14 de jan. de 2014

A BALANÇA E A CHIBATA


(HD) - Nos últimos dias, pela enésima vez - quem não se lembra do massacre do Carandiru? - a situação das prisões brasileiras foi manchete na internet e nos mais importantes jornais do mundo.
Junto aos textos, as imagens dos cadáveres decapitados de Pedrinhas, no Maranhão, e a informação de que a cada dois dias - sob a guarda do Estado - um prisioneiro é assassinado no Brasil.
Os números não se referem aos que são espancados por outros presos ou agentes e policiais. Ou aos que falecem devido a enfermidades - muitas delas contagiosas - que se espalham como peste nas celas superlotadas. Ou aos que são feridos quando detidos e morrem por falta de assistência médica ou remédios.


Em boa parte do mundo, a primeira preocupação de um condenado é contar quantos dias, meses e anos faltam para a sua liberdade.


No Brasil, a não ser que seja o “xerife” ou faça parte de alguma facção - o que não é garantia de nada, como se viu no Maranhão - a primeira preocupação de um preso é evitar, minuto a minuto, ser espancado, estuprado ou assassinado por seus colegas de cela.

Ele não poderá jamais, mesmo se tivesse espaço para isso, dormir tranqüilo. E da sua relação com os agentes penitenciários, dependerá, a cada momento, seu futuro.

Uma simples transferência de cela ou de galeria feita, a qualquer instante, pelo carcereiro de plantão, pode representar a diferença entre vida e morte, relativa integridade física e uma surra de criar bicho, ou algo muito pior.


Isso, considerando-se que esse indivíduo tem grande chance de ser preso provisório, que, sem culpa oficialmente formada, está aguardando julgamento, às vezes por meses ou  anos.


Que crime ele cometeu, para cumprir cadeia nessas condições? O crime de ter nascido em um país em que se prende, e se condena, pelo furto de dois pacotes de biscoitos ou um xampu, e se envia o suspeito, em poucas horas, para uma cela cheia de traficantes assassinos.

Ter nascido em um país no qual o suspeito é tratado, na prática, como culpado até prova em contrário, e em que, segundo certa jurisprudência, cabe ao réu provar que foi torturado quando o acusado pela tortura for agente do estado.
Um país em que boa parte da população acha que a violência deve ser combatida na base do “olho por olho, dente por dente”. E acredita que diminuindo a maioridade, aumentando as sentenças e adotando a pena de morte resolveremos o problema, embora tenhamos a polícia que mais mata no mundo e a quarta população carcerária do planeta, e a criminalidade e a violência continuem aumentando a cada ano.
O crime de ter nascido em um país em que a polícia e a justiça se originaram na Santa Inquisição e nos Capitães do Mato.
Em uma Nação na qual alguns juízes, continuam agindo como se, entre nós, a Justiça trouxesse a balança em uma mão, e na outra, uma chibata.

