30 de mai de 2011

GROTAS DO EMBAÚBA

Talvez não seja politicamente correto lembrar o que ocorreu em Grotas do Embaúba. O lugar nada tinha de especial que o diferenciasse. Situado em terras intermediárias entre uma língua de mata atlântica, que avançava rumo ao oeste, como se a floresta buscasse terras mais férteis, e o sertãozão carrapichoso e marcado de dunas avermelhadas, ao norte, e o cerrado ralo ao sul, o antigo arraial ocupava vale estreito, cercado de grotas que, nas duas margens do ribeirão Embaúba, aliviavam as colinas ásperas com a vegetação fechada, de forte verde, que ninguém se arriscava a violar.

As famílias antigas, nem ricas, nem miseráveis, se davam bem. Plantavam e criavam, dois ou três comércios as serviam, não havia padres que as perturbassem, nem médicos que as ajudassem a morrer. Por isso, presume-se, viviam bastante. A paz foi perturbada com a chegada dos forasteiros. Um geólogo descobrira, nos morros, depósitos de zinco, com forte proporção de cádmio, de alto preço no mercado. A notícia atraiu pequenas e médias mineradoras. O lugar decuplicou de habitantes em menos de um ano. O comércio floresceu, as terras multiplicaram de preço, uma estrada foi aberta até a mais próxima estação de estrada de ferro, e muitos moradores antigos descobriram o valor do dinheiro e a alegria do conforto. Antes, nas eleições, o lugarejo votava unido, respeitando a vontade dos mais velhos, que se reuniam antes do pleito e decidiam que candidatos apoiar. Não havia infidelidade.

Os forasteiros haviam trazido, com suas ferramentas, a ambição do dinheiro e do poder. As velhas famílias rapidamente perderam prestígio. Aos engenheiros, capatazes e mineradores, somaram-se o médico, o padre e o pastor, que abriram os seus negócios, comprando as melhores casas do distrito. Sendo a nova maioria, encabeçaram o movimento pela emancipação de Grotas – e a obtiveram, com a brava e inútil oposição dos moradores antigos. Esses esperavam que as jazidas se esgotassem logo, para que pudessem reencontrar a paz.

Realizadas as primeiras eleições do novo município, os forasteiros fizeram a maioria absoluta da Câmara Municipal, enquanto os antigos só conseguiram eleger dois vereadores. Prefeito e vice eram nascidos na capital, cheios de arrogância e nove-horas na conversa. Os impostos pagos pelas mineradoras à antiga sede municipal eram altos, mas os forasteiros conseguiram aprovar lei que os reduziram a quase nada. Um dos filhos de Grotas, que estudara na capital, ao visitar os pais, descobriu a maracutaia: as empresas mineradoras pagavam uma parcela do que economizavam de impostos ao prefeito, ao vice e aos vereadores da maioria. Os velhos se reuniram, convocaram filhos e genros, compraram armas e munições, fizeram seus planos estratégicos. Eram minoria, mas decididos, e contavam com a surpresa. Na madrugada certa, cortaram a linha de eletricidade, fecharam o correio, prenderam preventivamente o padre, o pastor e o médico e obtiveram a adesão do cabo e dos dois praças do Destacamento da Força Pública. Exageraram em seu civismo, ao permitir que fossem enforcados, na praça, o prefeito e o vice, depois de confiscados os seus bens. Expulsaram, sob tiros de sal e chumbinho miúdo, os administradores das empresas de mineração e os vereadores da maioria.

Nomearam um governo interino, enviaram delegação ao governo do Estado e conseguiram que esse reconhecesse a situação de fato, até novas eleições. Um inquérito foi instaurado para apurar as responsabilidades na execução dos larápios, mas não levou a nada. O silêncio dos insurretos foi absoluto. O novo município encampou as minas de zinco, e criou empresa própria para explorá-las. Os engenheiros e técnicos que quiseram, continuaram trabalhando, com o compromisso de não se meterem na política.

Grotas do Embaúba não retornou à paz antiga, mas recuperou muito de sua dignidade.

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29 de mai de 2011

O DISCURSO ANACRÔNICO

O discurso do presidente Barack Obama, em Londres, como quase todos os pronunciamentos políticos, não pode ser entendido em sua literalidade. As palavras, disso sabemos, servem para dizer e servem para ocultar, e quase sempre revelam, ao ocultar. Quando buscam esconder o verdadeiro sentimento dos que as pronunciam, revelam-no. Foi um speech fora do tempo, e lembra os pronunciados por Ted Roosevelt na passagem do século 19 para o século 20.

Obama foi a Londres a fim de dizer aos britânicos que os dois povos, vindos da mesma e presunçosa Albion, continuam a mandar no mundo. Começaram a mandar antes mesmo que as colônias da Nova Inglaterra existissem, ainda no fim do século 16, quando os espanhóis foram fragorosamente derrotados, com sua armada, que se pressupunha invencível, mais pelos ventos e ondas altas do Canal da Mancha do que pela ação dos navios britânicos. Essa supremacia foi confirmada, no século 19, em Waterloo. Mas o simples fato de que o presidente dos Estados Unidos tenha considerado ser importante essa reafirmação de domínio, revela que ele se encontra em erosão. O presidente cometeu um equívoco político importante, talvez porque tenha trocado de ghost-writer, ao desdenhar a posição da Europa. Ele não menciona diretamente países como a Alemanha e a França, e só se refere “aos nossos aliados”. Enfim, os donos do mundo são eles. Os outros, por mais poderosos sejam, são apenas “aliados”. O Brasil e os outros grandes países emergentes, reunidos no grupo Bric, são mencionados, como incapazes de ameaçar a supremacia mundial do eixo Washington-Londres. Não cremos que o Brasil venha a disputar a “liderança” do mundo. A melhor atitude de uma nação forte é a de não comprometer esse potencial em atos de conquista. Bons exércitos, economia sólida, instituições permanentes são condições necessárias para assegurar a liberdade interna e garantir os interesses nacionais na sociedade mundial. Mas se essa vantagem for usada em aventuras estultas, as conseqüências sempre serão, a prazo curto ou longo, desastrosas. Na vida de cada um de nós, e na vida das nações, a melhor escolha é a de não liderar, mas, tampouco, seguir a liderança alheia. Deixemos aos outros a sua autonomia e sejamos ferozes defensores da nossa independência.

