9 de mar de 2011

TEMPOS DE LUZES, TEMPOS SOMBRIOS

No mesmo momento em que se divulgava o excelente desempenho da economia brasileira, com o aumento do PIB em 7.5% no ano passado, a crônica policial nos dilacerava a alma: uma menina de seis anos estrangulada em precário hotel de periferia, um rapaz de 22 anos que matou os pais, porque eles reclamavam de sua indolência, troca de tiros entre policiais baianos, um homem embriagado que joga seu carro contra ciclistas indefesos.

O mundo é um espaço perigoso. Estamos sempre driblando a morte e os seus emissários. Uma teoria veterinária conclui que é da natureza do homem matar o semelhante. Uma idéia ancestral de transcendência, no entanto, ampara a espécie. Ao descobrir que podia pensar, e que não conseguia explicar a vida, o homem primitivo intuiu a existência do sobrenatural e estabeleceu com essa possibilidade uma aliança, que os teólogos definem como eterna. Com ela, robusteceu-se a coesão dos grupos, e o destino do homem, como espécie, se subordinou à idéia de Deus.

A idéia não é nova e foi exposta incontáveis vezes por pensadores crentes e agnósticos: na medida em que a ciência avança e realiza os milagres que antes só se esperavam dos santos, a força disciplinadora da fé se reduz, e o fanatismo a perturba. As virtudes escapam dos lares sem esperança, e as noções do bem e do mal se confundem nas sombras da miséria, ou nas fímbrias da paranóia, essa enfermidade antiga e que parece endêmica. Por mais se tornem comuns crimes contra as crianças e os velhos, esses delitos sempre nos lanham com mais profundidade, porque as vítimas não têm como se defender.

Há 34 anos, um autor norte-americano, conservador de origem marxista, Christopher Lasch (1932-1994), publicou intrigante livro sobre a família e o lar – tendo em vista os padrões sociais da classe média americana – com o título de Refúgio em um mundo sem coração. Sua conclusão nuclear é dialética: as ameaças externas à família (as decorrentes da sociedade de produção capitalista) que açulam os indivíduos à competição a qualquer custo, em lugar de consolidar o afeto e a solidariedade nos lares, desfazem esses sentimentos. A família mais se desagrega quanto mais ameaçada se vê.

A menina Lavínia morreu, entre outras razões, porque seu pai guardava dois mil reais, a fim de dar entrada em um carro. O automóvel é hoje o primeiro símbolo de realização. Os dois mil reais eram vistos, pela amante do pai da menina, como pequena fortuna. De acordo com as evidências, Lavínia seria o objeto de troca, e por isso foi seqüestrada, levada ao hotel e assassinada.

Os estudos de Lasch são complexos, porque analisam os diversos aspectos da falência da família clássica, mas convergem na relação clara entre o desenvolvimento da economia liberal capitalista e o fim da instituição, tal como ela existia nos Estados Unidos, mesmo nos primeiros decênios da ascensão da burguesia industrial. Entre esses fatores, ele aponta a influência sobre a educação exercida pelos meios de comunicação e entretenimento, e a substituição dos pais pelas escolas subordinadas à ordem de domínio que repele a solidariedade e incita ao egoísmo. Essa separação entre o afeto e a objetividade capitalista transforma, muitas vezes, pais e filhos em estranhos. E entre estranhos, parece ter ocorrido o assassinato de um casal em São Bernardo – uma das cidades de melhor nível de vida do Brasil – pelo seu filho, o mecânico Christiano Martins, de 22 anos. Ou o assassinato de um filho pelo pai.

Mas a família ainda existe, e é no sofrimento dos que, filhos e pais, lutam para salvar seus integrantes do desamor e das drogas –sobretudo do álcool, a mais letal de todas que há ainda alguma esperança.

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