1 de jun. de 2011

URGÊNCIA NA AMAZÔNIA

Se os estados amazônicos são incapazes de impor a lei nos territórios de sua jurisdição, cabe ao governo federal neles intervir, como prevê a Constituição e aconselha a necessidade de que se salve a República.

O que está ocorrendo no Pará e em Rondônia é um desafio aberto à sociedade brasileira. Jagunços, a serviço dos grandes proprietários (o chamado agronegócio) e dos devastadores das matas para a exploração das madeiras nobres e o fabrico de carvão, estão matando, impunemente, pequenos lavradores e líderes extrativistas, que se opõem aos crimes cometidos contra a natureza e defendem suas pequenas posses contra os grileiros. Não cabem eufemismos nem subterfúgios. A realidade demonstra que os mandantes contam com a cumplicidade explícita de algumas autoridades locais, não só do poder executivo como, também, do sistema judiciário. E, ao lado dos pistoleiros, atuam parcelas da polícia militar e civil da região.

Se houvesse dúvida dessa teia de interesses que protegem os criminosos, bastaria a manifestação de regozijo de parte dos parlamentares da bancada ruralista e de sua claque, quando, no plenário da Câmara, se ouviu a denúncia dos assassinatos mais recentes, feita pelo deputado Zequinha Sarney.

A repetição dos assassinatos no campo é, em si mesma, intolerável afronta à sociedade brasileira, em qualquer lugar que se dê. Mas, no caso da Amazônia, é muito mais grave, porque ali se acrescenta a questão da soberania nacional. A inação do Estado alimenta a campanha que, nos países europeus e nos Estados Unidos, se faz contra a nossa jurisdição histórica sobre a maior parcela da Hiléia, sob o argumento de que não temos condições de exercê-la e mantê-la. Se não somos capazes de impedir o assassinato da floresta e de seus defensores, os que cobiçam as nossas riquezas se sentirão estimulados a intrometer- se em nossos assuntos internos, sob o estribilho que precedeu a invasão de muitos países, o da defesa dos direitos humanos.

Há décadas que vozes sensatas têm clamado para que a questão amazônica seja vista como a mais exigente prioridade nacional.

O Brasil é convocado a ocupar a Amazônia – ocupar, mesmo, embora sem destruí-la – criar sistema eficiente de defesa das fronteiras, proteger sua população civil e promover o desenvolvimento sustentado da área.

Trata-se de uma guerra que estamos perdendo, porque não a enfrentamos como é necessário. As nossas Forças Armadas, destacadas na região, lutam com todas as dificuldades. Faltam- lhes equipamentos adequados às operações na selva e nos rios; os contingentes não conseguem ocupar todos os pontos táticos e estratégicos da região e, em alguns casos, não há suprimentos para a manutenção das tropas.

Nos últimos vinte e cinco anos, de acordo com relatório da Comissão Pastoral da Terra, 1.581 ativistas foram assassinados na luta contra grileiros, agronegocistas e madeireiras – a imensa maioria na nova fronteira agrícola do Norte.

Não bastam as declarações do governo, nem a convocação de grupos de estudos. O bom-senso indica que o governo federal terá que convocar as três forças nacionais a fim de ocupar a Amazônia, identificar e prender os criminosos e mandantes.

É crucial criar sistema de controle da exploração madeireira e de outras riquezas, o que hoje é fácil, graças ao GPS, ao monitoramento de caminhões por satélite e outros instrumentos eletrônicos.

Há centenas de brasileiros, ameaçados de morte, porque estão fazendo o que não fazem as autoridades locais: defendem a natureza e a soberania do Brasil sobre os seus bens naturais e a vida dos indígenas e dos caboclos, reais desbravadores da região.

Para que não sejamos obrigados a uma guerra externa, contra prováveis invasores estrangeiros – que aqui virão em busca dos recursos naturais que lhes faltam – temos que travar e vencer a guerra interna contra os bandidos, pistoleiros e os que lhes pagam.