Dentro da mesma ordem de idéias, estamos diante de outra manifestação de arrogância chocha, da candidata francesa, Christine Lagarde, à direção do FMI. Ela, em resposta à posição brasileira e de outros países emergentes, que reclamam o direito de indicar o substituto de Strauss-Kahn, declara que a instituição tem que continuar em mãos européias. Há dois anos, ela disse que, “no FMI, quem paga, manda”. Como se vê, a sua idéia é a de que a instituição não é mundial, mas de alguns países que se julgam os guardiães universais da moeda. Se é esse o critério da Sra. Lagarde, está na hora de o FMI trocar de mãos. Os países emergentes são hoje os maiores credores do mundo. A China, a Rússia, a Índia e o Brasil, em conjunto, retêm as maiores reservas mundiais, enquanto os Estados Unidos e a maioria dos países europeus são os grandes devedores internacionais. A dívida, pública e privada, dos Estados Unidos é nominalmente de 50.2 trilhões de dólares (3 vezes o seu PIB), isso sem contar com os trilhões e trilhões de dólares que, sem lastro metálico, circulam no mundo inteiro. Quem está pagando, direta ou indiretamente, são os países em desenvolvimento, como é o caso da China e dos outros integrantes do BRIC.

Com toda a sua arrogância, o discurso de Obama é vazio: o único poder de que dispõem Washington, Londres e seus aliados da OTAN, é o bélico – que se encontra encurralado no Iraque e no Afeganistão.

Se o critério é esse, o de quem paga, manda, os Bric podem abandonar o FMI – e criar uma nova instituição, que lhes sirva.


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25 de mai de 2011

A ESQUERDA CONSTRANGIDA

A vitória da direita nas eleições parciais da Espanha, e a probabilidade de que a filha de Fujimori venha a ganhar a presidência do Peru, são dura advertência aos partidos de esquerda. Desde a queda do muro de Berlim, e o surgimento do pensamento único, a serviço da ditadura mundial do neoliberalismo econômico, a esquerda parece envergonhada de seu discurso pela igualdade e justiça social.

Vem atuando na defensiva, como se a todos os humanistas da História e a todos os intelectuais e ativistas da esquerda pudessem ser atribuídas as responsabilidades pelos crimes do totalitarismo stalinista, pela insânia de Ceausescu, e pela incompetência administrativa dos burocratas dos países socialistas.

O PSOE perdeu as eleições porque Zapatero e seus companheiros deixaram de ser socialistas. Quando o governo continuou a política de Aznar, de financiar a “invasão” da América Latina pelas grandes empresas e bancos espanhóis - em lugar de estimular o desenvolvimento econômico interno – deixou a esquerda.

Embora o discurso continuasse o mesmo, a prática foi para a direita. Com isso, agravou-se o desemprego interno, enquanto as empresas ibéricas (o mesmo ocorreu em Portugal) criavam e continuam a criar empregos no exterior. Para os grandes investidores espanhóis, ótimo: os lucros na América Latina são mais altos e os salários menores.

A esquerda começou a erodir-se nos próprios países socialistas, submetida ao mesmo equívoco de que sofre hoje, o do “economicismo”. É de se lembrar que o próprio Lenine caiu na armadilha teórica, ao dizer que o socialismo seria a união da velha alma revolucionária russa ao pragmatismo norte-americano.

Para construir um sistema de valores fundado na competitividade do capitalismo, seria melhor continuar com o capitalismo. Reclama-se da esquerda proporcionar o crescente bem-estar das comunidades políticas, sem a opressão do capitalismo.

A esquerda parece esquecida de seu projeto teleológico, o de uma sociedade sem classes. Esse projeto foi abandonado depois da vitória da “santa aliança”, que uniu o polaco Wojtyla ao caubói Ronald Reagan, a fim de apressar a erosão de um sistema que já se encontrava minado por dentro. Os dirigentes dos partidos de esquerda – salvo alguns, e poucos – empenharam-se em caminhar em direção à direita, aliando-se ao cooptado Gobartchev, hoje garoto propaganda da Vuiton.

Foi confissão do malogro em se opor teoricamente aos desvios do “socialismo real”. Comunistas tchecos, alemães e franceses tentaram construir caminhos novos, ao analisar os desafios históricos, como fez o filósofo Radovan Richta, primeiro com seu estudo sobre “O homem e a tecnologia na revolução contemporânea”, em 1963 e, três anos mais tarde, ao chefiar grupo de acadêmicos tchecos no lúcido estudo sobre “A Civilização na Encruzilhada”, no qual as idéias de seu primeiro livro são mais detalhadas. Marxistas mais antigos, como Lukacs e os membros da Escola de Frankfurt – tinham outra e mais grave inquietude, com a “desumanização” da esquerda, contaminada pelos vícios da sociedade industrial moderna.

Por tudo isso, as massas estão indo às ruas, na Espanha e alhures. Desnorteadas, pela falta de um discurso coerente da esquerda, elas pendem para a direita que, pelo menos, lhes oferece a hipótese de uma ordem moralista – como a acenada, entre nós, pelo deputado Bolsonaro. É assim que se explica a vitória da direita na libertária Catalunha e a terrível probabilidade de que a filha do corrupto e sanguinário Fujimori venha a vencer a esquerda no Peru, dentro de poucos dias.

É uma advertência também para a Presidente Dilma Roussef, neste momento de dificuldades políticas menores – mas não tanto – que incomodam o seu governo.

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24 de mai de 2011

OS DITADOS DO IMPÉRIO

O presidente dos Estados Unidos lançou novo edito imperial, dirigido aos líderes dos países árabes, sobretudo a Assad, da Síria: cedam, ou caiam fora. Há que se reconhecer, no poder norte-americano, essa franqueza brutal. Não há paises soberanos no mundo, mas simples províncias do grande império. Não percebem os policy makers de Washington que as situações envelhecem. No caso de sua postura diante do que ocorre nos paises árabes, é patente a incapacidade de ver as coisas com clareza. O pronunciamento de Bin Laden, divulgado depois de sua morte, por iniciativa da Al-Qaeda - em que a rebelião iniciada na Tunísia é aprovada - pode até ser falsa, mas a sua divulgação revela, claramente, que não é exatamente a democracia “made in United States” o desejo que anima os rebeldes dos países islâmicos.

O que está em discussão é a enorme disparidade entre os privilegiados e os pobres. Essa rebelião, que se espalha hoje por vários paises não islâmicos, não leva em conta a natureza ideológica ou teológica dos regimes contestados, mas a sua incapacidade de resolver os problemas cotidianos das pessoas. Tanto nos paises muçulmanos de hoje, quanto nos que se identificam como cristãos, xintoístas, budistas, ou animistas, o que se contesta é o domínio dos ricos. Esses opressores internos participam da exploração dos recursos naturais e do trabalho de seus povos. Por detrás se encontra o sistema financeiro internacional, com ladrões que comandam os escritórios de Wall Street, da Place de la Bourse, da City, das bolsas de valores de Frankfurt, Tóquio, Hong Kong, Xangai – e outros lugares.

