12 de jun de 2012

O RESGATE ESPANHOL E O BRASIL


Embora o Primeiro-Ministro Mariano Rajoy e líderes do PP - o partido que está no poder – façam de tudo para tentar tapar o sol com a peneira, o fato é que o “resgate”, aprovado no fim de semana, ficará na história como uma intervenção branca da Comissão Européia na economia espanhola, a fim de evitar a quebra do país.

O dinheiro aprovado pela Troika (Comissão Européia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), de 100 bilhões de euros, servirá para que, mais uma vez, se socializem os prejuízos para preservar os lucros privados, ou, em última instância, garantir, por mais algumas semanas ou meses, a sobrevivência de empresas que se confundem com a história recente do país, e que , se tivessem que sobreviver sem ajuda, em um ambiente de concorrência justa, já estariam definitivamente quebradas.

É como se, de repente, o governo brasileiro pedisse emprestado, em pleno sábado, 10% do PIB, ou, no nosso caso, 260 bilhões de dólares emprestados , só para cobrir o buraco de meia dúzia de bancos, aumentando, na mesma proporção, a dívida nacional, já que o responsável pelo pagamento do empréstimo será o próprio estado espanhol, que, para isso, fará novos cortes na educação, na saúde, na segurança, nas aposentadorias, nos investimentos. Isso, em um país no qual centenas de famílias, a cada dia são despejadas de seus lares, por não terem dinheiro para pagar a prestação da casa própria , pelos mesmos bancos “resgatados” no fim de semana.

O Brasil de hoje não é a Espanha, embora muitos brasileiros ainda insistam em achar que os “desenvolvidos” são eles. Temos 375 bilhões de dólares em reservas internacionais contra 35 bilhões de euros em reservas espanholas. Uma dívida externa de 13% do PIB, contra 165% da Espanha. Uma dívida interna líquida de 36% do PIB contra 80% (até dezembro) da Espanha, e isso sem nunca termos recebido, durante anos, bilhões de euros em ajuda da União Européia. Ou ter tido acesso a crédito farto e barato, a juros infinitamente menores aos cobrados aqui, na mesma época. Com esse dinheiro, adquiriram, na bacia das almas, com a cumplicidade de conhecidos entreguistas brasileiros, alguns de nossos maiores bancos e empresas, nos anos 90. E, se tiverem que sair do Brasil, depois de remeter para suas matrizes, durante anos, fabulosos lucros, os "capitais" "espanhóis" serão imediatamente substituídos por outros, como os chineses, como já está acontecendo.

Convertidos, de uma hora para a outra, - com sua entrada na Comunidade Européia e a transformação de suas pesetas em euros - em “europeus” e novos “ricos”, muitos espanhóis acreditaram, nos últimos anos, no mito da “marca Espanha”, vendido, em papel dourado, pela imprensa espanhola e os sucessivos governos que ocuparam o Palácio de la Moncloa.

Aznar recusou-se a entrar para o G-20, quando podia, porque achava que o lugar da Espanha era o G-8. Zapatero proclamava aos quatro ventos a condição da Espanha de “oitava potência econômica do mundo” e disse que o país já tinha conquistado, de pleno direito, seu lugar na “Champions League” da economia mundial. E todos, inclusive Mariano Rajoy, sempre apregoaram, baseados principalmente no marketing do BBVA e do Santander, seus bancos como os mais sólidos do mundo, quando na verdade, como se vê agora, o sistema financeiro espanhol apresenta – inclusive pela ausência de uma regulação e de uma fiscalização fortes - mais furos do que um queijo suíço.

Há dois dias, a Fitch rebaixou para BBB-, a um ponto do grau de especulação, os títulos da Repsol. E passou para negativas as perspectivas da Telefónica espanhola, que teve sua nota rebaixada também pela Moody,s e pela Standard & Poors. E ameaçou rebaixar de novo a nota do Santander, que já havia tido sua nota rebaixada em maio, apesar da venda de ativos como 51% de sua filial na Colômbia e de boatos de que estaria querendo vender também parte de sua filial no Brasil. Outras empresas também tiveram suas notas rebaixadas por agências de risco internacionais e a taxa de risco da Espanha voltou a passar dos 500 pontos, apesar do socorro aos bancos de 100 bilhões de euros que, afinal de contas, é equivalente aos capitais no valor também de aproximadamente 100 bilhões de euros que deixaram o país nos primeiros meses do ano.