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30 de mai. de 2011

GROTAS DO EMBAÚBA

Talvez não seja politicamente correto lembrar o que ocorreu em Grotas do Embaúba. O lugar nada tinha de especial que o diferenciasse. Situado em terras intermediárias entre uma língua de mata atlântica, que avançava rumo ao oeste, como se a floresta buscasse terras mais férteis, e o sertãozão carrapichoso e marcado de dunas avermelhadas, ao norte, e o cerrado ralo ao sul, o antigo arraial ocupava vale estreito, cercado de grotas que, nas duas margens do ribeirão Embaúba, aliviavam as colinas ásperas com a vegetação fechada, de forte verde, que ninguém se arriscava a violar.

As famílias antigas, nem ricas, nem miseráveis, se davam bem. Plantavam e criavam, dois ou três comércios as serviam, não havia padres que as perturbassem, nem médicos que as ajudassem a morrer. Por isso, presume-se, viviam bastante. A paz foi perturbada com a chegada dos forasteiros. Um geólogo descobrira, nos morros, depósitos de zinco, com forte proporção de cádmio, de alto preço no mercado. A notícia atraiu pequenas e médias mineradoras. O lugar decuplicou de habitantes em menos de um ano. O comércio floresceu, as terras multiplicaram de preço, uma estrada foi aberta até a mais próxima estação de estrada de ferro, e muitos moradores antigos descobriram o valor do dinheiro e a alegria do conforto. Antes, nas eleições, o lugarejo votava unido, respeitando a vontade dos mais velhos, que se reuniam antes do pleito e decidiam que candidatos apoiar. Não havia infidelidade.

Os forasteiros haviam trazido, com suas ferramentas, a ambição do dinheiro e do poder. As velhas famílias rapidamente perderam prestígio. Aos engenheiros, capatazes e mineradores, somaram-se o médico, o padre e o pastor, que abriram os seus negócios, comprando as melhores casas do distrito. Sendo a nova maioria, encabeçaram o movimento pela emancipação de Grotas – e a obtiveram, com a brava e inútil oposição dos moradores antigos. Esses esperavam que as jazidas se esgotassem logo, para que pudessem reencontrar a paz.

Realizadas as primeiras eleições do novo município, os forasteiros fizeram a maioria absoluta da Câmara Municipal, enquanto os antigos só conseguiram eleger dois vereadores. Prefeito e vice eram nascidos na capital, cheios de arrogância e nove-horas na conversa. Os impostos pagos pelas mineradoras à antiga sede municipal eram altos, mas os forasteiros conseguiram aprovar lei que os reduziram a quase nada. Um dos filhos de Grotas, que estudara na capital, ao visitar os pais, descobriu a maracutaia: as empresas mineradoras pagavam uma parcela do que economizavam de impostos ao prefeito, ao vice e aos vereadores da maioria. Os velhos se reuniram, convocaram filhos e genros, compraram armas e munições, fizeram seus planos estratégicos. Eram minoria, mas decididos, e contavam com a surpresa. Na madrugada certa, cortaram a linha de eletricidade, fecharam o correio, prenderam preventivamente o padre, o pastor e o médico e obtiveram a adesão do cabo e dos dois praças do Destacamento da Força Pública. Exageraram em seu civismo, ao permitir que fossem enforcados, na praça, o prefeito e o vice, depois de confiscados os seus bens. Expulsaram, sob tiros de sal e chumbinho miúdo, os administradores das empresas de mineração e os vereadores da maioria.

Nomearam um governo interino, enviaram delegação ao governo do Estado e conseguiram que esse reconhecesse a situação de fato, até novas eleições. Um inquérito foi instaurado para apurar as responsabilidades na execução dos larápios, mas não levou a nada. O silêncio dos insurretos foi absoluto. O novo município encampou as minas de zinco, e criou empresa própria para explorá-las. Os engenheiros e técnicos que quiseram, continuaram trabalhando, com o compromisso de não se meterem na política.

Grotas do Embaúba não retornou à paz antiga, mas recuperou muito de sua dignidade.