O pronunciamento de Obama é ambíguo. Por um lado, ameaça; pelo outro acena com o reconhecimento do Estado Palestino nas fronteiras estabelecidas em 1967 – já de si usurpadoras dos direitos dos seus ocupantes históricos. Um observador das incoerências do presidente norte-americano poderá ver no discurso a tentativa de engambelar os palestinos, com a promessa – vaga, diga-se de passagem – de usar o seu poderio a fim de impor a independência dos territórios ocupados por Israel, e, ao mesmo tempo, agradar ao governo teológico judaico com a perspectiva de submeter a Síria, e o Irã, únicos vizinhos com capacidade bélica de ameaçar Tel-Aviv, embora não sejam potências nucleares como Israel.

Não é provável que Obama obtenha de Israel qualquer compromisso em reconhecer o direito do povo palestino a um estado independente. Na realidade, os israelitas, mediante a poderosa influência que exercem na política interna nos Estados Unidos, impõem a Washington a posição que lhes interessa.

Talvez Obama, induzido à cegueira pela arrogância histórica de Washington, não tenha ainda percebido que os seus inimigos reais – os que se opõem à sua reeleição, e que corroem o futuro de seu país – não se encontram entre os islamitas, mas exatamente em seu próprio território e no território de seus vassalos e aliados, como a França e a Inglaterra. São os que usufruem da cruel desigualdade social que, só nos Estados Unidos, confere a um por cento da população quarenta por cento da riqueza interna. Nunca houve, naquele país – nem mesmo na véspera da Grande Depressão – injustiça social semelhante. Talvez conviesse, para a segurança da grande nação do Norte, e para a paz no mundo inteiro, que o governo norte-americano se dedicasse a eliminar a iniqüidade interna, em lugar de se meter a guardião do mundo.

Se assim os Estados Unidos agissem, estariam voltando ao compromisso dos fundadores da República, entre eles, Washington, que em seu discurso de despedida, conclamou seus pósteros a tratar de maneira equânime as nações estrangeiras, mantendo boas relações comercias com todas elas, mas se esquivando de meter-se em seus assuntos políticos, e – o que é principal – não odiando, nem amando nenhuma em particular.

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22 de mai de 2011

OS VINHEDOS DE ALAVA


De vez em quando ele deixava escapar uma frase em basco, e isso me perturbava. Traduzia-a, sorrindo, e explicava que seu excurso, em língua estrangeira, não era rigorosamente fiel ao pensamento. Txori txikia, abesti txikia, citou o provérbio de seu povo, segundo o qual o pássaro canta de acordo com o seu tamanho. Poderia ter acrescentado que o canto também depende da plumagem e da proporção entre o corpo e as asas, mas não era preciso. O ditado popular lhe bastava.

Conversávamos em uma taverna, em 1982, perto de Durango, em região perigosa, segundo os serviços de inteligência do governo espanhol. Dali procediam, narravam os informes, os mais duros homens de Euzkadi Ta Azkatasuna, que vocês conhecem pelas iniciais. Não tínhamos por que nos prevenir. Naquele distrito, todos sabiam, os delatores eram tratados a bala de nove milímetros. As pessoas chegavam e o saudavam, em basco; ele respondia com parcimônia. Com parcimônia também bebia seu vinho, de Alava.

- Não há segredo. Nós somos mais apegados a esta terra do que talvez outros sejam a seu torrão, porque estou certo de que aqui nascemos. Não há, na memória de nosso povo, caminhos mais longos do que os atalhos entre os vales dos Pirineus, de Navarra ao mar. Mas todo povo é a sua terra.

Ergueu o copo de vinho, olhou-o, o tom rubro contra a luz da tarde. Depois partiu uma fatia do queijo caseiro, vindo de bem perto, de Ermua.

- Somos feitos de nossa terra. É isto que a Bíblia quer dizer. Deus não buscou o barro longe, para esculpir Adão. Arrancou-o dali mesmo, do chão do Paraíso. Por isso, quando houve a transgressão, Deus o puniu, expulsando-o de seu país. Neste vinho, que alegrará meus nervos e meu sangue, está a boa terra basca. A vinha a buscou, em suas raízes, temperou-a com o sol e refrescou com estas águas, que aqui não faltam. E este queijo é também terra de nosso país. Terra que se abrandou no caule do capim. Veio a ovelha e o comeu. Quando o bebemos e assamos o cordeiro, é a terra feito seiva e carne que irá transformar-se em nossa seiva e nossa carne. Como pode alguém viver longe de seu canteiro?

O taverneiro ouvia-o e o aprovava com a cabeça. Estávamos próximos do balcão, em um canto. Naquela hora eram escassos os fregueses, que chegariam quando a tarde envelhecesse.

- Temos muitos compatriotas na América, mas no peito de cada um deles haverá sempre o calor deste vinho. Eles não se foram porque quisessem. Um dia voltarão, ainda que tenham que voltar em seus filhos e em seus netos. Mas, embora eu compreenda suas razões nunca sairei deste chão. Vou até a muga, isto é, a fronteira, de nosso país, mas nunca a transponho. Tenho medo por dentro. Temo que, saindo de Euskadi, não o reencontre, ao voltar. E sempre me dá a impressão de que estarei saqueando os outros, se beber de seu vinho e comer de seu pão.

Senti-me incomodado com a observação. Afinal, eu estava ali, bebendo do seu vinho basco, comendo do pão e do queijo daquelas terras. Ele sentiu meu ligeiro constrangimento e se desculpou. Talvez estivesse sendo exagerado, mas era o problema da língua. Citou-me então a outra versão, mais robusta, do provérbio do pássaro e seu canto: Zakur aundiak, zaunka aundia. O ladrido é do tamanho do cão.

- Você não é forasteiro. Você é viandante. Esta diferença não é tão pequena como possa parecer. Somos hospitaleiros, sempre fomos. Mas, tocar em nossos campos é rasgar as nossas terras, como fazem os de Castela, é como violar as nossas mulheres. Recebemos bem todos os estrangeiros, e deles será o nosso pão e o nosso vinho, se trouxerem a paz nos olhos, mas quando trazem a cobiça na mira de suas armas, temos o dever da resistência.

Pouco a pouco a taverna foi se enchendo de bascos que deixavam o trabalho e chagavam para o vinho do anoitecer. Alguns falavam a língua da terra, em sua pureza. Outros a misturavam com o castelhano. E havia, entre eles, trabalhadores andaluzes, que pediam os vinhos secos de Cádiz e o brândi de Jerez.

- Estes tampouco são forasteiros. São expulsos de sua pátria andaluza, mas não pelo castigo de Deus. Como você vê, eles têm seu caráter, e renovam o sangue com o vinho de sua própria terra.

