15 de out. de 2013

A GUERRA DE BISSAU


(HD) - Em palestra em São Paulo, há uma semana, o Prêmio Nobel da Paz José Ramos-Horta, ex-dirigente do Timor Leste, pediu ao Brasil que financie as  eleições da Guiné-Bissau, onde ele trabalha como representante da ONU.

Com apenas um milhão e seiscentos mil habitantes, a Guiné-Bissau, é um pequeno país de língua portuguesa, da costa ocidental africana, que tem como principal produto de exportação a castanha de caju. Sua renda per capita mal passa dos mil dólares por ano.


A localização, no entanto, lhe confere importância estratégica – por ter se transformado, nos últimos anos, em  importante entreposto para o tráfico de drogas, entre os centros produtores da  América do Sul e os mercados da Europa e dos EUA.

Nos últimos anos, ás péssimas condições sociais - hoje, é preciso três quilos de castanha de caju, para se comprar um quilo de arroz – somou-se a agressão aos direitos humanos.

Desde 2009, quando o presidente João Bernardo Vieira, foi assassinado, o Brasil tem participado do processo de pacificação do país, presidindo a Configuração Específica da Guiné Bissau da Comissão de Consolidação da Paz (CCP), das Nações Unidas, criada por iniciativa do Itamaraty.

E, com o Centro de Formação para as Forças de Segurança da Guiné-Bissau, também nos empenhamos em limitar o papel de suas forças armadas às questões militares.

A cooperação técnica eleitoral brasileira é outra importante linha de ação, prestada em cooperação triangular, pelo Memorando de Entendimento Brasil- Estados Unidos -Guiné Bissau para apoio a atividades parlamentares.

A solução do problema militar, no entanto, esbarra na participação direta de altos oficiais das forças armadas no tráfico de drogas.

Em abril deste ano, o Almirante Bubo Na Tchuto foi preso em operação de uma brigada de combate ao narcotráfico dos EUA em águas internacionais, perto da costa de Cano Verde, e enviado para os Estados Unidos.

Além dele, Washington acusa, judicialmente, pelo mesmo crime, o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Ibraima Papa Camará, e está de olho – pelas mesmas razões - no Chefe do Estado-General das Forças Armadas, general António Indjai.

A Guiné-Bissau possui quadros preparados para disputar as eleições, entre eles, o de Helder Vaz, que trabalha, há anos, como um dos principais executivos  da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

O futuro de Bissau afeta tanto o Brasil - rota de passagem para as drogas - como a Europa e os Estados Unidos.


Participar decisivamente da solução da questão guineense, cooperando no que pudermos para a realização das eleições, pode mostrar que, com independência e determinação, podemos atuar, de forma cada vez mais decisiva, no espaço  geopolítico do Atlântico Sul. 

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14 de out. de 2013

MINISTRO RUSSO CHEGA AO BRASIL PARA PROPOR PRODUÇÃO CONJUNTA DO CAÇA DE QUINTA GERAÇÃO T-50


A possibilidade que aventamos aqui no blog, outro dia, de participação do Brasil no programa PAK-FA, tornou-se oficialmente concreta.
O Ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigú, que chega a Brasília amanhã, irá propor ao Brasil, não apenas a compra dos caças Sukhoi SU-35, mas também o desenvolvimento e a produção conjunta do caça T-50, de quinta geração.
O projeto do T-50, do Programa PAK-FA, já conta com a participação da Índia, que disponibilizou cerca de US$ 25 bilhões e espera obter a versão de exportação do T-50 até 2018. 
A Força Aérea Russa (FAR) receberá os primeiros T-50 de produção em série este ano, e comprará pelo menos 70 aeronaves.
O caça traz toda uma série de inovações para minimizar sua visibilidade aos radares. E também novos materiais estruturais e revestimentos, inteligência artificial, e componentes de hardware que elevam a indústria aeronáutica russa a um patamar completamente novo.
Um dos destaques do T-50 são os novos polímeros de fibra de carbono, com peso duas vezes menor do que o alumínio e quatro vezes menor que o aço. Como mais de 70% do revestimento da aeronave é composto por novos materiais, o resultado é um avião quatro vezes mais leve que os construídos com material comum.
Além disso, o T-50 se destaca por uma visibilidade reduzida aos radares, ópticos e infravermelhos. A área efetiva da superfície refletora da aeronave é de 0,5 m2, enquanto a do Su-30MKI é de 20 m2. Isso significa que, no radar, o Su-30MKI aparece como um objeto metálico de 5 por 4 metros, enquanto o T-50 tem uma imagem 40 vezes menor.
Dezenas de sensores colocados ao longo da fuselagem permitem controlar a situação em torno da aeronave, e trocar informações, em tempo real, com serviços terrestres e dentro de um esquadrão. Se não bastasse, um “piloto automático” oferece ao piloto da aeronave várias opções de ação. O T-50 é capaz de decolar e pousar em uma pista de 300 a 400 metros de extensão.
O caça possui elevada capacidade de manobra e alto nível de monitoramento. Um radar de matriz ativa faseada instalado na aeronave permite ao piloto ver tudo o que acontece a uma distância de várias centenas de quilômetros, e acompanhar vários alvos aéreos e terrestres ao mesmo tempo.
O armamento  é transportado dentro de compartimentos internos, como exige a tecnologia Stealth. Esses compartimentos podem acomodar até oito mísseis ar-ar do tipo R-77 ou duas bombas inteligentes de 1.500 kg. A aeronave também pode levar em dois pontos duros sob as asas mísseis com capacidade para atingir  alvos a uma distância de 400 km. 