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29 de mai. de 2011

O DISCURSO ANACRÔNICO

O discurso do presidente Barack Obama, em Londres, como quase todos os pronunciamentos políticos, não pode ser entendido em sua literalidade. As palavras, disso sabemos, servem para dizer e servem para ocultar, e quase sempre revelam, ao ocultar. Quando buscam esconder o verdadeiro sentimento dos que as pronunciam, revelam-no. Foi um speech fora do tempo, e lembra os pronunciados por Ted Roosevelt na passagem do século 19 para o século 20.

Obama foi a Londres a fim de dizer aos britânicos que os dois povos, vindos da mesma e presunçosa Albion, continuam a mandar no mundo. Começaram a mandar antes mesmo que as colônias da Nova Inglaterra existissem, ainda no fim do século 16, quando os espanhóis foram fragorosamente derrotados, com sua armada, que se pressupunha invencível, mais pelos ventos e ondas altas do Canal da Mancha do que pela ação dos navios britânicos. Essa supremacia foi confirmada, no século 19, em Waterloo. Mas o simples fato de que o presidente dos Estados Unidos tenha considerado ser importante essa reafirmação de domínio, revela que ele se encontra em erosão. O presidente cometeu um equívoco político importante, talvez porque tenha trocado de ghost-writer, ao desdenhar a posição da Europa. Ele não menciona diretamente países como a Alemanha e a França, e só se refere “aos nossos aliados”. Enfim, os donos do mundo são eles. Os outros, por mais poderosos sejam, são apenas “aliados”. O Brasil e os outros grandes países emergentes, reunidos no grupo Bric, são mencionados, como incapazes de ameaçar a supremacia mundial do eixo Washington-Londres. Não cremos que o Brasil venha a disputar a “liderança” do mundo. A melhor atitude de uma nação forte é a de não comprometer esse potencial em atos de conquista. Bons exércitos, economia sólida, instituições permanentes são condições necessárias para assegurar a liberdade interna e garantir os interesses nacionais na sociedade mundial. Mas se essa vantagem for usada em aventuras estultas, as conseqüências sempre serão, a prazo curto ou longo, desastrosas. Na vida de cada um de nós, e na vida das nações, a melhor escolha é a de não liderar, mas, tampouco, seguir a liderança alheia. Deixemos aos outros a sua autonomia e sejamos ferozes defensores da nossa independência.

Dentro da mesma ordem de idéias, estamos diante de outra manifestação de arrogância chocha, da candidata francesa, Christine Lagarde, à direção do FMI. Ela, em resposta à posição brasileira e de outros países emergentes, que reclamam o direito de indicar o substituto de Strauss-Kahn, declara que a instituição tem que continuar em mãos européias. Há dois anos, ela disse que, “no FMI, quem paga, manda”. Como se vê, a sua idéia é a de que a instituição não é mundial, mas de alguns países que se julgam os guardiães universais da moeda. Se é esse o critério da Sra. Lagarde, está na hora de o FMI trocar de mãos. Os países emergentes são hoje os maiores credores do mundo. A China, a Rússia, a Índia e o Brasil, em conjunto, retêm as maiores reservas mundiais, enquanto os Estados Unidos e a maioria dos países europeus são os grandes devedores internacionais. A dívida, pública e privada, dos Estados Unidos é nominalmente de 50.2 trilhões de dólares (3 vezes o seu PIB), isso sem contar com os trilhões e trilhões de dólares que, sem lastro metálico, circulam no mundo inteiro. Quem está pagando, direta ou indiretamente, são os países em desenvolvimento, como é o caso da China e dos outros integrantes do BRIC.

Com toda a sua arrogância, o discurso de Obama é vazio: o único poder de que dispõem Washington, Londres e seus aliados da OTAN, é o bélico – que se encontra encurralado no Iraque e no Afeganistão.

Se o critério é esse, o de quem paga, manda, os Bric podem abandonar o FMI – e criar uma nova instituição, que lhes sirva.


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25 de mai. de 2011

A ESQUERDA CONSTRANGIDA

A vitória da direita nas eleições parciais da Espanha, e a probabilidade de que a filha de Fujimori venha a ganhar a presidência do Peru, são dura advertência aos partidos de esquerda. Desde a queda do muro de Berlim, e o surgimento do pensamento único, a serviço da ditadura mundial do neoliberalismo econômico, a esquerda parece envergonhada de seu discurso pela igualdade e justiça social.

