17 de abr. de 2012

OBAMA, A BOLHA E O BOLHA.


O presidente Obama disse, em Cartagena, que a imprensa latino-americana está ainda na “bolha dos anos nos anos 50, quando pede a saída dos ianques de seus países – o que, sabemos, não é verdade no que se refere aos grandes veículos. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos e seus aliados fiéis do Canadá vetam a presença de Cuba no encontro hemisférico. Quem se encontra ainda nos anos 50 é o governo de Washington, que não sai do círculo de giz em que o meteu Kennedy. Nos anos 50 no Brasil, quando se queria identificar alguém como chato e de pensamento curto, usava-se a expressão “bolha”.

Obama continua um bolha dos anos 50.


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O QUINTO REI DO BARALHO.



O Rei Juan Carlos caiu em Botsuana, quando caçava elefantes, e fraturou a bacia. O Rei Juan Carlos é presidente de honra da Ong WWW-Adena, que existe para proteger os elefantes da extinção. A caça de elefantes em Botsuana é legal: paga-se 20.000 euros por animal abatido, e se gasta pelo menos mais 30.000 pela viagem. Os gastos do Rei são pagos pelo povo espanhol, que está sendo castigado por medidas de austeridade, com o desemprego acelerado e a redução de despesas sociais. Em lugar de exercer o dever de todos os monarcas, e buscar resolver os graves problemas de seu país, o Rei vai caçar elefantes. Por isso mesmo, o povo começa a perguntar-se se não é melhor ficar apenas com os quatro reis do baralho – e enviar os Bourbón para caçar elefantes na África. Só os monarquistas, como saída, defendem a abdicação do rei e sua substituição pelo filho mais velho, o Príncipe de Astúrias, de cuja inteligência pouco se sabe. Nas vésperas da morte de Franco, quando preparavam a sua substituição por Juan Carlos, dizia-se que ele havia sido condecorado com duas medalhas, uma por idiota, e outra para substituir a primeira, se a perdesse. Está merecendo uma terceira, de igual referência.

Enfim, Juan Carlos é tão útil como um quinto rei no baralho.


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15 de abr. de 2012

OS EUA E O FUTURO DA CIÊNCIA NO BRASIL



Nas relações do Brasil com os Estados Unidos, há fatos que devem nos incomodar, como o recente recuo da Força Aérea dos Estados Unidos, a USAF, em cumprir o contrato de compra de 20 aviões Super-Tucano da Embraer, e a tradicional recusa dos norte-americanos em transferir tecnologia para o Brasil, principalmente no campo bélico e no nuclear. Essa recusa beira à sabotagem, desde o acordo Brasil-Alemanha (no campo nuclear), o que não recomenda, à primeira vista, os nossos vizinhos do norte em projetos que impliquem a transferência de conhecimento.
Esse pode ser o caso do “Ciência sem Fronteiras”, de envio de estudantes brasileiros para o exterior, e da parceria que se pretende estabelecer entre o ITA – o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, berço da Embraer, e o MIT – o Massachussets Institute of Technology , uma das mais conceituadas instituições de ensino e de pesquisa dos Estados Unidos.
Basta ver o descalabro em que se encontra o DCTA – Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, reduzido – apesar de recentes concursos - a 26% do pessoal que tinha em 1994, e a média de idade dos pesquisadores do IAE – Instituto de Aeronaútica e Espaço - que é de mais de 50 anos e é fácil perceber que a questão da Ciência e Tecnologia, com a geração de conhecimento de ponta no país, não se resolverá com a mera transferência de estudantes para o exterior.
O que precisamos é de decisão política para mostrar ao mundo quais são nossas prioridades estratégicas e com que rapidez respondemos aos desafios que surgem na área científica.
Quando o destino nos apresenta situações emergenciais temos que responder emergencialmente. É preciso quebrar a espinha dorsal da burocracia, que nos impede, por exemplo, de já estarmos montando os módulos e laboratórios destinados a substituir os que foram destruídos no incêndio da Estação Antártida Comandante Ferraz.
Não é razoável que falte dinheiro para treinar e repor pesquisadores em um projeto de longa data, como o do VLS (Veículo Lançador de Satélites), quando o BNDES empresta, sem maiores delongas, três bilhões de reais a uma multinacional estrangeira, como a Vivo, para a expansão de infraestrutura.
O país precisa projetar na Ciência e Tecnologia o planejamento e a competência já demonstrados na administração da macroeconomia, entre outros campos. Na área espacial é preciso juntar em uma só instituição os esforços do país, que envolvem hoje o INPE, a AEB, a Alcantara Cyclone Space.
E, se formos ampliar a cooperação com o MIT norte-americano, é preciso que se faça o mesmo com universidades e instituições congêneres dos nossos sócios dos BRICS. Nossos estudantes precisam aprender a conviver com estudantes russos, chineses, indianos. A Rússia continua dando um banho na pesquisa espacial. Recém homenageada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Delhi, a Presidente sabe que a a China e a Índia, principalmente, estão acelerando, qualitativa e quantitativamente, dentro e fora de suas fronteiras, a formação de pesquisadores nas áreas de física, nanotecnologia, computação, programação de software.
Sabe também que há milhares de cientistas indianos e chineses que foram estudar nos Estados Unidos e não voltaram, preferindo ficar por lá, trabalhando, e emprestando seu talento, a empresas norte-americanas como as do Vale do Silício. Um bom exemplo do brasileiro que, às vezes pode ir e não voltar é o do jovem paulistano Michel Krieger, de São Paulo, de 27 anos de idade, que com 18 foi estudar na Universidade de Stanford, criou com um colega norte-americano o Instagram, e acabou de vender essa plataforma para o Facebook, por um bilhão de dólares.
A Ciência deve atravessar as fronteiras em todos os sentidos. Precisamos que o estudante brasileiro estude, eventualmente, no exterior, mas que possa também fazê-lo aqui, no território nacional, sem deixar de absorver conhecimento de ponta e universal. É possível, com menos recursos, lançar um concurso internacional voltado para a contratação de excelentes professores estrangeiros para nossas universidades, como se fez quando da criação da USP, sem prejudicar os docentes brasileiros.
E, no caso da pesquisa científica, trazer professores de fora é ainda mais premente, e talvez mais econômico. Como mostra o caso do DCTA, é preciso recompor e ampliar, com a mais absoluta prioridade, nosso quadro de pesquisadores, destruído por décadas de neoliberalismo.