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13 de out. de 2013

AS RESERVAS E O BNDES




(JB) - Depois de terem sido apanhadas de calças na mão pelas crises internacionais, as agências de qualificação voltam de novo sua nefasta atenção para o Brasil, desta vez para defender o enfraquecimento e o desmonte do sistema de financiamento público.

E o nosso país, que deveria tratá-las como aos cães que ladram, enquanto a caravana passa, parece que vai  ceder à chantagem, e tolher a concorrência entre bancos públicos e privados, diminuindo a  o papel dos primeiros na expansão do crédito pessoal e de capital de giro – providência que nos salvou, desde o início da crise, em 2008, até agora.

Como na fábula do lobo e do cordeiro – para a imprensa financeira e os arautos do capitalismo internacional - o país tem que estar indo sempre mal em alguma coisa.

Se não estamos negativos no crescimento, que será de 2.5%  em 2013, mais de duas vezes maior que o do México - o aluno espionado, adulador e obediente do Consenso de Washington - talvez o problema seja com a inflação.

Mas como a inflação desceu para menos de 6% nos últimos 12 meses, e o tomate não chegou a vinte dólares o quilo, como esperavam os “analistas”, o vilão da vez é a dívida bruta, que, no conceito do FMI, está em 68%, e que o governo diz estar em 58% - se descontarmos os títulos que estão em posse do tesouro.

O FMI e as agências falam da dívida bruta, mas se esquecem da dívida líquida, que é de apenas 34%, subtraídos os 375 bilhões de dólares que o país tem em reservas, a maior parte deles em títulos dos EUA, o que nos torna o terceiro maior credor individual dos norte-americanos.

Para evitar que o Brasil fugisse da restrição ao crédito imposta pelos bancos privados no auge da crise de 2008, o governo expandiu em 7% a dívida bruta, e essa é a principal razão, para que ela tenha se transformado agora, na bola da vez, para as agências internacionais.

Essa é a principal causa de as agências internacionais terem rebaixado a perspectiva – vejam bem, por enquanto, apenas a perspectiva - da qualidade da dívida soberana do Brasil, de positiva para “estável” nas últimas semanas.

Bem, o Brasil continua com grau de investimento – e não está na situação dos EUA, com a maior dívida do mundo, a ponto de paralisar, por falta de dinheiro, todo o setor público, daqui a uma semana, se não conseguir licença para assinar novos “papagaios” e aumentar o orçamento federal.

No entanto, neste como em outros embates, principalmente na economia, o governo – pressionado pelo Congresso, pela mídia conservadora, a Europa e os EUA, que desejam impedir o surgimento de um novo concorrente no plano geopolítico – prepara-se, mais uma vez, para reagir mal, aos trancos e barrancos, adotando um comportamento errático e hesitante, ditado muito mais pela pauta dos adversários, do que por um projeto próprio e coerente de país.

