17 de ago. de 2011

GOVERNAR É RESISTIR

Se os suspeitos de desvio de recursos públicos do Ministério do Turismo são criminosos, ou não, cabe à Justiça decidir. Se o uso de algemas foi exagerado, ou não, os policiais envolvidos na operação podem esclarecer. Podemos, no entanto, e mesmo sem pesquisas de opinião, presumir: em sua maioria, as pessoas se sentem aliviadas quando vêem gente bem vestida e de posição social reconhecida, sendo tratada como normalmente se tratam os pobres. Se a lei é igual para todos, todos devem ser tratados da mesma maneira: suspeitos ricos e miseráveis, tenham assaltado com a mão armada ou com a caneta que libera recursos para sócios ocultos.

Há sinais de pressões contra a Chefe de governo e de Estado, a fim de que se esfriem as medidas saneadoras que ela vem tomando, a partir do grande escândalo do Ministério dos Transportes. Há articulações, no Congresso, que visam a emparedar o governo, a fim de que se interrompa a ação da Polícia Federal. Ora, a Polícia Federal atuou, nesse caso e em casos semelhantes, conforme a determinação da Justiça. E a Justiça, nesses casos, só se pronuncia quando provocada, seja pelos órgãos do Poder Executivo, seja pelo Ministério Público. Há que se registrar, também, que, mesmo com as falhas e desvios de seus integrantes – que ela mesma investiga e toma as medidas necessárias – a Polícia Federal, nesses nossos tempos de poder civil, é vista com respeito e admiração pelos brasileiros. Enfim, conforme constatava Tancredo, governar é resistir às pressões.

Muitos parlamentares – entre eles líderes partidários – atuam como se estivessem fora do mundo. Não analisam os casos patentes de corrupção, nem as suspeitas muito bem fundadas. É difícil aceitar que sejam treinados (e à distância) quase dois mil “agentes de turismo” para atuar em Macapá, cidade de 400.000 habitantes e escassas atrações turísticas – e sem ligação rodoviária com o resto do país. Não parece sério. Os cidadãos começam a perceber que os tributos produzidos pelo seu trabalho se destinam, em grande parte, a custear serviços desnecessários, quando não são desviados para enriquecer empresários e servidores públicos desonestos. Fala-se muito em reforma política, mas o Estado deve estar sempre em aprimoramento, com a eliminação de contratos de terceirização de serviços com organizações privadas, como as abomináveis Ongs que surgem para tudo e para nada. Os deputados não entendem que representam a nação e o seu primeiro dever é o de se contrapor ao poder executivo, principalmente no que se refere ao orçamento. Em lugar de exigir a boa distribuição dos recursos, de forma a atender ao bem-estar da população e aos investimentos que tragam resultados econômicos gerais, eles se empenham em obter, mediante as famosas emendas orçamentárias, verbas que beneficiem seus redutos eleitorais. Como a experiência demonstra, muitas vezes tais recursos terminam em contas pessoais.

Mais grave, no caso brasileiro – e disso já tratamos muitas vezes neste espaço – é a promiscuidade entre o Parlamento e o Poder Executivo, que deviam ser bem separados, como é da boa norma nas repúblicas presidencialistas. Nenhum deputado ou senador poderia exercer um cargo executivo, a menos que renunciasse definitivamente ao mandato – como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos.

Os líderes políticos brasileiros não percebem que a grande crise dos estados contemporâneos é decorrente de uma globalização da economia imposta aos paises periféricos pelos centros financeiros internacionais, e que as suas consequências podem atingir-nos, como nos ocorreu no passado, se não construirmos a coesão interna, em torno de atos decisivos contra esses especuladores, dentro de um projeto estratégico e autônomo de desenvolvimento. A população só estará unida ao Estado, para enfrentar a tormenta internacional que se prevê, se confiar plenamente em suas instituições, que, ao livrar-se dos corruptores e peculatários, recuperarão a confiança nacional.

A Europa e os congressistas norte-americanos estão interessados em salvar o capitalismo neoliberal e voltam ao receituário do Consenso de Washington. A Grécia está sendo forçada pelo Banco Central Europeu a privatizar tudo – e até mesmo a vender algumas de suas ilhas. Na Itália, o ministro das Finanças de Berlusconi anuncia a privatização do que sobrou do patrimônio público.

Um bem humorado blogueiro francês, Henry Moreigne, registrou ontem que os povos procuram por homens políticos “desesperadamente”. Ao analisar a crise econômica européia, ele conclui que os governos salvaram os banqueiros com dinheiro público e agora culpam os povos pela bancarrota. “Transferiram para o déficit público as dívidas privadas” – ele resume. E termina: “quando se quer matar um cão, dizem que ele está com raiva. Quando querem matar os estados, dizem que eles estão endividados”.

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/08/12/governar-e-resistir/

http://www.politica-venezuela.com/articulo/13936/BRASIL-Governar-e-resistir

http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com/2011/08/politica-governar-e-resistir.html

http://gilsonsampaio.blogspot.com/2011/08/governar-e-resistir.html

http://blogdogarocha.blogspot.com/2011/08/blog-do-zeducando.html

http://www.entornointeligente.com/articulo/1153658/BRASIL-Governar-e-resistir

http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2011/08/18/governar-e-resistir-por-mauro-santayana/

http://joserosafilho.wordpress.com/2011/08/14/o-cao-e-o-estado/

http://cn2012.wordpress.com/2011/08/13/santayana-a-acao-da-policia-federal/

http://easonfn.wordpress.com/2011/08/13/coisas-da-politica/

http://www.ailtonmedeiros.com.br/pega-ladrao-10/2011/08/13/

13 de ago. de 2011

O TEMPO EXAUSTO

Em todos os séculos houve a percepção de que o mundo chegava a seu fim, com a extinção da vida na Terra, como castigo divino ou inevitável cataclismo. Mas a vida, essa inexplicável rebelião da matéria, que encontra sua perfeição e perversão na existência do homem, consegue impor-se. O preço da sobrevivência é o conflito. Desde que o registro da vida da espécie existe, a existência tem sido a crônica da resistência contra as forças naturais, os outros seres biológicos, feras, bactérias e vírus, e, sobretudo, contra parcelas da própria espécie.

