29 de mai de 2013

OS DOIS LADOS DO ATLÂNTICO SUL

(HD)-A Presidente Dilma Roussef acaba de voltar da Etiópia, onde assistiu, como convidada, à Cúpula Presidencial do 50ª Aniversário da União Africana. Lá, além de reiterar os laços culturais e econômicos que nos ligam àquela região, ela anunciou, também, a eliminação de antigas dívidas de 12 países africanos com o Brasil, no valor de 980 milhões de dólares.
             Aqui, muita gente ficou sem entender o gesto, assim como muitos ainda desconhecem as razões que justificam a nossa política africana. A aproximação estratégica do Brasil com a África, como um todo, vem desde o regime militar. Nos anos 1970 e 1980, era para a África e o Oriente Médio que iam milhares de brasileiros, para forjar seu futuro, trabalhando para empresas como a Mendes Júnior no Iraque e a Mauritânia, entre outros países. Para lá exportávamos, antes da destruição da indústria bélica brasileira, tanques da Engesa e da Bernardini, mísseis da Avibrás e armas portáteis.
            A nossa relação com os países de língua portuguesa é mais antiga. Houve anos,antes da independência, em que entravam no porto de Luanda mais navios saídos do Rio de Janeiro do que  de Lisboa. Em plena ditadura, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola.
           Na África, não está apenas o passado de milhões de brasileiros, nos antepassados que dali vieram, mas também o seu futuro. Não se trata apenas da presença, naquele continente, de técnicos da Petrobras,  e de construtoras e mineradoras, ali presentes.
           Sendo a África Ocidental, do ponto de vista climático e geológico, um território gêmeo do brasileiro, é a única região do mundo que oferece ao Brasil a possibilidade de aplicar e demonstrar o que há de melhor em nosso modelo de desenvolvimento econômico e social.
          Nos nossos cultivares de cana, na produção de açúcar e álcool, na soja resistente à seca, no gado tropical para a produção de carne e leite, nos nossos programas de agricultura familiar, estão soluções que podem levar à ocupação produtiva de milhões de hectares de cerrado naquele continente. Não só na economia, mas, também, na política social - como no Brasil - é possível o combate às endemias e epidemias,  a eliminação da fome e o fim da pobreza absoluta.         Esse projeto  de cooperação Sul-Sul, poderá ser grande e solidária ação internacional com povos irmãos na História e na geografia.
         Os países africanos foram decisivos para a vitória brasileira na votação da OMC, e sabem que o Brasil não tem, para com eles, a mesma visão colonialista da Europa e dos Estados Unidos.
         No Brasil há a consciência histórica de que é prioritário, para estabelecer área de paz e prosperidade no Atlântico Sul, tratar, de igual para igual, nossos vizinhos e irmãos do continente e os que habitam o outro lado do oceano.

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A DISSOLUÇÃO DOS MITOS AMERICANOS


           
            (JB)- Os mitos, como os deuses, são produtos do poder. É o controle da informação, mediante a difusão  da cultura opressora, que amedronta os povos indefesos e agiganta os agressores e saqueadores. Depois da Antiguidade, os norte-americanos foram os mais competentes em criar a mitologia da superioridade intelectual e moral de seus políticos, de seus pensadores e de seus exércitos. 
           Como todos os povos, ele teve e tem grandes pensadores e cientistas e é claro que houve (hoje provavelmente não haja mais) soldados que se destacaram por sua bravura nas lutas pela independência, na Guerra da Secessão e nas duas guerras mundiais de que participaram. Na Primeira delas, durante a batalha de Argonne, na frente francesa, o sargento Alvin York avançou com seu grupo sobre um ninho de metralhadoras, matou 28 soldados alemães, prendeu 132 e se apropriou de 32 metralhadoras. Era um homem do campo, que mal sabia ler, e que se tornou o mais condecorado soldado dos Estados Unidos durante o conflito.
           Outro homem do campo – e o oposto do protótipo do super-herói americano, posto que de estatura baixa e corpo mirrado – foi Audie Murphy, o mais condecorado militar dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Esse conseguiu retirar algum proveito do mito, tornando-se ator de cinema de talento reduzido, mas de boa bilheteria, por seu heroísmo real. Os dois, como sabemos, foram heróis em guerras que podemos considerar justas, ainda que servissem também aos poderosos de seu país.
           Fora das guerras citadas – a da Independência, a da Secessão e as duas mundiais – não houve heróis, ainda que tenha havido sacrifícios imensos de seus homens, nos combates travados pelos norte-americanos. Não os houve na guerra de anexação contra o México, nem contra a Espanha – e menos ainda, em decorrência desse conflito, na repressão à luta das Filipinas pela independência.  E ninguém encontrará heroísmo ianque na Coréia, no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. E nem se fale da Somália, de onde os norte-americanos saíram apressadamente, da mesma maneira que deixaram Saigon. No caso do Iraque, o mais liberal dos regimes da região, a mentira foi usada com desfaçatez: Saddam não possuía qualquer arma de destruição em massa, e era inimigo declarado de Al Qaeda – a mesma Al Qaeda que participa da contra-revolução síria.
        Dessas incursões criminosas falam mais as imagens de Abu Ghraib e de Guantánamo com a tortura contra prisioneiros indefesos, e os relatos brutais da chacina de My Lai, no Vietnã.
        Ontem, no Cemitério de Arlington, na cerimônia anual pelos que morreram em combate, Obama apelou para o sentimento de patriotismo dos norte-americanos, lembrando que os meios tecnológicos da guerra não bastam para substituir o “valor” dos soldados. Ele ponderou que, pelo fato de que, hoje, os soldados são voluntários, e não conscritos, como no passado, o povo não se sente tão empenhado em solidarizar-se com os seus exércitos. Na realidade, o Pentágono “terceiriza” a guerra e usa mais mercenários do que patriotas nos combates.
           Na semana passada, ele dissera, em outra cerimônia militar, que os Estados Unidos devem terminar com a guerra contra o terrorismo tal como ela se desenhara no governo Bush. Ontem, no entanto, insistiu que “a América ainda está em guerra”.
            É possível que os mitos em torno da superioridade norte-americana, alimentados pela imprensa, pela literatura e, sobre todos os outros  meios, pelo cinema e pela televisão, estejam sendo dissolvidos pela realidade. Há coisas novas, que nos trazem certa esperança. Entre elas, o primeiro compromisso entre o governo colombiano e as Farc, a propósito da política agrária a ser adotada no país. E, por mais a França e a Inglaterra advoguem uma intervenção militar na Síria, não parece que Washington e Moscou, cada capital com as próprias razões, aceitem essa nova aventura.
          Obama parece sincero em seu apelo ao Congresso para que autorize fechar Guantánamo e em sua disposição de deixar o Afeganistão no ano que vem. Mas isso não o isenta do que seu país fez na Líbia e em sua cumplicidade com Israel contra o povo palestino.     