É isso que ocorre, por exemplo, na área de telecomunicações, sob quase total domínio do capital estrangeiro desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Uma situação que nos leva a pagar, segundo a última pesquisa da União Geral de Telecomunicações, divulgada nesta semana, as mais altas tarifas de telefonia celular do mundo. Preços várias vezes superiores aos que cobram as operadoras estrangeiras, de seus concidadãos, em seus países de origem, pelos mesmos serviços. Sem quase nenhuma atitude do governo, a não ser a de providenciar financiamento farto e barato, e isenção de obrigações e impostos, para multinacionais que enviam bilhões de dólares para o exterior todos os anos - a não ser o recuo em uma frustrada tentativa de retorno da Telebras, como operadora plena, ao mercado, para a prestação de serviços diretos ao consumidor.

Com regras claras, voltadas para a montagem de consórcios com participação privada nacional, estatal e estrangeira, em bases iguais, também na infra-estrutura, o dinheiro injetado em nosso principal banco de fomento poderia ter gerado resultados muito melhores na economia desde a crise de 2008.

No lugar disso, o que vimos, nos últimos anos, foi o BNDES financiando, às vezes, 60%, até 80% do montante de projetos para empresas que, em vez de reinvesti-los aqui mesmo, enviam a maior parte de seus lucros para o exterior.

Isso ocorreu no setor de telecomunicações, mas também na indústria automobilística. Não se negociou qualquer participação direta do governo nas novas fábricas de automóveis construídas com quase 100% de dinheiro do BNDES e generosa isenção fiscal, para que ao menos parte dos ganhos auferidos com o boom de vendas, gerado pela diminuição do IPI, ficasse no país.

Não se negociou mudanças nas novas fábricas e em novos modelos, que contemplassem exigências de eficiência energética, diminuindo a necessidade de importação de combustível estrangeiro que aumentou com a expansão da frota. Aplicou-se dinheiro que poderia ter sido investido no subsídio à produção local de etanol, em projetos megalomaníacos, como os do Senhor Eike Batista, por exemplo.  

O governo precisa perder o medo pânico de investir diretamente em atividades estruturais e produtivas que são estratégicas para o país. Quando não for possível estabelecer um equilíbrio entre capital privado nacional, capital estatal, capital estrangeiro, por eventual falta de interesse privado, que se busque associação direta com estatais de outros países, como a China, na base de 51% para o Brasil e 49% para o parceiro internacional.

O governo não deveria ter se endividado para colocar dinheiro na economia sem a contrapartida de aporte de recursos por parte de quem domina e se beneficia do negócio, principalmente, quando se trata de estrangeiros. Nessa parceria, que lembra a famosa joint-venture dos porcos com as galinhas, as multinacionais entram costumeiramente com os ovos, e o estado brasileiro, via BNDES, com o bacon.  

Quem busca financiamento público precisa colocar em cima da mesa pelo menos um real, ou um dólar – vindo de seu próprio bolso ou de fonte de financiamento interna ou externa - para cada real, ou dólar, colocado pelo governo, senão nunca poderemos sair do baixíssimo patamar de investimento no qual nos encontramos.

Pois bem, agora, pressionado pela ameaça de rebaixamento  da nota do país pelas agências internacionais, o governo pretende, para se livrar do problema, jogar a criança fora junto com a água da bacia.

No lugar de aprofundar e corrigir o papel do financiamento estatal, estabelecendo rumos, previsíveis, racionais, para os próximos anos, que levem à otimização da aplicação de recursos na economia, o governo cogita diminuir a participação dos bancos públicos no sistema financeiro e restringir o crédito para o consumo e o capital de giro, e os bancos privados declararam que não têm interesse em cobrir essa demanda.

E, mais, para assegurar os compromissos de financiamento do BNDES até o fim do ano, da ordem de 30 bilhões de reais, o governo fala em vender açodadamente sua participação em  empresas – algumas delas estratégicas – em um momento em que essas ações - que foram responsáveis por metade do lucro do banco nos últimos anos – estão, por causa da desvalorização da bolsa, com seus preços muito abaixo de seu valor real.

Alternativas a esse recuo existem, assim como recursos para continuar com o financiamento público, sem vender os ativos da BNDESpar. Até ontem o Brasil dispunha, - segundo o site do Banco Central - de 375.951 bilhões de dólares em reservas internacionais. Destes, aproximadamente 240 bilhões estão aplicados em títulos do tesouro norte-americano, o que aponta para um risco, nada desprezível, de se tomar um gigantesco calote, caso o governo e o congresso não cheguem a um acordo sobre o orçamento e o novo teto da dívida pública dos EUA.