Há uma tese, presente em vários pensadores, e de forma difusa, que explica o conflito básico do homem entre o predador e o solidário. O instinto de caça e de destruição, enfim, de canibalismo direto ou sutil, só consegue ser combatido pela inteligência. A inteligência conduziu o homem a se ver como ser frágil e precário que só poderia sobreviver em comunhão com os outros, multiplicando a força individual, certo de que sua proteção dependia da vida do companheiro. Mas houve o momento em que essa mesma inteligência, que indicava a solidariedade como necessária à existência individual e coletiva, passou a servir ao instinto predador. Ora o homem é o lobo do homem, na definição de Plauto, ora o homem é o anjo do homem, como ocorre, quase todos os dias, no heroísmo de pessoas simples, que chegam a morrer para salvar a vida de outras. Os homens são construtores de sua História. E a História, não obstante a presunção de alguns acadêmicos parvos, como Fukuyama, nunca chegará a seu fim – a menos que o Sol esfrie de repente ou de repente estoure, na impaciência de seus gases comprimidos.

O tempo histórico de vez em quando entra em exaustão. São momentos, que podem durar décadas ou séculos, em que os ritos essenciais da vida são perturbados pelas superestruturas da sociedade, e o indivíduo redescobre a solidariedade, aquele sentimento de que a sua sobrevivência (e sua autonomia como ente, ou aquele que é) só pode ser defendida se contar com o outro. Nesses momentos, para o bem – e, algumas vezes, para o mal – surgem as grandes mudanças, com novas normas de convivência da espécie. Embora possam identificar-se como religiosas ou étnicas, são necessariamente políticas, porque se referem à vida prática dos seres humanos.

Ontem, Londres entrava em seu terceiro dia de tumultos urbanos. Não é a primeira vez que isso ocorre. Além dos protestos sangrentos de Brixton, de há trinta anos, a cidade conheceu o conflito brutal de 1780, em que centenas de católicos foram massacrados pelos protestantes açulados por Lord George Gordon. Vivendo como cidadãos de segunda classe, desde Henrique VIII, os católicos recuperaram sua cidadania de acordo com o Catholic Relief Act, de 1778. Gordon, um nobre frustrado em sua tentativa de fazer carreira no Almirantado, encontrou sua chance para a demagogia, mobilizando os protestantes contra a lei e os levando a queimar propriedades de católicos e a assassiná-los em plena rua. Antes de ser condenado à prisão por rebeldia, Gordon se converteu ao judaísmo. Acabou morrendo na prisão de Newgate.

Há uma diferença entre as agitações urbanas e as revoluções. Como resumia um autor inconveniente, Lenine, sem teoria revolucionária não há revolução. Jean Tulard, um dos melhores historiadores contemporâneos, é seguro quando afirma que as rebeliões populares podem ser facilmente vencidas, seja pela repressão policial, seja pelo engodo por parte do poder. As revoluções necessitam de um esforço intelectual poderoso, de líderes que pensem uma nova ordem e a imponham no exercício da razão. Esses líderes podem surgir no desenvolvimento natural das rebeliões, como ocorreu na França de 1789, depois da Queda da Bastilha, ou em demoradas e pacientes carreiras políticas.

Londres repete, com a mesma impaciência, o que está ocorrendo em várias partes do mundo, e parece provável que virá a ocorrer nas regiões ainda preservadas. O tempo, e nele, os homens, parecem exaustos do modelo da sociedade contemporânea, baseado na competitividade, na voracidade do consumo e do lucro. É uma sociedade contraditória. De um lado, a aplicação tecnológica das descobertas científicas torna a vida mais confortável e mais durável, mas não parece que isso responda aos anseios mais profundos da espécie. E, ainda pior: a tecnologia torna a crueldade mais organizada e mais eficaz. O nazismo foi a mais perfeita utilização da tecnologia para o assassinato em massa de toda a História. Os norte-americanos os repetem, desde a Guerra do Golfo, no Oriente Médio.

Como em outras épocas, a civilização se encontra diante de uma ruptura. O sistema econômico, submetido ao domínio do capital financeiro, entra em crises sucessivas, com a criminosa especulação dos operadores no mercado de capitais. Os indignados, com razões maiores ou menores, se multiplicam. A internet substitui – é outra das surpresas da tecnologia – os agitadores de rua, na condução dos protestos. Falta apenas a ideologia, a que se referem, entre outros, Lenine e Tulard.

A mesma espécie de sábios que decretou o fim da História, com o triunfo da globalização neoliberal, decretara antes o fim das ideologias. A ordem do raciocínio é a mesma: o capitalismo, premiando os audazes e persistentes, liquidaria as ideologias. Na realidade, eles pensavam em uma só ideologia, o que é correto, do ponto de vista lógico: o fim do pensamento de esquerda, com o domínio absoluto da ordem da direita, contra a “anarquia” libertária, acabaria com os lados ideológicos. Onde predomina o pensamento único – no caso, o neoliberal - as idéias se encontram castradas, mortas.

Mas a ideologia não é uma diversão da inteligência. Ela corresponde a interesses humanos bem claros e definidos. Os homens, mesmo quando submetidos ao sofrimento mais terrível, não deixam de aspirar à felicidade. O que difere é o conceito de felicidade de cada um. Para os lúcidos, a felicidade é altruísta. Assim a sentem, por exemplo, os patriotas, quando seu país cresce em prosperidade, e todos vivem em paz e têm a mesma oportunidade de realização. Não pode haver segurança pessoal e o conforto que o trabalho permite, enquanto houver crianças famintas e adolescentes perdidos no turbilhão da miséria, das drogas e do crime. Em uma sociedade como a que nos cabe, ainda não podemos ser felizes, se possuirmos sentimento de pátria. A pátria não é referência geográfica, é uma reunião de seres humanos que falam a mesma língua e têm projetos comuns. Como resumiu Renan, a nação é o ato cotidiano de solidariedade. Os grandes interesses, que manipulam os meios de informação, para manter os povos submissos, inoculam os vírus da intolerância para com os diferentes, e pervertem as parcelas mais débeis dos povos, transformando-as em hordas de predadores e assassinos. Isso ocorre em todos os países do mundo, porque é inerente ao sistema mundial de domínio.

Submetidas à insânia construída e mantida pelo controle da indústria cultural, muitas pessoas só se sentem felizes no usufruto da desigualdade e da injustiça. São aquelas cuja fortuna só lhes serve para a soberba e a intolerância. Há muitos homens ricos que escapam dessa maldição. Lembro-me de uma confidência que me fez, quando participávamos da Comissão Arinos, o industrial Antonio Ermírio de Moraes, cuja posição no grupo de estudos era de centro-esquerda: ele se sentia tranqüilo porque não fazia de sua fortuna uma ofensa a ninguém. Guardava os seus domingos para servir aos outros, na direção de um grande hospital, e não os usava para a ostentação e o hedonismo. Ele, como alguns outros empresários brasileiros, como foi José Alencar, são daqueles que se orgulham mais do número de empregos que criam, do que do conforto e do poder de que podem desfrutar. Mas há – e não só entre os ricos, mas também entre os pobres alienados – aqueles que só se sentem felizes diante da infelicidade alheia. Só são ricos porque vivem em um mundo de pobres. A partir dessa simplificação, podemos concluir que há, sim, e continuará havendo, duas ideologias, direita e esquerda, com suas pequenas variantes no espectro doutrinário.

