26 de out de 2011

O ESPORTE E O PODER

Como quase todas as atividades sociais, os esportes - e, principalmente, o futebol - passaram a ser administrados pelas razões do capitalismo, e se tornaram um dos maiores negócios do mundo. A FIFA não é, e faz tempo, uma associação mundial de federações nacionais de futebol, mas o centro de um oligopólio internacional dessa modalidade do show-business. Os velhos e tradicionais clubes, ricos uns, pobres outros, não pertencem mais aos milhares de associados. Eles decidiam, em eleições periódicas, quais deles deveriam encarregar-se da direção das entidades, da administração do patrimônio, da escolha dos técnicos e da contratação de jogadores. Hoje, no mundo inteiro, quase todos os clubes têm dono. Quando não o têm diretamente, subordinam-se a contratos de patrocínio e de publicidade que expulsam das decisões os torcedores.

Devemos partir dessa constatação para tratar dos problemas que a Presidente Dilma Roussef está enfrentando, diante das denúncias de corrupção contra o Ministério dos Esportes. Em um negócio bilionário, como é o da realização de um campeonato mundial de futebol, todas as cautelas são poucas. Uma vez que assumimos o compromisso de sediar a Copa, temos que tratar seriamente do assunto, e é preciso que uma força de trabalho, excepcional, e interministerial, cuide das providências governamentais, e atue com firmeza, na defesa de nossa soberania, da segurança do evento, e da lisura de todos os procedimentos que envolvam o dinheiro público. É uma situação excepcional que exige tratamento excepcional.

Se o Ministro dos Esportes é responsável por algum desvio de conduta ética, cabe às autoridades apurar os fatos e, assim fazendo, levar o caso aos tribunais – depois de afastar o suspeito do cargo. Razão tem a presidente: ela não pode atuar sob a imposição das acusações, sem que essas denúncias sejam realmente comprovadas - ou se fundem em evidências convincentes. Ela agiu assim em todos os casos ocorridos em seu governo de dez meses. Atuou dessa forma diante das denúncias contra o Chefe de sua Casa Civil, um dos próceres do maior partido de sustentação do governo. Deu-lhe todas as oportunidades para desmentir os fatos. Infelizmente, seus argumentos não sensibilizaram a opinião pública, porque confessaram o inadmissível, que ele se enriquecera em pouco tempo, prestando consultoria a firmas que deviam ser mantidas em segredo. Se o Ministro fora vítima de fogo amigo, de que há indícios fortes, isso não interessa ao país. Na defesa do Estado, a presidente agiu com firmeza, e o demitiu. Os outros casos foram tratados da mesma forma: os acusados dispuseram de tempo para desmentir as denúncias; não o fazendo, foram compelidos a afastar-se. Com o Ministro Nelson Jobim os motivos foram outros, e ela, na defesa do governo e de sua autoridade como Chefe de Estado, não hesitou em afastá-lo.

Há quem, pela imprensa e pela internet, conceda mais força ao Ministro dos Esportes pelo fato de ter sido secretário geral de Agnelo Queiroz - então seu colega de partido - que ocupava o cargo. Como Agnelo entrou para o PT e se elegeu governador do Distrito Federal, o Ministro Orlando Silva estaria blindado. Ora essa blindagem é tênue. Muito mais blindado, se aceitamos a metáfora, se encontrava o Ministro Antonio Palocci. O cargo de governador do Distrito Federal não absolve ninguém de erros passados, se erros houve no caso, nem dá ao titular o poder de arbitrar o comportamento da presidente da República.

A Presidente Dilma Roussef, ao contrário do que previam alguns de seus adversários, está demonstrando invulgares virtudes políticas. Ela tem sido paciente, mas firme; mantém o natural respeito e amizade para com o seu antecessor, o Presidente Lula, mas isso não a impede de governar com autonomia – a autonomia que lhe foi conferida pelo voto popular. E é à Nação de brasileiros que ela tem que prestar contas, dia a dia, até que passe a faixa a seu sucessor, ou sucessora. o envolvendo o Ministdas denesidente Dilma Roussef est

Imposição do famoso Consenso de Washington, o tal “terceiro setor”, constituído de organizações não governamentais, tem sido, em alguns casos, além de perigosa inserção estrangeira nos assuntos nacionais, ao assumir prerrogativas do Estado, sem a legitimidade do voto, mas com recursos do orçamento, um espaço ideal para o desvio de recursos públicos.

É necessário dar um fim a essas organizações, criadas a partir do fundamentalismo mercantil, da globalização, do neoliberalismo. O Estado não pode delegar sua responsabilidade a terceiros, colocando em risco a governabilidade e a imagem da nação.

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http://sitedeesportes.com/?p=2132

A QUEBRA DA ESPANHA E O RISCO SANTANDER

A imprensa internacional informa que o Banco Santander, do Sr. Emílio Botin - acusado, entre outros processos, com a cumplicidade de alguns familiares, de evasão de divisas e de manter, desde o franquismo, contas secretas na Suiça - está sob investigação das autoridades inglesas por ter efetuado empréstimos, não divulgados, de sua filial britânica à matriz espanhola.

Como o país de Cervantes está em crise profunda, a suspeita dos ingleses é a de que Botín esteja transferindo dinheiro de suas filiais do resto do mundo para a Espanha, mediante “empréstimos” intergrupo. Uma eventual quebra da matriz provocará a falência de suas filiais externas.

Embora Botin negue que isso ocorra e que “cada filial é responsável por sua capitalização e suas necessidades de financiamento”, descobriu-se que, nos últimos anos, milhões de euros foram transferidos do Santander da Grã Bretanha para a matriz espanhola, por meio de uma “divisão” pouco conhecida da filial inglesa, a Abbey National Treasury Services.

