3 de fev. de 2014

A PROPOSTA URUGUAIA


(JB) - Desde sua fundação, com o tratado de Assunção, em 1991, o Mercosul- Mercado Comum do Sul, tem sido vilipendiado e atacado pelos inimigos da integração sul-americana.
Primeiro, por ter sido um dos fatores que mais contribuíram para a derrocada da ALCA – Área de Livre Comércio das Américas - que pretendia que os países latino-americanos abrissem totalmente seu mercado aos Estados Unidos.
Se isso tivesse ocorrido, o Brasil estaria, hoje, na situação em que está o México, que cresceu no ano passado menos da metade do que o fizemos; que se considera um “player” global quando 90% de suas exportações vão para o Canadá e os EUA; que apenas maquia peças de terceiros com destino ao outro lado da fronteira e que, apesar de “exportar” mais que o Brasil, tem históricos déficits em seu comércio exterior, porque o salário de seus trabalhadores custa tão pouco que não basta para agregar valor às mercadorias que envia para outros países.
A baixa proporção do comércio exterior no PIB brasileiro, e no PIB do Mercosul, como um todo, deriva da aposta que por aqui foi feita, de se investir, prioritariamente, em nossa própria gente.
Os carros que fabricamos no Brasil não são feitos para serem vendidos aos norte-americanos, embora tenhamos exportado mais de 500.000 automóveis no ano passado. Um trabalhador brasileiro de linha de montagem pode comprar carros fabricados no Brasil. Os trabalhadores mexicanos de “maquiladoras” não compram os carros que fabricam. Compram carros usados dos EUA e Canadá, até porque no México – ao contrário do Brasil - não há lei alguma que proíba isso.
É importante pensar na diferença entre a situação mexicana e a brasileira, hoje, porque uma das principais linhas de ataque contra o Mercosul se baseia na sua comparação com a Aliança do Pacífico,  uma pseudo-organização criada com o beneplácito e o interesse norte-americano e espanhol, para incentivar a divisão dos países sul-americanos, e sabotar a expansão e consolidação do Mercosul em nossa região.     
No Brasil, costuma-se comparar os índices de crescimento da economia com os de países como o Peru e Chile, esquecendo-se que sua economia é infinitamente menor e menos complexa, e que fatores como a variação do preço do cobre bastam para alterar o PIB para cima ou para baixo, como é o caso do Chile, por exemplo.       
Além disso, os defensores da Aliança do Pacífico como grupo capaz de “enterrar” econômica e politicamente o Mercosul, se esquecem que a maioria dos membros da AP, Colômbia, Peru e Chile, já são estados associados ao Mercado Comum do Sul, pertencendo,  portanto,  mesmo que não ainda na qualidade de membros plenos, à organização.
O Mercosul,  assim como a UNASUL,  com o Conselho de Defesa da América do Sul, se insere no projeto maior de aumentar, pela integração, o poder econômico, político e militar da América do Sul, com relação a outros países, blocos, e regiões do mundo.
É nesse contexto, de integrarmos nossos mercados internos, capacidade produtiva, e inserção geopolítica no Século XXI, que se coloca a decisão, anunciada ontem pelo governo uruguaio, de enviar, para aprovação pelo parlamento, projeto assegurando residência automática a cidadãos nascidos em outros países do Mercosul.
Talvez, hoje, o país mais civilizado da América Latina, o Uruguai, para além da qualidade de vida da sua população - que se reflete em seus índices de saúde, expectativa de vida e educação - tem tomado corajosas decisões nos últimos tempos,  dando exemplo e abrindo caminho para a quebra de paradigmas que mantêm muitos de nossos países atados a um conservadorismo obscurantista e limitador.
Embora o Governo Mujica esteja sendo ousado – o projeto oferece residência automática não apenas aos membros plenos, mas também aos estados associados do Mercosul – o que talvez venha a dificultar a aprovação da proposta, a ideia é interessante e revolucionária.
Com 200 dos 275 milhões de habitantes e 2.6 dos 3.6 trilhões de dólares do PIB do bloco, o Brasil não deve temer a abertura das fronteiras internas do Mercosul. Na semana passada, Bill Gates previu que por volta de 2035 todos os países do mundo serão relativamente ricos. Isso também irá ocorrer na América do Sul, principalmente se os recursos de seus países mais pobres - como os minérios do Peru, o gás da Bolívia, a eletricidade do Paraguai, o petróleo, do Equador – forem utilizados para a redução da desigualdade e a melhora da qualidade de vida de seus habitantes.
Poderíamos, de qualquer forma, começar oferecendo reciprocidade ao Uruguai, dando residência automática a seus cidadãos, caso as mesmas condições forem aprovadas para cidadãos brasileiros se instalarem naquele país.