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13 de abr. de 2012

NÃO HÁ PORQUE TEMER A CPI

Nos meios políticos há o temor de que a investigação do Congresso sobre a Operação Montecarlo, desfechada pela Polícia Federal, sobre as relações do homem de múltiplos negócios de Goiás, conhecido como Carlos Cachoeira, com parlamentares, membros do poder executivo de Goiás e do Distrito Federal, venha a ampliar-se. Há informações de que pode surgir o envolvimento de outras personalidades e de outros partidos políticos, em outras unidades da federação. A rede de influência do empresário de Goiás parece ser mais ampla do que a de Al Capone.
O comportamento da presidente da República inquieta alguns observadores. Uma investigação desse porte costuma assustar os chefes de governo, mais ainda em ano eleitoral. Tancredo Neves comparava esses inquéritos do parlamento à retirada de caranguejos dos jequis de pesca: eles sempre saem agarrados uns aos outros. Sendo assim, mesmo que não temam a apuração das denúncias, os chefes de governo, em todas as esferas do Estado, buscam impedir essas comissões de inquérito, pela turbulência que sempre causam. Pois bem, até agora, a presidente da República não tomou qualquer iniciativa para dificultar as investigações, nem para incitá-las.
Uma visão mais republicana de sua atitude favorece-a: o poder executivo não deve imiscuir-se nos assuntos interna corporis do Parlamento. Uma visão mais particular, sabendo-se de seus atos anteriores, pode identificar o desejo de depurar o governo e o Estado, pelo menos durante o seu mandato, dos corruptos e corruptores. Ao esquivar-se de qualquer iniciativa no caso, ela preserva sua autoridade, principalmente em ano de eleições municipais.
É, mais do que possível, provável, que os temores se venham a justificar: nas teias do ativo empreendedor de Goiás, pelo que se sabe até o momento, há gente de toda espécie – de policiais a espiões particulares; de empresários de alta estirpe a meros assessores, além de jornalistas.
Será difícil emperrar a CPI, com adiamentos ou com manobras, como tem ocorrido a outras, em tempos recentes. Há algum tempo lembrávamos, neste mesmo espaço, o reaparecimento de uma instituição que parecia afastada da História, nestes anos de neoliberalismo: a cidadania. Ainda que os ensaios de mobilização não tenham levado às conseqüências radicais, os cidadãos começam a mover-se, a ocupar as ruas do mundo, a clamar por justiça. E é o que pode vir a ocorrer entre nós. É hora de identificar os homens públicos realmente honrados e os que posam de honrados, como os fariseus do Evangelho.
Se há órgãos de imprensa mancomunados com o corruptor goiano, que sejam conhecidos. Nesse caso, mais do que o rigor da lei, se a lei lhes puder ser aplicada, pesará o juízo da opinião pública. À imprensa cabe, nas democracias, a desagradável tarefa de fiscalizar as instituições políticas, a serviço da cidadania. Será muito grave se se descobrir que esse ou aquele jornalista tenha agido como o Senador Demóstenes Torres parece ter atuado: em público, ao posar Catão usticense; nas sombras, recebendo ordens, como obediente assalariado do contraventor goiano.
Tratemos de outra consternação diante da atualidade. O Sr. Murillo Portugal – um desses tecnocratas que trabalhavam para o Estado e depois atravessaram a rua para servir ao outro lado – foi emissário das queixas dos banqueiros ao governo. Os bancos se recusam a baixar a diferença entre as taxas de captação e as dos empréstimos que cobram dos seus devedores – das mais altas do mundo - sem que recebam compensações. Os cinqüenta bilhões de lucros obtidos – com inadimplência ou sem ela – lhes parecem pouco. Assim, ainda pedem isenções de tributos – e cobram 300 milhões de reais da Receita pelo recolhimento de impostos em suas caixas eletrônicas. Se continuarem assim, é provável que a estatização dos bancos se faça de maneira suave: seus clientes acabarão preferindo o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.