20 de mai de 2011

DUAS ESPÉCIES HUMANAS

Há quem decrete o fim da classe operária, com a exacerbada corrida tecnológica, que vem substituindo os braços humanos na produção industrial. A expressão pode até se desusar, e de certa forma já está sendo abandonada. Mas o problema é de outra natureza. O mundo não se divide entre os trabalhadores manuais e os outros, mas sim entre os assalariados e os donos do capital. Isso em uma visão ligeira do problema, porque todo trabalho humano é, ao mesmo tempo, manual e intelectual. Quem opera uma máquina, ainda que o faça mediante um ordenador eletrônico, usa ao mesmo tempo as mãos e o cérebro.

Mais ainda: toda a evolução do homem se deve a essa óbvia associação entre o pensamento e a ação. Por isso mesmo, o filósofo Agostinho da Silva, um dos mais inquietantes pensadores do século 20, diz que o homem não nasceu para trabalhar, e sim para criar. Os marxistas definem essa diferença, ao identificar, no artífice do passado, o criador, uma vez que ele dominava todo o processo de fabricação, e uma peça não era exatamente igual à outra. Na produção industrial moderna, em que cada trabalhador executa – durante a jornada, meses, e quase sempre por muitos anos, quando não toda a vida ativa – a mesma tarefa, fazendo peças separadas, que serão montadas depois, só há realmente trabalho.

Trabalho vem do latim tripalium, que era um instrumento de suplício no mundo romano. O trabalho sempre se associou ao sacrifício, e não ao prazer. A criação, ao contrário, tem uma expressão lúdica. O marceneiro que faz um armário, partindo de sua própria imaginação e desenho, é um criador. Até mesmo o lenhador, que escolhe na floresta a árvore a abater, é de certa forma um criador. Mas o operário que lixa 500 peças por dia ou aperta parafusos (hoje os robôs o substituem) na linha de montagem, como no belíssimo filme de Chaplin, Tempos Modernos, é um homem submetido ao suplício permanente. Na visão magistral de Marx, o trabalhador de hoje é o “complemento vivo de um organismo morto”.

Os operadores que usam o teclado e “interagem” com a tela não têm apenas seu movimento manual determinado pela máquina, mas também sua mente. Como os bancários, que lidam com milhões alheios durante o dia, eles não conseguem dormir em paz: uns sonham com cifras, outros com bytes. A grande tragédia dos trabalhadores modernos, submetidos às exigências da tecnologia, é se sentirem peças isoladas, exatamente iguais às outras. Não tendo de intervir com sua inteligência, e estando submetidos às tensões de cada minuto, são facilmente substituídos pelos robôs, cuja programação é obedecida sem que as emoções os perturbem.

Um escritor paulista – e conhecido empresário –, Nelson Palma Travassos, achava que as máquinas seriam a redenção do homem moderno, e substituiriam os escravos da Antiguidade, libertando-o para o exercício livre da inteligência – desde que esses robôs fossem de propriedade do Estado, que distribuiria os bens produzidos com equidade a toda a população. A tecnologia não está a serviço dos homens. Está a serviço dos ricos, que a usam, sobretudo na transferência instantânea de capitais, roubando dos depositantes e dos acionistas, enfim, de todos, porque o Estado, ou seja, o povo, arca com o prejuízo. Só há duas classes sociais, a dos ricos e a dos pobres.

Durante muito tempo, ricos eram os que detinham os meios físicos de produção, isto é, as terras, as máquinas, enfim, o capital produtivo. O liberalismo novo, com a globalização da economia, mudou o eixo da razão. Hoje, são os bancos que dominam todo o processo. E os bancos não são administrados – salvo exceções – pelos acionistas, mas sim por executivos tais como os que vimos nos escândalos recentes de Wall Street.

Observadores atentos, como o financista Paul B. Farrell, comentarista do Wall Street Journal, mostram que a desigualdade social nos Estados Unidos é hoje maior do que em 1929, quando se iniciou a Grande Depressão, e que, se os ricos não pagarem pesados impostos que permitam melhor distribuição da renda, os pobres, não só ali, mas no mundo inteiro, se sublevarão. É uma questão de vida e morte.

19 de mai de 2011

COISA DE HOMEM




Eu acredito na Providência Divina. Deus, em sua bondade infinita, reserva uma parte de sua misericórdia para atender a pequenos pilantras, como éramos, o Élcio Catarinense e eu mesmo, que me apresento como Eduardo, vulgo Quina de Nove, de sobrenome pessoal e secreto. Quem vive de expedientes, como vivíamos – e eu ainda vivo, já que “fecharam” o meu parceiro - não pode ter escolha, pega o que aparece. E o que tinha aparecido era o baralho de cartomante, aquele cheio de figuras esquisitas, espadas, coroas e caveiras. Com minha cara de menino, parecia impor respeito. Élcio servia de agá: começou a espalhar na cidade que tinha um moleque na praça, com o baralho de sorte, adivinhando tudo. Primeiro foi uma senhora bem velhinha, que chegou, ressabiada. Olhei-a firme, quase podia contar as rugas. E, fechando os olhos, disse a Deus que estávamos os dois vagabundos, mas de bom coração, um dia e meio passando a água sem pão, e merecedores de sua bondade. Tínhamos muito tempo pela frente, para mudar de vida, mas era preciso comer, porque senão o desespero podia nos aconselhar mal. Por que ele iria perder duas ovelhas famintas e desgarradas da boa sociedade? Desse uma mão, pelo amor dele mesmo. Depois pedi à dona que embaralhasse e partisse as cartas, enquanto mantive os olhos fechados, firme com Nosso Senhor. Como não entendia nada, espalhei as cartas, de sete em sete, e disse, de cara, à velhinha, que o grande amor de sua vida acabara de bater com as dez. Ela ficou espantada, não quis ouvir mais nada, deixou a nota de cinco mil réis, meus honorários fixos e inegociáveis, sobre o caixote que servia de mesa e saiu quase correndo.


O sujeito que veio em seguida, fazendeirão de cara gorda e bigode grosso, quis dizer o que o preocupava e eu cortei, logo: “Só leio as cartas se o senhor não falar nada. Quem vai falar sou eu”. E falei o que me veio à cabeça: “o negócio vai dar certo. Depois de amanhã, o senhor recebe a escritura”. O fazendeiro perguntou como é que eu sabia que ele estava comprando a fazenda, e eu disse que eram as cartas. Inventei que o sete de espadas, daquelas espadas grandonas e verdes, significava negócio feito, e faturei vinte mangos.


