25 de jun de 2010

OS MILITARES E A POLÍTICA



Ao demitir, ontem, o general Stanley McChrystal do comando das tropas norte-americanas no Afeganistão, o presidente Obama venceu o primeiro
grande teste de autoridade em seu governo. A los militares, disse o presidente argentino Arturo Illia – “o se les manda, o se les obedece”. Obama mandou. Mandou, como Truman, em abril de 1951, demitiu o general MacArthur, velho herói da Guerra na Ásia, responsável pela democratização manu militari do Japão, por desobediência às diretrizes políticas estratégicas da Casa Branca no caso da Guerra da Coreia.

O argumento de Truman foi definitivo: a Constituição estabelece que os militares têm que se subordinar ao comando civil. Se não demitisse MacArthur, estaria faltando ao juramento que fizera, de sustentá-la e defendê-la. O general McChrystal, com toda a sua importância, se encontra a anos-luz da personalidade de MacArthur.

São difíceis as relações entre militares e o poder civil, em todos os tempos e em todas as latitudes. Já se tornou lugar-comum lembrar o aviso de Clemenceau de que a guerra é assunto muito grave para ser confiado aos militares. Mas há momentos em que o homem de Estado se vê obrigado a suportar militares petulantes. Nas discussões de ontem sobre o caso McChrystal, a historiadora Doris Kearis lembrou a desfeita sofrida por Lincoln, em 1862. Percebendo que o general McClellan, comandante das tropas da União contra os confederados, não estava atuando de acordo com suas diretrizes, resolveu visitar o chefe militar em sua residência, em companhia de dois auxiliares, para uma conversa amistosa. O general não estava, e os visitantes esperaram mais de uma hora. McClellan chegou, viu-os, passou por eles sem os cumprimentar, subiu as escadas, e mandou avisar que já se recolhera ao leito. O grande presidente engoliu a ofensa: não lhe convinha demitir logo o insolente militar, porque não tinha como substituí-lo no comando. Esperou dois anos para fazê-lo. McClellan estava sendo eficiente na luta, e chegou a ser chamado de Little Napoleon. Quando começou a esmorecer, foi facilmente substituído.

Os militares, pela própria natureza de sua formação, de seu trabalho e de sua posição na sociedade, sentem-se diferentes da população em geral. Em grande parte – e este é o caso do general McChrystal – são filhos de militares, passam a infância em companhia de crianças da mesma origem e se acostumam, desde cedo, a viver separados da sociedade civil.

O general George Marshall foi tido como o exemplo de discrição, de tal maneira que, segundo seus contemporâneos, evitava rir das anedotas de Roosevelt, para não demonstrar intimidade com o presidente. Nunca revelou os conselhos que, como o militar de mais alta posição nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, dava ao chefe de Estado. Mas nem todos agem assim.

No caso do Brasil, as vicissitudes de nossa formação trouxeram os problemas conhecidos. Ainda em 1826, Bernardo Pereira de Vasconcelos advertiu contra a decisão de Pedro I de mandar o Exército reprimir os revoltosos da Confederação do Equador, dando às comissões militares o poder de condená-los e os executar. Abriu-se o precedente para tudo o que veio depois.

O presidente Obama encarregou o general Petraeus de acumular o comando das operações do Afeganistão com as suas responsabilidades atuais, mas falta saber o que os Estados Unidos farão para sair de uma guerra já perdida – como perdida se encontra a do Iraque.

22 de jun de 2010

O PRAGMATISMO, O PODER E A ÉTICA


No monólogo da abertura de seu Doctor Faustus, Christopher Marlowe adverte: “Si peccasse negamus, fallimur, et nulla in nobis veritas”. Se não reconhecemos os nossos pecados, nada da verdade existe em nós.

A campanha eleitoral está se transformando em triste confronto entre o pragmatismo e a ética. Uma corrente de humanistas defende o princípio de que o verdadeiro pragmatismo é o que respeita os fundamentos imemoriais da ética. Esse pensamento encontra eco no conselho de que, na dúvida, devemos sempre apostar na honra.

Uma coisa, na construção do poder, é a concessão doutrinária. Para encontrar o centro – e não se governa senão pelo centro – os partidos podem ceder em seus programas e estabelecer pactos em que todos os contratantes ganham alguma coisa para perder outras. Mas há limites para esses acordos, quando envolvem a comunidade, e esses limites estão sendo esquecidos nas candidaturas presidenciais e em quase todas as estaduais.

Tanto o PSDB quanto o PT nasceram do discurso ético. Os dissidentes do PMDB, paulistas e mineiros, que se levantaram contra o poder dos governadores eleitos em 1986, apelaram para a social-democracia, em nome da moralidade política. O PT foi ainda mais autêntico em sua gênese, quando se reuniram os sonhadores com a igualdade social e os defensores dos bons costumes na administração do Estado. De repente, nos dois partidos, a luta por minutos e segundos nos programas de televisão conduz a arriscadas e pecaminosas concessões. Quando o PSDB negocia o apoio de Roberto Jefferson e cata os votos dos seguidores de Arruda no Distrito Federal, e o PT de Minas se vê tangido a apoiar o candidato do PMDB ao governo do estado, os princípios deambulam no deserto, escorraçados pelo ilusório pragmatismo.