Os documentos mostram que a filial do Reino Unido “emprestou” mais de dois bilhões de libras esterlinas, o equivalente a dois bilhões e trezentos milhões de euros, à matriz espanhola, e que existem acordos de “financiamento” entre o Santander da Espanha e as filiais do grupo no Brasil e nos Estados Unidos.

Esse quadro é descrito por um analista do UBS AG, Alastair Ryan. Em entrevista ao Wall Street Journal, ele afirma ter havido significativo volume de livre movimento de capitais no interior do Santander recentemente.

Maiores informações sobre esse aspecto da atuação do Banco do Sr. Emilio Botín podem ser obtidas pela área de fiscalização do Banco Central do Brasil, junto à FSA (Financial Services Authority) inglesa.

Foi esse tipo de gente que deixaram entrar no Brasil na época do PROER.

Sequência atualizada deste tema, neste blog:

http://www.maurosantayana.com/2012/06/quebra-da-espanha-e-o-risco-santander-2.html

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http://blogln.ning.com/profiles/blogs/a-quebra-da-espanha-e-o-risco-santander-mauro-santayana?xg_source=activity

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24 de out de 2011

A ALIANÇA EBX – FOXCONN. APLICAR O DINHEIRO DAS COMMODITIES TAMBÉM NA INDÚSTRIA DE DEFESA, EIS O X DA QUESTÃO.

Boa notícia que o Sr. Eike Batista, da EBX, esteja estudando associar-se aos chineses da Foxconn para a produção de eletro-eletrônicos de primeira linha como tablets, no Brasil. Seria importante que outras empresas de capital nacional que lucram com a exportação de produtos primários, como a Vale, também aplicassem parte de seus lucros na fabricação de produtos de alto valor agregado, entrando em outras áreas, como é o caso da indústria bélica.

O fato de não termos grandes grupos nacionais, com poder de alavancagem de bilhões de dólares na indústria bélica, nem um grande complexo industrial estatal no setor, nos leva a determinados absurdos, como é o caso de não se exigir, por exemplo, mais de que 65% de nacionalização na fabricação dos 2000 blindados encomendados à IVECO.

Isso quer dizer que, em caso de guerra, quando nosso material começar a ser destruído na linha de frente, vamos ter que ir a Roma ou a Turim mendigar peças de reposição para nossas linhas de montagem, e levar na cara um tremendo não, redondo, caso o inimigo que estejamos combatendo seja um país ocidental.

O grupo Cassidian, da EADS, a grande empresa de defesa européia, está anunciando com grande estardalhaço na imprensa estrangeira sua entrada no mercado brasileiro para “cooperar” com nossa indústria de defesa.

Nossos militares tem que entender, apesar de sua formação ancestral em escolas como a francesa e depois a norte-americana, que o Ocidente, na hora de agir contra paises sul-americanos, não fará nenhuma diferença, como aconteceu com a Argentina na Guerra das Malvinas, entre o Brasil, uma Libia ou o Afeganistao.

Em nome da contenção da expansão do Brasil sobre o Atlântico Sul, por causa do pré-sal, ou da “defesa” da natureza na Amazônia, pode se montar uma coalizão entre países europeus e os Estados Unidos, para agir ao arrepio da ONU, de um dia para o outro, com a mesma facilidade com que se montou a agressão contra o Iraque.

Para isso, como aconteceu com as famosas “armas de destruição em massa”, que nunca apareceram, basta uma campanha midiática, como as diversas que já estão em andamento – e que podem ser facilmente intensificadas – como é o caso da que se opõe à construção de Belo Monte, por exemplo.

No campo da defesa, o Brasil tem que se esquecer de países como a França e a Itália, que sempre, no frigir dos ovos, vão ficar do lado da Inglaterra e dos Estados Unidos, e desenvolver suas novas gerações de armamento com o BRICS.

Rússia, Índia e China, devido à distancia geográfica que mantêm com relação ao Brasil e ao fato de terem de cuidar – mesmo no caso da África do Sul - de suas própria áreas de influência - dificilmente irão entrar em guerra contra o Brasil.

Temos que desenvolver, com eles, um novo caça-bombardeio para o BRICS, um novo blindado pesado para o BRICS, um novo helicóptero de assalto para o BRICS, uma nova geração de submarinos nucleares para o BRICS, um novo porta-aviões para o BRICS, novos mísseis ar-ar, terra-ar, e de cruzeiro, para o BRICS, e com eles trabalhar na pesquisa de armas revolucionárias, na fronteira do conhecimento, como as munições cinéticas que estão sendo desenvolvidas pelos Estados Unidos para a sua marinha, por exemplo.

Apesar dos sorrisinhos e dos tapinhas nas costas nos encontros multilaterais, nos “cursos” de aperfeiçoamento ou nos coquetéis dos adidos militares em Brasília – quantas vezes os generais de Khadafi ou de Saddam não foram afagados por esses mesmos mimos? - o pessoal de nossas Forças Armadas precisa entender que o Brasil só poderia se aliar ao Ocidente se pelo Ocidente fosse tratado como igual entre seus pares.

Basta entrar na internet e ver os comentários pejorativos, discriminatórios, eivados de preconceito e de ignorância com que o Brasil é brindado todos os dias e a propósito de qualquer assunto por parte de norte-americanos, italianos, franceses ou ingleses, e até mesmo de seus sócios menores, como os portugueses ou os espanhóis, para ver que isso não tem a menor chance de acontecer.

