2 de mai de 2011

O DESTINO DO OCIDENTE

Há mais de cem anos alguns observadores vêm anunciando o declínio do Ocidente, essa idéia fundada na razão grega, que investigava os fenômenos físicos e as inquietações da alma, sob o exercício da liberdade. Mas a liberdade estava limitada pelas restrições sociais e econômicas. Ao admitir o instituto da escravidão, e discriminar as mulheres, os gregos a reduziam. É certo que muitos dos atenienses combatiam as ações práticas que embaçavam o ideal do humanismo. Isso não impediu que crimes brutais fossem cometidos, durante a Guerra do Peloponeso. A repressão aos habitantes de Melo, bem documentada por Tucidides, mostra que o Ocidente trazia, desde a origem, os sinais de suas contradições. Os argumentos dos enviados de Atenas à pequena ilha, a fim de subjugá-la pelo engodo, e, em seguida, pela ameaça, antes das armas, servem de modelo histórico ao comportamento das nações mais poderosas da História. Os mesmos atenienses que mataram todos os homens de Melo, e escravizaram suas mulheres e suas crianças, seriam derrotados, primeiro pelos macedônios e, em seguida pelos romanos. O arquipélago perdeu sua autonomia política e se transformou em colônia, que trocou sucessivamente de mãos, até se submeter a um monarca estrangeiro, já no século 19. A orgulhosa república, que trouxera à História o conceito de democracia, só se reencontraria no século 20, com a 2ª. Guerra Mundial.

Os valores do Ocidente, vindos da Grécia Antiga, que ocuparam, mal ou bem, toda a Europa, e encontraram seu momento mais alto nas revoluções intelectuais e políticas dos séculos 17 e 18, foram violados pela ocupação colonial. Em 1884, na Conferência de Berlim, com a demarcação da África em áreas de domínio, o saqueio se reafirmou como direito internacional dos brancos. Os mesmos argumentos – o de que algumas nações não conseguem governar-se por si mesmas, e violam os “direitos humanos”, tal como os concebem os mais bem armados – retornam, de vez em quando. Como ocorre agora, para justificar a guerra, que já se iniciou, contra os países árabes. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, que estão sendo arrasados, prepara-se a invasão da Síria. E Israel repete o discurso dos atenienses a Melo, ao reagir contra o entendimento entre as duas organizações da resistência palestina.

O medo assusta o governo submisso do Marrocos, que ocupa o território dos saarauis e atribui, em segunda versão, a explosão de cilindros de gás em Marrakech a uma ação “terrorista”. É mais fácil entender a tragédia de ontem como negligência dos proprietários, que não foram capazes de armazenar os cilindros de gás longe da chama dos fogões.

As revelações do Wikileaks sobre Guantánamo exibem as chagas repulsivas desse perempto Ocidente. E não faltam advertências, dos próprios norte-americanos, de que sua orgulhosa civilização está sendo estiolada pelo egoísmo e pela ganância. Por mais que pretendam dissimular, o medo, esse sócio do desatino, domina os governantes do norte. A revogação, na prática, do Tratado de Schengen, condena a Europa a desmantelar sua unidade continental. A Europa teme ser ocupada pelos “bárbaros”, da mesma forma que ocorreu com o espaço romano. Os governos europeus, sob a influência dos Estados Unidos, da França e da Inglaterra, renunciaram aos poucos princípios que restavam do humanismo do Ocidente. Hoje, quem conduz a história não são os intelectuais gregos que, com sua espantosa descoberta da lógica, entenderam que a sobrevivência do homem estava na busca do bem comum. São os banqueiros – em todo o mundo. Isso pode apressar o cumprimento da conhecida tese de Toynbee sobre a aliança entre o proletariado interno e o proletariado externo, em inevitável processo revolucionário contra os opressores.

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