No Brasil, no entanto, embora muitas empresas espanholas que atuam em nosso país estejam sendo diretamente afetadas pela crise, muita gente - como se estivéssemos na Terra e Madrid e Barcelona em outro planeta – prefere fingir que, nesse contexto, não existe nada de importante ocorrendo.

Encorajadas por essa atitude, as empresas espanholas que aqui operam fazem o mesmo. Mesmo com a crise roendo suas canelas, insistem em nos tratar como se fossemos um bando de otários que só pensa em praia, pandeiro e futebol.

Devendo mais de 57 bilhões de euros – é absurdo que marcas estrangeiras patrocinem selecionados esportivos oficiais brasileiros em apresentações no exterior - a Telefónica, controladora da Vivo, vai associar, pela bagatela de 15 milhões de dólares, sua marca às seleções brasileiras de futebol até 2015.

Só do BNDES, a Vivo pegou 3 bilhões de reais emprestados no ano passado . O Santander, que - pasmem - patrocina a Copa Libertadores da América, cujo nome homenageia quem derrotou as tropas espanholas em nosso continente, acaba de lançar uma campanha no Youtube. A campanha usa Pelé como garoto propaganda, para descobrir quem “mais entende de futebol na América Latina”. Vejam o link:

http://www.santanderfutebolpaixao.com.br/


Este texto foi publicado também nos seguintes sites:

http://www.vermelho.org.br/prosapoesiaearte/noticia.php?id_secao=2&id_noticia=185702

http://www.correioprogressista.com.br/cache/116204

http://altamiroborges.blogspot.com.br/2012/06/o-resgate-espanhol-e-o-brasil.html

http://www.planetaosasco.com/barueri/index.php?/blogs/o-resgate-espanhol-e-o-brasil.html

http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2012/06/o-resgate-espanhol-e-o-brasil.html

http://www.pcdob.org.br/noticia.php?id_noticia=185702&id_secao=2

http://opensanti.blogspot.com.br/2012/06/o-resgate-espanhol-e-o-brasil.html

http://correiodobrasil.com.br/mauro-santayana-o-resgate-espanhol-e-o-brasil/468950/

http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2012/06/mauro-santayana-o-resgate-espanhol-e-o.html

http://apdobanespa.com/cgotas_noticia.php?id=31094

http://marivalton.blogspot.com.br/2012/06/o-resgate-espanhol-e-o-brasil.html

http://grupobeatrice.blogspot.com.br/2012/06/o-brasil-de-hoje-nao-e-espanha-embora.html

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2012/06/mauro-santayana-o-resgate-espanhol-e-o.html

http://pregopontocom.blogspot.com.br/p/deu-no-blog.html

http://mf.pagotto.zip.net/arch2012-06-01_2012-06-30.html

http://ronaldolivreiro.blogspot.com.br/2012/06/mauro-santayana-o-resgate-espanhol-e-o.html

http://minutonoticias.com.br/o-resgate-espanhol-e-o-brasil

10 comentários:

Anônimo disse...

Excelente texto! Tenho uma posição um tanto quanto extrema sobre esse assunto: estatizar a Vivo e o Santander, e retaliar o tratamento abusivo dado aos brasileiros nos aeroportos, quem sabe assim os espanhóis abaixam a bola e entra no samba?

lidia z disse...

Artigo excelente com uma pequena correção: o nome do benco, Santander homenageia a cidade de origem do banco, na Cantábria.

kuark disse...

Sou um espanhol que viveu muitos anos no Brasil e que agora vive na Espanha.Felicitações por este post:retrata à verdade do que está passando aquí.Na minha opinião,ademais de estar totalmente de acordo com tudo que se expõe no seu artículo,considero que a única que sai ganhando é a Alemanha(jugada maestra da Merkel,a dama de ferro II)pois os 109.000 mil milhões de euros(muitos bilhões do Brasil)que os bancos alemães,também franceses,emprestaram à Espanha se convertem agora,despois do RESGATE em dívida pública(as "ajudas" da troika vão ser garantidas pelo Estado espanhol,ademais de aumentar o déficite fiscal de forma alarmante.
Minhas disculpas por os possíveis erros gramaticais(jás faz mais de 30 que refresei pra Espanha)
Cordial saúdo.
http://mundosparalelos-kuark.blogspot.com.es/

Anônimo disse...

¡NO es verdad! El orden correcto es:
praia, pandeiro, "FAVELAS" e futebol.

Porque un país que permite convivir la riqueza más extrema con la pobreza más extrema debería estar callado y no dar lecciones a nadie.