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http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/carlosferreira/2011/11/01/alianca-ebx-%E2%80%93-foxconn-aplicar-dinheiro-das-commodities-tambem-na-industria-de-defesa-eis-da-questao/

http://grupobeatrice.blogspot.com/2011/10/no-campo-da-defesa-o-brasil-tem-que-se.html

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PRIVATIZAÇÃO DOS AEROPORTOS. DEVAGAR COM O ANDOR QUE O SANTO É DE BARRO.

Os aeroportuários da INFRAERO estão de parabéns com a vitória alcançada graças à greve de advertência contra a privatização dos aeroportos da forma como ela vem sendo conduzida até agora.

Se, no passado, essa tática tivesse sido adotada no caso da TELEBRAS, e de empresas como a ELETROPAULO, vendida aos gringos da AES com financiamento do próprio BNDES, e com dezenas de milhões de reais em caixa, não teríamos vivido o maior processo de desnacionalização da economia em 500 anos de história, e não estaríamos, agora, às voltas com problemas no balanço de pagamentos, devido ao envio de bilhões e bilhões de dólares para o exterior, todos os trimestres, sob a forma de remessa de lucro de multinacionais que aqui entraram naquele momento.

Não se pode permitir que o BNDES empreste dinheiro a juros subsidiados para que empresas estrangeiras venham a controlar, com a maioria das ações, os nossos aeroportos. Primeiro, por uma questão de segurança. Aeroporto é ponto de entrada e de saída, de pessoas e de coisas, como agentes a serviço de governos estrangeiros, terras raras ou biopirataria. E, em segundo lugar, porque se for para trabalhar com dinheiro do BNDES, nós não precisamos de estrangeiros. Está cheio de empresa estrangeira mandando dividendos para seus acionistas no exterior - a Vivo está fazendo isso com 80% dos lucros obtidos no Brasil, e pegando dinheiro nosso, a custo subsidiado, na hora de fazer algum investimento. – nós entramos com o risco e eles levam embora o dinheiro.

Depois de anos sem aumento, a INFRAERO está reajustando, pela primeira vez, os aluguéis das lojas e dos espaços públicos nos principais aeroportos brasileiros. Quer dizer, como fizeram com as tarifas telefônicas, que tiveram substanciais aumentos antes da privatização nos anos 90, estão engordando a galinha antes de entregar para a raposa.

A privatização dos aeroportos, se vier a ocorrer, tem que ser feita com a parte privada estrangeira trazendo o seu próprio dinheiro, ou, se for o caso, know-how, mas com, no mínimo, 51% das ações em mãos da INFRAERO.

Ou vamos correr o risco de ter funcionários públicos federais, que representam o Estado Brasileiro, recebendo ordens, e sendo comandados, diante de estrangeiros, por outros cidadãos estrangeiros.


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http://www.planetaosasco.com/oeste/index.php?/2011102524018/Nosso-pais/mauro-santayana-devagar-com-o-andor-que-o-santo-e-de-barro.html

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mauro-santayana-devagar-com-o-andor-que-o-santo-e-de-barro.html

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http://www.horadopovo.com.br/2011/10Out/3005-28-10-2011/P3/pag3e.htm

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22 de out de 2011

CHEGA DE SANGUE.

Diante da imagem de Kadafi trucidado, e dos aplausos de Mrs. Clinton e de dirigentes franceses, ao ver o homem seminu e ensangüentado, recorro a um testemunho indireto de Henri Beyle - o grande Stendhal, autor de Le Rouge e le Noir - de um episódio de seu tempo. Beyle foi oficial de cavalaria e secretariou Napoleão por algum tempo. Em 1816, em Milão, Beyle ficou conhecendo dois viajantes ingleses, o poeta Lord Byron e o jovem deputado whig John Hobhouse. Coube a Hobhouse relatar o encontro, no qual Beyle impressionou a todos os circunstantes, narrando fatos da vida de Napoleão. São vários, mas o que nos interessa ocorreu logo depois da volta do general a Paris, em seguida à derrota em Moscou. Durante uma reunião do Conselho de Estado, da qual Beyle foi o relator, descobriu-se que Talleyrand havia escrito três cartas a Luís de Bourbon, que restauraria, dois anos mais tarde, o trono. As cartas, que se iniciavam com o reconhecimento de vassalagem, no uso do pronome “Sire”, revelavam que o bispo já conspirava contra o Imperador. Os membros do Conselho decidiram que Talleyrand devia ser castigado com rigor – ou seja, condenado à morte. Só um homem, e com a autoridade de “arquichanceler” do Império, Cambacérès, se opôs, com voz firme: Comment? toujours de sang? Napoleão, que estava deprimido com as cenas de seus soldados mortos no campo de batalha, ficou em silêncio.

O sangue que se verteu no século passado devia ter bastado, mas não bastou. Iniciamos este novo milênio com muito sangue e a promessa de novas carnificinas. O cinismo dos que exultam agora com a morte de Kadafi, ao que tudo indica linchado pelos seus inimigos, após a captura, dá engulhos aos homens justos. Os que levaram a ONU a aprovar os bombardeios brutais da OTAN contra a população líbia haviam sido, até pouco tempo antes, parceiros do coronel na exploração de seu petróleo, indiferentes a que houvesse ou não liberdade naquele país. Mas Kadafi não era apenas o ditador megalômano, que vivia no luxo de seus palácios e que promovia festas suntuosas para o jet-set internacional. Ele fizera radical redistribuição de renda em seu país, mediante uma política social exemplar, com a criação de universidades gratuitas, a construção de hospitais modernos e com a assistência à saúde universal e gratuita. Quanto à repressão, ele não foi muito diferente da Arábia Saudita e de outros governos da região, e foi muito menos obscurantista para com as mulheres do que os sauditas.

