19 de mai. de 2011

A INDIGNAÇÃO DAS RUAS

Os protestos populares na Espanha não diferem, em sua essência, dos que ocorreram e ocorrem nos países árabes. Excluída a observação de que a Europa começa nos Pirineus, que tenta localizar historicamente a Península Ibérica na África, há mais do que a proximidade geográfica na semelhança entre os movimentos. Se, no caso dos países árabes, muitos dos manifestantes se insurgem contra o poder pessoal, na Espanha esse protesto se dirige contra o sistema como um todo.

No capitalismo neoliberal, dominado por banqueiros corruptos, políticos corruptos, intelectuais corrompidos, e alguns poderosos meios de comunicação, pouco importa o partido que se encontre no poder: a ordem de domínio e de exploração é a mesma.

A ocupação das ruas não é nova na história. A possível desordem nas manifestações populares nem sempre é má. Muitas vezes é a expressão da ira dos justos. O padre Francisco Lage, de Belo Horizonte, ao ser questionado por liderar manifestações populares, no início dos anos 60, costumava dizer que muitas vezes é preciso a desordem das ruas, para que se imponha a ordem nas consciências. Em uma dessas manifestações, em favor dos trabalhadores municipais havia meses sem receber, o padre montou um presépio humano na véspera do Natal, que se encenava, alternadamente, sob a marquise dos grandes bancos. Os banqueiros se reuniram e fizeram generoso empréstimo à Prefeitura, a fim de livrar-se da incômoda manifestação de fé.

Por mais os meios de comunicação finjam não perceber o que tais manifestações anunciam, o povo está começando a sair às ruas, e às ruas sairão, em todas as latitudes e longitudes, em busca de uma vida mais humana. As instituições estatais não podem continuar a serviço dos mais fortes, nessa promiscuidade escandalosa entre os que dominam o capital financeiro e os que ocupam os governos. Os grandes jornais norte-americanos não noticiam, como deveriam, os movimentos que, de forma discreta, por enquanto, começam a surgir naquele país, protestando contra a crescente e insuportável desigualdade social.

Ontem à noite, milhares de pessoas se reuniam na Porta do Sol, centro geográfico de Madri, convocados pelo movimento suprapartidário dos indignados, sob o lema de Democracia Real, Já. Não admitem que a crise econômica seja resolvida com o sacrifício dos trabalhadores, enquanto as corporações multinacionais, dominadas pelos grandes bancos – como algumas que nos exploram no Brasil – continuem beneficiadas pelo governo. Hoje, são os “socialistas” que se empenham em favorecer o capitalismo neoliberal, como ontem foram os conservadores, dentro do sistema eleitoral vigente – parlamentarista e de listas fechadas, registre-se. Como disse o comentarista Iñaki Gabilondo, de El Pais, os partidos devem deixar a sua postura narcisista e entender o que se passa na sociedade real da Espanha. Terão que se refundar, com seriedade e urgência.

Enganam-se os que se encontram no poder. Se, em toda a História, o poder foi situação precária, sujeita às intempéries sociais, em nossos dias sua fragilidade é maior. A força da internet tornou veloz a mobilização dos inconformados e a explosão dos indignados. Como bem comentou o jornalista Ramón Lobo, em seu blog acolhido por El País, “Madri não é Tahrir, mas o vírus é o mesmo: o fastio de uma juventude sem esperança - diante de um mercado minguante que se “moderniza” cortando direitos sociais e empregos - com o único horizonte de contratos imundos, de longa duração. Prevalece a voz oficial, a dos outros, a da linguagem burocratizada, a das entrevistas coletivas sem perguntas, a dos intocáveis”.

Frente aos superbilionários que, todos os anos, se reúnem em segredo, para dividir o mundo em novas colônias, a indignação das ruas é a legítima e necessária ação de defesa dos oprimidos. Em todas as latitudes.

18 de mai. de 2011

LINGUAGEM E SOBERANIA

A civilização se define como a reunião dos homens em cidades, construídas a fim de os proteger das intempéries e tornar a vida mais amena. A troca de experiências levou-os a aspirações ainda maiores, ao êxtase diante da beleza das cores e dos sons, ao surgimento da arte. Recentemente se descobriu o que os arqueólogos consideraram o primeiro instrumento musical: flauta feita a partir do osso de um abutre, e datada, conforme os estudos, de há 35.000 anos.