           As virtudes do povo americano – e são muitas – só serão conhecidas quando eles esquecerem os mitos e assumirem sua plena humanidade.

28 de mai de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - A FORJA.


Levou cinqüenta anos para desc­obrir seu próprio mistério, mas já era tarde para reendereçar o destino. Ao longo da vida, os quadros da memória se confundiam com as gravuras vistas quando menino; não sabia certo se eram cenas alheias ou vividas: o carro-de-boi, os cobertores vermelhos e azuis, o lenço de seda cobrindo a cabeça do homem de dentes de ouro e bigode com a ponta afinada. O homem tinha a cara de pirata, ou o pirata na capa de "A Ilha do Tesouro" tinha a sua cara? O carro-de-boi era real, real o rinchar de seu eixo cocão, ou tudo aquilo eram memórias dos outros, enfiadas em seu nebuloso mundo?

Havia aceitado, com algum en­tusiasmo, a identidade que lhe deram. Era bonito saber-se órfão de pessoas belas e jovens, mortas no acidente de trem. Ali estava o retrato dos dois, pintado com es­malte: rosto com rosto, ela, com as sobrancelhas finas e altas, como era a moda; ele, de gravata com losangos. Tudo falso.

Agora, ao saber da verdade, per­guntava-se de onde teriam vindo os pais do retrato. Possivelmente, os velhos o haviam encontrado em algum bric-a-brac, e um deles teria comentado: "Olha, até que se parecem com o menino, vamos levar?” Estariam vivos ainda os pais-de-retrato? Talvez, e se soubes­sem de quanto ele os havia querido amar, ficassem comovidos. Mas faltam ao mundo os anjos comunicadores. Ele mesmo, quando ouvia falar no trem que se despenhara e fora engolido pelo mar (era a versão) , fazia força para imaginar os pais vivos, resgatados por um barco estrangeiro, vivendo longe, talvez na China ou na Mongólia, e ajuntando dinheiro para voltar. Se houvesse um anjo comunicador de sentimentos, ele poderia ter sido  filho perdido que talvez faltasse ao casal da fotografia: debaixo de seus olhos havia uma sombra de carência.

Agora sabia a verdade. O carro de boi, o homem de lenço amarrado à cabeça, a fogueira perto da lagoa, o pé ferido e inchado e a folha de desconhecida erva usada como curativo, tudo era real. Mas se falsos eram os pais-de-retrato, e os outros, os verdadeiros?

“Agora, que não tem mais remédio, e o senhor já tem netos, vou lhe contar todas as coisas direito", disse dona Afonsinha. E lhe falou da morte da mãe, de parto mal curado, o desespero do pai, meio adoidado, que troca o filho pelos trens de ferreiro com os ciganos, e passa os meses seguintes tentando forjar turbinas de moinho de água.