Esse dinheiro, hoje aplicado a menos de dois por cento ao ano, poderia dar melhor retorno, se uma décima parte dele fosse aplicada, paulatinamente, via BNDES e outros bancos públicos, na expansão de nossa economia, sem necessidade – já que essa é a “preocupação” das agências internacionais de risco - de novos aportes do tesouro ou do aumento da dívida bruta.

No lugar de ficar tirando, a cada momento, coelhos da cartola, para driblar as cascas de banana lançadas pelos seus adversários, o governo precisa de um projeto claro de governo, defensável e fácil de ser explicado e entendido pelos outros entes e poderes da República e a opinião pública nacional e internacional.


Ou o PT corrige seu rumo, ou corre o risco de tomar outro rumo a partir do ano que vem.  

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11 de out. de 2013

O BRASIL E O “NEGÓCIO DA CHINA”





(HD) - Desde o início dos tempos, elementos tangíveis e intangíveis, como as matérias-primas, a inteligência e o conhecimento, determinaram a concorrência entre os estados e a ascensão e a queda de impérios e civilizações.

A espionagem, pelo Canadá, de computadores do Ministério de Minas e Energia, e a proposta que a União Européia pretende fazer ao Brasil, na próxima semana, no âmbito de “matérias- primas estratégicas” servem de alerta aos que acham que o advento de novas tecnologias vai sepultar ou diminuir a importância das commodities e das matérias-primas no xadrez geopolítico internacional, nos próximos anos.
Segundo declarou o vice-presidente da Comissão Européia e Comissário de Indústria e Empreendedorismo, Antonio Tajani, em entrevista ao “Valor”, ontem, a Europa pretende propor ao Brasil uma aliança para impedir que a China continue tentando “ter o monopólio de matérias-primas industriais” em escala planetária.
Por trás do eufemismo, está o interesse europeu em um verdadeiro “negócio da China”- que se encontra sob controle de Pequim, neste momento.
Uma alternativa de acesso a terras raras, um conjunto de minerais essenciais para o avanço tecnológico em setores estratégicos, como imãs, baterias de alto desempenho, levitação magnética, ótica, energia eólica, lasers, computação, diagnóstico por imagem, automóveis híbridos e elétricos, aviação, espaço, etc.
País mais populoso do mundo, segunda economia do planeta, e o maior produtor mundial – cerca de 90% - de terras raras, com uma rígida política de comercialização desses minerais, a China pretende três coisas: agregar valor à sua produção, processando-a e transformando-a em produtos acabados em seu próprio território; controlar sua oferta nos mercados internacionais, de forma a obter preços mais justos; e evitar a formação de estoques estratégicos no exterior - terras raras são de grande importância para a área de defesa, por exemplo - por parte de seus maiores competidores.
O grande problema dos países da OTAN, do ponto de vista geopolítico, é que a disponibilidade de terras raras está concentrada, hoje, em países como a China, a Índia, a África do Sul e o Brasil. Todos são nações do BRICS, e é preciso – para eles - evitar que se construa, a partir daí, uma aliança.
O Brasil, com grandes reservas – entre outros minerais de onde se extraem essas matérias-primas - de nióbio e areias monazíticas, já está discutindo, junto com o novo marco da mineração, uma Política Nacional de Minerais Estratégicos e Terras Raras.
É nesse sentido, estratégico e geopolítico, que tem que ser avaliada qualquer proposta européia.
Quem quiser ter acesso a nossas reservas, que se associe ao Brasil para processá-las e agregar valor, aqui mesmo, por meio de transferência de tecnologia.
Não custa nada ouvir o que os europeus têm a dizer. Mas é preciso também conversar com os outros. Começando - depois da UE - pelos BRICS, naturalmente. 

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8 de out. de 2013

POR UM BRASIL 2.0





(JB) - No novo marco da internet brasileira e no quadro do enfrentamento da espionagem cibernética norte-americana e de outros países anglo-saxônicos, como se descobriu, agora, no caso do Canadá, é preciso tomar cuidado com o que se está falando, fazendo e propondo.

Se pretende ter papel ativo no estabelecimento de um marco internacional para a internet, o Brasil não pode - por açodamento ou desinformação - adotar ou apresentar propostas inócuas, como a de tornar obrigatória a hospedagem, por empresas internacionais, de dados de cidadãos brasileiros em servidores situados em território nacional.

Estejam onde estiverem, os servidores continuarão a ser operados pelas próprias empresas - a não ser que o governo passe a co-administrar o Google, o Facebook ou a Microsoft no Brasil, o que é tão improvável como ilegal. Se a empresa quiser (ou um diretor seu, ou um simples funcionário) bastará repassar os dados requeridos para governo norte-americano, após recolhê-los em seus servidores instalados em território brasileiro.