O homem chegou ao momento mais alto de sua razão na chamada idade axial, que, conforme Karl Jaspers, ocorreu entre o século 8, antes de Cristo e o século 2, de nossa era. O desenvolvimento da inteligência e dos sentimentos de transcendência, naquele milênio, na China, na Índia e no Mediterrâneo, praticamente esgotou o potencial da mente humana. O que marcou o período foi o aprimoramento da linguagem escrita, que transmitiu ao futuro a experiência do passado e incitou o desenvolvimento das idéias. A partir daí, o processo tem sido o polimento de um poliedro translúcido. Sua essência, volume e forma não se alteraram. É como se fosse um depósito de luz, espécie de prisma, que reflete o todo cósmico, para orientar a construção permanente do homem.

A linguagem evoluiu dos primeiros grunhidos, que expressavam o medo, o pedido de socorro, a conquista da fêmea ou do macho, o êxtase diante da beleza de um pássaro, ou a tristeza do luto, até os cantos de Homero, os dramas gregos, as novelas de Cervantes e os poemas de Shakespeare. A civilização é, assim, o processo da evolução da linguagem. Sem a inteligência comum dos grupos, a que chamamos cultura, os sentimentos humanos minguariam, cedendo lugar aos instintivos grunhidos dos hominídeos. Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.

Não surpreende que o Ministério da Educação aceite a iniciativa de professores de português em destruir a bela língua que surgiu no norte da Península Ibérica, a partir do dialeto galego, e cuja expressão literária se deve a prosadores como Fernão Lopes. Além de essa agressão vir desde o governo de Fernando Henrique, ela é coerente com o estiolamento do processo civilizatório, a que estamos assistindo nesta passagem de milênio. Significa a completa falência do estado contemporâneo, aqui e alhures. Muitos dos professores que advogam a anarquia da linguagem – felizmente, não todos - ao estimular a redução das frases a meras aproximações da mensagem, fazem-no, provavelmente, em causa própria. Não conhecendo os mecanismos da sintaxe, da semântica, da morfologia, são incapazes de ensinar. Os pais e avós se espantam com os grosseiros erros de linguagem cometidos por certos mestres.

A língua não é exata. Toda linguagem, dizem os especialistas, é imperfeita. Os idiomas se sujeitam às mudanças da sociedade, mas, dialeticamente, ao enriquecerem, enriquecem seus usuários, e, ao empobrecerem, corroem a cultura e a ética das nações. Essa erosão contribui para o embrutecimento assustador do homem, que se manifesta no envenenamento de moradores de rua nas grandes cidades brasileiras e no pandemônio psíquico de pessoas, como o matador de crianças no Realengo. E se expressa também no terrorismo de Estado.

Quando “especialistas” em educação expõem as teorias mais confusas e pedantemente elaboradas, prenhes de termos técnicos e vazias de significado, cabe ao Estado determinar o retorno às cartilhas de há 60 anos, para o aprendizado da Língua Pátria, em toda a sua riqueza, e à tabuada, base da razão matemática. Só a velha escola pode trazer homens novos ao mundo, capazes de entender o tempo e salvar a espécie da destruição que a ameaça.

Textos como os de “Contos Pátrios”, escritos por bons escritores (como Olavo Bilac e Coelho Neto) deveriam ser adotados. A língua é o fundamento da soberania.

GUERRA E PAZ COM O PARAGUAI

O Paraguai celebra, hoje, 14 de maio, o bicentenário de sua independência. Mas, aos paraguaios foram impostos, desde 1811, tiranos e ditadores. José Gaspar Rodriguez Francia, Carlos Antonio Lopez e Francisco Solano López dominaram o pais durante 60 anos, até a derrota militar diante do Brasil, da Argentina e do Uruguai, na mais sangrenta das guerras continentais, que nos custou imensos sacrifícios em recursos e em sangue. Outros ditadores viriam, entre eles Stroessner, que tiranizou o país durante 31 anos.

Diante da declaração de guerra que nos fez o Paraguai e dos atos hostis que se seguiram, com a agressão a Uruguaiana e a ocupação de território brasileiro no Mato Grosso, não houve escolha. Como todos os conflitos bélicos, o da Tríplice Aliança não se fez só de heroísmo. Infelizmente, com a saída de Caxias, os atos finais da guerra, sob o comando do genro de Pedro II, o francês Conde d’Eu, não nos dignificam: as tropas vitoriosas foram cruéis, principalmente ao degolar os prisioneiros inermes – entre eles, velhos e adolescentes – que estavam com López em Cerro Corá, quando o ditador foi encurralado e morto.

O ressentimento paraguaio é natural, e é natural que façamos o possível a fim de estabelecer relações realmente amistosas com o pequeno país mediterrâneo. Essa atuação, que é de nosso interesse nacional, não pode desfazer os fatos históricos que nos levaram ao conflito. Francisco Solano López, ao contrário de seu pai que criara poderoso exército de dissuasão, para a defesa de uma nação sem mar - cercada de países poderosos, como o Brasil e a Argentina - foi contaminado pela febre da arrogância, e supôs que seria capaz de vencer os vizinhos. Não mediu o potencial da Tríplice Aliança. Poderíamos ter sido mais exigentes com o Paraguai, nas negociações de paz.

