19 de mai de 2011

COISA DE HOMEM




Eu acredito na Providência Divina. Deus, em sua bondade infinita, reserva uma parte de sua misericórdia para atender a pequenos pilantras, como éramos, o Élcio Catarinense e eu mesmo, que me apresento como Eduardo, vulgo Quina de Nove, de sobrenome pessoal e secreto. Quem vive de expedientes, como vivíamos – e eu ainda vivo, já que “fecharam” o meu parceiro - não pode ter escolha, pega o que aparece. E o que tinha aparecido era o baralho de cartomante, aquele cheio de figuras esquisitas, espadas, coroas e caveiras. Com minha cara de menino, parecia impor respeito. Élcio servia de agá: começou a espalhar na cidade que tinha um moleque na praça, com o baralho de sorte, adivinhando tudo. Primeiro foi uma senhora bem velhinha, que chegou, ressabiada. Olhei-a firme, quase podia contar as rugas. E, fechando os olhos, disse a Deus que estávamos os dois vagabundos, mas de bom coração, um dia e meio passando a água sem pão, e merecedores de sua bondade. Tínhamos muito tempo pela frente, para mudar de vida, mas era preciso comer, porque senão o desespero podia nos aconselhar mal. Por que ele iria perder duas ovelhas famintas e desgarradas da boa sociedade? Desse uma mão, pelo amor dele mesmo. Depois pedi à dona que embaralhasse e partisse as cartas, enquanto mantive os olhos fechados, firme com Nosso Senhor. Como não entendia nada, espalhei as cartas, de sete em sete, e disse, de cara, à velhinha, que o grande amor de sua vida acabara de bater com as dez. Ela ficou espantada, não quis ouvir mais nada, deixou a nota de cinco mil réis, meus honorários fixos e inegociáveis, sobre o caixote que servia de mesa e saiu quase correndo.


O sujeito que veio em seguida, fazendeirão de cara gorda e bigode grosso, quis dizer o que o preocupava e eu cortei, logo: “Só leio as cartas se o senhor não falar nada. Quem vai falar sou eu”. E falei o que me veio à cabeça: “o negócio vai dar certo. Depois de amanhã, o senhor recebe a escritura”. O fazendeiro perguntou como é que eu sabia que ele estava comprando a fazenda, e eu disse que eram as cartas. Inventei que o sete de espadas, daquelas espadas grandonas e verdes, significava negócio feito, e faturei vinte mangos.


E assim passou o dia. Quando chegou a tarde, contamos a féria: trezentos e cinco paus, no tempo de salário mínimo de 160 mil réis. Resolvemos dar o fora, e alugamos duas bicicletas, para ir ao lugar das raparigas, do outro lado do rio. A idéia era a de, depois da devoção às meninas, pegar o noturno, que passava às dez e meia, e largar as bicicletas por lá – mas não deu. Quase todos os clientes vieram atrás de nós: a velhinha veio dizer que seu antigo namorado fechara o paletó, aos oitenta e dois, no Rio: telegrama da viúva, no caso sua prima, confirmara que ele morrera de madrugada. Do fazendeiro não tive notícias logo, mas sei que o negócio se fez. Ganhamos mais algum do farmacêutico, que se livrara do fiscal do imposto do consumo, e da mocinha que recebera a carta esperada. Acabamos dormindo acompanhados de mulatas aprendizes, na zona da beira do rio, o que nos levou trinta mil réis, além da cerveja e do frango assado. De manhã cedinho, antes de pegar o ônibus para a capital, olhei para o céu e vi as duas nuvens que pareciam caras de longas barbas: uma parecia sorrir, com o sol atrás de uma abertura que fazia o lugar da boca, a outra era fechada, sizuda. Entendi o recado divino. Quando o Catarinense sugeriu que fôssemos dar o golpe do cartomante em cidade do meio do caminho, cortei, logo: “Deus não faz gracinha duas vezes pra vagabundo”.


Na capital, joguei o baralho de adivinho no lixo e voltei ao carteado normal, entre malandros e otários que acham que são malandros. E no jogo sujo de cunca, em que sou especialista, Deus e diabo não se metem. É coisa de homem.

5 comentários:

Sepé Tiaraju disse...

Caro Mauro!

Acompanho o seus comentários regularmente e até os idos de 2008 no JB, mas com a morte do Fausto e a extinção da versão em papel, tive de abandoná-lo! Bom relê-lo aqui! Que tal publicar seus contos e crônicas? Sugestão de mais um órfão de boas leituras! Um abraço

Mauro Santayana disse...

Estamos preparando isso. Mas obrigado pela lembrança, e pela força. Um abraço!

Anônimo disse...

Prezado Mauro,

gostaria de saber como posso fazer para ter acesso a uma matéria sua, publicada no Jornal do Brasil acerca do torpedeamento de navios brasileiros por alemães no contexto da Segunda Guerra Mundial.

Atenciosamente,

Vivian Barros
(vivianmbarros@hotmail.com)

Anônimo disse...

Prezado Mauro,

gostaria de saber como posso ter acesso a uma série de reportagens assinadas por você e publicadas no Jornal do Brasil acerca do torpedeamento de navios brasileiros por alemães no contexto da Segunda Guerra Mundial.
Obrigada!
Atenciosamente,
Vivian Barros ( vivianmbarros@hotmail.com)

Mauro Santayana disse...

Prezada Vivian,

Desculpe a demora em responder a seu comentário. A série de reportagens a que você se refere, que recebeu o Prêmio Esso de Reportagem de 1971, foi publicada no Jornal do Brasil.Um caminho seria o Arquivo Público do Rio de Janeiro. Caso você esteja em outro estado, vou pedir para tentar localizá-la e para que a enviem ao seu email.

Um abraço.