Apesar das cenas horripilantes de Sirte, que fazem lembrar as de Saddam Hussein aprisionado e, mais tarde, enforcado, além das usuais que chegam da África, há sinais de que os homens começam a sentir nojo de tanto sangue. É alentador, apesar de tudo, que o governo de Israel tenha aceitado acordo com os palestinos, para a troca de prisioneiros. É também alentador que os bascos hajam renunciado à luta armada e preferido o combate político em busca de sua independência. E é bom ver as multidões reunidas, em paz, em todos os paises do mundo, contra os ladrões do sistema financeiro internacional – não obstante a violência, de iniciativa de agentes provocadores, como ocorreu em Roma,e a costumeira brutalidade policial, na Grécia, na Grã Bretanha e nos Estados Unidos.

Há, sem dúvida, os que sentem a volúpia do cheiro de sangue, associado à voracidade do saqueio. A reação atual dos povos provavelmente interrompa essa ânsia predadora dessas elites européias e norte-americanas – exasperadas pela maior crise econômica dos últimos oitenta anos e ávidas de garantir-se o suprimento de energia de que necessitam e a preços aviltados.

É preciso estancar a sangueira. O fato de que sempre tenha havido guerras não significa que devemos aceitá-las entre as nações e entre facções políticas internas. Como mostra a História, o recurso às armas tem sido iniciativa dos mais fortes, e diante dele só cabe a resistência, com todos os sacrifícios.

No fundo das disputas há sempre os grandes interesses econômicos, que se nutrem do trabalho semi-escravo dos povos periféricos, como se nutriram grandes firmas alemãs, ao usar judeus, eslavos e comunistas, como escravos, em aliança com Hitler.

A frase é um lugar comum, mas só o óbvio é portador da razão: os que trabalham e sofrem só querem a paz, para que usufruam da vida com seus amigos, seus vizinhos, suas famílias.

O odor do sangue é semelhante ao odor do dinheiro, e excita os assassinos para que trucidem e se rejubilem com a morte – como se rejubilaram ontem, diante do corpo humilhado de Kadafi, a Secretária de Estado dos Estados Unidos e os arrogantes franceses. Há três dias, em Trípoli, a senhora Clinton disse a estudantes líbios, que esperava que Kadafi fosse logo capturado ou morto. Nem Condoleeza Rice, nem Madeleine Albright seriam capazes de tamanho desprezo pelos direitos de qualquer homem a um julgamento justo. Esse direito lhe foi negado pelas hordas excitadas por Washington e Paris, com a cumplicidade das Nações Unidas - e garantidas pelas armas da OTAN.

Não que Kadafi tenha sido santo: era um homem insano, e tão insano que acreditou, realmente, que os americanos, italianos e franceses, quando o lisonjeavam, estavam sendo sinceros.


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http://umpovoarasca.blogs.sapo.pt/459734.html

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19 de out de 2011

OU CAEM OS JUROS OU VOLTAMOS AO ATRASO.

O Brasil registra uma das mais fortes tendências de desaceleração econômica entre os principais países desenvolvidos e emergentes, segundo relatório mensal da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O chamado Indicador Composto Avançado (ICA) da OCDE aponta as tendências econômicas para os próximos seis meses. Pelo quinto mês consecutivo, o Brasil ficou abaixo do nível de 100 pontos, utilizado como referência para classificar a atividade econômica. Os países que sofreram queda em relação ao último estudo e ficaram abaixo de 100 pontos recebem a classificação de "desaceleração".

É preciso ver se a opinião da OCDE, organização tão ao gosto dos nossos “analistas” e do “mercado”, será levada em consideração na próxima reunião do COPOM - na hora de reduzir a taxa SELIC e não dar atenção às críticas dos abutres de plantão.

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O BNDES ABRE A BOLSA PARA OS ESPANHÓIS DA VIVO. E SE FOSSE A TELEBRAS?

O BNDES aprovou um empréstimo de 3 bilhões de reais à VIVO, para expansão da rede e telefonia 3G. O dinheiro seria para reduzir a dependência de terceiros com relação a backbone, um novo centro de dados, e à ampliação da rede de 2G e 3G, para cobrir 85% do território nacional até 2013.

Esse tipo de operação ajuda um grupo estrangeiro que está mandando bilhões de dólares como remessa de lucro ao exterior. Esse dinheiro, além de remunerar acionistas na Espanha e impedir a quebra da matriz, serve para fechar a boca de quem, dentro e fora do Brasil, acusa o governo de usar o Banco para “interferir no ambiente econômico” ou promover “concorrência desleal” quando apóia, ou tenta apoiar, empresas unicamente nacionais, em fusões no Brasil ou em aquisições no exterior.
Imaginem se amanhã o BNDES emprestasse, eventualmente, a mesma quantia para a expansão e consolidação da TELEBRAS, qual não seria o pandemônio em certos setores da imprensa e da opinião “pública” a respeito dessa atitude - e quantos pedidos de esclarecimento não seriam feitos no Congresso – pelos que fingem ignorar esse empréstimo do nosso principal banco de fomento aos espanhóis.
Por essas e por outras, o Estado chinês tem a maior companhia de telecomunicações do mundo, e está comprando empresas no exterior, enquanto nós pagamos as maiores tarifas de telefonia e banda larga do planeta, por obra e graça do irresponsável desmonte, esquartejamento e desnacionalização da telefonia nacional nos anos 1990.

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16 de out de 2011

PÂNICO EM WASHINGTON

Ao morrer anos antes, Guimarães Rosa perdeu outro tema que a realidade dos sertões mineiros poderia ter oferecido à sua ficção: a da enlouquecida matança de inocentes por alguém acossado pelo medo de inimigos imaginários.