Até  os três anos viveu entre os zíngaros, e desse tempo vinham as fortes e confusas lembranças. O carro de bois, o seu chiar continuado, uma noite de muitos tiros, certa manhã em que viajava no surrão de uma jumentinha, debaixo de cajueiros, e um caiu lá dentro, cheiroso, bem maduro. O cigano de pano na cabeça cortando cebola com a faca da cintura, a mulher que tinha cheiro de fuligem, os cachorros que saltavam de um lado a outro da fogueira, a carne assada em espetos de ferro, o brilho dos tachos de cobre quando neles batia o sol da manhã. Não eram gravuras, dos livros da fazenda, mas a sua vida de menino. Por que o revenderam?

A senhora do segredo narrou-lhe, então, o episódio de que não se lem­brava de todo: as tropas do tenente Fonseca despejando fogo, com or­dem de matar a ciganada que infestava o baixo Jequitinhonha, depois da morte, a machadinha, de um sargento em Rio do Prado. A ajuda dos praças baianos, vindos de Ilhéus, e armados de mosquetão curto, de tiro mais seco e mais preciso, para ajudar no acabamen­to daqueles ladrões de cavalo e de crianças. Os três meninos deixados na fuga, no arraial sem nome, pelo cigano Inácio, que era maneta.

“Os três ficaram na cafua de uma negra sozinha. Depois o herege voltou, pegou dois dos meninos, que ele achava que eram arraçados de ciganagem, e vendeu o outro por cinqüenta mil réis. O coronel com­prou, a mulher dele, em glória sempre esteja, ficou satisfeita; era de barriga miúda, não tinha filhos, não sabia fazer crochê, nem entendia de criação" – resumiu a velha.

Ele retirou do bolso o maço de notas, colocou debaixo do traves­seiro da mulher que, agonizante, o mandara chamar, e disse, na saída, ao velho que enchia o cachimbo, ter deixado um ajutório. O velho agradeceu:

–  Vai ser no jeito pro enterro. De hoje não passa a agonia, o padre garantiu. O que foi que ela queria falar para o senhor, hein?
O deputado olhou para o seu próprio retrato com a propaganda eleitoral na parede, e respondeu, sério:


– Segredo, Juca. Segredo.

26 de mai de 2013

DE GOLPES E LABAREDAS

      
(HD)- Certa militante de partido da oposição usa a internet para divulgar “golpe comunista” em 2014. Estudante pernambucano de 19 anos, para ridicularizar o gesto, cria, pelo mesmo meio, a frase “Eu Vou. Golpe Comunista em 2014. Os reacinhas piram!”, ilustrada com a foice e o martelo, e consegue milhares de “apoiadores” para  manifestação fictícia marcada para o começo do ano que vem. O banner passa a ser reproduzido em sites de direita e de extrema direita, como se tratasse de  ameaça real. Um farmacêutico de 34 anos “reage”, criando página no Facebook, sob o título “Golpe Militar 2014”.
        Desta vez, no entanto, não se trata de uma “brincadeira”. Trata-se, sim, segundo ele, de “testar o apoio a um golpe militar no Brasil”, e de defender a tese de que “nenhuma solução virá das urnas”. A página, ilustrada com fotos copiadas de um site oficial do Exército, torna-se desaguadouro de comentários radicais.
       O que está ocorrendo com a Nação? Estaríamos, na velocidade da internet, dando inequívoca demonstração de falta de bom senso?  Consideramos, como certos meios de comunicação, normal esse tipo de “brincadeira”? Ou os políticos, por ignorância ou omissão, desconhecem o que se passa?
       Basta navegar pela Rede, para ver que vivemos perigoso processo de radicalização nos extremos do espectro político brasileiro. Quem usar parte de seu tempo pode encontrar dezenas de sites que pregam a quebra da ordem institucional e o fim do Estado de Direito. Há páginas de orientação nazista, integralista, sites anticomunistas católicos, blogs ligados a organizações estrangeiras, sites que afirmam representar segmentos associados à reserva das Forças Armadas, a policiais e bombeiros.
      Acusado de pretender o “golpe”, o PT deveria ter tomado providências. Brincadeira ou não, ao ver seu símbolo ligado à mesma idéia, o PCB e o PC do B deveriam ter pedido à justiça a retirada do material do ar, e a proibição de sua reprodução futura.
      Tudo isso mostra que é preciso aprovar, com a máxima urgência, legislação clara de proteção à democracia no Brasil. Em um país em que, todos os anos, páginas são retiradas do ar por iniciativa do Ministério Público, e a apologia do tráfico de drogas e ao racismo dá cadeia, o apelo à quebra da ordem constitucional e ao fim do Estado de Direito deve ser investigado e seus autores punidos.
     A volta da democracia ao nosso país foi  conquista, árdua e sacrificada, de todo o povo brasileiro. À esquerda e à direita, não podemos brincar com fogo. É preciso que se convoquem e se unam os setores mais responsáveis da sociedade - à margem  de suas opções políticas e ideológicas -  para acabar com essas provocações, antes que se alastrem, como um vírus, contaminando o país e ameaçando a República.