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10 de abr. de 2012

CONVERSAÇÕES NA CASA BRANCA

A primeira referência séria de um líder norte-americano sobre o Brasil foi de Thomas Jefferson. Em maio de 1787 – quando era embaixador em Paris, dois anos antes da reunião dos Estados Gerais e da descoberta da conspiração de Vila Rica – Jefferson se encontrou, em Nimes, no sul da França, com José Joaquim da Maia, que lhe falou sobre a possível independência do Brasil e das relações que poderiam estabelecer-se entre as duas nações, que ocupavam posição predominante no sul e no norte do hemisfério ocidental.

Jefferson enviou seu relatório, bem divulgado pelos historiadores brasileiros, ao futuro Secretário de Estado, John Jay. O documento não tratava somente do Brasil, mas, também, do México e do Peru. No caso brasileiro, além de relatar o que lhe dissera José Joaquim da Maia sobre as riquezas brasileiras, a situação estratégica do Brasil e a possibilidade de uma insurreição vitoriosa - se os brasileiros tivessem armas e alguma assistência militar que estavam dispostos a pagar, conforme seu interlocutor - Jefferson prevê vantagens comerciais para o seu país.

A personalidade de Joaquim José da Maia não é muito conhecida. Não se tem notícia de outra presença sua na História, além do encontro com Jefferson. No ano seguinte, ainda muito jovem, ele morreria. Mas o fato levanta a hipótese de que a conjuração mineira já se encontrava em andamento, e tinha presença entre os estudantes brasileiros de Montpellier – a maioria deles das Minas. Coube a Domingos Vidal Barbosa, como registram os Autos da Devassa da Inconfidência, levar a informação da posição de Jefferson aos inconfidentes.

O mesmo Jefferson voltará a referir-se ao Brasil, 30 anos depois, em carta a La Fayette, seu amigo e um dos combatentes na Guerra da Independência dos Estados Unidos. Retirado em Monticello, o grande homem de Estado comenta os assuntos do mundo e de seu país. Ao discutir os problemas continentais, refere-se ao Brasil – a correspondência é de 14 de maio de 1817, quando a Revolução Pernambucana, iniciada em 6 de março, lhe parecia vitoriosa, embora naquela mesma semana as tropas legalistas tivessem sitiado o movimento, que seria logo debelado. Diz então Jefferson a Lafayette (Jefferson, Writings, The Library of America, 1984, pag. 1409) que Portugal, ávido em manter suas extensões no sul, acabara de perder a rica província de Pernambuco, e que ele não se espantaria se os brasileiros mandassem logo de volta a Portugal sua família real. E se referia ao Brasil como mais populoso, muitíssimo mais extenso, mais rico e mais sábio do que a metrópole.