A ARAPUCA DA COPA


(Hoje em Dia) - Pudesse voltar atrás, e talvez o Presidente Lula não tivesse apresentado a candidatura do país à Copa do Mundo de 2014.

Os problemas que o Brasil tem enfrentado são tantos – e a resistência a tudo que cheire a Panem et Circenses tão grande, nos dias de hoje,  que até  a capital da Suécia, uma das nações mais ricas do mundo, acaba de recusar - com certeza alertada pelo que está ocorrendo em nosso país - o polêmico privilégio de sediar as Olimpíadas de Inverno de 2022, com a justificativa de  economizar recursos públicos.

Com sua ingenuidade, lassidão e, as vezes, “salto alto” – pura arrogância e soberba, segundo seus inimigos – o PT não percebeu, em 2007, que, em política, toda vitória aparente pode ser usada  contra o vitorioso, até prova em contrário. Que o mel que se oferece hoje ao povo, pode se transmutar rapidamente em fel quando não se presta atenção aos detalhes. E que – como no caminho da Chapeuzinho para a casa de sua avó - existem mais percalços que se possa imaginar entre o sonho e a realidade.

Considerando-se os recursos que envolvia, e sua importância estratégica para o governo e a Nação, a Copa deveria ter sido tratada - sem licitação ou terceirização - do planejamento à execução, como uma operação de Estado.

Se o governo tivesse constituído uma estatal binacional com a China, aproveitando a experiência de Pequim na organização das Olimpíadas, os estádios, por exemplo, estariam prontos em poucos meses e seu custo não seria de um centavo a mais que o previsto.

Na comunicação, a Copa continua sendo tratada como festa e não como um projeto nacional com investimento, retorno, criação de empregos e renda definida, e os altos e baixos na relação com a FIFA beiram o improviso.

Enquanto isso, cidadãos voltam às ruas, e com eles, episódios absurdos e constrangedores, como o protagonizado por soldados da PM contra um manifestante em São Paulo.

Os soldados envolvidos poderiam alegar que estavam sendo ameaçados, se estivessem correndo do rapaz – como foi o caso do coronel agredido por manifestantes em junho - e não o contrário.

Cercado por homens fardados, armados e perigosos, que o perseguiam, com a evidente intenção de agredi-lo, e – como se viu pelo vídeo – provavelmente, matá-lo, era o rapaz – mesmo que estivesse portando um estilete – que estava em situação de legítima defesa, e não os soldados.    

Nunca é demais repetir, enganam-se aqueles que pensam que os protestos contra a Copa irão beneficiar, de alguma forma, a oposição.

Primeiro, porque nos estados que comanda e que sediarão jogos, a oposição – a exemplo do próprio governo - virou vidraça para as pedras - que não possuem rumo certo ou filiação partidária - da ala mais radical dos manifestantes,


E, também, porque a oposição não pode fingir apoiar os “anti-copa”, enquanto sua polícia persegue e acua, agride, ataca e atira em quem protesta contra o evento, como vimos em São Paulo.   