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24 de mai de 2013

O BRASIL E O PACÍFICO



(JB)-Não foi uma caminhada fácil, nem se iniciou ontem, mas o Brasil deixou para trás a situação acanhada, quando, de tempos em tempos, nossos ministros da Fazenda viajavam aos Estados Unidos, de chapéu na mão. A dívida externa nacional, sempre acumulada, pelos juros brutais, tinha que ser “rolada” de maneira humilhante. Os que procuraram escapar ao “contrato de Fausto com o diabo”, conforme Severo Gomes, sofreram a articulação golpista comandada de fora, como ocorreu a Vargas, a Juscelino e a João Goulart.     
Livramo-nos, durante o governo Lula, do constrangimento de abrir a contabilidade nacional aos guarda-livros do FMI, que vinham periodicamente ao Brasil dizer como devíamos agir, em relação à política fiscal ou na direção dos parcos investimentos do Estado. Ainda temos débitos com o exterior, mas as nossas reservas cobrem, com muita folga, os  compromissos externos.
Não obstante isso, os nossos adversários históricos não descansam. Ontem, na cidade colombiana de Cali, os governos do México, do Chile, da Colômbia e do Peru se reuniram para mais um passo na criação da Aliança do Pacífico — sob a liderança dos Estados Unidos e da Espanha — claramente oposta ao Mercosul. O Tratado que reúne, hoje, o Brasil, a Argentina, a Venezuela e o Uruguai — e que deverá ampliar-se ao Paraguai e à Bolívia — representa poderoso mercado interno, com um dinamismo que assegurará desenvolvimento autônomo e relações de igualdade com outras regiões do mundo.
Os norte-americanos, em sua política latino-americana, agem sempre dentro do velho princípio, que Ted Roosevelt atribuía aos africanos, de falar mansinho, mas levar um porrete grande. Ainda agora, preparam uma recepção de alto nível para a chefe de Estado do Brasil, que visitará Washington, em outubro — e será recebida com todas as homenagens diplomáticas. Ao mesmo tempo montam o esquema de cerco continental ao nosso país.

Sendo assim, foi importante a visita que fez anteontem a Washington o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves, a convite do Instituto do Brasil, do Centro Woodrow Wilson, e do US Businness Council. O parlamentar, exibindo números bem conhecidos em Washington, mostrou que o Brasil deixou de ser país em desenvolvimento, para tornar-se uma potência consolidada. Ele argumentou que o Brasil é investidor importante na economia norte-americana, e, embora não o tenha feito, poderia lembrar que somos o país que tem o terceiro maior crédito junto ao Tesouro dos Estados Unidos.
Os espanhóis que, em troca do tratamento privilegiado que lhes damos no Brasil, tratam de nos prejudicar, estão exultando com a Aliança do Pacífico. No entender de seus analistas, a nova organização vai sufocar o Mercosul. Ainda que alguns de nossos parceiros estejam encontrando dificuldades ocasionais, a pujança conjunta supera, de longe, a economia dos países da Aliança. A economia mexicana depende de empresas norte-americanas, que se aproveitam de seus baixos salários e outras vantagens para ali montar seus automóveis e “maquiar” outros produtos.
A força da economia brasileira, na indústria de porte — em que se destaca a engenharia de excelência na construção pesada — reduz a quase nada a importância dos países litorâneos do Pacífico, em sua realidade interna. Os Estados Unidos os querem no Nafta, e é provável que consigam esse estatuto de vassalagem. Nós, no entanto, não podemos deixar os nossos vizinhos da América do Sul isolados, em troca de uma parceria com Washington que de nada nos serve.
É hora também de dar um chega pra lá com a Espanha de Juan Carlos, Rajoy e Emilio Botin, o atrevido presidente do Banco Santander, que consegue ser recebido no Planalto com mais frequência do que alguns ministros de Estado. O Brasil deve manter as melhores relações diplomáticas com os Estados Unidos, desde que as vantagens sejam recíprocas. Mas se, ao contrário deles, não levarmos o big stick, estaremos advertidos de que “os Estados Unidos não têm amigos: os Estados Unidos têm interesses”, conforme a frase atribuída a  Sumner Welles e repetida depois por Kissinger. 

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RÚSSIA GARANTE AO BRASIL TRANSFERÊNCIA TOTAL DA TECNOLOGIA DO CAÇA SUKHOI SU-35



A agência RIA Novosti informa, citando declarações de Seguei Ladygin, representante da estatal russa de armamento Rosobonexport, dadas ontem na SITDEF 2013, exposição de armas que está sendo realizada em Lima, no Perú, que a Rússia teria comunicado ao governo federal que estaria disposta a transferir ao Brasil, sem restrições, cem por cento  da tecnologia  de fabricação dos caças Sukhoi SU-35, de quinta geração, e dos sistemas anti-aéreos Pantzir, independente da conclusão da licitação do Programa FX-2, de compra de caças pela aeronáutica.