A extrema-direita só pode impor-se mediante a fraude e o terror. Ela sempre se valeu da combinação dos dois expedientes que, na perfeita síntese da Igreja Católica e da Reforma dos tempos inquisitoriais, se fazia mediante o pavor do inferno, reproduzido no mundo com as torturas, os massacres mútuos de católicos e protestantes, e a hipocrisia da caridade, a fim de garantir a submissão dos oprimidos, com o uso alternado da piedade e da forca, como resumiu um conservador lúcido, Bronislaw Geremek.

Como em todas as grandes mudanças históricas, aguarda-se a intervenção da inteligência, a fim de conduzir a revolução que as ruas anunciam, nos paises árabes, nas praças espanholas e nos bairros de Londres - não só os “sujos” de imigrantes negros e morenos, como Tottenham, mas também em áreas centrais, como a de Oxford City.

A última manifestação de rebeldia que contou com a presença de grandes intelectuais foi a eclosão da juventude, em 1968. Os homens que deram o suporte de suas idéias ao movimento, como Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Max Horkheimer, Jean Paul Sartre, já não existem. Os pensadores de hoje parecem acomodados. Não aparentam dispor da chama interior próxima dos jovens que queriam amar e expressar seu inconformismo com o mal-estar de um mundo unidimensional e injusto, como os que se rebelaram em Paris, em maio de 1968 – e, em seguida, no resto do Ocidente.

O tempo está exausto, mas é provável que se canse da própria exaustão, a fim de, tal como em outras épocas, provocar o fulgor da inteligência e dar a alguns homens não só idéias fortes, mas também o poder de, com elas, convocar a consciência solidária e essencial dos homens, contra os novos bárbaros.

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10 de ago. de 2011

O CÃO AMESTRADO E O CÃO RAIVOSO

Autorizada pelo governo norte-americano, que é o verdadeiro dono do prisioneiro, a França decidiu devolver ao Panamá o general Manoel Antonio Noriega, uma das figuras emblemáticas da criminalidade continental a serviço dos interesses norte-americanos. Tal como Somoza, Trujillo, Batista, Pinochet e outras figuras da mesma natureza sórdida, Noriega foi criado e amamentado pelos centros militares e serviços secretos dos Estados Unidos. Recrutado pela CIA aos vinte e poucos anos, depois de se preparar em escola militar peruana – de Chorillos – Noriega freqüentou a famosa Escola das Américas e o centro de operações psicológicas (leia-se, de torturas) em Fort Bragg, na Carolina do Norte. Sob a proteção de seus adestradores, ele foi, pouco a pouco, se tornando o homem forte do pequeno país da América Central, e, como Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, ditador de fato, mesmo quando a presidência era ocupada por seus prepostos de turno.

Todos os crimes cometidos por Noriega, entre eles os do tráfico de drogas (nesse caso, em parceria com a CIA, de acordo com sólidas acusações feitas pelo jornalista americano Gary Webb, em seu livro Dark Alliance) não só foram tolerados. O dinheiro obtido com o tráfico de cocaína para os próprios Estados Unidos - em grande parte, transformada em crack, para o consumo dos viciados pobres de Los Angeles – serviu para armar os contra-revolucionários da Nicarágua, nas operações comandadas por Oliver North.

O caso Noriega é transparente. Ele prestou serviços sujos quando, em 1977, George Bush pai dirigia a CIA, e nos primeiros meses em que o republicano se tornou presidente dos Estados Unidos. Mas como os cães de fila costumam fazer, Noriega começou a rosnar fora do tom já em 1985, quando mandou assassinar o médico, jornalista e militante de esquerda Hugo Spadafora, provavelmente sem o prévio assentimento dos seus chefes ianques. A morte de Spadafora – pela qual terá que ser julgado no Panamá – é um ato brutal, mas não incomum entre os perpetrados pela extrema-direita. Ele foi preso por um esquadrão de extermínio, quando entrava clandestinamente em seu país, retornando da África. O chefe dos captores, Luis Córdoba, telefonou a Noriega, que se encontrava em Paris. O diálogo foi curto:

Córdoba – Pegamos o cão raivoso.

Noriega- E o que a gente faz com um cão hidrófobo?

Spadafora, que tinha apenas 45 anos, foi barbaramente torturado. Teve seus testículos esmagados e o decapitaram vagarosamente: ao ser encontrado o corpo, envolto em embalagem usada pelos correios americanos, os legistas verificaram que o estômago estava cheio de sangue, resultado da lenta degola.

Os americanos souberam do crime, mas nada fizeram contra Noriega, embora ele passasse a ser visto de forma suspeita, como todos os cães quando escapam da coleira. Só em 1988, quando veio a público o caso do financiamento da contra-revolução da Nicarágua com o dinheiro do tráfico de drogas, em que estava envolvido Noriega, as autoridades começaram a inquietar-se. O Sub-Comitê do Senado para o Tráfico de Entorpecentes, presidido pelo Senador democrata John Kerry, fez duro libelo contra a leniência de Washington para com o ditador panamenho:

“A saga do general Noriega representa uma das mais sérias falhas da política externa dos Estados Unidos”. Nesse mesmo ano, George Bush, pai, foi eleito presidente. Ao mesmo tempo, Noriega não aceitou o resultado eleitoral em seu país, e “nomeou” um seu seguidor para a Presidência. Os Estados Unidos já haviam reconhecido Endara, seu inimigo, que se elegera e não conseguiu assumir. Ao empossar-se, Bush iniciou uma série de atos de represália contra Noriega que, de repente começou a rosnar ainda mais grosso, contra os ianques. A tensão durou todo o ano de 1989. Foi nesse momento que Bush decidiu invadir o Panamá, em uma operação condenada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, por 75 a 20 e 40 abstenções.

Em 20 de dezembro, as tropas norte-americanas estacionadas no Canal, com reforços enviados pelo mar, invadiram o país, causando mais de três mil mortos, entre as pessoas mais pobres do país, que se dispuseram a defender Noriega. Noriega asilou-se na Nunciatura Apostólica, e Bush não teve dúvida: autorizou que as tropas cercassem a Nunciatura e tornassem infernal a vida de seus ocupantes, com música alta e estridente, holofotes poderosos, fogos de artifício. O núncio capitulou e entregou Noriega. Julgado nos Estados Unidos e, mesmo provada a sua subordinação remunerada à CIA, os juizes desdenharam a evidência, afirmando que uma coisa nada tinha a ver com a outra. Noriega deveria ter deixado a prisão em 2007, mas a França pediu sua extradição, a fim de responder ao crime de lavagem de dinheiro da droga em bancos franceses. Depois de uma batalha jurídica que durou até o ano passado, a extradição foi concedida, com o aval de Hillary Clinton. Agora, os franceses resolveram entrega-lo ao Panamá, para que, ali, além de cumprir a pena de sete anos a que foi condenado em Paris, responda pela morte de Spadafora.