Ao longo destes dois séculos e algumas décadas de vida das duas nações, poderíamos ter encontrado convivência melhor, mas os norte-americanos – talvez com exceção de Jefferson e alguns poucos mais – sempre nos viram como inferiores e sujeitos à sua vontade. Faltou-nos falar-lhes sem arrogância, mas com firmeza. É constrangedor anotar que, salvo em alguns momentos, como os de Getúlio, no Brasil, e Franklin Roosevelt (não Ted) nos Estados Unidos, os gestos de subserviência partiram das próprias elites brasileiras.

A visita da presidente Dilma Roussef a Washington está sendo vista, por certos observadores, como de poucos resultados. Entre outros fatos, apontam que não lhe foi oferecido um jantar de gala, mas simples almoço de trabalho. Trata-se de bom sinal: a austeridade do encontro demonstra que, nas conversações preliminares, os diplomatas norte-americanos perceberam que a chefe de Estado não chegava aos Estados Unidos para o ritual de vassalagem - conforme ocorria em certo período de nosso passado quase recente - mas como representante de uma nação soberana, disposta a discutir assuntos de interesse recíproco, de forma séria e honrada.

Ao não transformar uma conversa de trabalho em jantar de gala, Obama tratou o Brasil como o Brasil quer ser tratado: um país que não se deixa engambelar por homenagens dessa natureza. Não somos mais dirigidos por personalidades deslumbradas, que se sentem engrandecidas quando são conduzidas ao Palácio de Buckingham em carruagens puxadas a cavalos brancos e de arneses prateados, a fim de serem recebidos por uma rainha astuta.

As relações entre os dois países podem, e devem, ser melhores do que nunca foram – desde que os norte-americanos nos vejam em nossa devida dimensão. O Brasil, ao contrário de certos desavisados, não tem a pretensão de liderar os paises sulamericanos, mas sente o dever de defender a autodeterminação de seus vizinhos, como defende a própria. Não queremos que nos estendam o tapete vermelho, mas que nos recebam com o respeito que os amigos se merecem. Pelo menos, este é o sentimento do povo brasileiro, ainda que não seja o de todos os seus diplomatas e homens públicos.

A viagem de Dilma Roussef deve ser entendida como um êxito. Tratou-se de uma conversa franca, e não de troca de amabilidades chochas, ditadas pelas conveniências da diplomacia. O confronto de interesses entre os dois grandes países é normal. Anormal seria a subordinação dos interesses de um aos interesses do outro. As discórdias se resolvem nos acordos e tratados, sempre que em benefício comum.

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8 de abr. de 2012

DEMÓSTENES E A PRIVATIZAÇÃO DO JOGO


Há males que vêm para bem. A situação do Senador Demóstenes Torres, devido às suas ligações com o contraventor Carlinhos Cachoeira e a divulgação de conversas gravadas - segundo as quais o parlamentar do DEM teria promovido reuniões da cúpula da máfia dos caça-níqueis em seu próprio apartamento funcional, com o objetivo de discutir estratégias visando à legalização do jogo - nos oferecem a oportunidade de discutir o futuro dessa atividade no Brasil.

Der vez em quando, ouvem-se pronunciamentos, no Congresso Nacional, articulados ou não, em defesa da legalização dos bingos ou dos cassinos e caça-níqueis. Alegam que a alteração constitucional poderia dinamizar a indústria do turismo e aumentar a distribuição de renda, gerando milhares de empregos.

Ora, se o jogo, nas mãos do Estado, vai tão bem – ninguém discute o resultado da Loteria Federal, da Quina ou da Mega-Sena, ou suspeita de desvio do dinheiro arrecadado – por que privatizar a atividade?

Em todos os lugares do mundo, sabe-se, sobejamente, que a jogatina, quando entregue à iniciativa privada, não se resume a tomar dinheiro, principalmente de velhinhas e aposentados. Os cassinos e os bingos, assim como as máquinas de pescar moedas, quando não estão sob o controle do Estado, sempre acabam sob o controle de grupos mafiosos. O jogo em mãos mafiosas favorece outras atividades criminosas, como a lavagem de dinheiro, a corrupção da polícia, a prostituição e o tráfico de drogas.