O Sukhoi Su-35 pertence a uma classe caças de ataque e superioridade aérea pesados, de longo alcance e multi-função. Com autonomia de 3.600 a 4.600 quilômetros (com tanques externos) e velocidade de 2.700 quilômetros por hora, ele pode atingir rapidamente qualquer região do território nacional.

É equipado com uma variedade melhorada de óptica passiva do sistema de radar N035 Irbis, e com  um radar de retaguarda adicional montado no seu aguilhão da cauda encurtada. Conta também com um radar N035 melhorado com pico mais poderoso e melhores características ECM e com um sistema de guerra eletrônica e auto-contramedidas de defesa eletrônica Khibiny L175M. O cockpit conta com duas telas de LCD e compatibilidade com HMD. O software do Su-35BM tem acrescentada compatibilidade com novos sistemas de armas e outros  aviônicos que incluem informações de longo alcance de alvos e datalink com capacidade de resistência à JAM, além de um sistema de reconhecimento eletrônico.

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21 de mai de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - NINHO DE ESTRELAS.



Nossa era a cidade inteira, com suas praças e ruas, becos e pontes. Todos se haviam ido, e levado bois e cabras, cães e pássaros. Ficaram alguns gatos, que nos espreitavam sem curiosidade. Algo nos haviam deixado, na pressa, e isso bastava para muito tempo. Até que se acabassem os restos das despensas, eu poderia armar mundéus e colocar fis­gas de espera na lagoa: não nos preocupássemos.

"Eles vão voltar. Quando passar o entusiasmo, voltam. Isso é fogo de palha", você me dizia, e eu fazia figas mentais. Tomara que ali houvesse ouro para séculos, e abandonada para sem­pre ficasse Santana das Areias. Er­gueríamos muros de pedra para cerca-­la e, se Deus nos desse anos de paz, cresceriam árvores que a escondes­sem.
Quando nos chamaram, dissemos que seguiríamos. Lembro-me de que insistiram para que fôssemos juntos, porque perderíamos o caminho, e você disse que nem dez chuvas apagariam rastos de tanta gente. Um deles, se não me en­gano, o coveiro, deu uma banana para a cidade, e disse que jamais seus pés voltariam a pisar lugar tão amaldiçoado. Quando a tarde chegou, sentamo-nos no adro da Igreja e você, como menina, pulando sobre uma perna só, foi ao sopé da torre tanger o sino. "Vou sempre tocá-lo, na hora do Ângelus, para que não nos falte a proteção da padroeira." Eu concordei, mas lhe disse que fi­caríamos ali tanto tempo que se esgarçaria a corda e não poderíamos subir os estreitos degraus espetados na parede. "Estaremos velhos demais", eu disse, e você replicou que nunca seria velha.

Nas manhãs seguintes fizemos o recenseamento das coisas deixadas. Foi quando você teve a idéia de juntá-las em razão de sua natureza e serviço. Uma das moradias ficou sendo “a casa dos lampiões”; a outra, “o lugar dos pratos e panelas”. Mas deixamos as redes e tarimbas, camas e jiraus, em seus lugares. A cada noite escolhíamos onde dormir. Buscávamos as candeias, lampiões e lamparinas, porque tal era nossa riqueza que podíamos iluminar o  pouso com luzes por dentro e por fora. "E como se a gente fizesse um ninho de estrelas”, você disse, eu me lembro. De longe, talvez, os pássaros noturnos se espantassem. Mas não iriam as cobras perturbar-nos. Aliás, para afugentá-las tínhamos as corujas, e você lhes arranjou nomes. Uma delas, que parecia a mais velha, recebeu o nome de dona Sabina,  sua antiga professora, de sobrancelhas brancas e pouca pes­tana.
Os dois pequenos jardins, simétricos,  que embelezavam o adro de calçado de pedra , cada um deles com dois bancos fronteiros, passaram a ser o espaço de nossas tardes. Ali sentávamos, lembrávamos,  eu muito mais do que você - poupada a intimidade da crônica indesejada de seu passado -  a infância que não tivéramos, os bichos com quem tratáramos, as pedras e árvores, rios e nascentes dos caminhos. De gente, falávamos muito pouco. A que conhecêramos não era de recordar-se.
Você evitava passar pela casa antiga, onde a encontrei duas semanas antes do estouro. Era a única edificação que você queria destruir, e para isso procurou dinamite na pedreira – mas eles  haviam levado todas as caixas, para usá-las, se fosse preciso. Quando falei em levantar o muro, você disse que ia ser bom, porque "aquela casa”, em que ela vivera, ficaria fora da cidade. Suas companheiras haviam subido para as nascentes do ouro, onde esperavam ficar ricas. “Você já pensou que também fizemos um grande negócio? Quanto valerá em ouro esta cidade? O mundo deve ter também outras cidades abandonadas por pessoas que procuram ouro, mas a gente só descobre isso quando a gente se ama muito. Quando o amor vale mais do que o ouro. Nós ficamos, e temos a paisagem toda durante o dia, as es­trelas todas durante a noite, e temos tantas casas como os dias de um ano inteiro” - você me disse,  e eu fiquei surpreso com sua sabedoria. É possível que você tenha usado outras e mais simples palavras, mas o tempo as lapidou em meu coração.
Chegáramos, você primeiro e eu depois, escorraçados de muitas outras cidades, e, como sempre, sabíamos que não poderíamos ali viver por muito tempo. Você, com a novidade de seu corpo de menina, uma escultura brônzea, e eu com a agilidade dos dedos no baralho novo, esgotaríamos logo o mercado, não fosse aquele estrondo distante, e a enxurrada de pepitas pelo rio abaixo. Talvez um dia  os desiludidos voltassem. Teríamos que desmanchar os caminhos, pedir aos cupins que os tapassem com seus castelos, semear moitas de cambará e unha-de-gato nas encruzilhadas. Ensinei-lhe o que sabia, e o que mais aprendeu foi atirar: entre sua pupila e o alvo, as balas não hesitavam.
 Um dia encontrei você chorando. "Não fica triste comigo não, mas faz muitas semanas que você não me conta nada de diferente. Eu acho que agora conheço você todo, isto é, você já é meu  inteirinho, por isso não o quero mais. Você sabe: a gente só quer enquanto não tem tudo, e você foi bobo, não me negou nada.”
       Despedi-me, com um casto beijo entre seus olhos, e parti. Você saberia cuidar-se, com a arma que lhe deixei. Presumo que depois de conhecer a cidade inteira, você tenha partido também.