Foi, no entanto, um erro estratégico construir a represa de Itaipu no paralelo em que ela se encontra. A idéia anterior era a de levantá-la bem ao norte, nos Saltos de Guairá, em território plenamente brasileiro. É certo que o represamento das águas do Paraná atingiria território paraguaio, mas era do projeto indenização ao vizinho pelo uso da área. O governo militar, porém, com seus planos geopolíticos no Cone Sul, agiram de outra forma.

A decisão brasileira de triplicar a remuneração do Paraguai pela energia que não usam é entendível, embora mereça alguma preocupação. Mas é preciso, também, que incentivemos os paraguaios a desenvolver seu país, e isso significa que suas elites devem reduzir as brutais diferenças entre ricos e pobres – muito maiores do que as que nos atingem. Não podemos, tampouco, considerar o Paraguai como o vizinho necessitado, que depende da caridade alheia. Ao respeitar a sua soberania - como respeitamos a dos demais vizinhos - devemos tratá-lo com igualdade, sem renunciar aos nossos direitos. É também de nosso dever exigir que não nos atirem às costas, como fazem alguns de seus jornalistas e políticos, a responsabilidade única por uma guerra que seus antepassados deflagraram, confiantes de que a ganhariam.

O ressentimento histórico dos paraguaios não pode ir ao ponto de ofender homens honrados de nosso país, como fez o ABC-Color, ao acusar o Senador Itamar Franco de usar “argumentos com que os nostálgicos do Império Brasileiro, porta-vozes da ditadura” humilharam o povo paraguaio. Itamar, como é de seu direito, manifestou-se contra o aumento do preço que pagamos pela energia que o Paraguai não utiliza. Além dos argumentos matemáticos, Itamar estranha o fato de que as contas da Itaipu-Binacional, desde que foi constituída, não são fiscalizadas pelo governo brasileiro, nem pelo TCU.

A aprovação das notas reversais pelo Senado não impede a necessária fiscalização, pelos governos brasileiro e paraguaio, sobre as atividades da empresa.

13 de mai. de 2011

MURALHAS NO MAR

Desde a destruição de Cartago, a Europa e a África se confrontam. Esse conflito se tornou mais grave em nosso tempo, em conseqüência da crueldade do colonialismo iniciado com as grandes navegações portuguesas. De acordo com os paleoantropólogos, a civilização tem sido o resultado de continuo Weltwanderung, peregrinação global dos seres humanos, a partir da África. Em tempo sem estados nacionais, e, assim, sem fronteiras políticas, essa caminhada se fazia livremente em terra firme e em embarcações primitivas.

Foi caminhando que a espécie se disseminou pelo planeta. Como todos os seres vivos, os homens se adaptaram ao meio, e a cor da pele variou com a latitude, de acordo com a luz solar. Da mesma forma, mudaram de cor os olhos e os cabelos. As razões da sobrevivência se encarregaram de criar as comunidades políticas que, das tribos, evoluíram para os grandes estados nacionais.

Para a maldição do homem, o que era acidental – a aparência física e o desenvolvimento tecnológico exigido pelas condições climáticas – passou a ser visto como essencial. É assim que se explica a distorção da lógica e da ética que deu origem ao racismo. Os gregos e romanos, provavelmente mais lúcidos, não viam os negros e mestiços como inferiores. A escravidão, fenômeno político e econômico, seguia outros critérios. Da mesma forma em que atuavam os europeus, agiam os africanos. As tribos e reinos do continente negro praticavam a escravidão desde tempos imemoriais, e foram responsáveis pelo ato inicial do tráfico, ao capturar os inimigos e vende-los aos mercadores brancos.

Como a História é movimento dialético, a desapiedada exploração da África e a conseqüente prosperidade dos paises colonizadores trazem hoje a impetuosa migração do sul para o norte. Esse movimento, de resto irreprimível, assusta os europeus, que não querem dividir com ninguém o seu bem-estar. “Aqui no cabemos todos” – resumiu a senhora Alicia Sánchez-Camacho, da direita catalã, em fevereiro de 2009, a fim de exigir o endurecimento da política imigratória. Se há um país que não pode falar em raça e em pureza étnica é exatamente a Espanha, esquina dos três grandes continentes históricos, cujos povos (no plural, acentue-se) ali chegaram de todas as procedências – a começar pelos africanos cartagineses, que a colonizaram em tempos pré-romanos. Os únicos senhores imemoriais de sua geografia são os bascos, cuja nacionalidade é repelida pelo governo de Madri.