Desde que J. Edgar Hoover assumiu, em 1924, os serviços de repressão aos movimentos de esquerda nos Estados Unidos, os norte-americanos sempre se valeram do crime, organizado ou não, para os seus fins políticos. Nos anos 50, no auge de sua pujança, o FBI tinha quase 500 agentes encarregados de combater a esquerda e apenas 4 que se ocupavam do crime organizado, ou seja, da Máfia.

E a política externa dos Estados Unidos sempre cooptou a direita das forças armadas latino-americanas. Como reconheceu Roosevelt – que se valeu de Somoza para matar Sandino – Somoza era um completo son of bitch, mas era canalha deles, logo, usável, como usável foi, mais tarde seu filho, Tachito Somoza, misteriosamente “bazucado” em seu exílio no Paraguai, depois da vitória dos sandinistas na Nicarágua.

Noriega é o testemunho, ainda vivo, do que é a política externa dos Estados Unidos.

9 de ago. de 2011

A HORA DA ECONOMIA REAL

A crise no Ocidente, com suas conseqüências para a bolsa no Brasil, não se origina apenas do fato – lição que deveria ser aprendida de uma vez por todas pelos brasileiros que adoram se abaixar para a Europa e os Estados Unidos - de que os países ditos “desenvolvidos” não são, na verdade, tão avançados assim.

Ou da constatação, derivada do mais comezinho bom senso, de que não é possível que os Estados Unidos continuem financiando ininterruptamente suas guerras, ao custo de 35 bilhões de dólares por semana apenas no front do Afeganistão e do Iraque, sem conseqüências para sua economia.

Também desafia a razão e a justiça, que um quarto da população mundial usufruísse, durante décadas, de padrões de vida e de consumo absurdamente altos com relação ao restante da humanidade, sem dispor, para isso, dos recursos naturais necessários.

Assim como ofendia a ordem natural das coisas, que países como Portugal e a Espanha, miseráveis e agrários até os anos 1970, aqui aparecessem, menos de 20 anos depois, e comprassem – com a prestimosa colaboração de entreguistas locais – setores inteiros de nossa economia. E que executivos de países reconhecidos pelo seu óleo de oliva, bacalhau, sardinha, vinho e azeitona, de repente viessem pavonear no Brasil sua “excelência” em finanças, energia ou telecomunicações.

Quando não foi o próprio BNDES que financiou a entrega de nossas empresas – como aconteceu com a Eletropaulo no governo FHC - o dinheiro que chegou de fora nos anos noventa teve origem, como estamos constatando agora, em economias irrigadas a fundo perdido com recursos da Comunidade Européia e por uma verdadeira indústria de títulos soberanos.

Essas sucessivas gerações de papagaios, emitidas a juros artificialmente baixos, terão que ser resgatadas agora, a não ser que a fantasia continue, com a contínua emissão de “moeda” e a compra ad infinitum de títulos espanhóis, portugueses, italianos, gregos e irlandeses pelo Banco Central Europeu.

A verdade é que, qualquer que seja a saída para a crise, a credibilidade da Europa e dos Estados Unidos se esvaiu.

Depois de um longo verão que durou muitas décadas, as cigarras não conseguirão mais enganar as formigas, com o seu incessante canto sobre a superioridade da civilização branca e ocidental.

Enquanto a Europa – os espanhóis, por exemplo, acreditaram durante anos na ficção aznariana, depois herdada por Zapatero, de que eram a oitava economia do mundo e que iriam entrar pro G-8 – dormia sobre a reconquista neoliberal dos anos noventa, sem perceber que o euro era, literalmente, um tigre de papel, o Brasil, a Rússia, a Índia e a China, estabeleciam, pacientemente, nos últimos dez anos, um novo mundo, obrigando o G-7 a aceitar a criação e a sua substituição, de fato, pelo G-20, e fundando o BRIC.

Investindo na economia real, resgatando milhões de pessoas da miséria, apostando em seus mercados internos e economizando parcimoniosamente seus recursos, o BRIC tem, hoje, três vezes mais reservas internacionais que o G-7, e controla 70% dos títulos norte-americanos em poder de países estrangeiros.

Graças à mudança, adotada a partir do Governo Lula, na orientação das relações com o antigo Primeiro Mundo, privilegiando uma posição mais digna e soberana, o Brasil não deve, hoje, um tostão ao Clube de Paris ou ao Fundo Monetário Internacional, é um dos principais países no “board” do FMI, do qual é credor em mais de 15 bilhões de dólares, e o quarto maior credor externo dos Estados Unidos e – para usar um meio de avaliação tipicamente capitalista - tem um risco-país menor que o norte-americano.

Empresas indianas e chinesas – poderíamos estar fazendo o mesmo, ou em maior proporção, se o altruísmo dos nossos defensores do “livre mercado” deixasse o BNDES trabalhar em paz – estão comprando companhias norte-americanas e européias em grande quantidade, depois de assegurar a maior fatia de seus mercados internos e fontes de matéria-prima como fatores estratégicos para a sua sobrevivência futura.

Afinal, para um cidadão de classe média de Xanghai ou Nova Delhi, é inconcebível ter seu mercado de telecomunicações controlado por espanhóis ou portugueses ou viver sem uma marca nacional de automóveis.

Para o brasileiro médio, ao contrário, isso é natural. Talvez por isso, nossos carros do mesmo modelo e da mesma marca sejam mais caros aqui do que em outros países, ou estejamos pagando as tarifas mais altas do mundo de internet e telefonia celular.

Acho que o melhor caminho para o Brasil nesse momento seria transformar a crise em uma oportunidade para aprofundar ainda mais o seu distanciamento do capitalismo imprevidente e estéril que criou a grande ilusão européia dos últimos anos e trabalhar, cada vez mais, dentro da economia real.

Precisamos investir cada vez mais na produção e cada vez menos na especulação financeira. Cada vez mais no mercado interno, via melhoria da renda, e aumento no número de empregos, e menos nos mercados externos. E, no exterior, precisamos investir cada vez mais nas relações sul-sul e com o BRIC, exigindo relações de troca mais justas de nossos grandes parceiros como a China.

Investir na economia real, no Brasil, implica em nos livrarmos dos fantasmas que, uivando e arrastando correntes, impedem o avanço do Brasil.