E assim passou o dia. Quando chegou a tarde, contamos a féria: trezentos e cinco paus, no tempo de salário mínimo de 160 mil réis. Resolvemos dar o fora, e alugamos duas bicicletas, para ir ao lugar das raparigas, do outro lado do rio. A idéia era a de, depois da devoção às meninas, pegar o noturno, que passava às dez e meia, e largar as bicicletas por lá – mas não deu. Quase todos os clientes vieram atrás de nós: a velhinha veio dizer que seu antigo namorado fechara o paletó, aos oitenta e dois, no Rio: telegrama da viúva, no caso sua prima, confirmara que ele morrera de madrugada. Do fazendeiro não tive notícias logo, mas sei que o negócio se fez. Ganhamos mais algum do farmacêutico, que se livrara do fiscal do imposto do consumo, e da mocinha que recebera a carta esperada. Acabamos dormindo acompanhados de mulatas aprendizes, na zona da beira do rio, o que nos levou trinta mil réis, além da cerveja e do frango assado. De manhã cedinho, antes de pegar o ônibus para a capital, olhei para o céu e vi as duas nuvens que pareciam caras de longas barbas: uma parecia sorrir, com o sol atrás de uma abertura que fazia o lugar da boca, a outra era fechada, sizuda. Entendi o recado divino. Quando o Catarinense sugeriu que fôssemos dar o golpe do cartomante em cidade do meio do caminho, cortei, logo: “Deus não faz gracinha duas vezes pra vagabundo”.


Na capital, joguei o baralho de adivinho no lixo e voltei ao carteado normal, entre malandros e otários que acham que são malandros. E no jogo sujo de cunca, em que sou especialista, Deus e diabo não se metem. É coisa de homem.

A INDIGNAÇÃO DAS RUAS

Os protestos populares na Espanha não diferem, em sua essência, dos que ocorreram e ocorrem nos países árabes. Excluída a observação de que a Europa começa nos Pirineus, que tenta localizar historicamente a Península Ibérica na África, há mais do que a proximidade geográfica na semelhança entre os movimentos. Se, no caso dos países árabes, muitos dos manifestantes se insurgem contra o poder pessoal, na Espanha esse protesto se dirige contra o sistema como um todo.

No capitalismo neoliberal, dominado por banqueiros corruptos, políticos corruptos, intelectuais corrompidos, e alguns poderosos meios de comunicação, pouco importa o partido que se encontre no poder: a ordem de domínio e de exploração é a mesma.

A ocupação das ruas não é nova na história. A possível desordem nas manifestações populares nem sempre é má. Muitas vezes é a expressão da ira dos justos. O padre Francisco Lage, de Belo Horizonte, ao ser questionado por liderar manifestações populares, no início dos anos 60, costumava dizer que muitas vezes é preciso a desordem das ruas, para que se imponha a ordem nas consciências. Em uma dessas manifestações, em favor dos trabalhadores municipais havia meses sem receber, o padre montou um presépio humano na véspera do Natal, que se encenava, alternadamente, sob a marquise dos grandes bancos. Os banqueiros se reuniram e fizeram generoso empréstimo à Prefeitura, a fim de livrar-se da incômoda manifestação de fé.

Por mais os meios de comunicação finjam não perceber o que tais manifestações anunciam, o povo está começando a sair às ruas, e às ruas sairão, em todas as latitudes e longitudes, em busca de uma vida mais humana. As instituições estatais não podem continuar a serviço dos mais fortes, nessa promiscuidade escandalosa entre os que dominam o capital financeiro e os que ocupam os governos. Os grandes jornais norte-americanos não noticiam, como deveriam, os movimentos que, de forma discreta, por enquanto, começam a surgir naquele país, protestando contra a crescente e insuportável desigualdade social.

Ontem à noite, milhares de pessoas se reuniam na Porta do Sol, centro geográfico de Madri, convocados pelo movimento suprapartidário dos indignados, sob o lema de Democracia Real, Já. Não admitem que a crise econômica seja resolvida com o sacrifício dos trabalhadores, enquanto as corporações multinacionais, dominadas pelos grandes bancos – como algumas que nos exploram no Brasil – continuem beneficiadas pelo governo. Hoje, são os “socialistas” que se empenham em favorecer o capitalismo neoliberal, como ontem foram os conservadores, dentro do sistema eleitoral vigente – parlamentarista e de listas fechadas, registre-se. Como disse o comentarista Iñaki Gabilondo, de El Pais, os partidos devem deixar a sua postura narcisista e entender o que se passa na sociedade real da Espanha. Terão que se refundar, com seriedade e urgência.

Enganam-se os que se encontram no poder. Se, em toda a História, o poder foi situação precária, sujeita às intempéries sociais, em nossos dias sua fragilidade é maior. A força da internet tornou veloz a mobilização dos inconformados e a explosão dos indignados. Como bem comentou o jornalista Ramón Lobo, em seu blog acolhido por El País, “Madri não é Tahrir, mas o vírus é o mesmo: o fastio de uma juventude sem esperança - diante de um mercado minguante que se “moderniza” cortando direitos sociais e empregos - com o único horizonte de contratos imundos, de longa duração. Prevalece a voz oficial, a dos outros, a da linguagem burocratizada, a das entrevistas coletivas sem perguntas, a dos intocáveis”.

Frente aos superbilionários que, todos os anos, se reúnem em segredo, para dividir o mundo em novas colônias, a indignação das ruas é a legítima e necessária ação de defesa dos oprimidos. Em todas as latitudes.

18 de mai de 2011

LINGUAGEM E SOBERANIA

A civilização se define como a reunião dos homens em cidades, construídas a fim de os proteger das intempéries e tornar a vida mais amena. A troca de experiências levou-os a aspirações ainda maiores, ao êxtase diante da beleza das cores e dos sons, ao surgimento da arte. Recentemente se descobriu o que os arqueólogos consideraram o primeiro instrumento musical: flauta feita a partir do osso de um abutre, e datada, conforme os estudos, de há 35.000 anos.

O homem chegou ao momento mais alto de sua razão na chamada idade axial, que, conforme Karl Jaspers, ocorreu entre o século 8, antes de Cristo e o século 2, de nossa era. O desenvolvimento da inteligência e dos sentimentos de transcendência, naquele milênio, na China, na Índia e no Mediterrâneo, praticamente esgotou o potencial da mente humana. O que marcou o período foi o aprimoramento da linguagem escrita, que transmitiu ao futuro a experiência do passado e incitou o desenvolvimento das idéias. A partir daí, o processo tem sido o polimento de um poliedro translúcido. Sua essência, volume e forma não se alteraram. É como se fosse um depósito de luz, espécie de prisma, que reflete o todo cósmico, para orientar a construção permanente do homem.

A linguagem evoluiu dos primeiros grunhidos, que expressavam o medo, o pedido de socorro, a conquista da fêmea ou do macho, o êxtase diante da beleza de um pássaro, ou a tristeza do luto, até os cantos de Homero, os dramas gregos, as novelas de Cervantes e os poemas de Shakespeare. A civilização é, assim, o processo da evolução da linguagem. Sem a inteligência comum dos grupos, a que chamamos cultura, os sentimentos humanos minguariam, cedendo lugar aos instintivos grunhidos dos hominídeos. Demolir a linguagem é demolir o homem. Quando se trata de política de Estado, é crime contra o povo.