Ninguém precisa ver um filme americano ou visitar Las Vegas para saber como isso é verdade. Há alguns anos, eu estava hospedado em um flat próximo aos Jardins, em São Paulo, cujo nome poderia citar aqui, se quisesse, quando reparei que, todos os dias, às seis, sete da tarde, muitos estrangeiros vestidos esmeradamente de terno, se reuniam no lobby e depois, partiam, um a um ou de dois em dois, em diferentes carros, tomando variadas direções, na noite de São Paulo.

Curioso, me aproximei deles e reparei, pelo sotaque, que eram corsos. E não corsos comuns. Tratava-se de compatriotas de Napoleão que, apesar dos ternos caros, tinham caras de poucos amigos.

Quando saíram, me aproximei do porteiro e perguntei quem eram. - é o pessoal do bingo – respondeu, entre reverente e tímido – cada um toma conta de uma casa. E são mais de vinte...

Vendo a reação daquele porteiro, imaginei aquele bando de corsos que, na minha época, teriam a cara cortada a navalha pela malandragem que conheci nos meus tempos de repórter de editoria de polícia - exercendo a sua arrogância e prepotência em cima de centenas de garçons, porteiros, motoristas e garçonetes brasileiras. Quando deixei o hotel, levei o fato às autoridades, o que não deu em nada.

Há empresários e nobres deputados e senadores preocupados com os empregos do bingo? Simples. Faça a Caixa Econômica Federal um convênio com o SENAC, treinem-se, capacitem-se, cozinheiros e garçons, manobristas, recepcionistas; instalem-se nas futuras casas de bingo ou cassinos, máquinas como as que existem hoje nas agências lotéricas, para controlar a entrada e a saída de dinheiro; abram concursos para a contratação do pessoal, e mãos à obra.

Os empregos das pessoas de quem houvesse trabalhado nessas casas, quando clandestinas, poderão ser preservados, milhares de outros serão criados e o dinheiro perdido pelos incautos apostadores, e auferido pelo sistema, será revertido, como já ocorre com as loterias, em beneficio de toda a sociedade.

É claro que sempre haverá espertas raposas para dizer que o governo não deve mexer com bingo. Que é um absurdo o governo entrar em uma atividade que, em outros países, é explorada pela iniciativa “privada”; que o papel do governo é cuidar, e que está cuidando mal, da saúde e da educação; que a questão do jogo no Brasil – como é o caso do “bicho”, por exemplo – está uma bagunça, que é preciso determinar como irão funcionar as coisas, como será calculado o ganho dos apostadores, qual será a “parcela” da União, Estados, Municípios na féria. Que não sendo o jogo coisa de governo, que o poder público deveria “terceirizar” essa atividade, entregando a sua exploração a “empresários” de “fora”, que tenham experiência, associados a brasileiros.

O caso do Senador Demóstenes Torres, apanhado em ligações perigosas, permitiu que, ao menos por enquanto, as uvas cobiçadas pela raposa – a privatização do jogo no Brasil - ficassem, repentinamente, verdes. Quando essa discussão amadurecer de novo, esperemos que ela seja conduzida levando-se em consideração não os interesses de meia dúzia de malandros, mas, sim, os de todo o povo brasileiro.


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6 de abr. de 2012

A CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO E O SUICÍDIO EM ATENAS


(JB) - O homem que prenderam, interrogaram, torturaram, humilharam, escarneceram e crucificaram, na Palestina de há quase dois mil anos, foi, conforme os Evangelhos, um ativista revolucionário. Ele contestava a ordem dominante, ao anunciar a sua substituição pelo reino de Deus. O reino de Deus, em sua pregação, era o reino do amor, da solidariedade, da igualdade. Mas não hesitou em chicotear os mercadores do templo, que antecipavam, com seus lucros à sombra de Deus, o que iriam fazer, bem mais tarde, papas como Rodrigo Bórgia, Giullio della Rovere, Giovanni Médici, e cardeais como os dirigentes do Banco Ambrosiano, em tempos bem recentes. O papa reinante hoje, tão indulgente com os gravíssimos pecados de muitos de sua grei, decidiu, ex-catedra, que as mulheres não podem exercer o sacerdócio.