O presidente, com todos os seus irrecusáveis méritos, parece estar testando a própria força, e criando obstáculos para ter o gosto de vencê-los. Isso se revela na construção das alianças estaduais, que devem servir de suporte à aliança nacional com o PMDB. Com o PMDB não, com uma parcela dele, que parece ter mais votos – embora tenha abandonado os princípios que lhe deram origem. Mesmo assim, o processo está sendo difícil. Na Bahia, os dois partidos marcham separados. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, está sendo muito improvável o acordo bipartidário, porque as lideranças regionais do PMDB, entre elas Pedro Simon e Luis Henrique, contestam a direção nacional, e apoiavam a candidatura de Roberto Requião à Presidência da República pelo partido. Requião teve mais de cem votos convencionais, o que não pode ser desprezado. Em São Paulo, o PMDB está dividido entre Quércia, que tem os votos do interior, e Temer, que presume controlar a máquina. Se isso ocorre em quase todos os estados, no caso particular de Minas é muito mais penoso. Depois de obter a aquiescência de Fernando Pimentel – velho companheiro da candidata Dilma Rousseff – para uma aliança formal com o candidato do PMDB ao governo de Minas, a direção nacional do PT se esforça em conseguir concessão bem mais difícil: a concordância de Patrus em aceitar a candidatura a vice-governador.
Patrus tem sido, em sua vida pública, homem de valores sólidos e translúcidos, como os cristais do Espinhaço, em cujas encostas nasceu. Os mineiros sabem que qualquer seja sua decisão, ela não será ditada por uma razão menor.

DIPLOMACIA SEM MEDO


Em entrevista ao Jornal do Brasil, o chanceler Celso Amorim atribuiu os ataques que a diplomacia de Lula recebe de alguns ex-embaixadores – todos eles vinculados ao governo de Fernando Henrique – à dificuldade de as pessoas se adaptarem aos tempos novos. É realmente o que está ocorrendo, não só com relação à diplomacia, mas a toda a sociedade atual, tanto no Brasil quanto em todos os países do globo. O mundo mudou, para melhor e para pior. Trotsky pregava a necessidade de uma “revolução permanente”, sem perceber que a História é, em si mesma, uma revolução sem fim, com seus momentos de avanço e de recuo, como ocorre no interior de cada período revolucionário visto isoladamente.

Comecemos pelo problema maior do século passado, que permanece: o artificial Estado de Israel. Foram as melhores as intenções dos países aliados ao criar aquele “lar nacional” para os judeus, depois do Holocausto. O Brasil tomou parte ativa nisso, coube a Oswaldo Aranha presidir a Segunda Assembleia Geral da ONU que aprovou a resolução. Poucos se recordam, no entanto, que, ao longo destes 62 anos, Israel, com o apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, jamais cumpriu o mandamento de respeitar a criação de um Estado palestino no mesmo território.

O Estado de Israel possui bombas atômicas – e dispôs-se mesmo a vendê-las ao regime racista da África do Sul, conforme revelou a imprensa britânica recentemente. Graças a isso, seus governantes mantêm os países vizinhos sob constante ameaça. Há quase 40 anos, quando houve a primeira revelação de que os cientistas de Israel estavam para armar o primeiro artefato nuclear, encontrei-me, na Europa, com dois amigos judeus nascidos no Brasil. Um deles, Louis Wiznitzer, estava exultante, porque Israel disporia de “uma arma de dissuasão”. O outro, o sociólogo mineiro Marcos Magalhães Rubinger, então em Genebra, estava desolado: “Estamos, como judeus, perdendo a última oportunidade de nos integrar à Humanidade, de renunciar a essa ideia particular de ‘povo diferente’ que nos atormenta”, me disse. Infelizmente, ambos já se foram.

Não se pode resolver o problema entre Israel e a Palestina sem que se resolva o problema entre Israel e seus vizinhos que, sendo muçulmanos, sentem-se no dever da solidariedade para com o sacrificado povo palestino. Isso explica a necessidade de negociar com o Irã, o mais poderoso dos países com maioria islâmica, como forma de esvaziar a tensão no Oriente Médio e retirar de Israel o pretexto para sua irracional política de aniquilamento paulatino dos palestinos.