Vem atuando na defensiva, como se a todos os humanistas da História e a todos os intelectuais e ativistas da esquerda pudessem ser atribuídas as responsabilidades pelos crimes do totalitarismo stalinista, pela insânia de Ceausescu, e pela incompetência administrativa dos burocratas dos países socialistas.

O PSOE perdeu as eleições porque Zapatero e seus companheiros deixaram de ser socialistas. Quando o governo continuou a política de Aznar, de financiar a “invasão” da América Latina pelas grandes empresas e bancos espanhóis - em lugar de estimular o desenvolvimento econômico interno – deixou a esquerda.

Embora o discurso continuasse o mesmo, a prática foi para a direita. Com isso, agravou-se o desemprego interno, enquanto as empresas ibéricas (o mesmo ocorreu em Portugal) criavam e continuam a criar empregos no exterior. Para os grandes investidores espanhóis, ótimo: os lucros na América Latina são mais altos e os salários menores.

A esquerda começou a erodir-se nos próprios países socialistas, submetida ao mesmo equívoco de que sofre hoje, o do “economicismo”. É de se lembrar que o próprio Lenine caiu na armadilha teórica, ao dizer que o socialismo seria a união da velha alma revolucionária russa ao pragmatismo norte-americano.

Para construir um sistema de valores fundado na competitividade do capitalismo, seria melhor continuar com o capitalismo. Reclama-se da esquerda proporcionar o crescente bem-estar das comunidades políticas, sem a opressão do capitalismo.

A esquerda parece esquecida de seu projeto teleológico, o de uma sociedade sem classes. Esse projeto foi abandonado depois da vitória da “santa aliança”, que uniu o polaco Wojtyla ao caubói Ronald Reagan, a fim de apressar a erosão de um sistema que já se encontrava minado por dentro. Os dirigentes dos partidos de esquerda – salvo alguns, e poucos – empenharam-se em caminhar em direção à direita, aliando-se ao cooptado Gobartchev, hoje garoto propaganda da Vuiton.

Foi confissão do malogro em se opor teoricamente aos desvios do “socialismo real”. Comunistas tchecos, alemães e franceses tentaram construir caminhos novos, ao analisar os desafios históricos, como fez o filósofo Radovan Richta, primeiro com seu estudo sobre “O homem e a tecnologia na revolução contemporânea”, em 1963 e, três anos mais tarde, ao chefiar grupo de acadêmicos tchecos no lúcido estudo sobre “A Civilização na Encruzilhada”, no qual as idéias de seu primeiro livro são mais detalhadas. Marxistas mais antigos, como Lukacs e os membros da Escola de Frankfurt – tinham outra e mais grave inquietude, com a “desumanização” da esquerda, contaminada pelos vícios da sociedade industrial moderna.

Por tudo isso, as massas estão indo às ruas, na Espanha e alhures. Desnorteadas, pela falta de um discurso coerente da esquerda, elas pendem para a direita que, pelo menos, lhes oferece a hipótese de uma ordem moralista – como a acenada, entre nós, pelo deputado Bolsonaro. É assim que se explica a vitória da direita na libertária Catalunha e a terrível probabilidade de que a filha do corrupto e sanguinário Fujimori venha a vencer a esquerda no Peru, dentro de poucos dias.

É uma advertência também para a Presidente Dilma Roussef, neste momento de dificuldades políticas menores – mas não tanto – que incomodam o seu governo.

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24 de mai. de 2011

OS DITADOS DO IMPÉRIO

O presidente dos Estados Unidos lançou novo edito imperial, dirigido aos líderes dos países árabes, sobretudo a Assad, da Síria: cedam, ou caiam fora. Há que se reconhecer, no poder norte-americano, essa franqueza brutal. Não há paises soberanos no mundo, mas simples províncias do grande império. Não percebem os policy makers de Washington que as situações envelhecem. No caso de sua postura diante do que ocorre nos paises árabes, é patente a incapacidade de ver as coisas com clareza. O pronunciamento de Bin Laden, divulgado depois de sua morte, por iniciativa da Al-Qaeda - em que a rebelião iniciada na Tunísia é aprovada - pode até ser falsa, mas a sua divulgação revela, claramente, que não é exatamente a democracia “made in United States” o desejo que anima os rebeldes dos países islâmicos.