Em outra manifestação da dialética histórica, cresce a desesperada fuga de norte-africanos (sobretudo da Tunísia e da Líbia), pelo Mediterrâneo. Os mesmos europeus que incentivaram os conflitos políticos nos países muçulmanos, porque isso lhes interessava, buscam agora impedir a chegada dos que se refugiam da violência e da morte. É assim que se explicam os entendimentos entre a Itália e a França para conter o fluxo migratório e a decisão da Dinamarca, tomada ontem, de restabelecer os seus controles fronteiriços intra-europeus, rompendo oficialmente o Tratado de Schengen, que permite a qualquer estrangeiro, admitido em um dos paises signatários, possa transitar livremente pelos outros.

Depois de tantos muros erguidos em terra firme, como o que separa a América dos pobres da América dos ricos, ao longo da fronteira estabelecida depois do roubo do território mexicano pelos Estados Unidos, e da divisão da Palestina pelo maciço de concreto, tentam, agora, erguer inúteis muralhas no mar. Fingem não entender que a fronteira real não é entre continentes e países: é entre ricos e pobres. A miséria e a justa esperança de viver com dignidade continuarão a empurrar os pobres rumo ao norte. E os que são mais fortes hoje poderão ser os mais débeis amanhã. Uma das evidências históricas da dialética é a de que a quantidade, no momento certo, se transforma em qualidade.

A CRUZADA AMERICANA E AS LIÇÕES DE NUREMBERG.

Os filhos de bin Laden – conforme pronunciamento publicado ontem – acusam os Estados Unidos de terem violado os princípios imemoriais de justiça, como os do devido processo legal, ao assassinarem o chefe da família em Abottabad. De forma clara, eles reclamam das Nações Unidas investigação sobre os fatos, e admitem levar o caso à Corte Internacional de Justiça. Um grupo de advogados britânicos já foi contatado.

Eles argumentam que sempre estiveram contra os atos de seu pai e, tal como os condenavam, condenam hoje o assassinato de um homem desarmado, que poderia ter sido preso vivo e submetido, como tantos outros, a um julgamento legal.

A idéia é clara: se o presidente Obama violou os princípios assumidos pela comunidade internacional e pela consciência do homem, tal como outros os violaram, e foram submetidos a julgamento, ele deverá ter o mesmo tratamento. É certo que isso não ocorrerá. Desde que o mundo existe, só são realmente punidos pelos tribunais os eventualmente mais débeis. O grande intelectual católico e resistente francês François de Menthon, procurador da França no Tribunal de Nuremberg, pronunciou duas frases marcantes sobre aquele momento. Em uma delas, ele define o que é o crime contra a humanidade: “crime contre le statut d’être humain, motivé par une ideologie qui est contre l’espirit, visant a rejeter l’humanité dans la barbarie”. A definição terá servido, naquele momento, mas sempre temos dificuldade em definir que ideologia é contra o espírito e visa a reconduzir a humanidade à barbárie. Como cada um de nós tem sua ideologia, é normal que defendamos a nossa e rejeitemos a que se contrapõe. A outra frase de Menthon é mais incisiva como ajuda ao raciocínio. Quando todos sorriam diante da estupidez dos lemas e idéias nazistas, o francês comentou, com lúcido ceticismo: “Nós consideramos ridículos tais slogans, mas, se eles houvessem vencido a guerra, nós os estaríamos repetindo, e, em alguns casos, com entusiasmo”.

É com entusiasmo que muitos repetem os argumentos de Washington, que se resumem a um só: dispondo de força suficiente para impor a democracia made in United States e a sua peculiar exegese dos Human Rights, o governo de Obama agiu corretamente, ao invadir um país estrangeiro, ali matar algumas pessoas desarmadas, seqüestrar um cadáver que devia ser sepultado pelos familiares, e ameaçar, veladamente, países soberanos e outros inimigos, de agir da mesma forma, se assim considerar necessário. É com esse entusiasmo que têm reagido, em sua maioria, os veículos de comunicação do mundo e alguns homens de Estado e dos meios acadêmicos.

Não têm faltado, desde o Iluminismo, os que profetizam nova barbárie para o homem. Essa barbárie se fundaria na aplicação tecnológica das descobertas da ciência e do mito da eficiência e do progresso. Essa visão profética e triste, que teve sua formulação admirável em Vico, quase se realizou sob o nazismo, com sua organização bélica e administrativa próxima da perfeição, de que foram exemplos os campos de concentração. E já que falamos em Nuremberg, o substituto de François de Menthon na parte final do julgamento, Champetier de Ribes, foi preciso em seu pronunciamento final:

“O historiador do futuro, como o cronista de hoje, saberá que a obra de vinte séculos de uma civilização que se acreditava eterna escapou de desabar no retorno de uma nova forma da antiga barbárie, mais selvagem, por ser mais científica”.