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1 de fev. de 2014

INSULZA EM HAVANA


(JB) - O Senhor José Miguel Insulza, Secretário-Geral da OEA, esteve em Havana para participar, como convidado, da segunda reunião da CELAC – Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe, transformando-se no primeiro dirigente da Organização dos Estados Americanos a pisar o solo cubano em 52 anos, desde a expulsão de Cuba da entidade, em janeiro  de 1962.
A CELAC, fundada há dois anos por iniciativa venezuelana, reúne 33 nações da região, com exceção dos Estados Unidos e Canadá, e de ex “potências” coloniais, como Portugal e Espanha,  que têm visto suas sucessivas cúpulas “ibero-americanas”, fracassarem e serem simplesmente ignoradas, por nossos países, cada vez mais.
Por que os norte-americanos e canadenses ficaram de fora da CELAC? Porque, embora teoricamente “americanos”, eles fazem, geopoliticamente, parte de outro bloco - a que pertencem também Grã Bretanha e Austrália - que não é confiável para “nosotros”, como ficou comprovado pelas atividades de espionagem denunciadas por Edward Snowden, praticadas de forma contumaz por esses países contra o resto do mundo, e particularmente contra o Brasil, pelos EUA e o Canadá.
A reunião da CELAC de Havana serviu como uma espécie de desagravo latino-americano, do Rio Grande à Terra do Fogo, a Cuba, e também como reconhecimento geral do fracasso do embargo norte-americano ao regime cubano, tanto do ponto de vista diplomático como do econômico, evidenciado pela inauguração, por Dilma e Raul Castro, do Megaporto de Mariel, e de sua Zona Especial de Desenvolvimento, que tem sido vista pela imprensa internacional como o marco maior da abertura cubana à modernização e ao capital estrangeiro.    
Construído por empresas brasileiras, com a exportação de bens e serviços nacionais no valor de quase 900 milhões de dólares, o Megaporto de Mariel receberá, a partir do próximo ano, fábricas do mundo inteiro, para a montagem - em sua Zona de Desenvolvimento de 255 km2 - de produtos a serem transportados pelo vizinho Canal do Panamá, que está em fase de ampliação.
A importância da reunião da CELAC para Cuba pode ser medida pela presença do Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, e de 32 dos 33 líderes convidados. Além disso – para maior incômodo dos Estados Unidos - foi aprovada, também, a criação de um foro permanente de cooperação dos países membros com a China, que acaba de ultrapassar o Japão como a segunda maior economia do planeta.
A reunião também analisou   projetos de combate à pobreza e à desigualdade na América Latina e Caribe; a transformação desse espaço geográfico em uma “zona de paz” – em velada alusão às bases militares norte-americanas na Colômbia - e o reconhecimento do princípio de não intervenção em assuntos internos de outros países e de cada  país  membro escolher seu próprio “modelo” político”. 
A presença do Secretário-Geral da OEA em Havana, depois de reaberta em 2009 a possibilidade – terminantemente recusada pelas autoridades cubanas - de Cuba voltar a pertencer à organização, se deu mais no contexto de uma clara vitória diplomática e da  superação ao bloqueio imposto pelos EUA, do que de um afago cubano à OEA.
Ao convidar Insulza, Cuba foi generosa. Mas é preciso evitar que isso se torne um hábito. A CELAC foi criada como um foro exclusivo dos povos latino-americanos e do Caribe.
Se a OEA começar a ser convidada oficialmente - mesmo que como observadora - a cada novo encontro da CELAC, será o mesmo que colocar os EUA e o Canadá dentro do plenário.            

O DESPERTAR DE ROSETTA

       
     

(Hoje em Dia) -  A Agência Espacial Européia informa que a sonda Rosetta, foi “despertada” remotamente, de seu estado de hibernação, em um ponto a 807 milhões de quilômetros da Terra. Sua missão: pousar, pela primeira vez, em um cometa, depois de uma longa viagem de 10 anos.

O despertar de Rosetta deve estar inspirando, como ocorreu antes com o lançamento do Sputnyk, por exemplo, ou a chegada do homem à Lua, milhões de seres humanos a refletir sobre o milagre da vida e a  caminhada de certo primata, dos ramos das árvores, nas savanas africanas, até o ponto onde está a sonda, ou, também, a Voyager, que está deixando a última fronteira do nosso sistema para mergulhar no universo profundo.

Para nós, o computador da sonda voltar a zumbir, localizando sua posição atual, com relação às estrelas, diminuir a rotação do objeto, e apontar suas antenas para casa, para conectar-se novamente  ao planeta, não deixa de ter, também, uma conotação política.

As dificuldades enfrentadas pelo Programa Espacial Brasileiro, ao longo de sua história, que nos colocam em situação de grande atraso com relação a outras nações BRICS - a China acaba de mandar uma nave à Lua, e a Índia fez o mesmo com Marte - não derivam apenas da oposição de países ocidentais, como os EUA, à transferência, para o Brasil, de tecnologia sensível. Ou de percalços - ainda não de todo explicados - como a explosão de um protótipo do VLS - Veículo Lançador de Satélite, na Base Espacial de Alcântara, no Maranhão, em 22 de agosto de 2003.