Se as grandes potências são incapazes de promover a paz, os países que emergem como potências médias têm o dever de buscar o entendimento, de destravar o processo político. É nesse contexto que o Brasil está assumindo papel importante na sociedade mundial. O Brasil tem autoridade suficiente para isso. O que lhe estava faltando era coragem moral para assumir essa responsabilidade. De certa forma, não há nada de novo nessa postura, exposta por Ruy Barbosa há 103 anos, na II Conferência de Haia. Ali, diante da prepotência da Alemanha, da arrogância da Rússia tzarista e da presunção imperialista dos Estados Unidos, a delegação brasileira, chefiada pelo grande tribuno baiano, propôs a doutrina da plena igualdade política entre as nações soberanas. É na restauração dessa doutrina que o atual Itamaraty trabalha, sob a direção pessoal do presidente Lula.

Quando redigíamos este trabalho, Obama enviava ao Congresso sua mensagem com a nova estratégia norte-americana, que começa a reconhecer a responsabilidade de novos atores na cena internacional – entre eles, o Brasil. O famoso G-8 deixou de ser o clube dos donos do mundo, e a responsabilidade passa a ser do G-20 – grupo construído a partir da liderança brasileira entre os emergentes. Infelizmente, os maiores sabotadores da nova política externa independente se encontram em nosso próprio país – principalmente entre os que dominaram o Itamaraty no tempo de Fernando Henrique, o mais serviçal governante brasileiro ao interesse norte-americano em toda a história republicana.

17 de jun de 2010

O FUTEBOL E A POLÍTICA


As massas sempre demonstraram seu imenso poder. Sua força foi analisada por grandes pensadores do século passado, como Ortega y Gasset, em seu ensaio profético de 1930, La rebelión de las masas; Elias Cannetti, com Mass und Macht; e Serge Tchakhotine, em Le viol des foules par la propagande politique. Todos eles, de uma ou de outra forma, mostram como as massas podem atuar, em certas circunstâncias, como um só indivíduo. Ortega chama a esse indivíduo hombre-masa. Do ponto de vista filosófico, com todo respeito por Ortega, o melhor ensaio é o de Cannetti, ao identificar massa e poder: quem aglutina as massas e as sabe conduzir manobra o seu poder, como Hitler. Partindo da práxis, da experiência real, dos instrumentos totalitários da propaganda, o melhor ensaio é o do biólogo, psicólogo e agitador político russo Tchakhotine. Seu livro foi publicado em francês em 1938, quando o mundo estava entre três ideias básicas: o nazifascismo teuto-italiano, o socialismo marxista e a democracia capitalista-liberal anglo-americana.

Ortega publicou seu livro bem antes, em 1930, e seu grande mérito foi o de analisar a globalização dos anos 20, que levaria à depressão e à guerra, mas remontar o início dessa massificação do indivíduo ao começo da época moderna, ou seja, ao Renascimento e à Descoberta da América. Seu pensamento seria retomado, em seguida, pela Escola de Frankfurt e, de maneira magistral, por Marcuse em One-dimensional man, em 1964 – ano crucial para os brasileiros.

Podemos resumir esses três estudos em uma advertência: a de que a sociedade industrial capitalista tende a anular a individualidade, ao criar e manter uma massa universal uniforme e conformada. Uma massa de indivíduos que “pensa” estar exercendo sua liberdade de escolher, de pensar e de decidir. Não importa qual seja a sua bandeira. O que importa – como diz Cannetti – é que ela tremule como uma labareda.

Há 52 anos, quando “o mundo descobriu o Brasil”, conforme lema divulgado nestes dias, eu dirigia pequeno jornal diário, em Governador Valadares (que continua circulando até hoje). Havíamos perdido Copas anteriores e, de forma crucial, a de 1950, contra o Uruguai, no Maracanã.

Foi uma festa imensa, porque teve o gosto da recuperação do orgulho nacional. O Brasil, que havia perdido Vargas, quatro anos antes, e que começava a recuperar-se com o governo de Juscelino, explodiu diante da genialidade de dois meninos do povo, Garrincha e Pelé (nesta ordem, em meu juízo). Jornal do interior é, acima de tudo, jornal de opinião, e eu redigia rodapé de primeira página. Nele, moderei o entusiasmo geral, ao lembrar as terríveis dificuldades que o Brasil vinha encontrando para realizar o projeto de desenvolvimento de Vargas, naquele terceiro ano de Juscelino no poder.

Neste meio século conseguimos dar um grande salto econômico. A vitória de 1958 deve ter contribuído, e muito, para que o mineiro cumprisse a meta de avançar, conforme o slogan, 50 anos em 5. Vendo os fatos com tanto tempo de intervalo, sentimos a interação entre o entusiasmo popular da vitória com o esforço de desenvolvimento naquela segunda metade do governo. Infelizmente, no pleito de 1960, houve um demagogo que conseguiu dominar as massas, eleger-se, enveredar pela sedução totalitária e, com sua renúncia irresponsável, abrir caminho a duas décadas de ditadura.

Para manter a força positiva das massas, faltam os líderes sensatos. Para perdê-las, bastam os demagogos alucinados.