfiança universal e muito antiga de que muitos, ao receber um favor, passam a odiar quem os ajuda. Não se trata de uma regra, mas, sim, de  exceções. Não para Ulysses Guimarães que dizia: o dia do benefício é a véspera da ingratidão.
       Há dois mecanismos mentais que explicam esse paradoxo. Um deles é a soberba do favorecido, sobretudo nas indicações políticas. O outro é o  de compensação do sentimento de humilhação do imaturo ao  pedir o favor ao poderoso - tão mais forte a ponto de lhe conceder o pedido. No primeiro caso, o ajudado passa a acreditar que não foi escolhido como um favor, mas sim, pelo reconhecimento de seus méritos. “Ele só podia me ter escolhido, porque, dentre todos os outros,  só eu sou capaz”.
       Assim também poderia pensar Fux, embora  seu confessado pranto de regozijo, junto ao Ministro da Justiça,  não sugira essa espécie de sentimento. Resta o outro - o do constrangimento pela súplica do apoio. Se o juiz Fux condenou os réus com a convicção de julgador, ou não, importa pouco, nesta fase do processo. O que qualquer cidadão pode condenar é a forma pela qual ele e outros foram escolhidos. Que um candidato a qualquer cargo peça apoio, é natural – mas deve preservar um pouco de decoro em sua postulação. Lula, submetido a duras provas pessoais nos últimos meses, ao aprovar o nome de Fux junto a Dilma, não soube desconfiar  de quem trazia indicações tão amplas, que provinham de todas as direções ideológicas. Em Minas, a idéia é a de que aquele que tem a recomendação de todos não tem recomendação alguma.
        O passado de um candidato ao STF deve ser examinado ao microscópio. Os juízes do Supremo Tribunal são a última instância na defesa das pessoas contra o Estado e na defesa do Estado contra seus inimigos. Eles devem ser personalidades de indiscutível probidade, mas, da mesma forma, mostrar o saber necessário para atuar com toda a isenção possível. Os juízes não são anjos vingadores,  celebridades do showbusiness,  nem  cúmplices dos criminosos. São, ou devem ser, cidadãos acima dos interesses e das paixões, para  assegurar a todas as pessoas justas o direito à vida, na segurança da paz. É preciso encontrar critérios mais rigorosos, transparentes e universais, para a indicação e aprovação, pelo Senado, dos Ministros do STF.

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3 de dez. de 2012

ISRAEL E O DEVER DA TOLERÂNCIA



       (HD) -        Todos os observadores neutros concluem que o povo palestino obteve uma vitória, com a admissão de seu estado como observador nas Nações Unidas. Foram 138 votos a favor, 41 abstenções, e 9 votos contra. Só o Canadá, entre os paises importantes, ficou com os Estados Unidos e Israel. Os outros seis votos foram do Panamá, da Micronésia e de estados de idêntica importância. A Alemanha e a Grã Bretanha se abstiveram.
            Os judeus, um povo sem território, desde a grande diáspora, provocada pela ocupação romana,  aspiram a ter um lar nacional permanente. É natural que tentassem erigi-lo no território que ocuparam há dois milênios, ainda que grande parte deles, convertida ao judaísmo, não possa reivindicar a origem étnica semita.
           Essa, no entanto, não é uma questão maior. O problema nasce da falta de negociações sérias e pacientes entre os que permaneceram na Palestina e os que, tangidos pela perseguição ou por opção, deixaram o território ancestral.          Os ingleses tiveram quase meio século para administrar um acordo razoável entre os judeus e os palestinos. É de se lembrar que o “retorno” dos judeus à Palestina foi uma iniciativa dos judeus ricos da Inglaterra – entre eles o barão de Rotschild – a fim de se livrarem de seus irmãos pobres, cuja miséria os incomodava.
          Os ingleses poderiam ter iniciado essas negociações com o Império Ottomano, antes da Primeira Guerra Mundial, e não o fizeram. Como vitoriosa potência administradora daquele território, a partir de 1918, o governo britânico, não só deixou de buscar o entendimento, como deu mão forte a Israel. Depois de 1945, já era tarde.  Os judeus de Israel, com a ajuda de seus compatriotas do mundo inteiro já se sentiam suficientemente fortes para recusar o compromisso real de convivência com os palestinos.
          O resultado está ai. Não há uma terceira solução. Israel, que se encontra circunstancialmente mais forte (mas as circunstâncias também morrem), deverá abandonar a intolerância e negociar, com espírito aberto, a convivência dos dois estados – o que lhe exigirá devolver os territórios ocupados pela força – ou insistirá na solução bélica, em que sua vitória final não está assegurada. Ao que parece, seu governo atual está empenhado nessa via arriscada. Como represália pelo êxito de Abbas, Israel mandou construir mais um bairro judaico no leste de Jerusalém – o que mereceu nova advertência dos Estados Unidos.
         A arrogante intolerância de Tel-Aviv, que vem cometendo todas as atrocidades em Gaza, e continua empurrando os palestinos para o mar e para o Jordão, é a maior ameaça à sobrevivência do Estado de Israel.