Ainda não escapamos da barbárie que nos ameaçam o “pensamento único” e a arrogância de uma nação que se considera senhora da civilização ocidental, com a cumplicidade de seus grandes e pequenos vassalos. Diante disso, só a reação dos homens e mulheres do mundo (no que de humano ainda nos resta) poderá salvar o melhor da nossa experiência histórica.

10 de mai. de 2011

AS LAGARTAS DE BARRO E OS CUIDADOS NA FABRICAÇÃO DE ARMAMENTOS.

Enquanto na Europa e no restante dos BRICS a fabricação de armamentos é assunto tão estratégico que está sob controle majoritariamente estatal, como é o caso da Navantia espanhola, da Finmecanica italiana e da EADS, no Brasil estamos cometendo o erro de fazer grandes encomendas de armamento (vide os novos carros anfíbios e helicópteros do exército) para empresas privadas sob controle estrangeiro, como é o caso da IVECO e da Helibras. No caso da IVECO, a situação é ainda mais grave, na medida em que o desenho do carro anfíbio Guarani foi desenvolvido pelo exército brasileiro, e dará origem a um produto que poderá ser vendido por essa empresa em qualquer lugar do mundo, e que aqui terá um baixíssimo índice de valor agregado nacional. Se houver uma guerra, e nossa frota de carros anfíbios e de helicópteros for destruída em combate, o que vamos fazer? Procurar as embaixadas italiana e francesa para mendigar peças que nos permitam fabricar mais alguns anfíbios e helicópteros para as nossas frentes de batalha? Rezar para que os navios e aviões que estiverem trazendo essas peças para o Brasil não sejam afundados ou derrubados por nossos inimigos antes de chegar às nossas costas? E se a guerra for contra o país de origem do nosso "fornecedor" de armamentos?Como os argentinos aprenderam - a duras penas - na Guerra das Malvinas, quando os norte-americanos e europeus os deixaram, literalmente, de calças na mão, depender de armamento e peças alheias é o mesmo que construir tanques com lagartas de barro. Já passou da hora de montar – como é comum na China, na Europa, na Rússia, na Índia - uma grande empresa estatal de armamentos, ou, melhor, três grandes estatais de desenvolvimento e fabricação de armas, uma para cada uma de nossas Forças, ligadas às suas respectivas estruturas de pesquisa. Dinheiro para isso não falta. O país tem 328 bilhões de dólares em reservas internacionais. E não venham me dizer que não temos tecnologia para isso, como fizeram antes de entregar o nosso mercado de telefonia celular para portugueses, espanhóis e italianos, que no quesito telecomunicações são excelentes fabricantes de bacalhau, spaghetti e azeitonas. Tecnologia se compra e se impõe o seu repasse sob pena de não participação no mercado. Com a exigência de 100% de conteúdo nacional – absolutamente imprescindível em caso de guerra - e de controle direto do governo Federal sobre a empresa e suas instalações. A Estratégia Nacional de Defesa do governo Lula representou um passo crucial para a recuperação de nossa capacidade bélica, depois do abjeto abandono de nossas Forças Armadas durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas ao contrário do que já aconteceu com a compra dos submarinos franceses, e com a encomenda do Ministério da Defesa de sistemas de comunicação via satélite para uma empresa espanhola, a INDRA, não se pode delegar a estranhos a defesa de nossa própria casa. Fabricação de armamento tem que ser controlada pelo Estado, com participação minoritária de capital nacional, e apenas simbólica, de capital estrangeiro. É isso que eles fazem em países como a Espanha e a Itália, mas, naturalmente, é justamente isso que eles não querem que nós façamos aqui mesmo, no nosso próprio País.

7 de mai. de 2011

A MENTIRA E O MEDO

Há uma inquieta passagem de Goethe, em sua conhecida reconstrução da tragédia de Eurípedes, Efigênia em Tauris, que serve de ponto de reflexão sobre o nosso tempo, entre todos os outros tempos.

Tendo sido salva da morte e vivendo em Tauris, Efigênia consegue proteger seu irmão Orestes. No texto de Goethe, ela maldiz a mentira, ao afirmar que a mentira não liberta o coração, não consola, e sim aporta a angústia. A passagem é citada por Aléxis Philonenko, em seu exaustivo estudo sobre os matadores e as várias manifestações do assassinato. Nas guerras, como instrumento de poder, ou de submissão de outros povos, e de saqueio, o ato de matar é mais horripilante e se camufla em falsa razão de estado. Os mandantes transferem, assim, sua culpa à comunidade nacional, mesmo quando agem contra o próprio povo. É o que ocorre com os golpistas e déspotas em todos os tempos e lugares.