O que está em discussão é a enorme disparidade entre os privilegiados e os pobres. Essa rebelião, que se espalha hoje por vários paises não islâmicos, não leva em conta a natureza ideológica ou teológica dos regimes contestados, mas a sua incapacidade de resolver os problemas cotidianos das pessoas. Tanto nos paises muçulmanos de hoje, quanto nos que se identificam como cristãos, xintoístas, budistas, ou animistas, o que se contesta é o domínio dos ricos. Esses opressores internos participam da exploração dos recursos naturais e do trabalho de seus povos. Por detrás se encontra o sistema financeiro internacional, com ladrões que comandam os escritórios de Wall Street, da Place de la Bourse, da City, das bolsas de valores de Frankfurt, Tóquio, Hong Kong, Xangai – e outros lugares.

O pronunciamento de Obama é ambíguo. Por um lado, ameaça; pelo outro acena com o reconhecimento do Estado Palestino nas fronteiras estabelecidas em 1967 – já de si usurpadoras dos direitos dos seus ocupantes históricos. Um observador das incoerências do presidente norte-americano poderá ver no discurso a tentativa de engambelar os palestinos, com a promessa – vaga, diga-se de passagem – de usar o seu poderio a fim de impor a independência dos territórios ocupados por Israel, e, ao mesmo tempo, agradar ao governo teológico judaico com a perspectiva de submeter a Síria, e o Irã, únicos vizinhos com capacidade bélica de ameaçar Tel-Aviv, embora não sejam potências nucleares como Israel.

Não é provável que Obama obtenha de Israel qualquer compromisso em reconhecer o direito do povo palestino a um estado independente. Na realidade, os israelitas, mediante a poderosa influência que exercem na política interna nos Estados Unidos, impõem a Washington a posição que lhes interessa.

Talvez Obama, induzido à cegueira pela arrogância histórica de Washington, não tenha ainda percebido que os seus inimigos reais – os que se opõem à sua reeleição, e que corroem o futuro de seu país – não se encontram entre os islamitas, mas exatamente em seu próprio território e no território de seus vassalos e aliados, como a França e a Inglaterra. São os que usufruem da cruel desigualdade social que, só nos Estados Unidos, confere a um por cento da população quarenta por cento da riqueza interna. Nunca houve, naquele país – nem mesmo na véspera da Grande Depressão – injustiça social semelhante. Talvez conviesse, para a segurança da grande nação do Norte, e para a paz no mundo inteiro, que o governo norte-americano se dedicasse a eliminar a iniqüidade interna, em lugar de se meter a guardião do mundo.

Se assim os Estados Unidos agissem, estariam voltando ao compromisso dos fundadores da República, entre eles, Washington, que em seu discurso de despedida, conclamou seus pósteros a tratar de maneira equânime as nações estrangeiras, mantendo boas relações comercias com todas elas, mas se esquivando de meter-se em seus assuntos políticos, e – o que é principal – não odiando, nem amando nenhuma em particular.

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22 de mai. de 2011

OS VINHEDOS DE ALAVA


De vez em quando ele deixava escapar uma frase em basco, e isso me perturbava. Traduzia-a, sorrindo, e explicava que seu excurso, em língua estrangeira, não era rigorosamente fiel ao pensamento. Txori txikia, abesti txikia, citou o provérbio de seu povo, segundo o qual o pássaro canta de acordo com o seu tamanho. Poderia ter acrescentado que o canto também depende da plumagem e da proporção entre o corpo e as asas, mas não era preciso. O ditado popular lhe bastava.