Nos últimos anos, tem nos faltado, mais que recursos, visão estratégica da questão espacial, e de sua importância para a evolução da ciência nacional, e para o fortalecimento da dimensão geopolítica do Brasil em um mundo cada vez mais moderno e competitivo.  


Não é possível que não possamos estabelecer um programa de cooptação e captação de técnicos e cientistas estrangeiros, para fazer com que o VLS saía do estágio em que se encontra, há anos,  praticamente estacionado. Os EUA e a URSS fizeram isso no final da Segunda Guerra, há mais de seis décadas, e nós não conseguimos até hoje estabelecer e aplicar estratégia semelhante, mesmo contando, agora, com muito mais recursos que no passado.

O acordo espacial com a Ucrânia, assinado em 2003, mesmo ano da explosão do VLS, para o lançamento de foguetes Cyclone, ainda não decolou, dez anos depois de assinado, e do gasto de centenas de milhões de dólares.

Enquanto isso, até mesmo empresas particulares, nos EUA, já alcançam, com baixos investimentos, a órbita terrestre, vôos espaciais turísticos particulares começam a ser realizados, e tecnologias muito mais baratas, como a de lançadeiras espaciais, foguetes verticais reutilizáveis e até mesmo de um elevador orbital a laser faz com que corramos o risco de terminar estreando uma carroça quando cidadãos comuns já estiverem voando para o espaço.

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30 de jan. de 2014

O BRASIL DE DAVOS E DE MARIEL


(JB) - A presidente Dilma foi a Davos, na Suiça, para reunir-se, entre outras personalidades, com o presidente do país, Didier Burkhalter, o do grupo SAAB - sócio brasileiro no projeto dos caças Gripen NG - Hakan Buskhe, o da FIFA, Joseph Blatter, e CEOs de grandes multinacionais, como a UNILEVER e a NOVARTIS.  


E de lá, para Havana, Cuba, para se encontrar com líderes do continente, na reunião da CELAC - Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe, e participar, junto ao Presidente Raul Castro, de uma cerimônia emblemática: a inauguração da primeira etapa do terminal de containers e da Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, junto ao porto do mesmo nome, financiado com dinheiro brasileiro e construído por empresas nacionais de engenharia - que geraram, com o projeto, 198.000 empregos no Brasil - em associação com firmas locais, no valor aproximado de um bilhão de dólares.


O objetivo do Brasil, no Fórum Econômico de Davos, foi esclarecer aos investidores que, com relação à economia, por aqui o diabo não está tão feito quanto aparenta ou querem fazer que pareça. Nas conversas com investidores, os representantes brasileiros devem ter apresentado dados como a queda da inadimplência, o aumento da arrecadação, e a manutenção, no ano que passou, do Investimento Estrangeiro Direto em um patamar acima de 60 bilhões de dólares por ano, quase o mesmo,  portanto, que o de 2012.


Já, em Cuba, o papel do Brasil foi o de dar novo exemplo de seu “soft power” regional, exercido também por meio de grandes projetos de infra-estrutura, voltados para melhorar as condições de vida de nossos vizinhos e parceiros, e integrar, pelo desenvolvimento, a América Latina.


O que paraguaios, bolivianos, peruanos, equatorianos, e mexicanos viram, paralelamente à reunião da CELAC, quando tomaram conhecimento da dimensão do projeto de Mariel - onde devem se instalar empresas brasileiras a partir do ano que vem, para montar produtos destinados às Américas e ao Pacífico, aproveitando a vizinhança do Canal do Panamá - não é muito diferente do que o Brasil já faz em seus respectivos países.


Basta lembrar o recém inaugurado linhão elétrico de 500 kV entre Itaipu e Assunção, que permitirá, finalmente, a industrialização do Paraguai;  o gasoduto Bolivia-Brasil, que gera, com a exportação de gás, boa parte do PIB boliviano; os corredores ferroviários e rodoviários bioceânicos, em fase de implantação, que nos levarão ao Peru, Bolívia e Chile, e por meio deles, ao oceano Pacífico; as obras do metrô de Quito, no Equador, que também tem participação brasileira; ou o maior projeto petroquímico em construção no México, que está sendo tocado, em associação com empresas locais, pela Braskem.