Goethe escreveu sua peça aos 29 anos, dez anos antes da grande tempestade de violência política, que foi a Revolução Francesa. Mas não faltaram a ele os exemplos do passado, os grandes conflitos internacionais e as fortes tragédias, como as do fim da República Romana, da Idade Média e do Renascimento.O aspirante ao poder absoluto deverá arrancar seu coração, no obsessivo projeto de ser visto como herói, é o que, em suma, diz o grande escritor alemão, citado por Philonenko.

Há momentos em que, na necessidade da defesa de seu território, violado por tropas estrangeiras, o dirigente terá que optar pela guerra. Essa atitude é bem distinta da concepção da guerra pré-emptiva, doutrina cínica que assustou a consciência ética do mundo. Nesse, e em movimentos semelhantes, a mentira prevalece, a fim de dissimular o crime, para exibi-lo como virtude, no interesse do dirigente e no interesse daqueles que o aconselham. Um líder político não é, ao contrário do que muitos supõem, homem só, que decide apenas com a própria consciência. Ele é conduzido pelos interesses que o construíram, pelas idéias que o orientaram, pelas contingências do cotidiano. Ele é orientado pela mentira, que ele, com a consciência de seus compromissos, ou com a volúpia do poder (quase sempre) assume e, em conseqüência, age. O pior é que a mentira passa a ser a verdade conveniente, mesmo sendo identificada em sua natureza infame.

Há momentos em que grande parte do povo se submete, pela aceitação do mal ou pela covardia, à mentira de seus dirigentes, como ocorreu durante o nazismo, o fascismo, o stalinismo, o franquismo. E como ocorreu aos Estados Unidos, nas guerras contra o México, a Espanha, o Vietnã – além dos golpes sucessivos em nosso continente, na África e na Ásia. Foi com a mentira que Stalin determinou a purga do partido, nos processos de 1938; foi com a mentira que Hitler decidiu pela extinção dos judeus, eslavos, ciganos e mestiços, além dos socialistas e comunistas, a partir da mentira maior, de que participam até hoje algumas de suas vítimas: a de que há raças humanas. E foi a partir de mentiras sucessivas que os Estados Unidos construíram seu poderio. Como advertia a Efigênia de Goethe, desgraçada da mentira, porque não pode trazer o consolo, mas, sim, a angústia, e o pânico que se esconde sob outras ilusões, entre elas a da invencibilidade.

Os agressores, sabendo que mentem, estarão sempre sob a fria lâmina do terror da vingança. Como diria César, estão condenados, pelo medo, a morrer todos os dias.

ESTUDOS SOBRE A GANÂNCIA

Em 1899, o jovem Frank Norris escreveu cortante romance sobre a ganância. Não era a primeira vez que se ocupava do capitalismo selvagem e audacioso, que crescia no território americano. Já escrevera sobre o conflito entre as empresas ferroviárias e os agricultores, cujas terras eram invadidas pelos trilhos, sem indenização justa. E em Octopus fizera o libelo contra os trustes e monopólios empresariais que se formavam naquelas décadas. Jornalista, educado em Londres e em Paris, tendo sido correspondente na África do Sul, Norris era um desses homens que combinavam a inquietação intelectual com a ação prática da vida. Entre outros, de seu mesmo nível e da mesma época, foram Jack London e Theodore Dreiser. Norris morreu aos 32 anos, em 1902.

O livro, McTeague, narra a história de dois amigos gananciosos. Um deles, falso dentista, rouba a noiva do companheiro, apropria-se do dinheiro da mulher e a mata. Perseguido pelo outro, os dois entram em luta, no Vale da Morte, e ambos morrem. A obra foi tão importante que Erich Von Stroheim a filmou, em 1924, com o título de Greed e, com tal interesse, que a versão original era de dez horas de projeção. Von Stroheim não escondeu a relação da obra com o capitalismo dos anos 20, também feito de fraudes bancárias, especulação criminosa nas bolsas, de brutal desigualdade social, economia globalizada, causas da Grande Depressão dos anos 30.

