26 de out de 2009

QUARTETO VARIADO


Quando os conheci, já estavam cansados, mas continuavam a cumprir a promessa, mesmo depois de vencidos os anos empenhados. Deveriam sair em peregrinação musical, no domingo da Ressurreição, por 14 dias, durante sete anos seguidos – mas continuaram por mais onze. Eusébio, o esguio clarinetista, disse que pretendiam chegar a 21 viagens, inspirados pelo número cabalístico de três vezes sete.
“Pagamos a promessa, mas a gente descobriu que não houve penitência, só coisa boa. Vamos continuar. Para bem dizer, a promessa não era para nós, era para o povo todo do Morro Cinzento. A seca daquele ano, depois de matar os bichos, já estava matando as crianças”. Os três, com instrumentos desarmônicos – uma rebeca das antigas, a sanfona, o cavaquinho e a clarineta – andavam pelos povoados e ranchos espalhados pela região, tocando as músicas sacras e profanas que conheciam. Misturavam Jesus, a alegria dos homens, em arranjo curto e adaptado a seus instrumentos, pelo padre Martinho, com marchinhas de carnaval e cançonetas folclóricas. Sua promessa incluía tocar para os pássaros e para as árvores, para os bichos que se escondem e os bichos que se mostram. Quem primeiro ouviu o som da rebeca, em solo pungente, foi Granadeiro, meu velho e insubstituível companheiro. Parou, levantou as orelhas, ficou extasiado, virou o focinho para o lado – e o segui. Os quatro estavam sentados nas pedras do rio, que se espraiava naquela curva. Quando nos viram, fizeram, com o rosto, sinal de boas vindas, e continuaram. Era de seu contrato com Bom-Jesus da Ressurreição tocar para as águas, e para as águas estavam tocando.
Na pausa, contaram-me sua história, abriram as capangas e me ofereceram roscas de leite e “café de demanhãzinha”, na garrafa térmica esmaltada, prenda de uma fazendeira de rio abaixo. Estavam de volta, esperavam chegar no domingo seguinte. A Granadeiro também deram uma rosca, que ele agradeceu, como sempre, com seu rosnar de alegria, sob o compasso binário do rabo.