13 de jan. de 2014

DE SAPOS E DE PRINCESAS


(HD) - Era uma vez um reino, que já tinha sido rico e poderoso, em um passado distante. E, que, depois, pobre e miserável, foi governado por um monstro feroz e sanguinário, por muito tempo.
Esse monstro havia derrotado o povo daquele reino em uma guerra terrível. Anos depois, quando estava ficando velho, mandou que viesse de fora do reino um príncipe, e o educou com esmero, para substituí-lo. Com o passar do tempo, esse príncipe  transformou-se em um rei de opereta, que vivia à custa das arcas do reino, e sentia nostalgia do poder de seus antepassados e das idéias que o monstro lhe havia ensinado.
Mas mais tempo passou, e o povo se esqueceu das lições que havia aprendido na luta contra o monstro.
Com inveja dos povos vizinhos, muito mais ricos, o povo se submeteu a eles, e, graças à ajuda alheia e a pesadas dívidas, todos compraram muitas coisas e acharam que estavam igualmente ricos, e que, a partir daí, seriam tratados como iguais pelos seus antigos senhores.
Passaram então, a tratar os povos mais pobres, como antes eram tratados pelos mais ricos.
Desprezavam e expulsavam os estrangeiros, os mendigos e os peregrinos. Com o dinheiro alheio, construíram suntuosas pontes e castelos, e o Rei, de nariz em pé, viajava por selvas e desertos distantes, para caçar elefantes. 
Sua filha, a Princesa, conheceu um plebeu, que, como um sapo encantado, praticamente transformou em príncipe, o que permitiu que ele fizesse bons e duvidosos negócios nos mais altos círculos do reino.
Um dia, no entanto, a crise varreu, como um tufão,  as paragens em que ficava o Reino. Um em cada quatro de seus cidadãos ficou sem trabalho. Descobriu-se que o Tesouro devia quase o dobro do que arrecadava em impostos para os reinos vizinhos; e muito mais para os seus bancos; que cada aldeão ou cidadão devia ainda mais, em média, do que poderia ganhar em um ano; e que alguns de seus homens mais ricos também eram responsáveis por algumas das mais altas dívidas do mundo.
Embora muita gente acredite que certas estórias só ocorram em suas próprias e encantadas terras, o reino de que falamos fica do outro lado do oceano.
O monstro da história chamava-se Francisco Franco. O nome do Rei é Juan Carlos. A Princesa é a Infanta Cristina, indiciada agora por delito fiscal e lavagem de dinheiro, por um juiz espanhol.  O plebeu, seu marido, chama-se Iñaki Undangarin e foi acusado de corrupção e desvio de dinheiro público, no chamado caso Nóos.  
Ex-jogador de handebol, transformado pelo casamento em Duque de Palma de Mallorca, Undangarin já serviu a diversas empresas ibéricas, que operam em vários países, incluindo certo “reino” tropical.
Um lugar no qual muita gente fica embasbacada, e se deixa enganar pelas estórias – essas sim da Carochinha - contadas por malandros e oportunistas de ternos finos e fala macia, principalmente quando eles vêm de fora.  