Não surpreende que o Ministério da Educação aceite a iniciativa de professores de português em destruir a bela língua que surgiu no norte da Península Ibérica, a partir do dialeto galego, e cuja expressão literária se deve a prosadores como Fernão Lopes. Além de essa agressão vir desde o governo de Fernando Henrique, ela é coerente com o estiolamento do processo civilizatório, a que estamos assistindo nesta passagem de milênio. Significa a completa falência do estado contemporâneo, aqui e alhures. Muitos dos professores que advogam a anarquia da linguagem – felizmente, não todos - ao estimular a redução das frases a meras aproximações da mensagem, fazem-no, provavelmente, em causa própria. Não conhecendo os mecanismos da sintaxe, da semântica, da morfologia, são incapazes de ensinar. Os pais e avós se espantam com os grosseiros erros de linguagem cometidos por certos mestres.

A língua não é exata. Toda linguagem, dizem os especialistas, é imperfeita. Os idiomas se sujeitam às mudanças da sociedade, mas, dialeticamente, ao enriquecerem, enriquecem seus usuários, e, ao empobrecerem, corroem a cultura e a ética das nações. Essa erosão contribui para o embrutecimento assustador do homem, que se manifesta no envenenamento de moradores de rua nas grandes cidades brasileiras e no pandemônio psíquico de pessoas, como o matador de crianças no Realengo. E se expressa também no terrorismo de Estado.

Quando “especialistas” em educação expõem as teorias mais confusas e pedantemente elaboradas, prenhes de termos técnicos e vazias de significado, cabe ao Estado determinar o retorno às cartilhas de há 60 anos, para o aprendizado da Língua Pátria, em toda a sua riqueza, e à tabuada, base da razão matemática. Só a velha escola pode trazer homens novos ao mundo, capazes de entender o tempo e salvar a espécie da destruição que a ameaça.

Textos como os de “Contos Pátrios”, escritos por bons escritores (como Olavo Bilac e Coelho Neto) deveriam ser adotados. A língua é o fundamento da soberania.

GUERRA E PAZ COM O PARAGUAI

O Paraguai celebra, hoje, 14 de maio, o bicentenário de sua independência. Mas, aos paraguaios foram impostos, desde 1811, tiranos e ditadores. José Gaspar Rodriguez Francia, Carlos Antonio Lopez e Francisco Solano López dominaram o pais durante 60 anos, até a derrota militar diante do Brasil, da Argentina e do Uruguai, na mais sangrenta das guerras continentais, que nos custou imensos sacrifícios em recursos e em sangue. Outros ditadores viriam, entre eles Stroessner, que tiranizou o país durante 31 anos.

Diante da declaração de guerra que nos fez o Paraguai e dos atos hostis que se seguiram, com a agressão a Uruguaiana e a ocupação de território brasileiro no Mato Grosso, não houve escolha. Como todos os conflitos bélicos, o da Tríplice Aliança não se fez só de heroísmo. Infelizmente, com a saída de Caxias, os atos finais da guerra, sob o comando do genro de Pedro II, o francês Conde d’Eu, não nos dignificam: as tropas vitoriosas foram cruéis, principalmente ao degolar os prisioneiros inermes – entre eles, velhos e adolescentes – que estavam com López em Cerro Corá, quando o ditador foi encurralado e morto.

O ressentimento paraguaio é natural, e é natural que façamos o possível a fim de estabelecer relações realmente amistosas com o pequeno país mediterrâneo. Essa atuação, que é de nosso interesse nacional, não pode desfazer os fatos históricos que nos levaram ao conflito. Francisco Solano López, ao contrário de seu pai que criara poderoso exército de dissuasão, para a defesa de uma nação sem mar - cercada de países poderosos, como o Brasil e a Argentina - foi contaminado pela febre da arrogância, e supôs que seria capaz de vencer os vizinhos. Não mediu o potencial da Tríplice Aliança. Poderíamos ter sido mais exigentes com o Paraguai, nas negociações de paz.

Foi, no entanto, um erro estratégico construir a represa de Itaipu no paralelo em que ela se encontra. A idéia anterior era a de levantá-la bem ao norte, nos Saltos de Guairá, em território plenamente brasileiro. É certo que o represamento das águas do Paraná atingiria território paraguaio, mas era do projeto indenização ao vizinho pelo uso da área. O governo militar, porém, com seus planos geopolíticos no Cone Sul, agiram de outra forma.

A decisão brasileira de triplicar a remuneração do Paraguai pela energia que não usam é entendível, embora mereça alguma preocupação. Mas é preciso, também, que incentivemos os paraguaios a desenvolver seu país, e isso significa que suas elites devem reduzir as brutais diferenças entre ricos e pobres – muito maiores do que as que nos atingem. Não podemos, tampouco, considerar o Paraguai como o vizinho necessitado, que depende da caridade alheia. Ao respeitar a sua soberania - como respeitamos a dos demais vizinhos - devemos tratá-lo com igualdade, sem renunciar aos nossos direitos. É também de nosso dever exigir que não nos atirem às costas, como fazem alguns de seus jornalistas e políticos, a responsabilidade única por uma guerra que seus antepassados deflagraram, confiantes de que a ganhariam.

O ressentimento histórico dos paraguaios não pode ir ao ponto de ofender homens honrados de nosso país, como fez o ABC-Color, ao acusar o Senador Itamar Franco de usar “argumentos com que os nostálgicos do Império Brasileiro, porta-vozes da ditadura” humilharam o povo paraguaio. Itamar, como é de seu direito, manifestou-se contra o aumento do preço que pagamos pela energia que o Paraguai não utiliza. Além dos argumentos matemáticos, Itamar estranha o fato de que as contas da Itaipu-Binacional, desde que foi constituída, não são fiscalizadas pelo governo brasileiro, nem pelo TCU.

A aprovação das notas reversais pelo Senado não impede a necessária fiscalização, pelos governos brasileiro e paraguaio, sobre as atividades da empresa.

13 de mai de 2011

MURALHAS NO MAR

Desde a destruição de Cartago, a Europa e a África se confrontam. Esse conflito se tornou mais grave em nosso tempo, em conseqüência da crueldade do colonialismo iniciado com as grandes navegações portuguesas. De acordo com os paleoantropólogos, a civilização tem sido o resultado de continuo Weltwanderung, peregrinação global dos seres humanos, a partir da África. Em tempo sem estados nacionais, e, assim, sem fronteiras políticas, essa caminhada se fazia livremente em terra firme e em embarcações primitivas.

Foi caminhando que a espécie se disseminou pelo planeta. Como todos os seres vivos, os homens se adaptaram ao meio, e a cor da pele variou com a latitude, de acordo com a luz solar. Da mesma forma, mudaram de cor os olhos e os cabelos. As razões da sobrevivência se encarregaram de criar as comunidades políticas que, das tribos, evoluíram para os grandes estados nacionais.