11 de out de 2009

PAPÉIS ESQUECIDOS



Uma necessária reforma no casarão em que se abriga, em Buenos Aires, a octogenária Sociedade Argentina de Escritores, revelou um grande tesouro. Manuscritos de Rubén Dario (de La Marcha Triunfal) e de Valle-Inclán; cartas de Alfonsina Storni, e milhares de outros documentos, reunidos em 1290 envelopes marrons. O original de La Marcha Triunfal de Dario impressionou o atual presidente da SADE, Alejando Vaccaro, pela beleza da caligrafia e espontaneidade do texto – sem nenhuma emenda. Outra caligrafia bela é a de Valle-Inclán, o comediógrafo espanhol, em carta datada de Assunção, em 1910. O mordaz autor de Los cuernos de Don Friolera tivera duas grandes impressões da viagem ao Paraguai: as majestosas águas do rio Paraná, que ele comparava às do Nilo, e a irritação por ter sido roubado no porto. Talvez em razão desse segundo sentimento, tenha escrito o libelo satírico Tirano Banderas, sobre hipotético déspota latino-americano.
Os papéis velhos costumam ser reveladores. Entre os que se encontravam no porão da casa bonairense, há uma carta de Alfonsina Storni, pedindo a um amigo que consiga, para o filho, de 27 anos, uma promoção no serviço público, a que ela mesma pertencia. Pouco conhecida no Brasil, Alfonsina, que nasceu na Suíça e emigrou para a Argentina aos 4 anos, com a família, foi uma das maiores poetisas em língua espanhola. Mulher inquieta, sua poesia é marcada pelo erotismo. Solteira, teve o único filho aos 18 anos, quando era professora primária. O primeiro livro, La inquietud del rosal, foi uma grande revelação. Teve uma grande afeição pelo contista uruguaio Horácio Quiroga, que se matou, profundamente deprimido, um ano antes de Alfonsina.
Poucas horas antes de matar-se, em 25 de outubro de 1938, a grande poetisa - atingida pelo câncer havia anos - redige belo poema de despedida da vida, e o envia para um jornal. O poema é publicado logo depois de conhecida sua morte.
A descoberta de velhos papéis, com suas revelações, é tema constante na literatura de ficção. Talvez o mais interessante exemplo desse recurso seja o de Henry James, com The Aspern Papers. Um obstinado pesquisador busca cartas atribuídas a um jovem poeta norte-americano, Jeffrey Aspern, morto prematuramente. Para isso, viaja a Veneza, e procura ali uma senhora que se correspondia com Aspern. Usa de todos os recursos, alguns absolutamente imorais, na tentativa de obtê-los. O final é inesperado.
Mário Palmério deixou inconcluso um romance, no qual a demolição de uma casa em Uberaba revela a existência, no passado, de um assassino perfeito, mediante suas confissões escritas. Atanásio, o personagem de Mário, fora professor de química e se dedicara a vingar as vítimas dos poderosos do lugar. No plano da obra e nas páginas redigidas pelo autor de Chapadão do Bugre, o livro, o romance lembra o conflito interior do homem, diante do bem e do mal e do sentimento de justiça, tão presente em grandes ficcionistas ingleses como Chesterton e Graham Greene.
A realidade se diverte com a arte. Exatamente na casa dos escritores, textos importantes foram esquecidos e o acaso os traz agora à atualidade.

A CARTA



Não posso fazer mais nada agora. Já não posso encontrar-te, para dizer que tudo não passou de mal entendido. Tua carta chegou ao meu coração tarde demais. Não sei se não teria sido melhor não encontrá-la, fechada, entre livros e papéis velhos. Se fosse assim, eu ficaria apenas com essa incômoda lembrança da raiva, que não chegara a ódio. Senti-me, ao ler tuas palavras, mais do que o canalha que teria sido, se tivesses razão; encontrei-me apenas um idiota. Se eu houvesse lido tuas palavras enquanto havia tempo, outros teriam sido os nossos dias. Injuriado pela suspeita e pelo ciúme, aceitei a aventura amazônica, meti-me no garimpo com Eliezer, perdi ali o dinheiro, a saúde e a mocidade. Não soube nada de tua vida, naqueles anos desviados. É incrível que eu não tenha lido tua carta. A memória não me ajuda. Não sei se a guardei sem ler, pela raiva que me consumia, ou se minha mãe a colocou entre as minhas coisas, sem avisar-me. Agora, em busca de documentos para o inventário de um irmão, achei a tua carta, em envelope rosa, com o delicado papel de seda, da mesma cor. É estranho que ela estivesse dentro da caderneta de reservista de meu pai. Se eu não tivesse a curiosidade de ver a foto, porque o rosto dele se desfizera em minha memória, não teria encontrado sua carta, ainda fechada. Agora que a reli, sei que outros teriam sido os nossos dias, mas não creio que teriam sido melhores.
Quem sabe, não teria sido comigo – e não com o marido que o destino te deu – o epílogo de tua vida, tal como fiquei sabendo tanto tempo depois: os dois corpos hirtos, encontrados no leito conjugal, o mesmo copo com resíduos do veneno raro.
Enrolei a carta e o envelope e, com o isqueiro, ateei fogo. A chama tinha a mesma cor do papel, e em um instante, se desfez na tarde morna.