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11 de jan. de 2014

A MÃO E AS VESPAS


(JB) - Vez ou outra, os jornalistas vêm-se obrigados a tocar, repetidas vezes, nos mesmos assuntos, não pela razão — como dizia o poeta — de querer fazer um samba de uma nota só mas porque a realidade do país nos impõe, infelizmente, os mesmos implacáveis fatos, dia a dia, mês a mês, ano a ano, quase sem interrupção.
A situação do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, com a morte de dezenas de detentos, no ano passado, e a decapitação de alguns, com direito a gravação em vídeo, seguida de macabra divulgação na internet, retrata resistente e trágica mazela que a sociedade brasileira não consegue vencer nem enfrentar.
Muda o nome do presídio, da cidade, do estado, mas a situação, o roteiro — como acontece com os blockbusters de Hollywood — é quase o mesmo.
E o pior, para a ONU e a Comissão de Direitos Humanos da OEA, o nome do país, também é quase sempre o mesmo, só muda o mês, o ano e o  filme que está em cartaz.  
Tudo isso ocorre porque, por trás da situação do Sistema Carcerário Brasileiro, existe outro “sistema”, paralelo, anônimo, ilegal e suboficial. Esse “sistema” está envolvido com atividades ilegais, que vão de cartéis para o fornecimento de comida e outros insumos para os presos à introdução de drogas, armas e celulares nos presídios. Um “sistema” que se sente confortável como um peixe dentro de lago profundo, escuro  e estanque com o estado atual das nossas prisões. 
Talvez seja essa a razão para que, nos últimos anos — incluídos os de FHC, Lula e Dilma— pouca coisa tenha mudado em nossas cadeias, e, de modo geral, para  os milhares de detentos que se encontram atrás das grades, cerca de 40% deles ilegalmente, já que sem terem tido culpa formada ou reconhecida pela Justiça.
Está faltando um debate mais amplo para discutir o descalabro e as perspectivas do panorama carcerário no Brasil
Acossados pelo conservadorismo, tanto o PSDB como o PT, no entanto, evitam aprofundar-se no assunto, embora o tema devesse constar com destaque em qualquer programa de governo, e esteja faltando um debate mais amplo, e mais sério, para discutir o presente descalabro, e as perspectivas futuras, do panorama carcerário no Brasil.
Em Minas, o governo Anastasia inaugurou, no início de 2013, a primeira prisão “privada” do país, erguida e administrada por investidores, por meio de PPP, com celas para quatro presos em regime fechado, ou seis em regime semiaberto.
O complexo, com previsão para cerca de 3 mil presos, é gerido por um agente público, e por um conselho com participação das áreas de corregedoria, de direitos humanos e da própria comunidade, além do grupo responsável pela sua construção.
O senhor Fernando Henrique Cardoso já se manifestou publicamente — mas o PSDB não assumiu essa bandeira — a favor da descriminalização, assunto que está na ordem do dia com a regulação da produção e consumo da maconha no Uruguai, prestes a se transformar na primeira potência cannábica do planeta, inclusive com a exportação do produto para outros países, para a produção de medicamentos.
O que não pode continuar ocorrendo, nem no Maranhão, nem em qualquer outro estado, ou em prisões federais, é que se tente imputar aos presos a culpa pela situação.
Preso é preso, e Estado é Estado, assim como seus policiais, funcionários e agentes carcerários.
Querer culpar o detento por ter acesso a desafetos, celulares, drogas, armas, dentro da cadeia, quando se sabe que nada entra na cela sem o interesse ou a cumplicidade de alguém, é o mesmo que insultar a inteligência da nação.
Afinal, quem pode mais, pode menos. Quando os agentes do Estado querem — às vezes até mesmo à revelia das lideranças legalmente constituídas — invadem arbitrariamente prisões, espancam e torturam presos, massacram indiscriminadamente detentos como aconteceu no Carandiru.
Sejamos francos, a morte dos presos de Pedrinhas  só chamou a atenção porque o presídio foi visitado por uma comissão externa ligada ao Ministério Público, determinada  a verificar a situação da população prisional. E por causa de ataques, fora de seus muros, que atingiram covardemente a população local.
Se não fosse isso, a repercussão dos assassinatos de detentos em Pedrinhas seria zero. A morte de cinquenta ou sessenta presos por ano em um presídio qualquer não atrapalha em nada o “sistema”.  Pelo contrário, ela é vista, por muitos, dentro e fora dele, como desejável e normal.
Resta saber se essas mortes, assim como os ataques a inocentes, como a menina de três anos, queimada dentro de um ônibus, não estão sendo incentivadas,  direta ou indiretamente, e se existe mais alguém, além dos detentos, interessado em incendiar o Maranhão.
Isso já ocorreu em São Paulo, não faz muito tempo, com as chacinas — que mataram dezenas de pessoas — detonadas no rastro dos ataques do PCC, em 2012.
Sempre que se tenta mudar a vergonhosa situação prisional do Brasil — que volta a estarrecer o mundo inteiro, neste momento — se está metendo a mão em perigoso vespeiro, forjado por anos e anos de impunidade e omissão.
E as vespas não conhecem outro caminho, para responder a quem mexe com elas, do que disseminar ao máximo seus enxames e ferrões, espalhando o medo e o terror.