Ao longo da História, duas têm sido as imagens daquele rapaz de Nazaré. Uma é a do filho único de Deus, havido na concepção de uma jovem virgem, escolhida pelo Criador. Outra, a do homem comum, nascido como todos os outros seres humanos, em circunstâncias de tempo e lugar que o fizeram um pregador, continuador da missão de seu primo, João Batista, decapitado porque ameaçava o poder de Herodes Antipas. Tanto João, quanto Jesus, foram, como seriam, em qualquer tempo e lugar, inimigos da ordem que privilegiava os poderosos. Por isso – e não por outra razão – foram assassinados, decapitado um, crucificado o outro.

Um e outro tiveram dúvidas, segundo os evangelistas. João Batista enviou emissário a Jesus, perguntando-lhe se era mesmo o messias que esperava, e Cristo, na agonia, indagou a Deus por que o abandonava. Os dois momentos revelam a fragilidade dos homens que foram, e é exatamente nessa debilidade que encontramos a presença de Deus: os homens sentem a presença do Absoluto quando as circunstâncias o negam. João Batista sentia-se movido pela fé, ao anunciar a vinda do Salvador.

Era um ativista, pregando a revolução que viria, chefiada por outro, pelo novo e mais poderoso dos profetas. Ao saber que Cristo pregava e realizava milagres, supôs que ele poderia ser aquele que esperava, mas duvidou. Nesse momento, moveu-se pela esperança de que o jovem nazareno fosse o Enviado – o que confirmaria a sua fé. Cristo, na hora da morte, talvez levasse a sua dúvida mais adiante, e se perguntasse se a sua morte, que previra e esperara, serviria realmente à libertação dos homens – desde que salvar é libertar. O Reino de Deus, sendo o reino da justiça, é a libertação. Daí a associação entre essa felicidade e a vida eterna, presente em quase todas as religiões. Na pregação de Cristo, a libertação começa na Terra, na confraternização entre todos os homens. Daí o conselho aos que o quisessem seguir, e ainda válido - repartissem com os pobres os seus bens, como fizeram, em seguida, os seus apóstolos, ao criar a Igreja do Caminho. Se acreditamos na vida eterna, temos que admitir que a vida na Terra é uma parcela da Eternidade, que deve ser habitada com a consciência do Todo. Assim, a vida eterna começa na precariedade da carne.

Quarta-feira passada - quando em São João del Rei, em Minas, a Igreja celebrou o Ofício das Trevas no rito antigo - um grego, Dimitris Christoulas, chegou pela manhã à Praça Syntagma, diante do Parlamento Grego, buscou a sombra de um cipreste secular, levou o revólver à têmpora, e disparou. Em seu bilhete de suicida estava a razão: aos 77 anos, farmacêutico aposentado, teve a sua pensão reduzida em mais de 30%, ao mesmo tempo em que se elevou brutalmente o custo de vida. As medidas econômicas, ditadas pelo empregado do Goldman Sachs e servidor do Banco Central Europeu, nomeado pelos banqueiros primeiro ministro da Grécia, Lucas Papademos, não só reduziram o seu cheque de aposentado, como o privaram dos subsídios aos medicamentos. “ Quero morrer mantendo a minha dignidade, antes que me veja obrigado a buscar comida nos restos das latas de lixo” – escreveu em seu bilhete de despedida, lido e relido pelos que tentaram socorrê-lo, e que se reuniam na praça.

“ Tenho já uma idade que não me permite recorrer à força – mas se um jovem agora empunhasse um kalashinov, eu seria o segundo a fazê-lo e o seguiria”.

No mesmo texto, Christoulas incita claramente os jovens gregos sem futuro à luta armada, a pendurar os traidores, na mesma praça Syntagma, “como os italianos fizeram com Mussolini em Milão, em 1945”. O tronco do cipreste se tornou painel dos protestos escritos. Em um deles, o suicídio de Christoulas é definido como um “crime financeiro”.

A morte de Christoulas, em nome da justiça, pode trazer nova esperança ao mundo, como a de Cristo trouxe. Não importa muito se ainda não foi possível construir o reino de Deus na Terra, e tampouco importa que o nome de Cristo tenha sido invocado para justificar tantos e tão repugnantes crimes. No coração dos homens de boa vontade, qualquer que seja o seu calvário – porque todos os homens justos o escalam, onde quer que nasçam e morram – a felicidade os visita quando comungam do sentimento de amor de Cristo pela Humanidade. Nesses momentos, ainda que sejam apenas segundos fugazes, habitamos o Reino de Deus.