Depois, porque esteja dentro ou fora do Brasil, teoricamente qualquer servidor pode ser invadido. Prova disso é que até mesmo servidores do Pentágono e do governo dos EUA já foram “derrubados”, inclusive por hackers brasileiros, que atacaram servidores da NASA (por ter sido – pasmem! - confundida com a NSA) há alguns dias.

Além disso, surgem (e morrem), todos os dias, milhares de empresas na internet, entre elas redes sociais, que, de um jeito ou outro, terão acesso a informações de brasileiros, pessoais ou não, já a partir do cadastro. Como saber se elas têm ou não contato com o governo-norte-americano? Ou se não foram criadas pelas agências de segurança norte-americanas? Como monitorar seu surgimento, e obriga-las a transferir seus servidores para o Brasil?

Construir uma rede de internet, seja ela de âmbito doméstico, corporativo, nacional ou planetário, é, teoricamente, simples.

Com determinação e dinheiro, qualquer nação, ou uma aliança de países, como o BRICS – abordamos a hipótese de uma BRICSNET há alguns dias – pode comprar, ou desenvolver, se tiver tempo, os servidores, backbones, roteadores, cabos de fibra ótica, satélites, antenas, computadores, tablets, iphones, etc, necessários para isso.

Embora o controle físico de uma rede, ou de parte dela –  estamos encomendando satélites, instalando os cabos óticos da UNASUL e discutindo o projeto BRICS Cable – seja importante, ele de nada vai adiantar se não dispusermos de softwares, que sejam também relativamente seguros, para que essa rede, ou sub-rede,  venha a funcionar.

Esses softwares, “open source”, existem. Como possuem código aberto e são aperfeiçoados rotineiramente, de forma voluntária e colaborativa, por gente do mundo inteiro, é mais difícil dotá-los de “armadilhas” e “portas” clandestinas - como ocorre com softwares das grandes empresas de internet, -  para espionar os usuários.

O governo brasileiro já utiliza software livre em programas ligados ao estado. E também softwares desenvolvidos pelo próprio governo. Tem que passar a usá-los, exclusiva e obrigatoriamente, dotando-os de criptografia, nas comunicações oficiais, além de instalar sistemas que bloqueiem a utilização de e-mails, redes sociais e sites particulares a partir de computadores da administração pública.

Mas nada disso vai adiantar se esses softwares não puderem ser multiplicados, disseminados e utilizados, por meio de aplicativos, no dia a dia do cidadão comum, o que nos leva a um fator decisivo - o marketing - que não tem sido tratado, até agora, com a devida importância, nessa discussão.

Cidadãos de todo o mundo não tem seus dados devassados, apenas porque os EUA sejam manipuladores e “malvados”. Eles são espionados porque preferem continuar a sê-lo, a deixar de usar sites como o Google, o Youtube, o Skype,  o Instagram ou o Facebook.

Se essas empresas forem proibidas de atuar no Brasil, os cidadãos brasileiros continuariam a ter – voluntariamente - acesso a elas e aos seus serviços, bastando para isso conectar-se aos seus computadores, situados nos EUA ou em outros países. Isso, a não ser que cidadãos brasileiros fossem censurados e proibidos de fazê-lo, e mesmo assim – nessa hipótese absurda – eles poderiam burlar o governo através de proxys, VPNs, e muito mais.

Como já fizeram antes com o cinema e a televisão, quando se sentam para decidir que roteiro escrever e produzir, na internet - na hora de escolher que startup apoiar, que tipo de aplicação desenvolver, onde instalar um vírus ou um malware - os norte-americanos agem, também, como o personagem do conto de fadas do Flautista de Hamelin.

Desde a mais tenra idade, nossas crianças são fascinadas pelos seus jogos, se comunicam por meio de seus serviços de mensagem, interagem em suas redes sociais, conversam por meio de seus bate-papos e video-chats.

Se – sozinhos ou com o BRICS - não soubermos apostar na educação e inovação, no marketing e no entretenimento, para conquistar a atenção de nossos jovens, a sociedade brasileira continuará a ser espionada - mesmo que a presidente passe a usar o novo email dos Correios, ou um dia venha a deixar de  "tuitar". 