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9 de jan. de 2014

A BATALHA DA COPA



(HD) - O Governo Federal informou, nesta semana, que cerca de 10.000 soldados e policiais deverão ser treinados em técnicas de segurança e contenção de distúrbios para a proteção de torcedores, turistas e instalações de infra-estrutura durante a Copa.
A repressão, no entanto, como já se viu antes, não pode nem consegue resolver tudo. Tão importante quanto se preparar para o pior, seria que o Governo Federal, os estaduais, e municipais, das cidades-sede, começassem, desde já, a mapear e a negociar com os movimentos que pretendem se manifestar durante o evento.
Tal medida – talvez no molde de audiências e convocatórias públicas – poderia ajudar a preservar o direito à livre manifestação, garantindo, ao mesmo tempo, um nível mínimo de organização para os protestos.
Dessa forma, seria possível evitar, ou diminuir, a sua “contaminação” por sabotadores de diferentes tipos, que se infiltram na multidão para promover o caos.
Basta acompanhar seu discurso e opiniões na internet, para saber quem eles são. Estão mais interessados em combater o regime democrático e incendiar o país, do que em lutar pela melhoria das condições de vida da população.
Iniciativas conjuntas como “Comitês Populares da Copa”, os coletivos “ninjas” de mídia alternativa, o próprio Movimento Passe Livre, podem monitorar e controlar as manifestações, identificando e combatendo os vândalos, infiltrados e sabotadores.     
Muitos esquecem que, para o bem e para o mal, a Copa do Mundo não pertence nem ao PT, nem à oposição. Embora nem os que ficam em casa nem a maioria dos manifestantes tenham parado para pensar, ela pertence ao país como um todo.  
O vandalismo, quando dirigido para a destruição do patrimônio público e privado - como estádios, lojas, aeroportos e caríssimos equipamentos de mobilidade urbana como as novas estações do BRT, construídas com recursos federais, estaduais, municipais -  prejudica igualmente a todos os brasileiros,  qualquer seja sua posição política.     
Os sabotadores de extrema direita, abrigados nos vídeos do Youtube e nas páginas de apologia ao golpismo, da violência e da tortura nas redes sociais – que o Governo e o Judiciário parecem fazer questão de continuar a ignorar – não irão para as ruas a favor de certo partido ou candidato nas eleições deste ano.
Seu objetivo é destruir a democracia brasileira e fazer tudo o que estiver ao seu alcance, para promover e incentivar a quebra do Estado de Direito, aproveitando o palco gerado pela visibilidade do país em 2014.
Precisamos lembrar que a Copa passa e a Nação fica.
É, portanto, também contra os inimigos da democracia, que as instituições, os governos de situação e de oposição, e os movimentos sociais terão que se organizar e tomar posição, nos próximos meses.

7 de jan. de 2014

O HOMEM E O TEMPO



(JB - Primeiro de Janeiro) - Sem poder dominar o tempo, e o inevitável ciclo da vida, o homem passou a medi-lo, e tentar compreendê-lo, a partir da observação da natureza. O primeiro relógio foi o Sol - e disso nos deixaram testemunho os arabescos rabiscados nas paredes das cavernas e as civilizações antigas. Separados, na imaginação humana, os dias e as noites - ou melhor, feita a luz, no gesto primevo de que  fala o Genesis - passamos a dividir a existência pelas estações, as chuvas e as secas - que ganharam importância com o advento da agricultura - pelo movimento dos astros, os relógios de sombra, de água e de areia,  os solstícios e as festas da colheita. O fascínio pelo tempo levou-nos ao pêndulo e às engrenagens, à vibração dos átomos, à matemática e à física, à computação, às teorias, como a da Relatividade, ao microcosmo que se mede em nanômetros, ao universo quântico.
Neste terça,  completamos, pelo Calendário Gregoriano, mais um ano, o de  2013. Isso nos faz lembrar que sem os algarismos e a noção de tempo, a História, provavelmente, não existiria. Não teríamos como datar o passado da nossa espécie. Nem como compreender o presente fugaz e complexo que nos cerca. E nossas visões de futuro estariam relegadas - como no passado - à leitura das vísceras dos pássaros e à interpretação das profecias dos xamãs e das sacerdotisas.
Guardadas as devidas proporções, a história humana continua sendo a de um frágil conjunto de átomos, organizado em células e neurônios, perplexo diante do milagre da vida, e dedicado a postergar ou trapacear o fim inexorável.
Há aqueles, como Alexandre o Grande, Átila, ou César, que  conquistam ilhas, montanhas, continentes, e constroem pirâmides e cidades para permanecer além do tempo. Há os que buscam o poder para exercê-lo sobre quem o cerca, valendo-se de seus bens ou de sua posição, como se cada instante de controle sobre outro ser humano, dilatasse os seus próprios momentos neste mundo.
Há, ainda, como Homero, Caravaggio, Lorca, Michelangelo, Picasso, Violeta Parra, Chaplin, Aleijadinho, quem prefira legar ao mundo o seu talento e o seu espanto, a beleza dos versos e das formas, das cores, dos gestos e do sonho.
E há, finalmente, aqueles, entre os quais se incluem também certos artistas e poetas, que preferem enfrentar a morte, olhando-a nos olhos e combatendo tudo que a representa. A miséria e a injustiça, a fome, a desigualdade. O racismo e o ódio, o egoísmo, a violência, a brutalidade.
Esses são os que curam os pobres e humildes, os que ensinam a ler e a pensar a quem não sabe; que desvendam os males dos vírus e bactérias; os que forjam novas idéias e movimentos. E criam vacinas, alimentos e fontes de energia mais baratas, não com a intenção do lucro, mas para mostrar que é possível. Que a vida pode ser vitoriosa,