Para a maldição do homem, o que era acidental – a aparência física e o desenvolvimento tecnológico exigido pelas condições climáticas – passou a ser visto como essencial. É assim que se explica a distorção da lógica e da ética que deu origem ao racismo. Os gregos e romanos, provavelmente mais lúcidos, não viam os negros e mestiços como inferiores. A escravidão, fenômeno político e econômico, seguia outros critérios. Da mesma forma em que atuavam os europeus, agiam os africanos. As tribos e reinos do continente negro praticavam a escravidão desde tempos imemoriais, e foram responsáveis pelo ato inicial do tráfico, ao capturar os inimigos e vende-los aos mercadores brancos.

Como a História é movimento dialético, a desapiedada exploração da África e a conseqüente prosperidade dos paises colonizadores trazem hoje a impetuosa migração do sul para o norte. Esse movimento, de resto irreprimível, assusta os europeus, que não querem dividir com ninguém o seu bem-estar. “Aqui no cabemos todos” – resumiu a senhora Alicia Sánchez-Camacho, da direita catalã, em fevereiro de 2009, a fim de exigir o endurecimento da política imigratória. Se há um país que não pode falar em raça e em pureza étnica é exatamente a Espanha, esquina dos três grandes continentes históricos, cujos povos (no plural, acentue-se) ali chegaram de todas as procedências – a começar pelos africanos cartagineses, que a colonizaram em tempos pré-romanos. Os únicos senhores imemoriais de sua geografia são os bascos, cuja nacionalidade é repelida pelo governo de Madri.

Em outra manifestação da dialética histórica, cresce a desesperada fuga de norte-africanos (sobretudo da Tunísia e da Líbia), pelo Mediterrâneo. Os mesmos europeus que incentivaram os conflitos políticos nos países muçulmanos, porque isso lhes interessava, buscam agora impedir a chegada dos que se refugiam da violência e da morte. É assim que se explicam os entendimentos entre a Itália e a França para conter o fluxo migratório e a decisão da Dinamarca, tomada ontem, de restabelecer os seus controles fronteiriços intra-europeus, rompendo oficialmente o Tratado de Schengen, que permite a qualquer estrangeiro, admitido em um dos paises signatários, possa transitar livremente pelos outros.

Depois de tantos muros erguidos em terra firme, como o que separa a América dos pobres da América dos ricos, ao longo da fronteira estabelecida depois do roubo do território mexicano pelos Estados Unidos, e da divisão da Palestina pelo maciço de concreto, tentam, agora, erguer inúteis muralhas no mar. Fingem não entender que a fronteira real não é entre continentes e países: é entre ricos e pobres. A miséria e a justa esperança de viver com dignidade continuarão a empurrar os pobres rumo ao norte. E os que são mais fortes hoje poderão ser os mais débeis amanhã. Uma das evidências históricas da dialética é a de que a quantidade, no momento certo, se transforma em qualidade.

A CRUZADA AMERICANA E AS LIÇÕES DE NUREMBERG.

Os filhos de bin Laden – conforme pronunciamento publicado ontem – acusam os Estados Unidos de terem violado os princípios imemoriais de justiça, como os do devido processo legal, ao assassinarem o chefe da família em Abottabad. De forma clara, eles reclamam das Nações Unidas investigação sobre os fatos, e admitem levar o caso à Corte Internacional de Justiça. Um grupo de advogados britânicos já foi contatado.

Eles argumentam que sempre estiveram contra os atos de seu pai e, tal como os condenavam, condenam hoje o assassinato de um homem desarmado, que poderia ter sido preso vivo e submetido, como tantos outros, a um julgamento legal.

A idéia é clara: se o presidente Obama violou os princípios assumidos pela comunidade internacional e pela consciência do homem, tal como outros os violaram, e foram submetidos a julgamento, ele deverá ter o mesmo tratamento. É certo que isso não ocorrerá. Desde que o mundo existe, só são realmente punidos pelos tribunais os eventualmente mais débeis. O grande intelectual católico e resistente francês François de Menthon, procurador da França no Tribunal de Nuremberg, pronunciou duas frases marcantes sobre aquele momento. Em uma delas, ele define o que é o crime contra a humanidade: “crime contre le statut d’être humain, motivé par une ideologie qui est contre l’espirit, visant a rejeter l’humanité dans la barbarie”. A definição terá servido, naquele momento, mas sempre temos dificuldade em definir que ideologia é contra o espírito e visa a reconduzir a humanidade à barbárie. Como cada um de nós tem sua ideologia, é normal que defendamos a nossa e rejeitemos a que se contrapõe. A outra frase de Menthon é mais incisiva como ajuda ao raciocínio. Quando todos sorriam diante da estupidez dos lemas e idéias nazistas, o francês comentou, com lúcido ceticismo: “Nós consideramos ridículos tais slogans, mas, se eles houvessem vencido a guerra, nós os estaríamos repetindo, e, em alguns casos, com entusiasmo”.

É com entusiasmo que muitos repetem os argumentos de Washington, que se resumem a um só: dispondo de força suficiente para impor a democracia made in United States e a sua peculiar exegese dos Human Rights, o governo de Obama agiu corretamente, ao invadir um país estrangeiro, ali matar algumas pessoas desarmadas, seqüestrar um cadáver que devia ser sepultado pelos familiares, e ameaçar, veladamente, países soberanos e outros inimigos, de agir da mesma forma, se assim considerar necessário. É com esse entusiasmo que têm reagido, em sua maioria, os veículos de comunicação do mundo e alguns homens de Estado e dos meios acadêmicos.

Não têm faltado, desde o Iluminismo, os que profetizam nova barbárie para o homem. Essa barbárie se fundaria na aplicação tecnológica das descobertas da ciência e do mito da eficiência e do progresso. Essa visão profética e triste, que teve sua formulação admirável em Vico, quase se realizou sob o nazismo, com sua organização bélica e administrativa próxima da perfeição, de que foram exemplos os campos de concentração. E já que falamos em Nuremberg, o substituto de François de Menthon na parte final do julgamento, Champetier de Ribes, foi preciso em seu pronunciamento final:

“O historiador do futuro, como o cronista de hoje, saberá que a obra de vinte séculos de uma civilização que se acreditava eterna escapou de desabar no retorno de uma nova forma da antiga barbárie, mais selvagem, por ser mais científica”.

Ainda não escapamos da barbárie que nos ameaçam o “pensamento único” e a arrogância de uma nação que se considera senhora da civilização ocidental, com a cumplicidade de seus grandes e pequenos vassalos. Diante disso, só a reação dos homens e mulheres do mundo (no que de humano ainda nos resta) poderá salvar o melhor da nossa experiência histórica.