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CONDENADOS AO ENTENDIMENTO



(JB) - O entendimento entre a Argentina e o Brasil é uma imposição histórica e geográfica. Durante quase todo o passado comum, argentinos e brasileiros se olharam com natural rivalidade. Os argentinos, graças à alta fertilidade de suas terras tornaram-se ricos e poderosos no século 19 e puderam, nas primeiras décadas do século 20, fazer de Buenos Aires uma das mais belas cidades do mundo. E, como as sociedades ricas costumam ser mais refinadas, os argentinos sempre estiveram à nossa frente na educação – das escolas elementares às universidades – e, é claro, na economia.
A guerra comum contra o Paraguai de Solano López nos uniu, e se esperava que a Tríplice Aliança se tornasse uma coligação política forte, depois da paz. Embora muitos acordos se seguissem, dissídios antigos, como o da disputa do Território das Missões, impediam aproximação mais forte. O litígio foi resolvido em favor do Brasil, pela arbitragem do Presidente Cleveland, dos Estados Unidos, em 1895, graças aos documentos reunidos por Rio Branco. Com a solução do problema, acordos se fizeram, mas, por detrás dos festejos e das assinaturas dos tratados, a desconfiança mútua era notória.
Os registros históricos mostram que às potências européias não interessava uma aliança política entre a Argentina e o Brasil. Ainda no Reino Unido, quando os argentinos, aproveitando-se das dificuldades de Madri, sob ocupação francesa, começavam a consolidar seu processo de independência, a Rainha Carlota Joaquina – que era irmã de Fernando 7, da Espanha, derrotado por Napoleão – pretendeu fundar um reino que unisse o Brasil e a Argentina, mas seus planos se frustraram.
A partir de Perón, na Argentina, e de Vargas, no Brasil, ensaiaram-se alguns passos concretos de aproximação, contidos pelo suicídio de Vargas, em 1954, e pela queda de Perón no ano seguinte. Os entendimentos entre os dois países, durante os regimes militares dos anos 70, se fizeram na repressão comum aos movimentos de contestação.
Apesar das famosas fronteiras ideológicas, que custaram a vida de brasileiros, uruguaios e argentinos, houve, naquela época, conflitos mais ou menos graves entre os dois países. Quando o Brasil iniciou a construção de Itaipu, o almirante Isaac Rojas, um dos chefes golpistas que derrubaram Perón, pregou abertamente a guerra contra o nosso país. Advertia que a represa era uma arma poderosa: bastava ao Brasil abrir as comportas para destruir a cidade de Buenos Aires.
Chegou a propor o bombardeio das obras de Itaipu. Rojas – que só morreria em 1993 – foi mais longe, ao afirmar que não era possível tolerar o surgimento de “uma China Negra” ao norte.
Não podemos perder a nova oportunidade, que surgiu com os entendimentos entre Sarney e Alfonsin. Devem prosseguir os esforços de Dilma e Christina Kirschner, para o desenvolvimento industrial acelerado nos dois países. A Argentina está passando por grandes dificuldades, e nós mesmos não estamos imunes a uma crise, em decorrência da situação internacional. Ainda agora, os argentinos obtiveram importante vitória judicial, em Nova Iorque, contra especuladores com seus títulos de dívida. A Argentina negociara, há
dez anos, com seus credores o pagamento, parcelado, de uma dívida de 100 bilhões de dólares, com o desconto de 75%, em alguns casos. Como uma minoria não quis o acordo, a Argentina se recusou a lhes pagar o valor de face dos títulos que tinham em carteira.
Um fundo especulativo, o Elliot Management, também credor, comprou o direito dos créditos dos que se haviam negado ao acordo, e entrou na justiça americana, exigindo o pagamento integral. Um juiz de primeira instância acolheu a exigência e autorizou ao fundo a apreender um navio argentino em Gana.
Já estava decidido a mandar congelar os créditos de Buenos Aires nos bancos americanos, quando um tribunal de apelação de Nova Iorque, atendendo ao governo argentino, sobrestou a sentença, até a apresentação de novas provas, em fevereiro próximo. Apesar de tudo, a dívida da Argentina é de apenas 20% de seu PIB, enquanto a da Espanha passa dos 90 por cento. É nosso dever prestar solidariedade aos vizinhos.
Temos que nos unir, como os dois países mais fortes do Mercosul, a fim de resistir juntos ao assédio dos que desejam nos sufocar, e preservar o Tratado, como a base necessária à unidade sul-americana. Essa é uma responsabilidade dos dois povos, que devem fechar os ouvidos às intrigas de terceiros, interessados na cizânia entre nós. 

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