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A CHANTAGEM NA INFRAESTRUTURA



(Carta Maior) -  Nas últimas semanas, tem aumentado a pressão de diferentes setores, sobre o Estado, na questão da infraestrutura. Aproveitando-se da necessidade do setor público viabilizar os diferentes programas de concessão de ferrovias, rodovias, portos, aeroportos, energia – no valor de 240 bilhões de dólares - para acelerar o crescimento da economia, todo mundo pressiona ou chantageia o governo.

Funcionários do DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - entraram em greve há dois meses, atrasando diversas licitações. Os empresários – nacionais e estrangeiros – buscam maximizar seus ganhos exigindo menores taxas de financiamento público, absoluto controle dos negócios e retorno de até 7,5%, em um mercado no qual, em alguns países, como Japão ou a Alemanha, o juro referencial do Banco Central está entre 0% e 0,5%.

E, finalmente, a grande mídia aperta alegremente os torniquetes, exagerando o que ela aponta como “fracassos”, e subestimando e desvalorizando eventuais acertos, como ocorreu com o seminário “Oportunidades em Infraestrutura no Brasil” realizado esta semana em Nova Iorque, pelo governo brasileiro.

O evento, ironizado por parte dos “analistas” de plantão, reuniu 350 fundos e investidores estrangeiros de grande porte, que controlam recursos da ordem de três trilhões de dólares.

Certa emissora de televisão reúne regularmente equipes de “especialistas” e jornalistas próprios e alheios, para desancar, quase todos os dias, a atuação do governo nesse contexto, torcendo, abertamente, para que os leilões de concessão não tenham sucesso, influenciando o resultado das eleições do ano que vem. 

Como já dizia James Carville, estrategista eleitoral de Bill Clinton na campanha contra o primeiro Bush, “é a economia, estúpido!”. Se a situação melhorar, crescem as chances de Dilma Roussef se reeleger. Mas os sucessivos entraves que vem sendo colocados às obras de infra-estrutura - greves, decisões judiciais, a hidrelétrica de Telles Pires paralisada pela terceira vez – e a sabotagem da mídia, não prejudicam apenas o atual governo. 

Como muitas são obras de longo prazo, elas afetam qualquer tendência, mesmo que de oposição, que venha a assumir o comando da Nação. E isso não apenas devido à persistência dos gargalos de infraestrutura, que prejudicam a competitividade nacional, mas também com relação às contas públicas. No final da história, depois de tantas paradas, há obras que duplicam o prazo de entrega e que triplicam de preço, e, aí, parcela da opinião pública – como a que se manifestou em junho - tende a acreditar que isso se deve à corrupção, e não vai querer saber se o culpado foi o governante que deu início à obra, ou aquele que a irá inaugurar.

Para resolver o problema, o estado precisa desmascarar alguns mitos - verdadeiros paradigmas - fabricados pela mídia, a ponto de gente do próprio governo neles acreditar. 

O principal é o de que a infra-estrutura só pode ser tocada pela iniciativa privada e com financiamento público majoritário do governo brasileiro, e que se não houver um retorno acima da média, os investidores irão debandar para outros países.

Se o Brasil não estivesse atraente para o investidor internacional, não seria o quarto destino do mundo em Investimento Estrangeiro Direto. No ano passado foram 65 bilhões de dólares, mais de cinco vezes o que recebeu, por exemplo, o México, que tem sido apresentado pelos mesmos setores da grande mídia como o novo queridinho dos mercados neste momento. 

Aportes como o do Santander, de 7,5 bilhões de dólares para investimento em infra-estrutura no Brasil, são quase simbólicos. Principalmente quando se considera que, apenas nesta semana, o banco de Emilio Botin anunciou o envio de dois bilhões de euros - faturados no mercado brasileiro - como “benefícios extraordinários” para seus investidores na Espanha. 

O leilão de Libra, mesmo que equivocado - o melhor seria entregar 100% do projeto à Petrobras – pode mostrar que nos países emergentes existem parceiros estatais e com capital suficiente para cooperar na implantação de qualquer grande projeto brasileiro. E isso, mesmo sem a presença de grandes corporações norte-americanas. 

O valor total do programa de investimentos em infra-estrutura do governo, por exemplo, não chega a 8% do que a China possui hoje, em reservas internacionais. 

Como exemplo de como atuam nessa área, os chineses pretendem construir, apenas no setor rodoviário, 88.500 quilômetros de rodovias até 2020, mais do que a distância total do sistema interestadual dos EUA, que, em 2004, tinha aproximadamente 74.650 quilômetros, segundo a Federal Highway Administration.