29 de dez. de 2013

O DIA DE CRISTO



(JB) - Há pouco mais de dois mil anos, em uma terra seca e pedregosa, coberta de desertos e montanhas, e dominada por feroz e grande império, viveu um homem, filho de carpinteiro, que chicoteava hipócritas e derrubava moedas pelas escadas dos templos, abria os olhos de cegos e lavava os pés de prostitutas e mendigos, fazia os aleijados andarem, ressuscitava mortos e alimentava de pão e palavra os famintos.    

Seria bom que a Igreja, aproveitando a presença inspiradora de Francisco, instituísse, sem acabar com as que  existem, nova data para lembrar esse homem, que foi coroado de espinhos e cravado a uma cruz de madeira, para enfrentar seu destino.  

Nessa data – que poderíamos chamar de O Dia de Cristo - não comemoraríamos o seu nascimento nem lembraríamos a sua morte, mas apenas praticaríamos seu exemplo.

Não faríamos uma ceia em nossa própria casa, mas em casa alheia, de preferência em uma creche ou asilo, ou de uma família pobre e humilde.

Não presentearíamos ninguém que conhecêssemos, mas desconhecidos, de preferência aqueles que estivessem sozinhos, longe de sua família ou de seu país e sem abrigo.

Distribuiríamos rosas e sorrisos – sinceros sorrisos – ou faríamos mágicas, ou serestas, nas praças decadentes dos centros antigos de nossas grandes cidades, para velhas e aposentadas meretrizes.

Rezaríamos, na capela dos hospitais, não para os nossos doentes, mas para os doentes alheios, junto com suas famílias.

Visitaríamos, no cemitério, não os nossos mortos, mas as valas comuns dos indigentes, e os túmulos com datas muito antigas, das famílias que já se extinguiram ou em que só conste um nome, dos que não conheceram seus pais ou não tiveram filhos.  

Já existem pessoas que levam sopa aos viciados, visitam creches e abrigos na periferia, fazem rir crianças enfermas, oram nos hospitais com os que estão morrendo sozinhos e com famílias que não são as suas.

Mas esses cristãos, tocados em seu coração pela mão do Nazareno, ainda são poucos, em um mundo em que mais e mais pessoas se deixam embriagar pelo sucesso, e preferem perder dias e noites acordados em uma fila para comprar um novo  console de jogo ou Iphone, do que passar meia hora, em um hospital público, lendo um livro para uma criança com câncer.

Eles se escondem, na multidão anônima, como os cristãos das catacumbas. São apontados de longe, pelos que rezam mais pela sua própria prosperidade, do que por qualquer outro ser humano - como peças que emperram a engrenagem imutável e imortal de uma igreja enrijecida, e em alguns círculos, chegam a ser  excomungados pelo que falam e praticam.

Quem sabe, com a criação de um Dia de Cristo - que poderíamos comemorar pelo menos uma vez a cada ano, e depois multiplicar a data como fez Jesus, com os peixes e os pães - esses cristãos passem a ser vistos de outra forma.

Quem sabe, sobre eles se erga outra Igreja, ou sirvam de pedreira bruta para a construção de uma nova.

Uma Igreja sem outros templos do que o coração humano.  Sem outro altar do que o olhar do próximo. Sem outras velas do que o calor e o brilho da solidariedade. Sem outras vestes, do que a que se dá a quem não tem nenhuma. Sem outro vinho do que o sangue que se doa a um enfermo. Sem outra hóstia que o pão que se coloca na boca do faminto, sem outra oração do que a de um sorriso que se compartilha. 