Durante as três últimas décadas, sem o eufemismo dos teóricos antigos, a máxima de Wall Street é a de que “greed is good”. A ganância é, em suma, a lei do maior lucro. Há, sem embargo, diferença considerável entre o capitalismo industrial do passado e o capitalismo financeiro de nossos dias. A eficiência do sistema exigiu, em determinado momento, que as famílias confiassem a administração de seus negócios aos profissionais. Ainda assim, manteve-se a cultura de empresa familiar, da qual o fordismo foi o grande exemplo, ao vincular o trabalhador à indústria. Em nosso tempo, as grandes empresas, os conglomerados “industriais” já nada produzem, salvo poucas exceções. São apenas instituições proprietárias de marcas e, eventualmente, de patentes, controladas pelo capital financeiro, que terceirizam tudo e praticamente não têm empregados próprios, a não ser privilegiados executivos, da mesma forma intercambiáveis e descartáveis. A pesquisa tecnológica, o design dos artigos, a ação de marketing, a produção, a distribuição - tudo é terceirizado. Da mesma forma, essas empresas terceirizadas, terceirizam as operações menores. O pessoal de limpeza e de vigilância procede desses fornecedores de mão de obra, que se assemelham aos donos de escravos de ganho, conhecidos no Brasil do passado.

Ao fragmentar-se a operação, o trabalho deixa de ser socializado, o trabalhador perde a capacidade de resistência: não há mais o companheirismo, base essencial a um sindicalismo sólido e aguerrido. Isso agrava ainda mais a alienação denunciada por Marx, principalmente em sua melhor e mais concisa obra, os Manuscritos Econômicos-Filosóficos de 1844. Nesse texto, Marx encontra a chave do sistema: “As únicas forças propulsoras reconhecidas pela Economia Política são a avareza e a guerra entre os gananciosos, enfim, a competição”.

Norris fora influenciado por Émile Zola, com seus romances naturalistas e sociais, e serviria de inspiração a três ou quatro gerações de escritores, fiéis às denúncias contra as injustiças sociais. Depois de Faulkner e Steinbeck, coincidindo com o fim da guerra, o capitalismo administraria também a literatura, mediante as grandes editoras, que publicam best-sellers, mas raramente obras comprometidas com a realidade do mundo e o humanismo. Isso explica, em parte, a impunidade dos criminosos de colarinho branco.

Henry Ford desprezava as cotações das ações em bolsa. Seu argumento era o de que o valor real de seus ativos não se alterava com a especulação dos indolentes, que viviam de negociar papéis. Ele sabia o valor de cada um de seus negócios – valor real e concreto. Aconselhava a outros empresários que não perdessem o sono com a oscilação do mercado. Suas empresas, talvez mesmo em razão disso, foram das que menos sofreram com a grande depressão dos anos 30. O grande fabricante de automóveis, não obstante as suas posições políticas discutíveis, percebeu a importância do trabalho na prosperidade dos negócios. Para ele, a sua mercadoria – o automóvel – devia estar ao alcance de seus operários. Como não podia baixar mais ainda o preço dos carros, elevou o salário dos trabalhadores, e lhes vendeu automóveis a prestações alongadas.

Anteontem, o New York Times noticiou que, não obstante a crise bancária, que ainda continua, os executivos financeiros tiveram, em 2010, substancial aumento em seus ganhos. Jammie Dimon, do JP Morgan, que havia recebido US$1.300.000 em 2009, teve sua remuneração aumentada para US$ 20.800.000 no ano passado – apesar de o grande banco continuar perdendo dinheiro. TIM Armstrong, da AOL, recebeu US$ 15,300.000 (40%) de aumento, e sua empresa continua operando no vermelho. A lista é grande. Enquanto isso, os Estados Unidos enfrentam uma dívida de quase 15 trilhões de dólares, com o déficit anual de mais de um trilhão, e o desemprego chegou a 9%, o que é um exagero para os padrões norte-americanos.

A ganância cega os homens. O que pode fazer Jammie Dimon com mais de vinte milhões de dólares por ano? Mais alguns milhões de dólares, é certo. Rico com sua arte, Chaplin, em sua autobiografia, despreza os grandes ganhos, com o argumento de que, a partir de certas cifras, o dinheiro perde a sua relação com a realidade: um homem não pode vestir dois ternos, nem calçar dois pares de sapatos, nem viver ao mesmo tempo em duas casas.

Aumentam as advertências contra a insânia da economia mundial, ditada pelos banqueiros aos governos, que eles financiam e comandam. Não são apenas os pensadores de esquerda. Paul B. Farrell, reputado economista e ex-diretor do banco de investimentos Stanley Morgan, é hoje colunista do Wall Street Journal, o diário do mercado de capitais dos Estados Unidos. Em artigo recente, que El Pais reproduziu ontem, Farrell adverte que se os ricos não pagarem os impostos necessários, que sirvam para financiar a retomada da produção e o pleno emprego, com salários justos – isso no mundo inteiro – uma revolução será inevitável. A desigualdade, nos Estados Unidos, é hoje mais grave do que em 1929 – e o fosso entre um por cento dos grandes ricos e os 99% restantes da população se tornou insuportável. Os ricos, no entanto, se movem no plano da ilusão. Eles vivem em ambientes seguros, guardados por mercenários; têm os melhores médicos e hospitais, freqüentam os melhores restaurantes, vivem em outro mundo. Vivem – diz Farrell – como os opulentos dirigentes dos países árabes, sem qualquer preocupação: bem seguros em seus palácios, com a família vivendo no fausto, felizes e distantes da realidade. Mas, tal como ocorreu no Egito, bastará uma pequena fagulha, para o incêndio revolucionário. Farrell relembra os anos loucos, os twenties, que levaram Fitzgerald a redigir o romance-inventário daquela época, The Great Gatsby. Farrell termina de forma profética, ao dirigir-se aos 99% dos outros americanos: não digam que não foram advertidos. Preparem-se para a revolução, ou para outra Grande Depressão. E, desta vez, sem Roosevelt, acrescentamos nós.

