13 de mai de 2011

MURALHAS NO MAR

Desde a destruição de Cartago, a Europa e a África se confrontam. Esse conflito se tornou mais grave em nosso tempo, em conseqüência da crueldade do colonialismo iniciado com as grandes navegações portuguesas. De acordo com os paleoantropólogos, a civilização tem sido o resultado de continuo Weltwanderung, peregrinação global dos seres humanos, a partir da África. Em tempo sem estados nacionais, e, assim, sem fronteiras políticas, essa caminhada se fazia livremente em terra firme e em embarcações primitivas.

Foi caminhando que a espécie se disseminou pelo planeta. Como todos os seres vivos, os homens se adaptaram ao meio, e a cor da pele variou com a latitude, de acordo com a luz solar. Da mesma forma, mudaram de cor os olhos e os cabelos. As razões da sobrevivência se encarregaram de criar as comunidades políticas que, das tribos, evoluíram para os grandes estados nacionais.

Para a maldição do homem, o que era acidental – a aparência física e o desenvolvimento tecnológico exigido pelas condições climáticas – passou a ser visto como essencial. É assim que se explica a distorção da lógica e da ética que deu origem ao racismo. Os gregos e romanos, provavelmente mais lúcidos, não viam os negros e mestiços como inferiores. A escravidão, fenômeno político e econômico, seguia outros critérios. Da mesma forma em que atuavam os europeus, agiam os africanos. As tribos e reinos do continente negro praticavam a escravidão desde tempos imemoriais, e foram responsáveis pelo ato inicial do tráfico, ao capturar os inimigos e vende-los aos mercadores brancos.

Como a História é movimento dialético, a desapiedada exploração da África e a conseqüente prosperidade dos paises colonizadores trazem hoje a impetuosa migração do sul para o norte. Esse movimento, de resto irreprimível, assusta os europeus, que não querem dividir com ninguém o seu bem-estar. “Aqui no cabemos todos” – resumiu a senhora Alicia Sánchez-Camacho, da direita catalã, em fevereiro de 2009, a fim de exigir o endurecimento da política imigratória. Se há um país que não pode falar em raça e em pureza étnica é exatamente a Espanha, esquina dos três grandes continentes históricos, cujos povos (no plural, acentue-se) ali chegaram de todas as procedências – a começar pelos africanos cartagineses, que a colonizaram em tempos pré-romanos. Os únicos senhores imemoriais de sua geografia são os bascos, cuja nacionalidade é repelida pelo governo de Madri.

Em outra manifestação da dialética histórica, cresce a desesperada fuga de norte-africanos (sobretudo da Tunísia e da Líbia), pelo Mediterrâneo. Os mesmos europeus que incentivaram os conflitos políticos nos países muçulmanos, porque isso lhes interessava, buscam agora impedir a chegada dos que se refugiam da violência e da morte. É assim que se explicam os entendimentos entre a Itália e a França para conter o fluxo migratório e a decisão da Dinamarca, tomada ontem, de restabelecer os seus controles fronteiriços intra-europeus, rompendo oficialmente o Tratado de Schengen, que permite a qualquer estrangeiro, admitido em um dos paises signatários, possa transitar livremente pelos outros.

Depois de tantos muros erguidos em terra firme, como o que separa a América dos pobres da América dos ricos, ao longo da fronteira estabelecida depois do roubo do território mexicano pelos Estados Unidos, e da divisão da Palestina pelo maciço de concreto, tentam, agora, erguer inúteis muralhas no mar. Fingem não entender que a fronteira real não é entre continentes e países: é entre ricos e pobres. A miséria e a justa esperança de viver com dignidade continuarão a empurrar os pobres rumo ao norte. E os que são mais fortes hoje poderão ser os mais débeis amanhã. Uma das evidências históricas da dialética é a de que a quantidade, no momento certo, se transforma em qualidade.

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