UMA ESCOLA DE DEFESA PARA A AMÉRICA DO SUL


           
(Carta Maior)-Discretamente, como convém, estreita-se a cooperação de defesa sul - americana. Anteontem, em Lima, no Peru, reuniram-se os vice-ministros    de 12 países, entre eles o Brasil,  no âmbito do Conselho de Defesa da América do Sul, para discutir a cooperação, com ênfase na transparência no processo de  aquisição de armamentos, e em monitoramento conjunto da situação continental.
          Em Quito, no Equador, no dia 5 de maio, já ocorrera outro encontro, para a discussão de uma proposta histórica: a criação de uma Escola de Defesa Sul-americana. Ela se contrapõe à  célebre Escola das Américas, que, com sede no Panamá, serviu, durante muitos anos, à conspiração golpista contra governos democraticamente eleitos, e para o treinamento de repressores por oficiais do Exército norte-americano.
         Ao estreitar a colaboração entre suas forças armadas, a América do Sul não pretende agredir ninguém; seus militares e políticos sabem que é preciso  preparar-se contra eventuais agressões externas. Com essas medidas, não nos deixaremos manipular por potências de outras regiões, que gostariam de nos ver divididos, como no passado. Essa cooperação servirá para o desenvolvimento conjunto de métodos de treinamento, de tecnologia própria na produção de novos armamentos e meios de defesa.
      O Brasil estuda, nesse momento, a construção de um reator nuclear binacional com a Argentina, com fins pacíficos. Compramos lanchas de  patrulha naval da Colômbia, e desenvolvemos  projeto mais avançado, nessa área, com o Perú. Colômbia, Chile e Argentina, participam, diretamente, do desenvolvimento do novo jato militar de transporte da EMBRAER, o KC-390, voltado para a substituição, no mercado internacional, dos antigos Hércules C-130 norte-americanos.
       A Argentina estuda a compra de blindados Guarani, projetados pelo Exército Brasileiro. E se estuda a construção conjunta - por todos os países - de novo avião de treinamento. O Perú  pretende  comprar, agora, seis caças ligeiros Super-Tucano, que já fazem parte, na América do Sul, das Forças Aéreas da Colômbia, do Chile e do Equador.
         Estamos começando este século de forma muito diferente do que começamos o século passado, com guerras como a do Chaco, e disputas territoriais do século 19,  que deixaram marcas  até hoje, como no caso da disputa entre o Chile e o Peru pela região de Atacama.
        É ingenuidade pensar que a aproximação na área de defesa entre os países das América Latina seja desejada, ou não esteja sendo observada com atenção por nações de outras regiões. Para certos países, o ideal seria que nossos corpos de defesa cuidassem exclusivamente do combate ao tráfico de drogas e à repressão política interna.
        Esta semana, o embaixador da França no Brasil, Bruno Delaye,  visitou o Deputado Nelson Pellegrino, Presidente da Comissão de Defesa e Relações Externas da Câmara dos Deputados, para oferecer que fragatas sejam montadas no Brasil, pela estatal francesa DNCS, que já faz o mesmo com os submarinos do PROSUB.
       É urgente a criação de uma grande empresa estatal de indústria bélica, em nosso país, como ocorre em quase todos os países do ocidente, para participar, majoritariamente, de consórcios  destinados a produzir armamentos no Brasil.
        Ao mesmo tempo, devemos continuar avançando nos esforços diplomáticos para a cooperação e associação com os nossos vizinhos,  para a eventual defesa da integridade territorial e soberania política da região.
       