Durante alguns anos, um rico fazendeiro de Curvelo – cidade próxima a Cordisburgo, terra do escritor – manteve pequeno e eficiente grupo de pistoleiros, aos quais encarregava de identificar e matar suspeitos de tramar a sua morte. Os pistoleiros, que recebiam por empreitada, agiam com esperteza. Quaisquer estranhos que surgissem no município eram logo denunciados ao patrão, que, depois de exame sumário da situação, ordenava o assassinato. Os crimes só foram descobertos muito tempo depois, quando, por acaso, descobriram uma cisterna abandonada no distrito de Andrequicé, onde o fazendeiro tinha terras. Nela, exumaram-se ossos de trinta e seis vítimas. Os fatos foram conhecidos em 1975.

As investigações revelaram o horror: nenhuma das vítimas conhecia, sequer, o fazendeiro amedrontado. Eram caixeiros viajantes; turistas escoteiros, atraídos pelas grutas da região e pela represa de Três Marias, homens nascidos nas redondezas que, vivendo longe, visitavam seus parentes.

Os Estados Unidos, ao que parece, estão sob o meridiano fantástico e assustador de Andrequicé. Eles, nesta quadra, se encontram em situação semelhante. Em seu editorial de ontem, o New York Times expõe as dúvidas sobre o suposto complô iraniano contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington e outros alvos. As acusações são bizarras e inconsistentes, diz o texto. E adverte o jornal que, desacreditados com tudo o que ocorreu com relação ao Iraque – quando os ianques mentiram do princípio ao fim - os altos funcionários do governo norte-americano deveriam ter provas irrefutáveis contra Teerã, antes de denunciar o plano. Como as coisas foram conduzidas - reitera o editorial - o governo está vendendo o que não tem, com impudência ridícula. Desde a guerra de anexação contra o México, no século 19, os Estados Unidos têm mentido e criado incidentes falsos para justificar seus atos de agressão, como fizeram, mais recentemente, no caso do golpe de 1964, no Brasil; no Chile de Allende; na Argentina; na Nicarágua; na Guatemala; em El Salvador; na República Dominicana; no Vietnã - em todos os países do mundo que não têm armas nucleares, e onde têm interesses.

Outro fato que faz lembrar o mandante do sertão mineiro, foi a decisão de Obama de ordenar o assassinato de um cidadão dos Estados Unidos no Iêmen, sem qualquer processo legal. O congressista republicano Ron Paul, declarou que há fundamento legal para um processo de impeachment contra o presidente. Do ponto de vista técnico, trata-se de um assassinato por encomenda. Quanto a seu antecessor, Bush, há um pedido da Anistia Internacional ao governo do Canadá, para que o prenda - quando de sua visita ao país no dia 20 - e o submeta a julgamento por crimes contra a humanidade, por ter ordenado a tortura dos prisioneiros em Guantánamo e em outros lugares.

Convenhamos que não é fácil aceitar o declínio e o administrar com competência. Nisso, os ingleses, experientes e astutos, foram também eficientes, com a invenção da Commonwealth of Nations, o que, pelo menos, deu um pouco mais de fôlego à sua influência política nos domínios mais próximos da cultura européia, como os da Austrália e do Canadá.

Nesse processo de desvario das elites norte-americanas, que já acometeu outros impérios, a lucidez só pode ser imposta pelos próprios nacionais, o que é difícil e demorado, quando está em jogo a supremacia de seu país, mas pode ser inexorável. Tudo vai depender da persistência dos manifestantes e da capacidade que tenham de organizar e ampliar o movimento de resistência política.

É conhecida a tese de alguns historiadores, sobretudo de Toynbee, sobre o fim dos impérios: eles sempre desabam quando há a aliança entre o proletariado interno, o da metrópole, com o proletariado externo, isto é, o das províncias subordinadas. Ao que parece, com as manifestações dos indignados, nos paises centrais e nas antigas colônias, o proletariado do mundo começa a fazer suas alianças, de forma bem diversa da que Marx e Engels pregavam em 1848 - mesmo porque os trabalhadores de nosso tempo são bem diferentes, com a veloz transformação do processo tecnológico de produção dos últimos 60 anos. A articulação desses movimentos poderá surpreender o mundo, se os donos do poder não conseguirem, como já o fizeram antes, apropriar-se da indignação, domá-la e submetê-la aos seus interesses.

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/10/14/o-panico-em-washington/

http://www.vermelho.org.br/pa/noticia.php?id_secao=9&id_noticia=166611

http://correiodobrasil.com.br/mauro-santayana-panico-em-washington/314064/

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13 de out de 2011

AS RAZÕES DO MOVIMENTO

O movimento de protesto nos Estados Unidos teve ontem um dia diferente em Nova Iorque: piquetes de centenas de pessoas se manifestaram às portas de cinco dos maiores milionários de Manhattan, começando pela casa de Rupert Murdoch. Outras residências visitadas foram as dos banqueiros John Paulson, Jamie Dimon, David Koch, e Howard Millstein – todos eles envolvidos nos grandes escândalos de Wall Street, e socorridos por Bush. Os lemas foram os mesmos: que tratassem de devolver o que haviam retirado da economia popular.

A polícia limitou-se a conter, com barreiras, os manifestantes. Mas a mesma coisa não ocorreu em Boston. A polícia municipal atuou com extrema violência durante a madrugada de ontem, atacando, com porretes, dezenas de manifestantes e ferindo dois veteranos de guerra, um deles, de 74 anos, ex-combatente no Vietnã. O “Occupy Together” atingiu mais de 1.200 cidades norte-americanas, em preparação para as grandes concentrações nacionais no próximo sábado, dia 15.