Conversávamos em uma taverna, em 1982, perto de Durango, em região perigosa, segundo os serviços de inteligência do governo espanhol. Dali procediam, narravam os informes, os mais duros homens de Euzkadi Ta Azkatasuna, que vocês conhecem pelas iniciais. Não tínhamos por que nos prevenir. Naquele distrito, todos sabiam, os delatores eram tratados a bala de nove milímetros. As pessoas chegavam e o saudavam, em basco; ele respondia com parcimônia. Com parcimônia também bebia seu vinho, de Alava.

- Não há segredo. Nós somos mais apegados a esta terra do que talvez outros sejam a seu torrão, porque estou certo de que aqui nascemos. Não há, na memória de nosso povo, caminhos mais longos do que os atalhos entre os vales dos Pirineus, de Navarra ao mar. Mas todo povo é a sua terra.

Ergueu o copo de vinho, olhou-o, o tom rubro contra a luz da tarde. Depois partiu uma fatia do queijo caseiro, vindo de bem perto, de Ermua.

- Somos feitos de nossa terra. É isto que a Bíblia quer dizer. Deus não buscou o barro longe, para esculpir Adão. Arrancou-o dali mesmo, do chão do Paraíso. Por isso, quando houve a transgressão, Deus o puniu, expulsando-o de seu país. Neste vinho, que alegrará meus nervos e meu sangue, está a boa terra basca. A vinha a buscou, em suas raízes, temperou-a com o sol e refrescou com estas águas, que aqui não faltam. E este queijo é também terra de nosso país. Terra que se abrandou no caule do capim. Veio a ovelha e o comeu. Quando o bebemos e assamos o cordeiro, é a terra feito seiva e carne que irá transformar-se em nossa seiva e nossa carne. Como pode alguém viver longe de seu canteiro?

O taverneiro ouvia-o e o aprovava com a cabeça. Estávamos próximos do balcão, em um canto. Naquela hora eram escassos os fregueses, que chegariam quando a tarde envelhecesse.

- Temos muitos compatriotas na América, mas no peito de cada um deles haverá sempre o calor deste vinho. Eles não se foram porque quisessem. Um dia voltarão, ainda que tenham que voltar em seus filhos e em seus netos. Mas, embora eu compreenda suas razões nunca sairei deste chão. Vou até a muga, isto é, a fronteira, de nosso país, mas nunca a transponho. Tenho medo por dentro. Temo que, saindo de Euskadi, não o reencontre, ao voltar. E sempre me dá a impressão de que estarei saqueando os outros, se beber de seu vinho e comer de seu pão.

Senti-me incomodado com a observação. Afinal, eu estava ali, bebendo do seu vinho basco, comendo do pão e do queijo daquelas terras. Ele sentiu meu ligeiro constrangimento e se desculpou. Talvez estivesse sendo exagerado, mas era o problema da língua. Citou-me então a outra versão, mais robusta, do provérbio do pássaro e seu canto: Zakur aundiak, zaunka aundia. O ladrido é do tamanho do cão.

- Você não é forasteiro. Você é viandante. Esta diferença não é tão pequena como possa parecer. Somos hospitaleiros, sempre fomos. Mas, tocar em nossos campos é rasgar as nossas terras, como fazem os de Castela, é como violar as nossas mulheres. Recebemos bem todos os estrangeiros, e deles será o nosso pão e o nosso vinho, se trouxerem a paz nos olhos, mas quando trazem a cobiça na mira de suas armas, temos o dever da resistência.

Pouco a pouco a taverna foi se enchendo de bascos que deixavam o trabalho e chagavam para o vinho do anoitecer. Alguns falavam a língua da terra, em sua pureza. Outros a misturavam com o castelhano. E havia, entre eles, trabalhadores andaluzes, que pediam os vinhos secos de Cádiz e o brândi de Jerez.

- Estes tampouco são forasteiros. São expulsos de sua pátria andaluza, mas não pelo castigo de Deus. Como você vê, eles têm seu caráter, e renovam o sangue com o vinho de sua própria terra.