Em seu excelente estudo sobre a falta de sentido da economia moderna, baseada na ganância, Greg e Paul Davidson (pai e filho) fazem inquietante pergunta: o que difere o amor da prostituição? E respondem: o amor não tem valor de mercado. Se o amor tiver valor de mercado, podemos concluir que não se trata bem daquele sentimento que une homens e mulheres, por exigência da vida.

A sociedade não pode impedir o lucro, ou seja, a vantagem relativa obtida na troca de bens, com ou sem a intermediação da moeda, esta invenção engenhosa, que “torna iguais as coisas desiguais”, de acordo com Aristóteles (ou o pseudo-Aristóteles, de acordo com alguns autores). A sociedade organizada em estados políticos não só pode, como deve, opor limites à ganância do mercado. Entre outras razões para que os homens criassem o Estado, destacou-se a necessidade de que se impusesse a justiça. Não havendo a consciência de solidariedade, por parte de alguns, as primeiras comunidades criaram sistemas de coerção, que se desenvolveram até chegarem às complexas formas constitucionais modernas.

Um ano antes da Revolução Francesa, o abade Sieyès publicou incitante estudo – “Essai sur les privilèges”, com algumas idéias que seriam o grande motor teórico da Assembléia Constituinte. Nesse estudo, Sieyès vai ao ponto, ao afirmar que as leis garantem os privilégios que deveriam extinguir. A razão é que os legisladores, quase sempre ricos, tratam de se proteger, de assegurar suas vantagens. O controle da moeda é o principal instrumento para promover a justiça ou servir à opressão. Durante séculos seguidos, a moeda vinha sendo emitida pelos estados, qualquer fosse seu sistema, garantida por bens imperecíveis, como os metais. Mesmo assim, a moeda se funda na confiança atribuída aos que a emitem. É uma questão de fé.

O grande homem público dos Estados Unidos, no processo da independência, Roger Sherman, é autor de estudo contra o uso do papel moeda – ou de documentos nele baseados – como meio de pagamento. Ele só admitia um único meio, o metálico, em ouro ou seu equivalente em prata. Sabiamente, ele não confiava nos banqueiros. Sua lucidez, em todos os assuntos de que tratou, foi reconhecida por Jefferson, com o juízo definitivo: Mr. Sherman, de Connetticut, é um homem que jamais disse alguma coisa tola, em toda a sua vida.

Os Estados Unidos se tornaram o único país que emite meios internacionais de pagamento, desde 1944, com o encontro de Bretton Woods, quando o dólar foi reconhecido como moeda internacional – teoricamente garantido por ouro ou prata. Em 1972, Nixon mudou as regras do jogo. Com a crise do petróleo, e a fácil previsão de que o FED emitiria bilhões a fim de compensar, com a inflação, a alta do preço do combustível, houve pressão dos portadores de créditos em dólares para receber em ouro, e os Estados Unidos declararam que não mais honrariam seus bilhetes com os metais, mas sim, com os ativos nacionais, que são, como qualquer um pode concluir, intransferíveis.

Calcula-se que circulem, hoje, no mundo, mais de 600 trilhões de dólares, em moeda e em títulos norte-americanos (a maior parte deles, nos famosos “derivativos”, que trocam de dono centenas de vezes por dia, nas especulações cambiais): quarenta vezes o PIB dos Estados Unidos. Quem ganha com isso é o sistema financeiro internacional, dominado pelos estelionatários de Wall Street, de que é modelo Mr. Madoff.

Greg e Paul Davidson, em seu livro, dão o exemplo de economia solidária na reação dos homens diante das grandes catástrofes - como as inundações, os terremotos, as epidemias. O sistema financeiro internacional é mais do que terremoto, tsunami ou epidemia. Seus interesses movem as guerras, determinam o desenvolvimento tecnológico que lhes serve, destroem a natureza e pervertem os homens. Até que o instinto de sobrevivência da espécie nos salve.