Conforme o jornalista americano David Graeber, em incisivo artigo publicado pelo The Guardian, os jovens, e também homens maduros, vão às ruas nos Estados Unidos em busca de empregos, de boa educação, de paz, é certo, mas querem muito mais do que isso. Eles contestam um sistema que deixou de servir aos homens, para servir apenas aos banqueiros e a um capitalismo anacrônico. “Para que serve o capitalismo?”, é uma de suas perguntas. Eles contestam um sistema baseado no consumo supérfluo de uns fundado na negação das necessidades básicas de 99% da população de seu país. Descobriram que o seu futuro, os seus sonhos, o seu destino e a sua vida foram roubados pelo sistema que deixou de ser democrático.

Os neoliberais no mundo inteiro fazem de conta que esses protestos nada significam, e muitos deles continuam sem perceber o que está ocorrendo. Tem sido sempre assim na História. Na noite de 4 de agosto de 1789, quando, a Assembléia revolucionária da França aboliu os privilégios feudais da nobreza, Luis 16, que seria guilhotinado menos de três anos depois, escreveu em seu diário: hoje, nada de novo. Como bem registrou Paul Krugman, em seu artigo no New York Times, os manifestantes não são extremistas: os verdadeiros extremistas são os oligarcas, que não querem que se conheçam as fontes de sua riqueza.

Não percebem os políticos o processo revolucionário em marcha que, de uma forma ou de outra, atingirá todos os países do mundo. Ao globalizar-se, pela imposição do sistema financeiro, a economia, globalizou-se a reação dos povos ao sistema totalitário e criminoso. Seria a hora de um entendimento entre os estadistas do mundo, a fim de chamar os especuladores à razão e colocar o Estado ao serviço da justiça, retornando-o à sua natureza original. Na Europa e nos Estados Unidos o que se vê é o Estado socorrendo os banqueiros fraudulentos, e os ricos insistindo na receita neoliberal clássica, de ajustes fiscais, de redução dos serviços sociais, do arrocho salarial e da demissão sumária de imensos contingentes de trabalhadores, a fim de garantir o lucro dos especuladores.

Nos anos oitenta, os paises emergentes de hoje, entre eles o Brasil, estavam atolados em uma dívida internacional marota, gerada pela necessidade de rolar os bilhões de eurodólares, e não dispunham de recursos. Mme Thatcher disse que o Brasil teria que vender as suas terras e florestas, a fim de pagar o que devia. Hoje, trinta anos depois, a Grécia está vendendo tudo o que pode, até mesmo monumentos históricos, enquanto parcelas de seu povo começam a passar fome.

Quando os africanos morrem de fome e de epidemias, como voltaram a morrer agora, não há problema. Para os brancos, europeus ou americanos, é alguma coisa que não lhes diz respeito. A África não é outro continente: é outro mundo. Mas, neste momento, são brancos, de cabelos louros e olhos azuis, como os manifestantes de Boston – jóia da velha aristocracia da Nova Inglaterra – que vão às ruas e são espancados pela polícia. A revolução, como os próprios manifestantes denominam seu movimento pacífico, está em marcha.

Há é certo, algumas providências na Europa, como a estatização do banco belga Dexie, mas se trata de um paliativo, quando Trichet, o presidente do Banco Central Europeu recomenda injetar mais dinheiro no sistema financeiro privado. Mais astuto, o governo da China reforçou a presença estatal no sistema financeiro, aumentando a sua participação nos bancos de que é acionista majoritário.

E o mundo se move também na política. Abbas - o presidente da Autoridade Nacional Palestina, que luta pelo reconhecimento pela ONU de seu Estado nacional - em hábil iniciativa, esteve anteontem e ontem em Bogotá. Ele fez a viagem a Colômbia, sabendo que dificilmente o apoiariam: o país hospeda bases militares americanas e, ontem mesmo, um comitê do Senado, em Washington, aprovou o Tratado de Livre Comércio entre os dois países. Assim, o presidente Juan Manuel Santos limitou-se a declarações protocolares de apoio à paz no Oriente Médio, o que não impedirá a caminhada da História.

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10 de out de 2011

A VASSALAGEM DE ZAPATERO

Há uma seguidilla de Cervantes que pode explicar a submissão da Espanha, sob Zapatero, aos Estados Unidos, permitindo a inclusão da base norte-americana de Rota, na Andaluzia, na malha do escudo anti-mísseis da Europa, anunciada ontem em Bruxelas. “A la guerra me lleva/ mi necesidad;/ si tuviera dineros/ no fuera en verdad”. Soldado ele mesmo, e soldado de fortuna, ou seja, por necessidade, Cervantes, nesses quatro versos quase espontâneos, vai ao fundo das razões da guerra. Na verdade, em toda a História, antes que o grande espanhol perdesse sua mão na batalha de Lepanto, e depois de sua obra literária insuperável, a guerra é frequentemente a necessidade, real, ou criada pela astúcia dos reis e tiranos.

A crise econômica da Europa é mais profunda do que seus aspectos econômicos. Como bem acentuou a presidente Dilma Roussef, suas causas são políticas e, sendo políticas, chegam à medula da civilização ocidental, em suas contradições, já milenares. A partir do Plano Marshall, em 1948 - que foi um dos mais geniais golpes políticos da História com os investimentos multibilionários de Washington na Europa -, o inconsciente europeu foi inseminado de duas idéias: a da invencibilidade norte-americana e a dos benefícios indiretos da guerra. A derrota de Hitler se deve ao grande sacrifício da União Soviética, com seus aliados iugoslavos, sob o comando de Tito; à brava resistência inglesa aos bombardeios constantes sobre Londres; aos Estados Unidos e aos cidadãos europeus que lutaram contra a ocupação, e enfrentaram, ao mesmo tempo, os invasores e as autoridades títeres de seus países, sobretudo na França de Pétain e Laval e na Itália de Mussolini.