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25 de dez. de 2013

O BRASIL E O ASILO A SNOWDEN


(HD) - Um dos principais assuntos da semana, foi a realização de uma reunião da Presidente Dilma,  para analisar o asilo a Edward Snowden, em troca de informações sobre as atividades de espionagem da NSA contra cidadãos e autoridades brasileiras.
O assunto surgiu a partir de uma “carta aberta” de Snowden ao povo brasileiro, publicada na  “Folha de São Paulo”, e do lançamento de uma campanha em defesa do asilo a ele, com a coleta de assinaturas e o uso de  máscaras que reproduzem sua face.
O texto renovou as denúncias a propósito dos riscos que corremos – nós e pessoas de outras nacionalidades - de termos nossas comunicações interceptadas, todos os dias, e de sermos até mesmo chantageados pelos EUA, por nossas atividades na internet.
Ela foi, também, uma mensagem de gratidão ao  governo brasileiro, pela atenção dada às denúncias de pelo empenho demonstrado, nas Nações Unidas, para atuar com firmeza em defesa da privacidade como um direito fundamental de todo ser humano.
O que mais chamou a atenção, no entanto, foi a parte em que Snowden afirmava, com relação às investigações que estão sendo realizadas pelo governo brasileiro:
“Expressei minha disposição de auxiliar quando isso for apropriado e legal, mas, infelizmente, o governo dos EUA vem trabalhando arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo, chegando ao ponto de obrigar o avião presidencial de Evo Morales a pousar para me impedir de viajar à América Latina. Até que um país conceda asilo político permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir com minha capacidade de falar.”
Esse trecho foi interpretado como uma espécie de barganha, por meio da qual Snowden estaria oferecendo sua colaboração e informações, em troca de eventual concessão de asilo, pelo governo brasileiro.
Hipótese que foi rapidamente desmentida pelo jornalista Gleen Greenwald, espécie de porta-voz oficioso de Snowden, que afirmou, que, na verdade, ele estaria apenas explicando sua impossibilidade de vir ao Brasil pessoalmente, devido à implacável perseguição que lhe é movida pelo governo norte-americano.   
Ao tratar o assunto como uma questão de Estado,  o Brasil poderia estar superestimando o fato e caindo em uma armadilha diplomática e institucional. O asilo a Snowden, só se justifica por razões humanitárias, caso estivesse correndo risco de vida, na Rússia, onde está agora, o que não é o caso.  Aceitá-lo, em troca de informações, equivaleria moralmente a equiparar-nos aos EUA, fazendo o que eles fizeram conosco, que foi meter o bedelho em nossos assuntos internos. 
A mensagem mais importante da carta de Snowden está no final, quando ele declara:
“Se o Brasil ouvir apenas uma coisa de mim, que seja o seguinte: quando todos nos unirmos contra as injustiças e em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, poderemos nos defender até dos mais poderosos dos sistemas.”   

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21 de dez. de 2013

A COMPRA DOS GRIPEN E A DOUTRINA MILITAR DE DEFESA



(JB) - Depois de 13 anos, finalmente o governo brasileiro deu sua aprovação à compra de 36 novos caças para a Força Aérea Brasileira, optando pelos Gripen NG suecos, em detrimento do Rafale, da Dassault francesa e do F-18 da Boeing norte-americana. O menor preço, unitário e por hora de voo, a transferência de tecnologia e a questão política foram fatores determinantes para a escolha.

Como ainda não está totalmente desenvolvido, o caça sueco-brasileiro será projetado em conjunto por técnicos e empresas das duas nações, como as brasileiras Akaer — que já participa do projeto — e Embraer e a própria Saab. Está prevista a criação inicial de aproximadamente 2 mil empregos em São Bernardo do Campo, São Paulo, onde seria instalada a unidade de montagem. O pacote financeiro — cada avião sairá por aproximadamente 125 milhões de dólares — também foi o mais atraente. O Brasil só começaria a pagar os aviões depois de recebida a última das 36 aeronaves, no começo da próxima década.