20 de mai. de 2011

DUAS ESPÉCIES HUMANAS

Há quem decrete o fim da classe operária, com a exacerbada corrida tecnológica, que vem substituindo os braços humanos na produção industrial. A expressão pode até se desusar, e de certa forma já está sendo abandonada. Mas o problema é de outra natureza. O mundo não se divide entre os trabalhadores manuais e os outros, mas sim entre os assalariados e os donos do capital. Isso em uma visão ligeira do problema, porque todo trabalho humano é, ao mesmo tempo, manual e intelectual. Quem opera uma máquina, ainda que o faça mediante um ordenador eletrônico, usa ao mesmo tempo as mãos e o cérebro.

Mais ainda: toda a evolução do homem se deve a essa óbvia associação entre o pensamento e a ação. Por isso mesmo, o filósofo Agostinho da Silva, um dos mais inquietantes pensadores do século 20, diz que o homem não nasceu para trabalhar, e sim para criar. Os marxistas definem essa diferença, ao identificar, no artífice do passado, o criador, uma vez que ele dominava todo o processo de fabricação, e uma peça não era exatamente igual à outra. Na produção industrial moderna, em que cada trabalhador executa – durante a jornada, meses, e quase sempre por muitos anos, quando não toda a vida ativa – a mesma tarefa, fazendo peças separadas, que serão montadas depois, só há realmente trabalho.

Trabalho vem do latim tripalium, que era um instrumento de suplício no mundo romano. O trabalho sempre se associou ao sacrifício, e não ao prazer. A criação, ao contrário, tem uma expressão lúdica. O marceneiro que faz um armário, partindo de sua própria imaginação e desenho, é um criador. Até mesmo o lenhador, que escolhe na floresta a árvore a abater, é de certa forma um criador. Mas o operário que lixa 500 peças por dia ou aperta parafusos (hoje os robôs o substituem) na linha de montagem, como no belíssimo filme de Chaplin, Tempos Modernos, é um homem submetido ao suplício permanente. Na visão magistral de Marx, o trabalhador de hoje é o “complemento vivo de um organismo morto”.

Os operadores que usam o teclado e “interagem” com a tela não têm apenas seu movimento manual determinado pela máquina, mas também sua mente. Como os bancários, que lidam com milhões alheios durante o dia, eles não conseguem dormir em paz: uns sonham com cifras, outros com bytes. A grande tragédia dos trabalhadores modernos, submetidos às exigências da tecnologia, é se sentirem peças isoladas, exatamente iguais às outras. Não tendo de intervir com sua inteligência, e estando submetidos às tensões de cada minuto, são facilmente substituídos pelos robôs, cuja programação é obedecida sem que as emoções os perturbem.

Um escritor paulista – e conhecido empresário –, Nelson Palma Travassos, achava que as máquinas seriam a redenção do homem moderno, e substituiriam os escravos da Antiguidade, libertando-o para o exercício livre da inteligência – desde que esses robôs fossem de propriedade do Estado, que distribuiria os bens produzidos com equidade a toda a população. A tecnologia não está a serviço dos homens. Está a serviço dos ricos, que a usam, sobretudo na transferência instantânea de capitais, roubando dos depositantes e dos acionistas, enfim, de todos, porque o Estado, ou seja, o povo, arca com o prejuízo. Só há duas classes sociais, a dos ricos e a dos pobres.

Durante muito tempo, ricos eram os que detinham os meios físicos de produção, isto é, as terras, as máquinas, enfim, o capital produtivo. O liberalismo novo, com a globalização da economia, mudou o eixo da razão. Hoje, são os bancos que dominam todo o processo. E os bancos não são administrados – salvo exceções – pelos acionistas, mas sim por executivos tais como os que vimos nos escândalos recentes de Wall Street.

Observadores atentos, como o financista Paul B. Farrell, comentarista do Wall Street Journal, mostram que a desigualdade social nos Estados Unidos é hoje maior do que em 1929, quando se iniciou a Grande Depressão, e que, se os ricos não pagarem pesados impostos que permitam melhor distribuição da renda, os pobres, não só ali, mas no mundo inteiro, se sublevarão. É uma questão de vida e morte.