A Europa continental, como sabemos, foi, de 1940 a 1944, “a Europa de Hitler” conforme o título de conhecido ensaio de Toynbee. Durante o conflito, alguns policy makers anglossaxônicos trabalharam com a hipótese de cooptar o sistema soviético, convertendo-o com a sedução do capitalismo. Nesse propósito ofereceram estender à União Soviética, e aos paises sob sua influência, o plano de reconstrução, e foram diplomaticamente dispensados. Os dissídios entre os aliados vinham desde a divisão da Europa na linha geográfica da influência dos dois blocos, ao longo dos rios Oder-Neisse, que passaram a ser a fronteira entre a Alemanha e a Polônia. A legitimidade desta linha, que não podiam negar, desde que fora negociada em Ialta e em Potsdam, viria a ser confirmada nos Ostverträge, negociados por Willy Brandt em Moscou, em 1971 e reafirmada nos convênios da reunificação alemã. Para os europeus, destruídos pelo conflito, o Plano Marshall foi uma dádiva; para o capitalismo norte-americano, a mais rendosa aplicação que poderiam fazer. Como eram os únicos emissores de moeda internacional, desde a decisão do acordo de Bretton Woods, de 1944, não tinham qualquer dificuldade em fazer a inversão, imprimindo mais dólares, com os resultados conhecidos.

Sessenta e seis anos mais tarde, a insânia, companheira das frustrações, volta a ruflar os tambores da guerra, como os fez ruflar em 1914 e em 1939, sem falar nos chamados conflitos laterais, da Coréia à Líbia. As guerras têm sido, também, um recurso para a unificação interna, quando há graves perigos de cisão política. Os enlouquecidos partidários da solução bélica não escondem os seus projetos de nova colonização manu militari da África e do Oriente Médio, e querem abrir caminho para uma intervenção na Síria, na escalada para o condomínio da grande região. Mas, embora com votos bem cautelosos, a China e a Rússia, com a abstenção do Brasil, da Índia, do Líbano e da África do Sul, disseram não ao projeto de “forte condenação” do governo sírio, em sua repressão aos movimentos insurrecionais internos, o que abriria caminho a nova intervenção armada da Otan.

Enfim, todos querem condenar a repressão síria, mas ninguém se levanta para condenar a brutal intervenção militar da OTAN na Líbia, com seus milhares de vítimas. E Obama tem o cinismo de afirmar que não faz guerra contra a Líbia, uma vez que a atinge de longe, com seus mísseis. Para ele, a guerra só se faz com a presença da infantaria no território agredido.

O SINAL DA CRUZ

Quando chegou, pernas e braços perebentos, alguns riram, mas houve os que o olharam com compaixão. Nos baldios humanos em que nos cumpria existir, era normal que ríssemos diante das desgraças alheias: era uma forma de exorcizar o nosso próprio sofrimento. O menino era cheio de outras marcas, todas estranhas. Trazia, no peito, dependurada em uma corrente de cobre, a cruz de pedra, talhada por suas próprias mãos, segundo nos disse. Nas nervuras minerais mostrava-nos alguns sinais, de longe sugerindo números e letras, nas quais lia pequenos apocalipses. Andava sempre em zig-zag, olhava sempre para o céu e para o chão, cuspia sobre os próprios pés descalços, como os de todos nós.

Deixamos de rir quando nos chegou, por ele anunciada, a primeira desgraça. “Vejo sangue no meio do pátio, um caixão e muito choro” – falou-nos, depois de haver, em um canto, e sozinho, rezado a ave-maria das 6 horas da tarde. “Eu não quero saber de conversa com malucos” – advertiu Enéias, persignando-se. O menino olhou-o com tristeza: “Brinca muito Enéias, e conversa hoje com todos os seus amigos.”

No dia seguinte, antes do almoço, no meio do pátio, Enéias deixou, correndo, a formação dos que vinham da roça, para buscar uma carta na Secretaria. Levava a enxada, para deixá-la, antes, na sala-de-ferramentas: tropeçou e caiu, o peito magro sobre a lâmina. Nós o sepultamos, no dia seguinte. Todos choramos, também de medo. O menino, com suas perebas e sua cruz, parecia ser o senhor de nossa vida e de nossa morte.

“Se vocês quiserem viver, devem rezar muito, e deixar o pecado” – pregava, e o ouvíamos em silêncio. Que pecados deixar? Fora os primeiros, solitários, que outros haveria? É verdade que colhíamos, como se as roubássemos, as frutas do pomar e alguns legumes da horta, mas sabíamos que aquilo nos pertencia, porque éramos nós que plantávamos e cuidávamos, mas os funcionários é que desfrutavam de nosso trabalho, além de comer da carne e dos mantimentos que o governo mandava para nós. Assim, não havia culpa, não havia pecado. Não tínhamos nem mesmo inveja, porque, entre nós, não havia a quem invejar.

“Desprezar os mandamentos de Deus é o caminho do inferno” – pregava, enigmático, enquanto passava pelos grupos, reunidos nos cantos das paredes pelo frio da serra.

Não lhe dirigíamos a palavra: só respondíamos ao que perguntava, e o que perguntava era pouco: “Vocês viram o fulano? O fulano está muito chateado. Recebeu uma cara de casa dizendo que a mãe está doente. Conversem com ele.” Não conversávamos.