Para o Brasil, o Gripen NG representa um novo patamar, do ponto de vista da indústria aeronáutica militar, bem acima do turboélice de ataque leve e treinamento avançado Super-Tucano, da Embraer. Mas ele — como bem lembrou o ministro Celso Amorim, ao dizer que o país continuará negociando um caça de quinta geração — não solucionará todos os problemas do país nessa área.

Como o Brasil será dono do projeto, com o tempo, ele poderá ser vendido para outros países da Unasur e até mesmo do Brics, como é o caso dos sul-africanos, que já possuem Gripen mais antigos em sua Força Aérea. Com eles estamos desenvolvendo conjuntamente mísseis A-Darter, que podem armar esse avião.

O importante é que o Gripen NG possa render, estratégica e economicamente, o máximo de retorno para o investimento previsto.

Não é preciso dizer, da Engesa ao AMX, o quanto a descontinuação na fabricação de material bélico foi e pode ser danosa para o Brasil, tanto no desmonte da estrutura estabelecida para sua fabricação quanto na perda de conhecimento e na desmobilização do pessoal técnico envolvido.

Verificando o que está sendo feito no país, neste momento, não é racional gastarmos centenas de milhões de reais para montar um estaleiro para fazer quatro submarinos. O correto seria dar início, a partir daí, à fabricação de pelo menos uma nova belonave por ano, para manter ativos e operantes todos os elos da cadeia produtiva. O mesmo vale para blindados, helicópteros, mísseis, artilharia, avançando, a cada etapa, na nacionalização de componentes, até adquirir total autonomia do exterior.

Precisamos aprovar encomendas do governo que permitam garantir demanda suficiente para manter em funcionamento todas as linhas de produção, assegurando que elas possam eventualmente ser aceleradas, em caso de conflito.

É por essa razão, considerando-se preço, consumo de combustível e garantia de transferência de tecnologia, que os Gripen não deveriam ficar limitados, apenas, ao reduzido número de 36 aeronaves. Sua fabricação deveria durar, pelo menos, dez anos, a um ritmo de 12 aviões por ano, até completar — asseguradas as modernizações possíveis e o natural ganho de escala — um número mínimo de 120 caças, ainda assim insuficiente para garantir a vigilância de nossas fronteiras e uma condição militar à altura de nossa situação geopolítica.

O grande vetor para a projeção estratégica do Brasil fora do contexto geográfico sul-americano, considerando-se a concorrência e a competição entre os EUA, a Europa e os Brics, nos próximos anos, não será o Gripen mas o caça-bombardeio de quinta geração T-50 PAK-FA, que se encontra atualmente em desenvolvimento por russos e indianos, e para o qual o Brasil já foi convidado a participar oficialmente.

Poderíamos, assim, estabelecer uma teia de atuação aérea progressiva, complexa e abrangente, cobrindo nossas necessidades de defesa e de projeção de nosso poder militar, começando, em um anel mais externo, pelo uso de satélites, drones, Vants e Super-Tucanos para vigilância de nossas fronteiras. A seguir, viria uma rede de bases e esquadrilhas de Gripen NG BR, dispostas, estrategicamente, para a proteção de nossas maiores cidades, litoral e Amazônia Azul, e, em caso de grave ameaça, um número inicialmente menor de aviões mais avançados e ofensivos, como o Sukhoi Su-35, e, futuramente, o T-50, potencialmente adaptados aos sistemas de dirigibilidade, controle e manutenção da FAB.

A mera escolha do Gripen, fabricado a partir de peças ocidentais, não pode ser vista como um  fator limitante para a cooperação do Brasil com outro tipo de nações, que apenas contribuiria para consolidar nossa dependência, no campo da defesa, de países da Europa e dos próprios Estados Unidos.

O Ocidente não tem nenhum compromisso estratégico conosco e, muito menos, a médio e longo prazo. Nunca se poderá contar com nenhum país ocidental, em caso de eventual problema com um deles. Vide o caso da Argentina, abandonada  totalmente por seus fornecedores de armamento, na Guerra das Malvinas.          

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