Nesse aspecto, o Banco Central poderia começar fazendo um grande favor à sociedade brasileira, suspendendo indefinidamente a publicação do Boletim Focus já a partir da próxima edição.

Com isso, o Brasil se livraria de um particular Oráculo de Hades, cujos “analistas”, representativos do “mercado” além de não acertar um prognóstico nos últimos anos, tem se dedicado permanentemente a sabotar o crescimento econômico quando não a justificar, e mais, incentivar, a manutenção dos juros da SELIC como os mais altos do mundo.

Outra medida que o Governo poderia tomar agora - é claro que o “mercado” não deixaria isso acontecer - seria estabelecer um piso para a queda do BOVESPA e investir parte das reservas internacionais na compra de ações de empresas nacionais estratégicas, cotadas na Bolsa de São Paulo.

Com isso, poderia se evitar o derretimento da BOVESPA, trazendo de volta os investidores, ao mesmo tempo em que se aumentaria - mesmo que para venda futura com razoável ganho - a participação acionária do governo em companhias do porte da VALE, da BRASKEM e da Petrobras.

A terceira providência, a ser tomada por nós, ou em conjunto com a China e a Índia – eventualmente depois da intervenção positiva do governo na Bovespa - seria fazer uma ampla campanha internacional de oportunidade, neste momento de quebra de paradigmas e de crepúsculo dos deuses e em que a crise atinge tão duramente o Ocidente, chamando os investidores estrangeiros a apostar no BRIC.

Finalmente, com relação ao caso brasileiro, nunca é demais lembrar que, em uma crise, a grande vantagem de se trabalhar com commodities é que o mercado global não pode viver sem elas.

Enquanto a capacidade de consumo de sua população de mais de um terço da Humanidade continuar crescendo - mesmo que haja momentânea diminuição da demanda externa por seus produtos e serviços - China e Índia continuarão a comprar nossos produtos. E o resto do mundo também.

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http://eduardochuchu.blogspot.com/2011/08/hora-da-economia-real.html

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http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com/2011/08/economia-mauro-santayana-hora-da.html

http://cmarinsdasilva.com.br/wp/politica/eua-europa-e-a-hora-da-economia-real













6 de ago. de 2011

A REPÚBLICA SE CONSOLIDA

O Ministro Nelson Jobim, respeitemos os fatos, é um político singular na história recente do país. Ele surge no cenário nacional em 1987, ao eleger-se para a Câmara dos Deputados. Rapidamente, impressionou seus pares pelo desembaraço. Sua vida acadêmica é rica: professor-adjunto de Direito da Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em que se formou, nela também obteve o mestrado em Filosofia Analítica e Lógica Matemática. Não obstante esses títulos, Jobim é intelectualmente discreto: nunca demonstra todo o seu saber nos pronunciamentos políticos ou em seus escritos. A vaidade ele a guarda para a prática cotidiana da política. É um homem que, em todos os atos, parece dizer que nasceu para mandar. Mas, pelo que vemos, não entende que o poder depende da legitimidade. Em seu caso, a legitimidade é conferida pela confiança da Presidente. Quando falta legitimidade a qualquer poder, ele é tão sólido quanto uma nuvem de verão.

No duelo de grandeza entre ele e Fernando Henrique, registre-se a verdade, o sociólogo levou vantagem sobre o filósofo e jurista. Matreiramente, como sempre foi, o então presidente valeu-se da intemperança de Jobim, sem que esse percebesse. Fez como se seguisse a orientação do gaúcho, dando-lhe corda, enquanto o conduzia pelos cordéis da lisonja. Jobim tem uma relação quase pavloviana com a real ou falsa admiração alheia. Nesses momentos, ele consegue inflar a alma por dentro do corpo.

Em uma visita que lhe fez, quando ocupava o Ministério da Justiça, o saudoso jornalista Márcio Moreira Alves anotou que o Ministro demonstrava sua cultura, ao ter, sobre a mesa, o conhecido compêndio de ensaios políticos de John Jay, James Madison e Alexander Hamilton, The Federalist. Os três grandes pensadores e políticos norte-americanos, mais do que discutir os fundamentos constitucionais da jovem república, redigiram uma espécie de manual republicano, a partir do pensamento clássico e dos filósofos ingleses do século 17. É, na certa, um bom estudo, principalmente para o uso daqueles que se sentem desestimulados a visitar o pensamento original e mais complexo dos clássicos, de Aristóteles a Locke, de Santo Tomás a Montesquieu, que inspiraram os políticos norte-americanos. Marcito, que se encontrava em fase serena de sua carreira, tratou Jobim com tal bonomia que os maliciosos poderiam ter considerado irônica.

Jobim é vaidoso, embora, pelo que se sabe, não se mete em negócios estranhos. Tal como Romero Jucá, porém, sua adesão ao governo independe de quem o chefie ou do partido que nele exerça hegemonia. É o terceiro período presidencial em que se destaca, nos poderes republicanos, como parlamentar, ministro, juiz e presidente do STF.

Em nenhum cargo Jobim se sentiu tão ele mesmo como no Ministério da Defesa. Seu entusiasmo foi o do escoteiro ao ser admitido no grupo. Tanto assim, que não titubeou: em poucas horas já envergava o uniforme de campanha dos oficiais superiores do Exército. Jobim é assim construído: tem o seu lado lúdico, e algum psicanalista de botequim poderia concluir que ele brinca sempre.

Mandar é com ele mesmo. Lula, que tem outro tipo de astúcia, bem diferente da que esgrime Fernando Henrique, também manobrou bem com Jobim. É certo que Lula não ficou muito à vontade quando Jobim, ao substituir um dos homens mais dignos de nossa história política, o baiano Valdir Pires, cometeu a grosseria de insinuar que seu antecessor não ocupara o cargo com a autoridade que lhe competia. A diferença é que Valdir administrava um ministério de militares em tempo de paz, enquanto Jobim parecia sonhar com o desempenho de Rommel e de Patton nos desertos africanos, e de Eisenhower e Zhukov, no desembarque na Normandia e no avanço sobre a Alemanha. Os chefes militares logo descobriram que Jobim estava encantado em brincar de marechal, e com ele se ajeitaram. Enfim, como Jobim fingia que mandava, eles, mais experientes, fingiam que obedeciam.