Para enfrentar a chantagem na área de infra-estrutura, o estado brasileiro precisa sair da dependência institucional da iniciativa privada. A retomada de grandes obras públicas, com a parceria entre estatais brasileiras e de países emergentes - que contam com recursos e know-how avançado no setor - pode provar, definitivamente, que existem alternativas para promover o crescimento e destravar o progresso da infra-estrutura em nosso país. 

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7 de out. de 2013

A ENGORDA E O ABATE



(HD) - A agência britânica Moody´s, rebaixou, há alguns dias, a perspectiva da nota da dívida soberana do Brasil, de positiva para estável, e fez o mesmo com alguns bancos brasileiros.

A notícia, que talvez tenha tido uma repercussão negativa exagerada é significativa, no entanto, do ponto de vista do cerco que se tem feito ao país nas últimas semanas.

Poucos dias antes, a também britânica The Economist – que em 2009, publicou uma reportagem de capa sobre o Brasil, mostrando o Cristo Redentor decolando – já havia publicado uma reportagem sobre a economia brasileira, ilustrada com o Cristo Redentor, agora em queda desgovernada, com sugestivo título de "O Brasil estragou tudo ?”

Se somarmos a isso a repercussão, na imprensa internacional, da ausência de grandes empresas norte-americanas do leilão de Libra e as notícias que têm saído sobre a inflação e o crescimento da economia neste ano, fica fácil perceber o comportamento dicotômico das agências de qualificação e da imprensa estrangeira  a respeito do Brasil.

A opinião do sistema financeiro internacional sobre alguns países  emergentes parece obedecer a ciclos, bem definidos, de “abate” e de “engorda”.

Quando os juros estavam mais altos no Brasil, e havia menor participação dos bancos estatais no mercado, o país era festejado, como se estivéssemos em período de “engorda”.

Com a diminuição dos juros da Selic e o crescimento do crédito dos bancos públicos – essencial para evitar que o país caísse em recessão depois de 2008 – chegou o período do “abate”, ou da ameaça de abate.

Pressiona-se o país – sob pena de virar o “patinho feio” da vez na economia internacional - para que se faça o que desejam o “investidores” internacionais,  para depois colher bons resultados, com a especulação na bolsa de valores, com o câmbio e com os juros.

O ex-ministro Delfim Netto tem uma expressão para caracterizar essa “engorda”. É quando o país vira o “peru com farofa” dos mercados internacionais.  Delfim criticou, nesta semana, a matéria da  The Economist. Disse que a revista errou  quando superestimou, da primeira vez,  as conquistas econômicas do Brasil. E errou de novo agora, quando exagera as perspectivas negativas da economia brasileira. Embora – segundo ele - isso possa servir de alerta para que se façam correções que precisam ser feitas para melhorar as perspectivas de crescimento nos próximos anos.

O debate econômico – especialmente se feito dentro de nossas fronteiras - é sempre saudável, porque ninguém pode se considerar o dono da verdade.


Mas bem faria a The Economist se também abordasse, com a mesma contundência, a situação da Inglaterra, ou a dos EUA, que estão a ponto de provocar – por irresponsabilidade fiscal e administrativa - uma crise na economia internacional que ameaça levar o mundo ao abismo.  

6 de out. de 2013

A EQUAÇÃO PARAGUAIA




(JB) - O Presidente paraguaio Horacio Cartes foi recebido, há poucos dias, em visita de Estado, pela Presidente Dilma Roussef, em Brasília.

Embora o Brasil tenha sido a primeira nação a estabelecer relações com o Paraguai, em 1844, a convivência entre os dois países tem sido mais conturbada que harmônica, no período que nos separa de 1870, o ano do fim da Guerra do Paraguai.

A morte de milhares de paraguaios, em decorrência da guerra e da fome; a ocupação brasileira, até 1875; e as indenizações de guerra pagas pelo Paraguai ao Brasil até a primeira metade do século XX; contribuíram para criar, em parte da sociedade paraguaia, um clima de quase permanente ressentimento histórico para com o Brasil.

A construção de Itaipu, negociada na década de 1960, no lugar de contribuir para melhorar as relações entre os dois povos, criou um novo contencioso, já que parcela da população paraguaia acredita que os termos do Tratado de Itaipu não foram favoráveis aos interesses do país, à época de sua assinatura, pelos governos de Emilio Garrastazu Médici, e Alfredo Stroessner, em 1973.