Hipócritas.

Brasil disse...

Pienso que tienes razón en muchas cosas, un buen post pero hay algo en lo que no coincido. España sí es un país desarrollado (desenvolvido) porque el concepto "desarrollado" no solo hace referencia a la economía sino a muchas otras cosas, como por ejemplo, la seguridad, la pobreza, los derechos humanos, las desigualdades, la cultura, la educación, la sanidad, la libertad de expresión, etc. Así que por mucho superávit que tenga Brasil creo que suspende en todas las demás materias....

Mauro Santayana disse...

Obrigado, Lidia e Kuark, ao anônimo, o Brasil não permite conviver a riqueza mais extrema....o Brasil tem combatido vigorosamente a desigualdade, nos últimos dez anos, tirou milhões de pessoas da pobreza e foi reconhecido pela ONU como a Nação que mai avançou nesse item, e quanto às metas do milêno, do ponto de vista social. A nossa pobreza advinha, também, de uma situação de subserviência aos interesses externos, que estamos combatendo com o mesmo vigor e determinação com que estamos combatemos a pobreza no Brasil. A Espanha não se encontra, com 26% de desemprego, e milhares de famílias no olho da rua e nas filas da sopa de caritas, em condições de dar lições sobre pobreza a ninguém. O mesmo vale para os indicadores sociais, etc, essas conquistas só são permanentes quando são fruto de um esforço nacional legítimo, não de ajuda externa como a que foi necessária, durante anos, para a incorporação da Espanha à Comunidade Econômica Européia, ou da ajuda que está sendo recebida agora, para que a Espanha não quebre. Da mesma maneira, se a Espanha não tivesse. a cada duas gerações, de mandar milhões de desempregados para outros países, incluindo o Brasil, e tivesse que lhes proporcionar, dentro de suas próprias fronteiras, a educação, assistência social, o emprego e o futuro ao qual vcs se referem, com certeza ela não teria os indicadores sociais ou de "desenvolvimento" que ainda consegue apresentar.

simon disse...

Gostei muito. Very good.

Brasil disse...

"...essas conquistas só são permanentes quando são fruto de um esforço nacional legítimo, não de ajuda externa...", no seáis tan hipócritas los brasileños, si no fuese por todos los "rescates" financieros con dinero del FMI nunca habríais salido de vuestras crisis, crisis que aún tenéis en casi todas las áreas, crisis social, crisis sanitaria, crisis educativa, etc, etc. Ya te comenté antes que Brasil suspende en todas estas materias. En el fondo yo os comprendo, estáis cansados de estar siempre detrás de todos los demás países y ahora pensáis que por "crecer económicamente" y tener superávit ya podéis ir dando lecciones. Esas reservas en divisas de las que hablas en tu post son en euros o en dólares porque el real no vale para nada. Y pienso que no es momento de criticar a países que son "imcomparables" con Brasil porque entre ellos hay una diferencia abismal. Si el euro cae y Europa se derrumba se creará una crisis mundial sin precedentes, ¿quién os comprará todo lo que exportáis?, porque casualmente vuestros principales clientes son los países europeos y uno de los motivos de que Brasil crezca económicamente es la exportación. Además todas las empresas españolas (España es el segundo inversor extranjero en Brasil después de EEUU) y europeas retirarán sus inversiones de Brasil y todo esto inevitablemente perjudicará MUCHO, MUCHO, MUCHO a Brasil. Probablemente más de lo que tú ahora puedas imaginarte....

Mauro Santayana disse...

Brasil, no tienes la menor idea de loq ue decis. Primero, Brasil no debe un cetavo al FMI y es uno de los principales acreedores de esa instituicion. segundo, el real es la moneda que se ha mas valorado en los ultimos años, y hoy emitimos bonos en reales, porque todo mundo quiere esa moneda, tercero que el comercio externo no representa mas que 12% de nuestro PIB, y cuarto que Europa en ese contexto no represeeta mas que 15% de nuestras exportaciones y nuestro primer cliente es China, no Europa o Estados Unidos. Y quinto, que que temenos con BNDES el principal banco de fomento del mundo. Nostros no dependemos de dinero español, sino que prestamos dinero a las empresas españolas en Brasil, como los tres mil millone de reais, o 1.5 mil millones de dolares, que BNDES ha prestado a Telefónica (Vivo) el año pasado.

Andre Bg disse...

Amigo espanhol, se a Espanha tirar todos os "investimentos" que tem aqui no brasil, ESTAREMOS RICO$$$$$$$