6 de mai de 2011

MEMÓRIAS DE ABRIL

O golpe de 1964 iniciou uma série de intervenções militares patrocinadas pelos EUA na América Latina, na África e na Ásia – guiadas pelo apetite colonialista ainda presente nos conflitos do mundo

O Brasil chegara ao fim do governo Juscelino Kubitschek em pleno processo de desenvolvimento econômico, que exigia novos passos a fim de consolidar o realizado e avançar com o mesmo ímpeto. Estávamos, para lembrar Celso Furtado, em plena construção nacional, que se iniciara com o projeto de soberania de Vargas, levado ao suicídio pelos mesmos golpistas de 1964. No plano internacional, o avanço tecnológico soviético, com os êxitos na exploração do espaço, atemorizava os Estados Unidos e seus aliados europeus. Na América Latina, a Revolução Cubana trazia nova oportunidade para os oprimidos e explorados de sempre. Como observou então o jornalista e escritor Franklin de Oliveira, não é o desespero, mas sim a esperança que faz as revoluções.

Eleito presidente, Jânio Quadros provou sua imaturidade logo nos primeiros meses. Faltava-lhe o caráter dos verdadeiros estadistas. Fraquejou diante de outro insensato de mais talento político, que foi Carlos Lacerda, e tentou o golpe com a renúncia. Naquele momento – agosto de 1961 –, estivemos a pouca distância de uma guerra civil. Como se sabe, os ministros militares vetaram a posse de João Goulart, o vice-presidente, substituto constitucional e legítimo. Imediatamente surgiu, em todo o país, a resistência civil à violação dos princípios constitucionais. Essa resistência encontrou a adesão militar do 3º Exército, de maior poder de fogo, sediado no Rio Grande do Sul, do governador Leonel Brizola. Com isso, houve certo equilíbrio de forças, o que favoreceu as negociações de Tancredo Neves, cuja habilidade impediu o desfecho sangrento.

Entre 1961 e 1964 houve a articulação da direita, com a atuação descarada dos Estados Unidos, mediante o financiamento do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), organização empresarial anticomunista, e a cooptação de deputados, senadores, oficiais das Forças Armadas e governadores. Também foram subornados jornalistas e veículos de comunicação, que – tal como ocorrera no cerco a Vargas, em 1954 – entoavam a mesma cantilena contra a “comunização do Brasil”. Os norte-americanos tinham como aliados as oligarquias rurais, organizadas contra a reforma agrária, os banqueiros, atemorizados diante de anunciada reforma bancária, a hierarquia católica, sob o comando de arcebispos ultramontanos, que se opunham, in pectore, aos rumos preconizados por João XXIII e, de certa forma, também inspiradores de Paulo VI, que o sucedeu em 1963.

O núcleo da reação empresarial foi o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), organizado em São Paulo, que se tornou o centro civil da conspiração, financiado por grandes empresas estrangeiras no Brasil e algumas nacionais, posto sob o comando do general Golbery do Couto e Silva.

A esquerda também teve sua culpa, no açodamento de alguns grupos que subestimavam a influência da classe média alienada e temerosa – envenenada pelos meios de comunicação – de ter de dividir a moradia, de perder o emprego público e até da dissolução dos costumes. Acrescente-se que as organizações de esquerda estavam infiltradas por agentes provocadores, como o cabo Anselmo, entre outros.

Foi assim que, sob a orientação direta do general norte-americano Vernon Walters, adido militar no Brasil, alguns altos oficiais, sob a direção do general Humberto Castello Branco – que fora companheiro do ianque na Itália –, passaram a preparar o golpe, para ser desferido em maio. Sabendo da conspiração, e pretendendo dela retirar proveito pessoal­, o governador de Minas, Magalhães Pinto, associou-se aos generais Olympio Mourão Filho e Carlos Luís Guedes para antecipar a operação. O êxito dos golpistas ocorreu na madrugada de 1º de abril.

A intervenção militar de 1964 iniciou uma série de outras na América Latina, na África e na Ásia, sempre sob o comando dos Estados Unidos, por intermédio da CIA. O mais cruel ocorreu na Indonésia, no ano seguinte, com quase 2 milhões de assassinados.

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