7 de abr de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - SENHORA COM ESPARTILHO


Caíra um dos cachos de uvas que ornavam a fachada – e o sobrado parecia velho senhor caolho, de cara manchada pela fumaça da cidade e umedecida das garoas sucessivas. Em volta, os escombros do pequeno bairro eram como lago terroso. Sobre cacos de tijolos e reboco tremulavam, na brisa, restos de roupas que um dia haviam coberto intimidades mornas; emergiam, também, empurradas pela natureza libertada, plantas vulgares – flores de picão, erva de santa-maria, vassourinha.
Por que sobrevivera o sobrado? Que despacho de juiz o preservara da destruição, assinada pelo governo? Por ali passavam linhas de ferro e outras mais passariam; para que se movesse era preciso que a cidade se matasse, em bairros como aquele, levantados no tempo em que as pessoas gostavam de viver.
De quem seria o sobrado? Não sa­bíamos os que o habitávamos por aquela demorada época de uma semana. As tempestades reúnem os homens, como a bonança os separa. Três orgulhosos vagabundos, sem cara para pedir, tivéramos o instinto dos cães, que nunca procuram sobras em casas ricas: nosso encontro se fez no mais sujo botequim que servia aos tristes bordéis da zona. Mas, como estávamos, nem mesmo as relegadas senhoras daqueles cantos se animariam a compartir conosco teto e solidão. Alguém falou no sobrado, de janela traseira baixa e aberta – e o ocupamos.
O sobrado guardava coisas também desprezadas. Havia a coleção de  almanaques do "Biotônico Fontoura" dos anos 30; havia também números espar­sos de revistas antigas. Uma delas narrava o Acordo de Munique, com um título que fez Vico rir-se da ingenuidade dos homens: "Enfim, teremos a paz."
Nós tivemos, no sobrado, a paz de uma semana. De madrugada saíamos, levando coisas abandonadas, como papel velho, garrafas vazias e panelas sem cabo, para vender;. e isso pagava a frugal despensa, suprida de farinha,  torresmos e cachaça.
Preservamos, como hóspedes honrados, os bens mais caros, como o retrato da senhora, de corpo inteiro, sombrinha colorida, passeando pelo Jardim Público. A senhora, de cintura muito fina, a saia bem rodada, devia usar espartilho e Vico comentava que não devia ser fácil despir uma mulher de espartilho. Imaginávamos e este era bom jogo para passar o tempo e embromar a fome, a vida e os amores da senhora. Vico fazia-a prevaricar machadianamente com um presidente de Província em viagem administrativa à Corte; eu a preferia sofredora e honesta, criando seus filhos nos preceitos rigorosos da religião e amando, na saudade, um primo qualquer de Sapucaia.
Havia também a casaca e a respectiva calça listrada. As traças haviam comido moderadamente da boa casemira de Manchester, mas a marca era ainda visível no avesso do cós. Sertório, que era mais velho, vestia o traje de cerimônia para dormir; sendo o mais magro, era o mais friorento. Vestia-se, olhava-se no espelho meio gasto e Vico o iluminava com a vela alta. Dava alguns passos, "que tal o doutor? Como está o senador?” e ocupava o colchão de crina.
Fome e sono não andam sempre juntos e nas noites pensávamos em boa comida. Patos e marrecos, dourados fumegantes ao molho de camarão, churrascos sangrentos, orelhinhas de leitão, bem torradas, passavam pela sala de jantar, onde dormíamos. Quando o sol chegava, corríamos por entre os destroços, sobraçando ás bugigangas para o depósito de Almansor.
Já estávamos acostumados à vida mansa quando os homens vieram. Vico se chateou e com razão. Na véspera decidimos limpar o sobrado ("essas demandas duram muito, a gente pode ficar aqui, quem sabe, até um ano. Vamos matar estes ratos, esfregar o encardido dos banheiros, desembaçar os vidros das janelas") e demos duro. Foi nessa limpeza que encontramos a libra de ouro, enrolada na madeixa de cabelos castanhos. Uma bela moeda vitoriana que pagou a viagem dos três para o Rio de Janeiro, depois do despejo.
Os homens que vieram não vinham em nome da Justiça,  mas dos herdeiros. Retiraram os quadros das paredes, começando pelo da senhora; juntaram os livros de qualquer jeito, desatarraxaram maçanetas e torneiras de bronze. Quando entraram e nos viram, perguntaram quem éramos. Vico engrossou:
“Nós somos os tais. Vicente de tal, Pedro de tal, Manuel de tal. Tomamos conta do sobrado. Quem mandou tomar conta? O sobrado."
Depois que vendemos a moeda, dividimos a madeixa em três trancinhas, tecidas por Vico. Cada um de nós estava certo de que eram cabelos da senhora de espartilho.

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