Nunca, em toda a História, tivemos tanto desdém pela vida dos homens, como nestes tempos de ditadura financeira universal. Estamos vivendo vésperas densas de medo, mas dentro do medo, há centelhas de esperança. A morte do aposentado, quarta-feira de trevas, em Atenas, é, com toda a carga trágica de seu gesto, partícula de uma dessas centelhas.

Estamos cansados de sangue, mas o que está ocorrendo hoje – teorizem como quiserem economistas e sociólogos – é a etapa seguinte do grande projeto dos neoliberais, que vem sendo executado sistematicamente pelos que realmente mandam no mundo e que assumiram sua governança (para usar o termo de seu agrado), mediante a Trilateral e o Clube de Bielderberg, controlados, como se sabe, por meia dúzia de poderosas famílias do mundo. Esse projeto é o de dizimar, por todos os meios possíveis, a população, e transformar a Terra no paraíso dos 500.000.000 mais poderosos, ricos e eleitos, em oposição à utopia cristã. Mas é improvável que os pobres, que são a maioria, não identifiquem seu real inimigo, e se sacrifiquem, sem resistência, ao Baal contemporâneo - esse sistema financeiro que acabou com a antiga sacralidade da moeda, ao emitir papéis sem nenhuma relação com os bens reais do mundo, nem com a dignidade do trabalho. A força da mensagem do nazareno deve ser retomada: os oprimidos – negros, brancos, mestiços, muçulmanos, cristãos, budistas e ateus – devem compreender que os habita o homem, e não animais distintos, destinados à violência em proveito dos promotores da barbárie.

Ao expirar, depois de torturado, ultrajado seu corpo, humilhado, escarnecido, Cristo se tornou a maior referência de justiça. Aos 77 anos, o aposentado grego, ao matar-se, transformou-se em bandeira que ameaça iniciar, na Grécia, novo movimento em favor da igualdade – a mesma idéia que levou Péricles a fundar o primeiro estado de bem-estar social, ao reconstruir Atenas, empregar todos os pobres, e dotar os marinheiros do Pireu do pioneiro conjunto de casas populares da História.Vinte séculos podem ter sido apenas rápido intervalo – um pequeno descanso da razão.