Por trás de tudo está o direito de vender os 50% da energia que cabe ao Paraguai a terceiros países. Boa parte do povo guarani é levado a crer, também, que é o Paraguai que paga a dívida contraída para a construção da represa, o que é incorreto.

A dívida é paga com o preço da venda da energia gerada pela própria usina, pela empresa que a administra, a Itaipu binacional, e terminará de ser quitada em 2023.

Até agora, o Paraguai já recebeu mais de 4,5 bilhões de dólares em royalties de Itaipu e, daqui a dez anos, continuará dono de metade de uma empresa que vale, hoje, mais de  bilhões de dólares.

Em 2011, no Governo Lugo, o Brasil aceitou aumentar, unilateralmente, em três vezes, a compensação recebida pelo Paraguai pela energia não utilizada, de 120 milhões para 360 milhões de dólares por ano.

Além disso, o Brasil financia, por meio do FOCEN – o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul, a construção de uma linha de transmissão de 500 quilowatts – a ser inaugurada em novembro – que ligará Itaipu a uma subestação em Assunção, permitindo que os paraguaios possam atrair investimentos e industrializar seu país.

A construção de Itaipu, que aumentou em aproximadamente 20% o PIB, e o trabalho de milhares de agricultores brasileiros - que fez do Paraguai o quarto maior exportador de soja do mundo – mudaram, positivamente, a realidade do país vizinho.

Mas isso não bastou para diminuir a mágoa que parte dos paraguaios guarda do Brasil. Esse “anti-brasileirismo” tem sido aproveitado, e muito bem, pela direita local, e por quem vem usando o Paraguai para sabotar o projeto  sul-americano de integração promovido pelo Brasil a partir do com Mercosul e da UNASUL.

O não reconhecimento, pelo Mercosul, do governo golpista de Federico Franco - que ascendeu ao poder com a fraudulenta deposição de Lugo -  provocou a suspensão do Paraguai do grupo, acirrando os ânimos da oposição antidemocrática contra o Brasil.

A entrada da Venezuela no Mercosul, sem a aprovação do senado paraguaio – que chantageava, há anos, o Brasil e a Argentina nessa questão, piorou ainda mais a situação.

O Paraguai votou pelo México na eleição do novo Diretor da OMC, o brasileiro Roberto Azevedo. E também não apoiou nossos candidatos – que acabaram também eleitos – para compor a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Com tudo isso, a imprensa e os internautas discutem, naquele país - nos jornais que hostilizam o Brasil, como o ABC Color - se não seria melhor para o Paraguai sair do Mercosul e entrar na Aliança do Pacífico.

E, do ponto de vista político, se não valeria a pena abrir seu território à instalação de bases militares norte-americanas, para se contrapor ao Brasil, à Argentina, à Bolívia, à Venezuela, ao Equador e à “bolivarização” da região.

Atolados no lamaçal em que se meteram no Iraque e no Afeganistão, com uma dívida impagável, derivada do custeio de suas intervenções militares no exterior, não dá para saber se os EUA teriam fôlego para entrar em uma nova situação de confronto direto, dessa vez, na América do Sul.

Com relação á economia, a Aliança do Pacífico é pouco mais que uma miragem. O Brasil, sem fazer parte do grupo, vende ao México tanto quanto a Colômbia e é o maior parceiro comercial latino-americano não apenas dos próprios mexicanos, mas também dos peruanos e chilenos, na América Latina.

As exportações e importações dentro da Aliança do Pacífico não chegam a 4% de seu comércio exterior total. Como exemplo de que esse grupo tem relativa importância econômica para seus membros, seu maior sócio, o México – que crescerá apenas 1% neste ano, contra cerca de 2.5% do Brasil -  destina quase 90% de suas exportações para o NAFTA e 80% delas para um único cliente, os Estados Unidos.

Por mais que certa mídia diga o contrário, o país da tequila não é um player mundial, mas sim um fenômeno regional, que funciona, na prática, como o menos desenvolvido dos estados norte-americanos.

Estatisticamente, o Paraguai não representa mais que 1% do PIB do Mercosul, ainda sem a entrada – que se avizinha – da Bolívia e do Equador.

Mas é bom não esquecer que as relações entre Brasília e o novo governo de Horacio Cartes ganham uma dimensão estratégica, quando se considera as manobras dos EUA contra o Brasil na América do Sul. 

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