15 de mai de 2013

COMO MATAR OS JORNALISTAS


(HD)-O Brasil é um dos países mais perigosos para os jornalistas. Se excluirmos as zonas de guerra ou de conflito armado interno, o país se encontra à frente nessas estatísticas. Nove já morreram este ano. Aqui nenhum jornalista morre de balas perdidas, como é comum nos confrontos bélicos. Todas acham seu alvo. Só este ano, 4 jornalistas foram assassinados em nosso país – e 600, nos últimos dez anos, no mundo.
       Os jornalistas incomodam porque são insistentes testemunhas diante da opinião pública. E há aqueles que ousam ter uma posição política definida, quase sempre contra governantes autoritários e violentos. Desde a independência, matam jornalistas no Brasil. O primeiro  caso  foi o de Líbero Badaró, assassinado em São Paulo por sicários, a mando do desembargador Candido Ladislau Japi-Açu – mas há quem identifique o próprio Pedro I, como o real  mandante do crime.
      Líbero Badaró era italiano, e o seu assassino, alemão. Estava no Brasil havia pouco mais de três anos, era médico e jornalista. Fundou, um ano depois de chegar, “O Observador Constitucional”, que dirigia pesadas críticas ao Imperador.  Com o seu sacrifício, surgia o costume de matar jornalistas e, mais ainda, a impunidade.
    O desembargador, identificado como mandante pelo próprio assassino, foi transferido para o Rio de Janeiro, ali julgado e absolvido. Absolvidos foram ainda  o alemão Henrique Stock, que disparou a arma,  e o tenente Carlos José da Costa, que fora do Rio para São Paulo, a fim de organizar  a empreitada.
    Durante o Império e a República não foram poucos os jornalistas assassinados. Embora muitos fossem vitimados nas duas maiores cidades do país, Rio e São Paulo, os crimes, em sua maior parte, eram cometidos no interior do país, sem grande repercussão histórica.
     O assassinato é a última providência dos que detestam a liberdade de imprensa, que é apenas a liberdade de expressão ampliada pelos meios técnicos. Mas o homicídio dos jornalistas pode ser ainda mais nefando, quando  são submetidos à tortura, como ocorre nos regimes ditatoriais e ocorreu durante o regime militar. Vladmir Herzog e Mário Alves são os dois mártires mais conhecidos – mas houve muitos outros, de perfil mais modesto, submetidos à tortura e à morte pelo interior do país.
     Há também como amordaça-los: a intimidação, a ameaça à família, a via judicial, e os serviços de repressão. Agora, por exemplo, o governo dos Estados Unidos, que se proclamam a pátria da liberdade de expressão, se apropriou, mediante agentes secretos, clandestinamente, de gravações feitas pelos repórteres da Associated Press, em flagrante violação da Primeira Emenda da Constituição. Obama, eleito em nome da esperança, prefere defender o Tea Party, partido de extrema-direita, acusado de sonegar impostos.