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5 de abr. de 2012

O NOVO CERCO AO BRASIL

(JB) - Se, amanhã, os terrestres vierem acolonizar Marte, como muitos sonham, o feito será, dentro das circunstâncias dotempo e da ciência, menos surpreendente do que foi o desembarque europeu naAmérica do Sul e a ocupação do espaço ainda desconhecido. Sabemos hoje muitomais do planeta vermelho do que os contemporâneos do Renascimento podiamconhecer da América do Sul. Na realidade, nem mesmo podiam ter certeza de que aquarta parte existisse.
Nãosó a conquista do território continental, mas a construção da consciência depátria - da plena identidade e da soberania de nossos povos - tem sido atopermanente de luta e de resistência, contra a natureza hostil e contra aopressão política.
Só há dois séculos, na esteira daRevolução Francesa, da Guerra de Independência dos Estados Unidos e das guerrasnapoleônicas, admitiram a nossa existência como povo, mas sob arrogante tutelae subordinação aos seus interesses. O pior é que as coisas continuam quase damesma forma. Querem-nos apenas como fornecedores de matérias primas. Ao usar ovocábulo commodities paradesignar nossos produtos primários, osneoliberais brasileiros engambelam-nos com a sonoridade britânica do termo,como antes os colonizadores nos engabelavam com os espelhos e miçangas.Continuamos exportando minérios e comprando máquinas; exportando soja e pagandoroyalties por tecnologia; exportando produtos de nossa singular biodiversidade,e importando medicamentos.
Se houvesse sido possível a exportaçãoda cana em seu estado natural, nãoteríamos construído aqui os primeiros engenhos açucareiros. Só depois daIndependência erigimos forjas para afundição econômica do ferro; até então foices e enxadas vinham da Europa, porvia de Portugal. A independência dos paises latino-americanos foi de interesseda Grã Bretanha, que substituiu Madri e Lisboa. A partir de então, Londres selivrou dos intermediários e passou a disputar, com os Estados Unidos, quecresciam, o nosso mercado, como fornecedor de matérias primas e compradorde produtos manufaturados.
É interessante notar que todas asvezes que as circunstâncias nos ajudavam, o cerco estrangeiro se fechava sobreo Brasil – e sobre os paises do continente. Nosso desenvolvimento industrial noSegundo Reinado - em que houve, para o bem e para o mal, a aliança da Coroa comMauá - foi tolhido pela ação britânica, contra a economia brasileira e com ocerco ao grande empreendedor, cuja presença política no continente incomodava ageopolítica imperialista.
ARepública, não obstante todos os seus avanços, propiciou, pelas dificuldades políticas de sua consolidação, oassédio britânico. As negociações draconianas da nossa dívida com a praça deLondres – o famoso funding loan é oexemplo da arrogância e voracidade dos banqueiros internacionais – favoreceram odesembarque de suas empresas no país, que, logo se associaram àsnorte-americanas.
Em 1922, em uma visão históricaequivocada, os tenentes se levantaramcontra a eleição do mineiro Artur Bernardes, a partir de cartas falsas, a eleatribuídas, e que ofendiam o marechal Hermes da Fonseca. Até hoje não sabemos,exatamente, a quê e a quem serviram os falsários, não obstante as versõesdivulgadas. Era um bom momento para o Brasil, e que se frustrou em parte, namedida em que o presidente teve que defender, a ferro e fogo, o seu mandato –não tendo, em razão disso, conseguido ampliar as medidas nacionalistas adotadascontra os interesses anglo-saxônicos, entre elas as de nosso desenvolvimentosiderúrgico.
Para não lembrar episódios menores nointervalo, o cerco a Getúlio, em seu segundo mandato, é nisso exemplar. Opresidente entendera, desde os anos 30, que não teríamos soberania sem quetivéssemos a energia necessária ao desenvolvimento da economia. Por isso,cuidou da Petrobrás e da Eletrobrás, como bases necessárias à economiaindustrial brasileira.
Os interesses estrangeiros – leia-se,norte-americanos – se mobilizaram, conforme documentos ianques indesmentíveis,com a ajuda dos meios de comunicação brasileiros, e políticos cooptados, a fim de acossar opresidente até a tragédia de 24 de agosto de 1954. Não satisfeitos, desde que otíbio governo de Café Filho não os garantira, tentaram novamente o golpe, em 11de novembro de 1955, mediante os seus cúmplices nacionais. Se impedissem a possede Juscelino, como queriam - e Lacerda vociferava em seus ataques ao mineiro -a primeira medida seria a revogação do monopólio estatal do petróleo.
A reação dos militares nacionalistas,chefiados por Lott, frustrou-lhes os planos, e Juscelino pôde, em seu qüinqüêniopresidir ao extraordinário salto do Brasil rumo ao futuro - enfrentando, aomesmo tempo os interesses estrangeiros e o derrotismo conformista de muitosbrasileiros. A vitória de Jânio e sua renúncia, meses depois, esso de o o da continuaçAD e outrosinstrumentos.gonhada intromissos de comunicaçimeira medida a ser tomada interromperamo processo de consolidação democrática. A facção pró-americana, de civis emilitares, que não queria o desenvolvimento autônomo do país, também açuladapor Lacerda e outros, iniciou o processo golpista, prontamente contido pelareação de Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul. Diante daiminência da guerra civil, houve negociações que mudaram o sistema,implantando-se o parlamentarismo. Jango assumiu reduzido em seus poderesconstitucionais, outorgados pelas eleições livres, e era natural que a naçãolutasse para que ele os recuperasse, como os recuperou, com a vitória noreferendo popular.
O novo momento foi, mais uma vez, usado pelosnorte-americanos, com a desavergonhada intromissão em nossos assuntos internos,mediante o IBAD e outros instrumentos. O golpe de 1964 se fez contra o Brasil,e não em defesa da soi-disant democracia hemisférica contra Cuba e a UniãoSoviética. O que eles temiam, e continuam a temer, é a transformação de nossopaís em grande potência econômica, provida de conseqüente força militar, capazde garantir a sua presença política continental e sua soberania no mundo.

Estamos em momento similar, e emplena ascensão. Essa situação auspiciosa, é bom repetir até a exaustão,recomenda a todos os brasileiros, civis e militares, conscientes de seupertencimento à comunidade nacional, o máximo de prudência. É preciso fechar as nossas portas aos estrangeiros, interessados em retirar o seu butim de eventuais conflitos internos, como fazem no Iraque, no Afeganistão, na Líbia - e se preparam para fazer na Síria e no Irã.

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