Para muita gente, o Brasil de Mariel, que tem consciência de sua dimensão geopolítica na América Latina, é incompatível com o Brasil de Davos, que, muita gente também acredita, deveria se sujeitar aos Estados Unidos e à Europa, em troca de capitais, acordos e investimentos.


Essa visão limitada, tacanha, defendida tanto por alguns setores da oposição, quanto por gente do próprio governo e da base aliada - já foi ultrapassada pelos fatos e deveria ser abandonada em benefício de um projeto de nação à altura de nosso destino e possibilidades.


Quanto mais poder tem um país, mais razões ele tem para ser pragmático, múltiplo, universal, no trato com as outras nações. Não podemos fechar as portas para ninguém, nem deixar de ter contato  ou de fazer negócios com quem quer que seja, desde que essa relação se faça em igualdade de condições.



O que não deve impedir, nem limitar, nosso direito de eleger, estrategicamente, prioridades e alianças, específicas, no âmbito internacional, que nos permitam alcançar mais rapidamente nossas metas de fortalecimento do Brasil e  de melhora das condições de vida da população brasileira. 

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A INTEGRAÇÃO E AS ARMAS


(Hoje em Dia) - Durante boa parte do século XX, principalmente nas décadas de 40, 50, 60 e 70, os militares latino-americanos costumavam ser apresentados e conhecer, uns aos outros, na então tristemente famosa “Escola das Américas”.

Um complexo militar norte-americano instalado na Zona do Canal do Panamá, onde eram treinados e instruídos pelas forças armadas dos EUA, e cooptados por “técnicos” do Pentágono e da CIA, para cerrar fileiras com os Estados Unidos na luta contra o “comunismo” e a URSS.

Era ali que urdiam e aprendiam como dar golpes sangrentos, nos quais a primeira vítima era a Liberdade, e a segunda, seus próprios povos, obrigados a padecer anos e anos sob o tacão de ditaduras, da quebra do Estado de Direito, do terror e da tortura.


Na semana passada, militares e especialistas em defesa da América do Sul se reuniram em Bogotá, para participar de mais um encontro do Conselho de Defesa da América do Sul, organismo vinculado à UNASUL - cuja presidência está sendo exercida, de forma compartilhada, pela Colômbia e o Suriname.


Criado em 2008, o CDS está voltado para quatro linhas de atuação: assistência humanitária e cooperação militar; formação e capacitação; políticas de defesa; e indústria e tecnologia bélica.

A sua existência tem permitido uma aproximação maior, na área de defesa, entre Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Ecuador, Peru, Chile, Guiana, Suriname e Venezuela.

Colômbia e Chile – apesar de membros da Aliança do Pacífico, prejudicada pelo pífio crescimento mexicano de apenas 1.2% - são sócios do Brasil no projeto do jato de transporte militar da Embraer KC-390, (foto - com Argentina, Portugal e República Tcheca). O Brasil compra lanchas fluviais de ataque colombianas para a marinha e o Peru mantêm estreita cooperação com Brasília, principalmente agora que os dois países tem comprado mais armamento russo.


Na reunião de Bogotá foram apresentadas e analisadas as metodologias de planejamento estratégico e de gestão orçamentária na área de defesa da Argentina, Brasil, Chile, Colombia, Peru e Venezuela, com o objetivo de “estabelecer as bases para o desenvolvimento das forças armadas do futuro da região”, um dos temas da reunião de Ministros de Defesa da UNASUL, que está programada para os dias 19 e 20 de fevereiro, em Panamaribo.


Uma situação impensável há alguns anos, se consideramos problemas relativamente recentes, como os que opuseram a Colômbia à Venezuela, envolvendo as FARC - que já estão em processo de pacificação – e, historicamente, o Peru ao Chile, por limites fronteiriços.

Esses conflitos eram usados, no passado, por nações de outras regiões, para nos dividir e separar, e, hoje, não impedem que nossos países compartilhem informações estratégicas, e cooperem mutuamente em torno de projetos e objetivos comuns, nas reuniões do Conselho de Defesa da América do Sul. 

