24 de mar de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - A LIBÉLULA E A A ARANHA



Delta e estuário de cinco córregos, o lago amalgamava as águas, trançando suas cores, porque, nelas a alma da montanha vertia óxidos vermelhos, pardos e negros. Depois de assim reunidas,  sangravam-se as águas em riacho rápido, que batia nas pedras da garganta, no ruído aberto e es­talado de tapas na face das rochas.

Sobre o lago, na canoa coberta de sapê, vivia o profeta, ali chamado “Sô Santo"; O símbolo de sua fé era a cruz mutilada; perdido o braço direito do madeiro de bálsamo, ficara apenas o esquerdo,  do qual, às vezes, pendia o trapo branco.

Vista assim de longe, a cruz parecia mastro de embarcação, mandando mensagem de trégua e de paz aos da margem. E a mensagem era de paz e de trégua.

Nas encostas vertentes moravam plantadores de salsaparrilha e açafrão. Desde tempos muito passados viviam disso. Bem mais embaixo, quando, engordado, o riacho se tornava rio, havia a pequena fábrica, que secava e moía as raízes  e os estigmas, para serem vendidos em latinhas decoradas com alegoria de Natureza: bela mulher, de cujos seios nasciam açaflores.

Todos os domingos desciam, ves­tidos com suas roupas claras, para ouvir “Sô Santo", os da encosta e, vindos de baixo, acompanhando as precárias trilhas, subiam, às vezes montados em burricos brancos, os trabalhadores da fábrica.

O profeta amarrava a canoa em esteio de pau-ferro, porque era de seu critério não pisar terra firme. Acocorava-se na proa, o rosto meio encoberto pela sombra, e lhes falava sobre as coisas do mundo.

“Ninguém pode fazer um só risco nas águas, e nenhum homem até hoje foi capaz de abrir o minuto ao meio. Só Deus pode separar as águas com um gesto, e só Deus pode separar o minuto em seus segundos, como a gente retira as favas de uma vagem. Só Deus pode levantar em um segundo a decisão de erguer pirâmides, quando Ele habita, nesse segundo, o coração de um faraó.”

Na beira do lago, sentados sobre o brando toco de samambaiaçus, os fiéis ouviam:
“Nas brenhas desta montanha o Senhor cavalga marimbondos, e vocês não vêem, porque sobre os seus olhos desce a névoa da soberba. Quem disse a vocês, para que vocês acreditassem, que só o homem comunga com Deus o seu Mistério? Quem disse a vocês que Deus não fala a seus domínios no uivo de lobo perdido de sua alcatéia? Quem disse a vocês que Deus não se encontra, às vezes, habitando a libélula agonizante nos palpos de uma aranha? Deus é assim: Ele é ao mesmo tempo, a libélula e a aranha."

Houve tarde em que, em congresso terrível, se reuniram nuvens muito negras, e a tempestade acabou por agachar-se sobre aqueles cantos. Quando o tempo era escuro, quase lôbrego na viscosidade do vento, o fogo de Santelmo brilhava no extremo vertical da cruz de três pon­tas. A mão do profeta, com um gesto, segurou os homens, as mulheres e seus meninos em seus lugares: aquela era uma das presenças de Deus, atentassem nela. E lhes disse:

“Foi assim um dia, quando, sobre seus apóstolos, Jesus fez descer a labareda. E as labaredas sempre se parecem a uma língua. A uma lín­gua de fogo. A língua é o verbo, o verbo é Ele, e Ele só habita entre nós quando fala, e naquilo que fala."

O profeta coçava as têmporas:
“Somos aquilo que falamos. Mes­mo quando aquilo que falamos não somos. Porque não somos apenas em nossa verdade. Somos, e muito, em nossa mentira. É aquilo que vocês podem ver: a sombra é o esconderijo da luz. Quando a verdade se esconde, a mentira aparece, mas, atrás dela, como a luz que faz a sombra, está a certeza das coisas."

Um comentário:

Marcela disse...

Lindíssimo!! Parabéns!!
Sou uma grande admiradora de seus textos e de sua história.
Obrigada por partilhar conosco.

Abraços,
Marcela