1 de abr de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - BENTO E AS ALMAS



Desde muito miúdo preferia os quartos vazios, os cômodos de pouca serventia, a sala do oratório. Tão quieto, não pedia cuidados,  mas houve desconfiada arrumadeira da casa que sempre se persignava quando o via só. “Esse menino conversa com as almas.”

Conversar com as almas não é difícil em Diamantina. Ele, Bento, tinha muitas almas com quem conversar. Vinha dos primeiros povoadores do Tijuco, gente que se aprumava em uma geração para derrear-se na outra. Um clã feroz e fechado, de casamentos entre primos: todos de olhos esbugalhados e pintas pelo corpo inteiro. O avô, a quem tocou o fracasso, continuava garimpando pelos córregos de perto, e tinha as pupilas opacas ao brilho das pedras: em toda sua vida só achara mero xibiu de meio ponto, que mandara engastar na ponta de um alfinete de gravata. O pai, menos sonhador, fizera fortunazinha de afastar precisão, fornecendo lenha para a estrada de ferro no trecho até  Cordisburgo.

Bento cresceu entre as almas de sua intimidade. Quando ficou rapazinho, o segredo já não se guardava. Aprendeu leitura só e de repente, e isso assustou a família. O espanto foi maior quando o viram lendo em voz alta o formulário farmacêutico do tio-avô, que fora médico no Serro.

Não saia de casa, a não ser para o quintal em declive, a fim de conversar com seus mortos sob as jabuticabeiras. Tratava com defuntos de variadas inclinações entre eles um entendido em passarinhos, que lhe ensinou visgo infalível para sabiá agarrar-se: mistura de resina de mangueira com leite de mamão e outros ingredientes.

“Graças a Deus que é doido manso”, consolava-se o pai. Nunca haviam faltado os loucos na família, mas os havia violentos, de surrar pais e irmãos. Bento, ao contrário, nem mesmo com as almas se irritava, ainda que elas lhe mentissem muito. No principio, as velhas beatas davam crédito a tudo o que ele, raramente, lhes transmitia. Coisas simples, como, por exemplo,  a chuva de uma quarta-feira e a geada de um domingo. Mas, depois de alguns alarmes falsos, olhavam-no com desconfiança, e ele balançava os ombros, objurgando contra a cambada de mentirosos.

Talvez por isso não lhe deram muita atenção quando falou na bilha com diamantes:

O major disse que, se eu cuidar de umas coisinhas dele que ficaram pra trás, vai me contar onde ficou a bilhinha com as pedras. Não narrava o resto da história do major, que só descobrira os diamantes depois de morto; vinham ainda dos tempos do segundo Contratador, e eram de uma partida desviada da Coroa por um funcionário desonrado. O major, que era republicano até no além, ria-se quando falava a Bento, e explicava que os que roubam aos reis sempre servem aos povos. “Quanto mais pobre o rei, mais ricos os súditos”, sentenciava.

Seguiu Bento seu destino de proseador com as almas até quando, morto o pai, tocou-lhe viver com os irmãos a geração da decadência. Sumiram as locomotivas a lenha, apareceram as movidas a carvão, depois chegou o diesel. A mão-de-obra barata correu atrás do salário mínimo das cidades, e os irmãos de Bento, sem tempo e sem paciência, levantaram um quartinho no fundo do quintal e o prenderam ali. Só uma das irmãs cuidava dele e foi depois de muita insistência que o acompanhou na meia-noite de um fim de quaresma, para resolver um dos últimos assuntinho do major: colocar em seu nicho um anjo roubado e então em poder de um bisneto do oficial, aliás ateu.

Feito isso, ainda levaram uns cinco meses a acreditar no aviso de Bento: o tesouro estava em uma vendinha atrás do Mercado. Era preciso juntar uns cobres, comprar o negócio, que não valia muito, e cavar no lugar certo. Assim se fez: os irmãos venderam o restinho de herança, vinte alqueires de cerrado, compraram o comércio. Em duas semanas estavam todos aprumados de novo.

Bento foi enterrado discretamente em um sábado. Dizem que foi de repente. Mas as línguas vadias falaram em arsênico e no atestado de óbito de conveniência que registrava “mal súbito”.

Agora está feliz com as almas suas amigas – comentou muito mineiro, um dos primos.




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