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14 de mai de 2013

O PETRÓLEO É NOSSO



(JB)-A Petrobras desfigurou-se quando o governo dos tucanos paulistas e cariocas decidiu entregar a exploração do petróleo a empresas estrangeiras. Uma evidência da entrega: todos os países exportadores de petróleo cobram das empresas estrangeiras royalties, em média, de 80%: em petróleo. O Brasil, por decisão desses senhores, só cobra dez por cento do óleo extraído — e em moeda. Na realidade, essas empresas são donas de todo o petróleo produzido, cuja descoberta se deve à própria Petrobras. 
          Mais do que o petróleo, vindo do solo, a Petrobras extraiu da alma brasileira a sua orgulhosa consciência de povo. Essa consciência vinha sendo construída em difíceis passos políticos, confrontada com a cumplicidade das oligarquias coloniais com a Metrópole, na exploração do trabalho escravo e no saqueio sistemático da natureza, desde o século 17. É bom registrar que ela sempre se associou aos nossos recursos naturais, do pau-brasil ao ouro e a outros minerais.
        A Independência, em 1822, serviu para o surgimento de grupos mais atilados, com ideais democráticos e republicanos, ainda que prevalecessem os interesses oligárquicos. A confluência do movimento abolicionista com a campanha republicana, a partir de 1870, acabaria com as duas instituições caducas, a escravatura e a monarquia. Mas, fora a pequena elite pensante das grandes cidades, não havia consciência de nação. No campo, os grandes fazendeiros viam o país como um território repartido entre eles,  senhores das terras e dos que nelas trabalhavam e viviam.
       Só na segunda década republicana houve quem associasse o desenvolvimento industrial ao bem-estar dos trabalhadores — mas esses visionários foram violentamente reprimidos pelos governos, a serviço das oligarquias e das empresas estrangeiras. Elas controlavam as incipientes manufaturas e o comércio exterior com a venda de nossos produtos primários  - e a importação de bens de consumo, em sua maioria supérfluos.
      A partir dos anos 20, começou a esboçar-se o que podemos entender como a assunção do Brasil, como ele é: uma nação de imigrantes, mestiça de mamelucos e cafuzos, de negros e brancos, de europeus nórdicos e meridionais — e de gente do Oriente Médio e da distante Ásia. Nesse sentido, apesar de seus críticos, a Semana de Arte Moderna, de 1922, teve a sua marcante influência. O Brasil desembarcou definitivamente da Europa com o atrevimento dos intelectuais, muitos deles brasileiros de primeira geração, que tornaram nobre o que antes se considerava vulgar.
     Foi então que despimos as sobrecasacas, trocamos as ceroulas por cuecas, e as mulheres se livraram dos espartilhos para que suas formas desabrochassem sob a regência de uma sensualidade tropical.
     Nesses anos 20, em certos momentos sem uma orientação política e ideológica coerente, surgiram os partidos de esquerda e os movimentos de rebeldia militar com os tenentes, como a gesta heroica, mas prematura, da Coluna. Tudo isso conduziria à Aliança Liberal de 1930, empurrada, como sempre ocorre, pelo confronto de interesses políticos pessoais de personalidades fortes, associado ao conflito  das forças econômicas regionais.    
      É interessante notar que, nesses decênios iniciais do século 20, o petróleo já se situava no centro da disputa geopolítica das grandes potências — e desde a Primeira Guerra Mundial, com o desembarque inglês, comandado pelo coronel Lawrence, na Península Árabe. O livro de Essad Bey, A luta pelo petróleo, é a melhor fonte para entender as intrigas entre os estados e os milionários no esforço pelo controle das jazidas.
      Em 1928, como narra Monteiro Lobato em seu livro sobre o assunto (O escândalo do petróleo), os soviéticos, preocupados em diminuir o elevado consumo de álcool entre seus soldados, propuseram ao Brasil trocar petróleo - do qual grande parte de seu território era,  e continua, encharcado - por café brasileiro. Acreditavam que a nossa bebida contribuiria para aliviar o alcoolismo de suas tropas. Os Rockefeller, donos da Standard Oil e líderes das grandes petroleiras, impediram que fizéssemos o negócio.
      Com Getulio, dentro das amarras do tempo, começamos a levar o problema a sério, com o Conselho Nacional do Petróleo, criado em 1938, e sob a chefia do general Horta Barbosa. Todas as atividades petrolíferas se encontravam sob o controle do Estado, que poderia conceder a exploração e o refino, dentro dos interesses nacionais. Enfim, em 1953, criou-se a Petrobras.
       O lema da campanha popular, O petróleo é nosso, transcendia de seu enunciado. Não era só o petróleo que era nosso. Queríamos dizer que o Brasil, com o petróleo e tudo mais, pertencia-nos, como povo. Na medida em que a Petrobras  se consolidou — mesmo sobre o cadáver de Getulio — entendemos que éramos um povo capaz de conduzir, soberanamente, o seu próprio destino.
      Se não fosse essa consciência, adquirida nas lutas populares, Juscelino não teria sido eleito em 1955, e não teríamos dado o grande salto, dos cinqüenta anos em cinco, durante o seu qüinqüênio: construímos trechos de ferrovias, grandes eixos rodoviários e erigimos Brasília, porque a criação e os primeiros êxitos da Petrobras diziam-nos que éramos um povo tão capaz como qualquer outro, e poderíamos, com isso, construir definitivamente a nossa soberania.
      No entanto, a partir do governo presidido por Fernando Henrique Cardoso, a Petrobras tem sido submetida a lenta, mas criminosa, desconstrução. O Estado vendeu, no exterior, as ações preferenciais da empresa, transferindo assim, em forma de dividendos, os esforços dos técnicos e trabalhadores brasileiros, que, com o seu êxito, ajudaram-nos a criar a consciência de nação soberana.
    A Agência Nacional do Petróleo, ao que parece a isso autorizada pelo cimo do governo, decidiu colocar em leilão, hoje, e pelas regras que remontam a Fernando Henrique, centenas de lotes de exploração de petróleo na costa brasileira. Trata-se de áreas em que a Petrobras investiu centenas de milhões em pesquisa e que serão entregues, em sua maior parte, e ao que se prevê, a empresas estrangeiras.
    Segundo cálculos da Associação dos Engenheiros da Petrobras, divulgados pelo seu ex-presidente Ricardo Maranhão, e pelo seu atual vice-presidente, Fernando Siqueira, o valor desses depósitos fósseis é superior a um trilhão e cem bilhões de reais. As entidades representativas dos trabalhadores da Petrobras estão sem recursos para custear as ações  na Justiça, e a empresa não pode ou não quer tomar estas providências. É o caso de os donos do petróleo, ou seja, os cidadãos brasileiros, abrirem uma conta e contribuírem com o que cada um puder, para constituir um fundo de defesa do petróleo. De novo temos de ir às ruas para dizer que "o petróleo é nosso".   

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