Ele se encontrava pouco à vontade, quando despachava com a presidente. Convenhamos que não é cômodo para Jobim submeter-se ao mando de uma mulher. Talvez mais para justificar-se diante de seus amigos paulistas do que para expressar um sentimento real, disse o que disse na festa dos oitenta anos de Fernando Henrique, a propósito dos “idiotas” do governo, com os quais era forçado a conviver hoje, bem diferentes dos “geniais” ministros do excelso intelectual. As suas declarações à Revista Piauí – que ele, sem muito jeito, tentou desmentir - ajustam-se à sua personalidade. A mais grave delas se refere ao episódio da nomeação de José Genoíno como seu assessor, quando afirma que, diante da hesitação da presidente sobre a capacidade do ex-guerrilheiro para o cargo, cortou logo a dúvida: quem sabia se Genoíno desempenharia bem a sua função era ele, Jobim, e não ela, Dilma. Se o diálogo realmente houve, ele não só contrariou as normas do poder, mas, ainda mais, violou as regras do cavalheirismo.

Por mais Dilma Roussef tenha recebido o apoio de Lula, ao assumir o cargo ela se tornou a chefe de Estado do Brasil, com todas as responsabilidades e prerrogativas do cargo, legitimada pela vontade da nação. Ela só tem que obedecer aos interesses nacionais, e cumprir a Constituição e as leis, de acordo com a sua própria consciência. E os que se sentirem incomodados com sua liderança, se assim lhes parecer melhor, podem deixar o governo. O Brasil tem centenas de milhares de cidadãs e cidadãos, patriotas e de probidade, capazes de exercer bem o múnus republicano – mesmo que não conheçam os endereços de Brasília.

Foi assim que se desfez a pequena crise: Jobim se demitiu no início da noite e um grande e sensato brasileiro, Celso Amorim, já foi nomeado para substituí-lo. O Brasil se consolida como República.

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5 de ago. de 2011

EUA: OS MITOS E A HISTÓRIA

Toda reconstrução histórica, por mais isento seja o pesquisador, corre o risco de se transformar em mitologia. Os heróis crescem em cada nova versão de seus feitos, geração após geração. Homero, em sua cegueira, viu os heróis míticos – já agigantados nas rapsódias de poetas anônimos e mais antigos – sob o esplendor de suas luzes interiores. Os rochedos e as correntes marinhas do estreito de Messina se transformam em monstros e sereias. Os prováveis conquistadores da pequena cidade costeira de Tróia e seus defensores se elevam à natureza de titãs.

As cores, na alma dos cegos, são muito mais intensas, e, da mesma forma, maiores os gigantes, mais rijos os heróis; a morte, quanto mais terrível, mais gloriosa. Mas os cegos não são apenas aqueles desprovidos da visão convencional. Confirmando o ditado popular, piores são os cegos que não querem ver.

Quando surgem os destruidores de mitos, nascem os construtores do homem. O mais belo dos mitos, o do Cristianismo, é, na sua essência, o não mito: é na debilidade de um homem açoitado, vaiado por seus conterrâneos, desdenhado e crucificado, que o verdadeiro cristianismo levanta seus alicerces.

Todos os povos temem confrontar-se com seus próprios mitos. E quanto mais grandiosos eles sejam, mais dramática é a tarefa de reduzi-los aos módulos humanos. Os Estados Unidos são o mais mitológico dos paises modernos, e é no embalo dessa mitologia que eles foram construindo o seu destino. Há um livro de leitura obrigatória sobre a reconstrução de seu passado, traduzido ao português, Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos, do historiador americano Ray Raphael, publicado pela Civilização Brasileira em 2004. O autor desmonta os mais fascinantes mitos da Revolução e da criação da República, da famosa marcha de Paul Revere à Declaração da Independência e aos feitos bélicos de George Washington. Paul Revere foi um dos três mensageiros que alertaram contra a movimentação dos ingleses – e não o único “cavaleiro da meia-noite” do mito; Jefferson foi apenas um dos cinco redatores da Declaração da Independência, e não seu autor solitário; as tropas rebeldes cometeram tantas atrocidades contra os civis quanto as realistas. Enfim, a mitologia dos pais fundadores surgiu de autores que reescreveram a História, décadas depois, durante o período de afirmação nacionalista e da presunção do “Destino Manifesto”, na segunda metade do século 19.

É certo que todas as nações necessitam de heróis, mas esses heróis são bem maiores quando se trata de homens comuns, com seus temores, suas fraquezas, suas incertezas. Em 1908, outro livro, de título semelhante, e citado por Ray Raphael – Mitos e fatos da Revolução Americana – mostra a raiz da distorção histórica:

Que utilidade política pode haver em descobrir, ainda que seja verdade, que Washington não era assim tão sábio, nem Warren tão corajoso, nem Putnam tão aventuroso, nem Bunker Hill disputado heroicamente, como se tem acreditado? Chega de tanto ceticismo, dizemos; e da crítica bisbilhoteira com a qual às vezes se tenta sustenta-lo. Essas crenças, de qualquer modo, tornaram-se reais para nós quando penetraram na própria alma da nossa história e formaram o estilo de nosso pensamento nacional. Tira-las, agora, seria uma desorganização danosa da mente nacional”.

A História oficial norte-americana tem suas razões para raras vezes citar o mais inquietante de seus personagens, o jornalista inglês Tom Payne. Payne era o tipo perfeito do anti-herói: cachaceiro, utópico defensor de uma sociedade igualitária, pregador da educação para todas as crianças pobres, sonhador de uma “justiça agrária”, e autor do mais importante paper em favor da Independência, The Common Sense. Ele era, em tudo por tudo – até mesmo pelo seu autodidatismo – o contrário dos aristocratas virginianos e bostonianos que a mitologia americana cultua como os pais fundadores.

De mito em mito, os norte-americanos construíram sua civilização e, diga-se a verdade, amedrontaram grande parte do mundo. Agora, no entanto, começam a descobrir a sua própria verdade, ao mesmo tempo que vêem crescer o apelo à mitologia. A direita norte-americana recorre ao famoso episódio da revolta contra a tributação do chá – outro mito desfeito por Ray Raphael – e tenta amarrar-se à ficção histórica, com a presunção de que possa reeditar o “Destino Manifesto” de John L. Sullivan, de 1845, texto visto como justificação ideológica para a guerra de conquista contra o México, que se iniciaria no ano seguinte.

Há quem preveja nova guerra civil nos Estados Unidos, e essa profecia, que pode parecer insana, encontra alguma base na divisão nítida entre os republicanos envenenados pela mitologia do Tea Party e a população pobre que irá pagar pela avidez doentia de seus banqueiros e chefes militares.

Os tempos são novos. Não estamos mais no governo de Roosevelt e seu “new deal”. Diante da crise de 1929, que se estendeu até sua posse, o presidente valeu-se dos recursos fiscais acumulados, a fim de socorrer os trabalhadores, criando empregos para tarefas até mesmo desnecessárias, mas não dando dinheiro aos banqueiros nem aos outros especuladores no mercado de capitais, que haviam provocado o desastre. Pouco a pouco, a população se torna a cada dia mais bem informada, e não é improvável que os descontentes venham a organizar-se.