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O BRASIL E O HAITI


(Hoje em Dia) - Acossado pela chegada maciça de imigrantes haitianos, o governo do Acre está pedindo a adoção de medidas  pelo governo federal, incluindo o possível fechamento, temporário, da fronteira do Brasil com o Peru.

Nas últimas semanas, o número de haitianos   que atravessa, sem visto, a fronteira, subiu de 20 para uma média de 70 pessoas. Nas contas do governo acreano, desde 2010, 15.000 estrangeiros já teriam entrado no Brasil pela cidade de Assis. O secretário de Direitos Humanos do estado, Nilson Mourão, alerta para a possibilidade de uma tragédia a qualquer momento. 

Falta logística, água, alimentação. Já são servidas 3.600 refeições por dia no abrigo construído no ano passado em Brasileia,  onde se concentram 1.200 pessoas, o triplo da capacidade inicial.

Com relação ao Haiti, o governo tem cometido grave erro de avaliação. 

Primeiro, porque permitiu que se estabelecesse uma especie de relação especial, de culpa e dependência, entre os dois países.
Como se o Haiti se tivesse transformado, para o Brasil e o resto do mundo, em uma espécie de “nosso” Vietnã. E nossa responsabilidade com aquele país fosse além do compreensível sentimento de solidariedade por uma das nações mais pobres do mundo, atingida por terrível catástrofe natural.
Nossas tropas não bombardearam nem invadiram o Haiti. Elas entraram naquele país em missão de pacificacao, junto a soldados de outras nações, sob mandato e por solicitação da Organização das Nações Unidas.

E, em segundo lugar, porque o governo encarou a chegada dos haitianos ao Acre como uma questão meramente humanitária e não como o que efetivamente é: um esquema criminal de exploração e tráfico de seres humanos, composto tanto pela máfia que envia os haitianos ao Brasil - ameaçando matar seus familiares que ficam no Haiti caso não paguem as extorsivas dívidas contraídas para chegar aqui - quanto pelos funcionários, policiais e “coyotes” que os extorquem, espancam e estupram no Peru,  em um esquema que envolve milhões de dólares por ano e centenas de milhares de dólares por mês.

Se o governo está preocupado com a situação dos haitianos que querem vir para o Brasil, o primeiro a fazer é parar de recebê-los, das mãos de traficantes, na fronteira, e providenciar transporte direto para cá daqueles que conseguirem, dentro do esquema de cotas já estabelecido, vistos de entrada, em nossas instalações diplomáticas no Haiti.

É triste dizer isso, mas estamos apenas reproduzindo, nos abrigos de Brasileia a mesma situação vivida por essa gente em seu país, com o agravante de estarmos colocando a sua vida em risco, caso não consigam emprego e dinheiro para mandar a suas famílias para pagar as dividas contraídas para “viajar” para o Brasil. 

Como mostra o quadro emergencial vivido pelo governo acreano, não resolveremos o problema haitiano enriquecendo os “coyotes” peruanos ou criando outros problemas no Brasil.

24 de jan. de 2014

DE ROLÉZINHOS E ROLEXZINHOS


(Carta Maior) - O setor de shoppings centers se encontra acuado, nas grandes cidades brasileiras, pelo fenômeno do "rolézinho". A situação chegou a tal ponto, que, contrariando o direito de livre expressão, já há centros comerciais pedindo ao Facebook que retire do ar páginas que envolvam esse tipo de encontro, que convoca, pela internet, centenas de jovens a comparecer, em data e horário específicos, a endereços-alvo previamente determinados.

A justiça tem concedido liminares que permitem aos shoppings barrar a entrada desses jovens e impedir que os encontros se realizem em suas dependências.
Movimentos sociais de diferentes tendências, alguns mais tradicionais, e outros surgidos, como os Black Blocks, nas manifestações de junho, tacham as medidas adotadas pelos shoppings de racismo e exclusão e ameaçam convocar "rolezões sociais", já neste fim de semana, para reagir às medidas.

Em junho de 2013, estabeleceu-se, nas ruas e redes sociais improvável aliança entre "rolexzinhos", que gravavam suas mensagens contra o governo e a Copa do Mundo usando como cenário a praça de alimentação de shoppings, e futuros "rolezinhos" da "periferia".