19 de mai. de 2011

COISA DE HOMEM




Eu acredito na Providência Divina. Deus, em sua bondade infinita, reserva uma parte de sua misericórdia para atender a pequenos pilantras, como éramos, o Élcio Catarinense e eu mesmo, que me apresento como Eduardo, vulgo Quina de Nove, de sobrenome pessoal e secreto. Quem vive de expedientes, como vivíamos – e eu ainda vivo, já que “fecharam” o meu parceiro - não pode ter escolha, pega o que aparece. E o que tinha aparecido era o baralho de cartomante, aquele cheio de figuras esquisitas, espadas, coroas e caveiras. Com minha cara de menino, parecia impor respeito. Élcio servia de agá: começou a espalhar na cidade que tinha um moleque na praça, com o baralho de sorte, adivinhando tudo. Primeiro foi uma senhora bem velhinha, que chegou, ressabiada. Olhei-a firme, quase podia contar as rugas. E, fechando os olhos, disse a Deus que estávamos os dois vagabundos, mas de bom coração, um dia e meio passando a água sem pão, e merecedores de sua bondade. Tínhamos muito tempo pela frente, para mudar de vida, mas era preciso comer, porque senão o desespero podia nos aconselhar mal. Por que ele iria perder duas ovelhas famintas e desgarradas da boa sociedade? Desse uma mão, pelo amor dele mesmo. Depois pedi à dona que embaralhasse e partisse as cartas, enquanto mantive os olhos fechados, firme com Nosso Senhor. Como não entendia nada, espalhei as cartas, de sete em sete, e disse, de cara, à velhinha, que o grande amor de sua vida acabara de bater com as dez. Ela ficou espantada, não quis ouvir mais nada, deixou a nota de cinco mil réis, meus honorários fixos e inegociáveis, sobre o caixote que servia de mesa e saiu quase correndo.


O sujeito que veio em seguida, fazendeirão de cara gorda e bigode grosso, quis dizer o que o preocupava e eu cortei, logo: “Só leio as cartas se o senhor não falar nada. Quem vai falar sou eu”. E falei o que me veio à cabeça: “o negócio vai dar certo. Depois de amanhã, o senhor recebe a escritura”. O fazendeiro perguntou como é que eu sabia que ele estava comprando a fazenda, e eu disse que eram as cartas. Inventei que o sete de espadas, daquelas espadas grandonas e verdes, significava negócio feito, e faturei vinte mangos.


E assim passou o dia. Quando chegou a tarde, contamos a féria: trezentos e cinco paus, no tempo de salário mínimo de 160 mil réis. Resolvemos dar o fora, e alugamos duas bicicletas, para ir ao lugar das raparigas, do outro lado do rio. A idéia era a de, depois da devoção às meninas, pegar o noturno, que passava às dez e meia, e largar as bicicletas por lá – mas não deu. Quase todos os clientes vieram atrás de nós: a velhinha veio dizer que seu antigo namorado fechara o paletó, aos oitenta e dois, no Rio: telegrama da viúva, no caso sua prima, confirmara que ele morrera de madrugada. Do fazendeiro não tive notícias logo, mas sei que o negócio se fez. Ganhamos mais algum do farmacêutico, que se livrara do fiscal do imposto do consumo, e da mocinha que recebera a carta esperada. Acabamos dormindo acompanhados de mulatas aprendizes, na zona da beira do rio, o que nos levou trinta mil réis, além da cerveja e do frango assado. De manhã cedinho, antes de pegar o ônibus para a capital, olhei para o céu e vi as duas nuvens que pareciam caras de longas barbas: uma parecia sorrir, com o sol atrás de uma abertura que fazia o lugar da boca, a outra era fechada, sizuda. Entendi o recado divino. Quando o Catarinense sugeriu que fôssemos dar o golpe do cartomante em cidade do meio do caminho, cortei, logo: “Deus não faz gracinha duas vezes pra vagabundo”.


Na capital, joguei o baralho de adivinho no lixo e voltei ao carteado normal, entre malandros e otários que acham que são malandros. E no jogo sujo de cunca, em que sou especialista, Deus e diabo não se metem. É coisa de homem.