8 de out de 2009

O CÉU VARIÁVEL


“O céu está sempre mudando, porque as estrelas caminham, de dia e de noite. O céu de mais perto é também assim. Tirando fora os dias encobertos e os só de azul, quando a gente olha é sempre diferente, porque as nuvens não param de mudar de jeito”.
Eu o ouvia, calado. Tinha 14 anos e procurava um lugar no mundo. Estávamos em dia solteiro, dia sem compromisso, na beira do rio. Talvez fosse o Suaçuí Grande, talvez o Santo Antonio; beira de rio é sempre igual. Ainda o vejo, sentado no tronco caído, que servia de banco aos que esperavam cruzar para o outro lado. Ele já batera na lata, servindo de sino, que pendia do galho da goiabeira, chamando o barqueiro. Eu sentara na pedra, em frente. O homem falava como se fosse espírita, padre ou pastor, mas a cara, nunca me engano, era de sujeito ruim. Não disse nada, fiquei procurando aonde ele me queria levar.
“Com a gente, é a mesma coisa. A gente é como o céu, como o rio, ou aquela matinha, do outro lado. Está sempre diferente. Hoje amanheci pensando uma coisa. Foi só tomar meu café com jacuba, e virei outro. Nem vinha atravessar o rio; eu tenho lá o que fazer do outro lado? Tenho não, mas deu vontade, e vontade eu acompanho, se a gente não acompanha a vontade, não é dono da vida. E da minha, sou dono. Você não é dono da sua”?
Sorri, de leve. Só era dono do meu companheiro Granadeiro, que, ao lado, rosnava, divertido, contra a lagartixa que subia o tronco meio seco de um barbatimão. No caso que minha vida tivesse dono, o dono seria o cachorro. Meu irmão ele já era, sem raça, sem frescura, sem medo. A gente era um do outro.
Granadeiro esqueceu o bicho, olhou-me, do sério jeito dele; fiquei atento. Quando o barqueiro chegou, o cão desapareceu, latindo ao longe. Disse ao desconhecido que fosse só. Não podia viajar sem o cão. O homem quis ajudar a procurá-lo, agradeci.
Tive logo a certeza de que Granadeiro, mais uma vez, me salvara a vida.

5 de out de 2009

A VONTADE DAS ARMAS


Há armas que têm sua própria vontade. Em algumas é o espírito do armeiro que as habita e domina. Nenhuma garrucha feita por Cesário Lopes, que morreu na véspera da República, era capaz de matar mulher, era o que se dizia. A arma desviava a mão do atirador e o coice - há pelo menos um caso registrado - aleijava a munheca. Em outras, é a alma do primeiro dono que manda. Durante décadas, o Colt 38, de coronha de madrepérola, do major Eurípedes, da Força Pública, foi arma cachorra. Só servia para matar gente fraca. De tiro certeiro em geral, aquele revólver do major (ele mesmo fracote, de pescoço comprido e boca murcha)fugia à fama. Quando o opositor era homem bravo, o revolver tremia e escarrava; só era valente com os pobres coitados. Foi assim que Ramiro, pistoleiro de preceito, com um revolvinho 22 – arma de matar morcego – mandou o major para o inferno, na vista de todo mundo, em dia de feira em Almenara. Dizem que ele fez de propósito, usando uma arma tão roscofe, para humilhar o morto, deixando no coldre o parabelum de que habitualmente se servia. O Colt do major foi caindo de valor, até que um tal Vicentinho teve a idéia de o benzer, trocar a coronha vistosa por outra, talhada em pau de goiabeira vermelha, desniquelar e galvanizar o aço da arma. Assim o Colt desencantou, e depois de revendido e trocado, anos depois, estourou a cabeça de um valentão papudo, em arruaça de bordel, lá pelos lados do Goiás.
Algumas
armas são amansadas, como esse punhal sergipano que eu tenho, e que arranquei da mão de uma vagabunda que usara o ferro para matar o marido, em Itabaiana. Quebrei a ponta aguda, e, com a lima, arredondei o lugar, fiz a faquinha de jeito. Com ela descasco hoje laranjas, e foi descascando uma lima da pérsia que me lembrei destas histórias.