10 de mai de 2011

AS LAGARTAS DE BARRO E OS CUIDADOS NA FABRICAÇÃO DE ARMAMENTOS.

Enquanto na Europa e no restante dos BRICS a fabricação de armamentos é assunto tão estratégico que está sob controle majoritariamente estatal, como é o caso da Navantia espanhola, da Finmecanica italiana e da EADS, no Brasil estamos cometendo o erro de fazer grandes encomendas de armamento (vide os novos carros anfíbios e helicópteros do exército) para empresas privadas sob controle estrangeiro, como é o caso da IVECO e da Helibras. No caso da IVECO, a situação é ainda mais grave, na medida em que o desenho do carro anfíbio Guarani foi desenvolvido pelo exército brasileiro, e dará origem a um produto que poderá ser vendido por essa empresa em qualquer lugar do mundo, e que aqui terá um baixíssimo índice de valor agregado nacional. Se houver uma guerra, e nossa frota de carros anfíbios e de helicópteros for destruída em combate, o que vamos fazer? Procurar as embaixadas italiana e francesa para mendigar peças que nos permitam fabricar mais alguns anfíbios e helicópteros para as nossas frentes de batalha? Rezar para que os navios e aviões que estiverem trazendo essas peças para o Brasil não sejam afundados ou derrubados por nossos inimigos antes de chegar às nossas costas? E se a guerra for contra o país de origem do nosso "fornecedor" de armamentos?Como os argentinos aprenderam - a duras penas - na Guerra das Malvinas, quando os norte-americanos e europeus os deixaram, literalmente, de calças na mão, depender de armamento e peças alheias é o mesmo que construir tanques com lagartas de barro. Já passou da hora de montar – como é comum na China, na Europa, na Rússia, na Índia - uma grande empresa estatal de armamentos, ou, melhor, três grandes estatais de desenvolvimento e fabricação de armas, uma para cada uma de nossas Forças, ligadas às suas respectivas estruturas de pesquisa. Dinheiro para isso não falta. O país tem 328 bilhões de dólares em reservas internacionais. E não venham me dizer que não temos tecnologia para isso, como fizeram antes de entregar o nosso mercado de telefonia celular para portugueses, espanhóis e italianos, que no quesito telecomunicações são excelentes fabricantes de bacalhau, spaghetti e azeitonas. Tecnologia se compra e se impõe o seu repasse sob pena de não participação no mercado. Com a exigência de 100% de conteúdo nacional – absolutamente imprescindível em caso de guerra - e de controle direto do governo Federal sobre a empresa e suas instalações. A Estratégia Nacional de Defesa do governo Lula representou um passo crucial para a recuperação de nossa capacidade bélica, depois do abjeto abandono de nossas Forças Armadas durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas ao contrário do que já aconteceu com a compra dos submarinos franceses, e com a encomenda do Ministério da Defesa de sistemas de comunicação via satélite para uma empresa espanhola, a INDRA, não se pode delegar a estranhos a defesa de nossa própria casa. Fabricação de armamento tem que ser controlada pelo Estado, com participação minoritária de capital nacional, e apenas simbólica, de capital estrangeiro. É isso que eles fazem em países como a Espanha e a Itália, mas, naturalmente, é justamente isso que eles não querem que nós façamos aqui mesmo, no nosso próprio País.

7 de mai de 2011

A MENTIRA E O MEDO

Há uma inquieta passagem de Goethe, em sua conhecida reconstrução da tragédia de Eurípedes, Efigênia em Tauris, que serve de ponto de reflexão sobre o nosso tempo, entre todos os outros tempos.

Tendo sido salva da morte e vivendo em Tauris, Efigênia consegue proteger seu irmão Orestes. No texto de Goethe, ela maldiz a mentira, ao afirmar que a mentira não liberta o coração, não consola, e sim aporta a angústia. A passagem é citada por Aléxis Philonenko, em seu exaustivo estudo sobre os matadores e as várias manifestações do assassinato. Nas guerras, como instrumento de poder, ou de submissão de outros povos, e de saqueio, o ato de matar é mais horripilante e se camufla em falsa razão de estado. Os mandantes transferem, assim, sua culpa à comunidade nacional, mesmo quando agem contra o próprio povo. É o que ocorre com os golpistas e déspotas em todos os tempos e lugares.

Goethe escreveu sua peça aos 29 anos, dez anos antes da grande tempestade de violência política, que foi a Revolução Francesa. Mas não faltaram a ele os exemplos do passado, os grandes conflitos internacionais e as fortes tragédias, como as do fim da República Romana, da Idade Média e do Renascimento.O aspirante ao poder absoluto deverá arrancar seu coração, no obsessivo projeto de ser visto como herói, é o que, em suma, diz o grande escritor alemão, citado por Philonenko.

Há momentos em que, na necessidade da defesa de seu território, violado por tropas estrangeiras, o dirigente terá que optar pela guerra. Essa atitude é bem distinta da concepção da guerra pré-emptiva, doutrina cínica que assustou a consciência ética do mundo. Nesse, e em movimentos semelhantes, a mentira prevalece, a fim de dissimular o crime, para exibi-lo como virtude, no interesse do dirigente e no interesse daqueles que o aconselham. Um líder político não é, ao contrário do que muitos supõem, homem só, que decide apenas com a própria consciência. Ele é conduzido pelos interesses que o construíram, pelas idéias que o orientaram, pelas contingências do cotidiano. Ele é orientado pela mentira, que ele, com a consciência de seus compromissos, ou com a volúpia do poder (quase sempre) assume e, em conseqüência, age. O pior é que a mentira passa a ser a verdade conveniente, mesmo sendo identificada em sua natureza infame.

Há momentos em que grande parte do povo se submete, pela aceitação do mal ou pela covardia, à mentira de seus dirigentes, como ocorreu durante o nazismo, o fascismo, o stalinismo, o franquismo. E como ocorreu aos Estados Unidos, nas guerras contra o México, a Espanha, o Vietnã – além dos golpes sucessivos em nosso continente, na África e na Ásia. Foi com a mentira que Stalin determinou a purga do partido, nos processos de 1938; foi com a mentira que Hitler decidiu pela extinção dos judeus, eslavos, ciganos e mestiços, além dos socialistas e comunistas, a partir da mentira maior, de que participam até hoje algumas de suas vítimas: a de que há raças humanas. E foi a partir de mentiras sucessivas que os Estados Unidos construíram seu poderio. Como advertia a Efigênia de Goethe, desgraçada da mentira, porque não pode trazer o consolo, mas, sim, a angústia, e o pânico que se esconde sob outras ilusões, entre elas a da invencibilidade.

Os agressores, sabendo que mentem, estarão sempre sob a fria lâmina do terror da vingança. Como diria César, estão condenados, pelo medo, a morrer todos os dias.