Os donos do poder nos Estados Unidos continuam insistindo nas versões “patrióticas” construídas pelos interesses das famílias no poder, mas começa a crescer a consciência da realidade. As derrotas sucessivas mostram que a invencibilidade militar ianque é outro mito, e é melhor somar-se à Humanidade do que pretender dominá-la.

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4 de ago. de 2011

A DESONERAÇÃO E OS TRABALHADORES

A passeata convocada para São Paulo, , por algumas das principais entidades sindicais do país, e o propósito, anunciado pelo governo, de desonerar a folha de pagamento de alguns setores industriais não nos remetem a Marx e a seus discípulos, mas nos fazem retornar a Platão. No mais político de seus Diálogos, o deGórgias, ele reconstitui — ou cria — discussão entre Sócrates, Górgias, Querefonte, Polo e Calicles. Sócrates vence, e convence, ao afirmar que a melhor forma de viver é a de praticar a justiça, além de todas as outras virtudes, e arrasa seu oponente, ao completar que de nada vale a argumentação de Calicles de que o Estado existe, e deve existir, em favor dos poderosos — e contra os débeis.

O jovem e rico contendor do filósofo chega a citar Píndaro, em seu verso conhecido, segundo o qual a força faz o direito. A isso se opõe Sócrates, reclamando o papel do Estado como garantidor da justiça, mediante as leis. Enfim, o Estado só é legítimo quando protege os débeis.

É interessante a posição de certos empresários, ao reclamar contra os direitos trabalhistas. Quando a economia vai mal, eles se queixam, e argumentam que a flexibilização das leis do trabalho favorece o aumento do nível de emprego; quando a economia vai bem, o que ocorre agora, alegam que não conseguem competir com a importação de bens industriais, a não ser com o sacrifício dos trabalhadores.

Ora, para alguns patrões, nada melhor do que uma sociedade econômica sem salários, e é o que buscam, na automação, a cada dia maior, dos processos industriais. Ainda agora, uma empresa de Taiwan anuncia a produção de 1 milhão de robôs para a indústria da China. Bem argumentam os que consideram a sociedade industrial contemporânea a mais injusta de quantas houve na História.

Como não pode haver produção sem consumo, nem consumo sem salários, o aumento da desigualdade leva a crises econômicas profundas, como mostram os exemplos de 1929 aos nossos dias.

As medidas anunciadas ontem pelo governo em seu conjunto são necessárias. A preferência pela compra de produtos e serviços nacionais pelo Estado é boa providência, e melhor seria se, como produtos nacionais, só fossem considerados os procedentes de firmas realmente brasileiras, e não dentro da latitude imposta pelas emendas constitucionais do governo neoliberal de Fernando Henrique.

Hoje, qualquer empresa, de capital externo, constituída no Brasil, ou adquirida de brasileiros, é considerada nacional. É um bom começo, embora parcela importante do que economizarmos com a redução das importações venha a ser consumida na remessa de lucros ao exterior pelas multinacionais. Esse primeiro passo, ao que parece, será seguido de outros. Conforme disse Mantega, é preciso proteger os produtores brasileiros contra os aventureiros que vêm de fora.

Apesar de tudo isso, os reais produtores, que são os que trabalham no pátio das fábricas, buscam, como é de seu direito, e de justiça, negociar com ganho real os acordos anuais de salários. Lutam também pela redução da jornada de trabalho, pelo fim do fator previdenciário, e pela regulamentação da terceirização, esse instrumento impiedoso de compra e venda da força e inteligência do trabalho — com lucros espantosos. Daí, a passeata anunciada para hoje em São Paulo.

O mundo vive momento novo, dentro da velha injustiça que, pelo que vemos, já era objeto das especulações de Platão. Como a injustiça é o resultado da insensatez, os congressistas norte-americanos não foram assistidos da razão, ao debitar aos pobres a espantosa dívida do país. Não foram os pobres que gastaram as centenas de bilhões de dólares nas aventuras militares do Oriente Médio, que se somam às cifras inimagináveis consumidas em outras expedições de saqueio pelo mundo afora.

E por falar em aventuras militares, convém ler com atenção o artigo do almirante Mário César Flores, ontem publicado em O Estado de S. Paulo sobre a pouca percepção que os brasileiros têm da importância e necessidade de forças apropriadas para a defesa da soberania nacional. As Forças Armadas devem ser suficientemente poderosas a fim de dissuadir eventuais agressores à nossa soberania geográfica e política.

Não asseguramos saúde de qualidade, e não cuidamos bem dos homens aos quais incumbe a defesa do país

Não temos cuidado de erguer e solidificar os pilares de nossa liberdade e segurança no mundo. A educação elementar é desdenhada. Proliferam, graças ao liberalismo oficial, universidades privadas sem qualidade autorizadas a explorar o sonho dos pobres. Não conseguimos assegurar saúde pública universal de qualidade, e não cuidamos bem dos homens aos quais incumbe a defesa do país.

E uma boa notícia. Ao assegurar a liberdade de trabalho para os músicos, contra a filiação compulsória à Ordem dos Músicos do Brasil, o STF dá mais um passo contra a praga do corporativismo, em favor da plena liberdade de trabalho e de expressão cultural dos cidadãos, conforme os princípios basilares da democracia republicana.

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3 de ago. de 2011

O BNDES E O FUTURO DO BRASIL

Multiplicam-se, nas últimas semanas, na imprensa brasileira e na internacional, os ataques ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.

As críticas, atribuídas aos mesmos “economistas” de sempre, a anônimos “analistas”, ou a fontes genéricas do “mercado”, entidades famosas por falharem, persistentemente, nos últimos anos, em suas previsões – notadamente sobre o desempenho do governo em quesitos como o superávit comercial e o combate à inflação – acusam o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social de realizar operações “polêmicas”, e de baixo ou lento “retorno”, citando, entre outros, os casos da MARFRIG e da BR FOODS.

Insidiosamente, essas vozes alegam estar se levantando em defesa do “interesse público”, já que essas intervenções seriam “concentradoras”, e estariam ameaçando a concorrência e aumentando os preços para o consumidor.

Tenho insistido, aqui, e em outros espaços, que desde a instalação da Companhia das Índias, e de suas irmãs e congêneres, que impuseram, a ferro e fogo, o “livre comércio” do Ocidente a meio mundo, com o sutil uso de balas de canhão, do saqueio, de incêndios e de decapitações como meio de persuasão – vide as Guerras do Ópio, por exemplo - que a livre concorrência é um mito que deveria figurar, ao lado das galinhas que botam ovos de ouro, dos unicórnios, do Lobo Mau e do Chapeuzinho Vermelho, nas páginas dos contos de fada escritos pelos Irmãos Grimm, Andersen, Perrault e La Fontaine.