A periferia pode frequentar shopping, desde que seja identificada tão logo entre, e fique permanente sob o olhar de vigias, e em conveniente minoria. E continue gastando como tem gasto a classe C nos últimos anos, responsável pela explosão do faturamento do comércio de móveis, informática e eletrônicos, por exemplo.

O problema é que os "rolézinhos" não estão satisfeitos com isso. Eles querem "zoar", termo que antes estava ligado a ridicularizar, brincar com o outro, e que hoje está sendo substituído, cada vez mais, pelo sentido de "incomodar".

Os "rolézinhos" não querem apenas "dar um rolé", expressão que deu origem ao termo, ou se encontrar, conversar, namorar. Eles querem assustar, pressionar, chocar, o pacato cidadão que frequenta shopping, em busca de sua quota cotidiana ou semanal de lazer, consumo, praça de alimentação e ar condicionado. Querem querem ocupar física e maciçamente todos os espaços, dizer aos frequentadores comuns, e aos rolexzinhos - "olha, nós somos mais fortes, mais numerosos e queremos ter as mesmas coisas, e fazer as mesmas coisas, que vocês".

Há que se ver como alguns auto-designados representantes da "classe média" - que às vezes nem toma conhecimento de sua existência - irão se manifestar, na internet, com relação ao assunto. A direita terá coragem de defender, abertamente, a invasão dos shoppings centers pela periferia? Ou vai torcer, secretamente, para que esses encontros, e a polêmica em torno deles, dê origem a nova onda de protestos?

Já se identifica, entre os "rolézinhos", a infiltração de indivíduos cujo interesse vai além da reivindicação social, coisa fácil de ocorrer, nesse tipo de reuniões, maciça e, às vezes, anonimamente convocadas por meio de redes sociais.

A ABRASCE, que reúne os shoppings centers, precisa começar a entender os "rolézinhos", a partir de outra perspectiva, que não seja a mera repressão, o apelo à polícia e ao judiciário. Se cada shopping tratasse todos os frequentadores da mesma forma, independente de sua cor ou vestimenta, e tivesse uma estrutura de lazer ou de cultura na periferia, para sinalizar às comunidades de menor renda que o setor reconhece sua existência e direito à dignidade, em um contexto social tradicionalmente desigual, talvez se pudesse estabelecer um patamar maior de respeito e de auto-estima para esses cidadãos.

É uma pena, no entanto, que o elemento que detonou todo esse processo tenha sido, primeiramente, o consumo.

Se extrairmos da multidão um ou outro líder, e os "movimentos" sociais "organizados", que, muitas vezes, são apenas grupos de ação, momentaneamente reunidos pela internet, veremos que há muito em comum entre os "rolézinhos" e "rolexzinhos".

Não existe diferença entre a conversa estéril e esnobe dos "rolexzinhos", em volta de seus copos de uísque, na happy hour na Avenida Paulista e as letras de funk ostentação que embalam os "rolézinhos" nos bares e bailes da periferia.

São dois lados da mesma moeda, dois extremos de uma sociedade na qual um par de tênis pode custar mais que dez ou quinze livros novos, marcas de carros são cantadas em prosa e verso, e a maior parte das pessoas desperdiça seu tempo correndo atrás do fugaz e do vulgar, sem conseguir deixar sua marca no mundo, ou ter tido, muitas vezes, a menor consciência política ou espiritual do que representa estar aqui.

Conquistará o futuro quem souber unir rolexzinhos e rolezinhos em um projeto comum de nação, e isso só ocorrerá com a redução da desigualdade e a melhora da educação. Quem sabe, quando contarmos, no Brasil, com um número equivalente de excelentes universidades e centros de pesquisa, ao que temos, agora, de grandes centros comerciais - cerca de 500 - com o mesmo volume de investimentos e a mesma eficiência e garra, na busca e transmissão do conhecimento, com que hoje se persegue o lucro nesses palácios de aço e cristal.

A sociedade brasileira, com seus "rolézinhos" e "rolexzinhos", precisa entender que o Brasil necessita mais de Sapiens Centers, que de Shopping Centers, para poder avançar. 

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