Não existiu guerra no mundo, desde a invenção do machado de pedra, que não tenha sido iniciada por interesses econômicos, na conquista de novos mercados, de mão-de-obra barata – para a captura de escravos – ou de matérias-primas.

O “mercado” e suas mãos – visíveis ou não – move-se segundo o interesse do mais forte, e, em um grau acima, segundo os interesses nacionais dos países que têm, ou pretendem ter influência, em um mercado global cada vez mais acirradamente competitivo, do ponto de vista estratégico e geopolítico.

A China está a caminho de converter-se, em poucos anos, na maior potência do mundo, graças não às suas instituições de regulação da “concorrência”, mas à presença maciça do estado na economia, através de instituições de coordenação e de fomento como o BNDES.

Lá, como em outros países, inclusive ocidentais, o estado assegura preços justos para os cidadãos sentando-se à mesa da diretoria das grandes empresas e fazendo valer o seu voto, e não através de agências reguladoras que, – como acontece no Brasil - defendem os interesses das grandes empresas, muitas vezes majoritariamente estrangeiras, contra o consumidor nacional.

É uma piada falar de livre concorrência num país no qual empresas oriundas de países que eram medievais e agrários até a década de 1970, como Portugal e Espanha, ou que agora estão quebrados, como a Itália, adquiriram o controle de nosso mercado de telecomunicações não por sua competência na produção de bacalhau, azeitonas ou spaghetti, mas sim graças ao acesso a dinheiro barato, subsidiado direta e indiretamente por seus respectivos governos, e por bancos de fomento europeus do tipo do BNDES.

E no qual, esse é o caso do Brasil, a população paga - até mesmo por causa dessas privatizações - as tarifas mais altas do mundo de telefonia celular e internet banda larga, segundo pesquisa da União Geral de Telecomunicações.

Por mais que desagrade ao “mercado”, aos governos estrangeiros e às multinacionais, o Brasil continuará a contar, no futuro, com um dos maiores bancos de fomento do mundo, com um orçamento três vezes maior do que o do Banco Mundial.

Não sendo banco de varejo, mas um instrumento de desenvolvimento e de projeção do poder nacional no mercado interno e no resto do mundo, o BNDES pode, eventualmente, não apresentar lucro em uma ou outra operação, desde que esta seja estratégica a médio ou longo prazo para o País.

Esse é o preço de assegurar a presença do Estado em áreas em que é importante contar com grandes “players” nos mercados internacionais.

Ou nas quais onde não se pode simplesmente entregar de mão beijada nosso mercado interno a grandes “players” concorrentes, que são direta ou indiretamente controlados pelo interesse estrangeiro ou multinacional.

A diferença entre o mundo de faz-de-conta dos “agentes” do “mercado” que se dedicam a ludibriar quem ainda acredita no Super-Homem e no Papai Noel, e o mundo real, concreto, do Século XXI, é a mesma que existe entre as mentiras da “livre concorrência” propugnada e defendida pelo mundo ocidental - marcadamente os Estados Unidos e os países centrais da Europa - que sempre intervieio descaradamente na economia ao longo do século XX, e a “realpolitik” chinesa dos dias atuais.

A China sabe que participar diretamente de grandes empresas, criadas pela fusão de empresas menores – com o apoio de bancos e instituições de fomento - é essencial para assegurar a sinergia e a escala necessárias a assegurar o acesso, pela sua população, a maior do planeta, a serviços, mercadorias e alimentos a preço justo.

Assim como sabe que uma presença forte do Estado da Economia, através de bancos de fomento e em parceria com a iniciativa privada nacional, é essencial para assegurar - via operações coordenadas de empresas da mesma cadeia produtiva - a competitividade de suas mercadorias nos mercados globais, a expansão de suas exportações e de suas reservas internacionais, que já passam de 5 trilhões de dólares, e a aquisição de empresas e de fontes de matéria-prima no exterior.

O segredo do sucesso chinês se deve ao fato de que, na China, a sociedade e o governo dão mais atenção aos estrategistas do que aos “economistas”.

Ou aos “analistas” e ao “mercado”, que tanto espaço ocupam no Brasil em certos meios de comunicação, e que, como todo mundo sabe, na maioria das vezes só abrem a boca para defender seus próprios interesses ou o de seus patrões.

Para assegurar sua presença no mundo, e defender seus consumidores, o Brasil precisa de mais empresas como a MARFRIG, GERDAU, AMBEV, EMBRAER, PETROBRAS, VALE, BRASKEM, que contem – se necessário - com o apoio do Estado ou uma ponderável presença estatal em sua composição acionária.

E de novos players de grande porte, como uma AMAZONBRAS, para explorar o minério, a energia, a madeira e a biodiversidade amazônica, nos moldes do que foi a TVA, a TENNESSEE VALLEY AUTHORITY, para os Estados Unidos, de empresas automobilísticas nacionais (a WEG está desenvolvendo novos sistemas de tração de para automóveis elétricos), de uma grande empresa de material bélico para a produção de armamentos, para assegurar a defesa de nossos imensos recursos naturais.

Se as fábricas de armamento na Espanha e na França pertencem ao Estado, se o Governo norte-americano controla, através da AMTRAK, o transporte ferroviário de passageiros, se autoridades da China e do Japão tem uma forte presença na economia, por que o Brasil não pode fazer o mesmo?


O Governo brasileiro precisa deixar de ser refém do “mercado” na hora de definir um projeto de longo prazo para o fortalecimento do país no Século XXI.

Neste novo tempo, a única forma de assegurar a manutenção de setores estratégicos em mãos nacionais é a presença do Estado na economia.

Quem defende - como é o caso dos nossos aeroportos – o retorno das privatizações pode estar certo de que tudo o que for vendido agora será “re-estatizado” no futuro.

Não pelo governo brasileiro, mas por camaradas do Partido Comunista Chinês vestidos de ternos Armani, que desembarcarão, nesses mesmos aeroportos, com bilhões de dólares, em um futuro próximo, para comprar dos europeus e norte-americanos que estão virtualmente quebrados e de seus testas de ferro do “mercado” brasileiro, as empresas e os setores que foram vendidos nos anos 1990 e os que vierem a ser privatizados a partir de agora.

Nunca é demais reiterar o alerta, especialmente dedicado a quem tiver dificuldade de fazer um curso intensivo de mandarim até 2014: a sociedade brasileira não pode se deixar enganar pelo canto das cassandras.

A defesa do fortalecimento institucional e financeiro do BNDES será mais que necessária, fundamental, agora e no futuro, para assegurar a sua consolidação como um instrumento imprescindível para nossa sobrevivência nacional nos próximos anos.

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