Quando Geraldo fugiu e foi apanhado, o menino nos avisou no dormitório. Soprou para o seu companheiro de lado: “Passa pra frente: pegaram o Geraldo na estrada, ele vai chegar amanhã cedo com um soldado.”

Era verão alto, e às 6 da manhã, antes que soasse o apito para a formação dos que iam para o serviço no campo, o menino, sozinho, colocou-se sob a grande paineira e começou a rezar o credo em voz muito alta. O chefe de disciplina ordenou-lhe que fizesse silêncio. “Só obedeço a Deus Nosso Senhor, e rezo por Geraldo que vai sofrer por todos os pecadores” – respondeu, altivo. O chefe de disciplina apitou para a formatura, e o menino não se moveu, continuando a rezar. “Deixa ele acabar de rezar”, aconselhou Martins, um funcionário experiente. “Ele é manso, só tem mania de rezar.”

Antes que terminasse sua oração, chegou Geraldo. O chefe de disciplina recebeu-o com o bofetão nos ouvidos. O menino, debaixo da paineira, gritou-nos: “Vamos rezar juntos, vamos rezar juntos” – e puxou o padre-nosso. Todos o acompanhamos, em voz muito alta. “Cala, cambada de vagabundos” – gritou, histérico, o chefe de disciplina. “Cala todo mundo, ou vou moer no pau este cachorro aqui.”

--“Vamos rezar, gente” – impelia-nos o menino - “o pão nosso, de cada dia, nos daí hoje”.

Gritávamos a oração, e, alucinado, o chefe de disciplina chutava Geraldo, que começou a pôr sangue pelas narinas. “Ele sofre por nós” – explicava o menino, ainda de joelhos, e passava à “salve-rainha”.

Alguém chamou o diretor, que veio correndo, e subjugou o auxiliar pelos ombros. “Você está louco? Estão todos loucos?”

No chão, a camisa de zuarte empapada em sangue, Geraldo não se movia. “Você matou o menino! Vamos, você matou o menino?”

Levantou-se então o “rezador”, como o chamávamos, e disse ao diretor que se acalmasse. “Ele não morreu, está sofrendo por nós.”

Duas semanas depois, levaram o menino para um manicômio. “Ele estava pondo os meninos todos loucos” – ouvi o diretor explicar a um tio que fora vê-lo. “Lá, naturalmente, vai sarar.”

Sabíamos que não. Um dia antes, no dormitório, ele passou-nos a mensagem: “Amanhã começa meu martírio. Rezem por mim.” Durante uns dias, rezamos. Depois, o esquecemos.

8 de out de 2011

A TECNOLOGIA, A ARTE E A POLÍTICA

A carreira extraordinária de Steve Jobs suscita algumas reflexões sobre as relações entre a tecnologia e a criatividade da arte no mundo contemporâneo. Ao contrário de seu grande competidor Bill Gates, que freqüentou a universidade durante algum tempo, ele foi autodidata, mas teve, como nenhum outro empreendedor no campo da informática, o impulso criativo e estético que contribuiu para a universalização do uso dos computadores. Quando a arte se associa à ciência, a tecnologia se desenvolve com maior velocidade, porque é da natureza humana combinar a utilidade com a beleza.

As comunicações eletrônicas – como todas as conquistas da ciência – são o resultado de um longo percurso da inteligência na História. Provavelmente, conforme os registros disponíveis, elas tenham surgido da combinação de duas descobertas que se completam. A primeira, a da eletricidade estática, quando a fricção de um pedaço de âmbar fez com que o material atraísse partículas leves, como fiapos de algodão. O vocábulo grego para âmbar, elétron, serviu formar a palavra “eletricidade” e, mais tarde, para designar a partícula atômica.

A outra provavelmente tenha ocorrido quando uma agulha imantada, sobre uma superfície lisa, tenha se alinhado repetidamente na direção norte-sul, levando à primeira bússola. Mas foram necessários milênios para que, de experiência em experiência, Marconi e outros descobrissem a tecnologia da transmissão de sinais pelo campo magnético. Do genial italiano a Steve Jobs foi um instante histórico. Mas instante histórico ocupado por inúmeros pesquisadores, cada um deles abrindo caminho aos outros. Nessa combinação da intuição visionária de uns com a paciente aplicação da matemática à mecânica e à eletrônica, surgiram os computadores, os programas e a rede mundial de nossos dias. O sistema é dinâmico e, até o momento, sem obstáculos que o limitem. Tornou-se a ferramenta para as outras realizações técnicas da ciência – e das artes. Todos os ramos do conhecimento, da astronomia à biologia, da química à medicina, dependem hoje dos computadores e da rede mundial de informações que a sua existência possibilita. A vida dos homens ganhou novas dimensões, nestes últimos trinta anos e, assim, cresceram, ao mesmo tempo, suas angústias e esperanças. Tudo isso implica em inesperado e grave desafio às relações de poder, ao exercício da política.

Esse desafio não se restringe ao uso da internet na propaganda política e na mobilização popular. É muito mais profundo e mais grave, porque altera os costumes e o módulo de convivência a que estávamos acostumados, embora o rádio e a televisão já nos tenham aberto novos retábulos para a percepção da realidade. Hume já nos advertira de que o homem tem a sua identidade alterada e multiplicada, na aquisição de novos conhecimentos e novas sensações. O mesmo homem de ontem é diferente hoje. Ora, o fantástico fluxo de informações e de emoções, a que estamos submetidos, tende a uma espécie de anarquia dirigida, que a rede mundial de computadores começa a contestar, com o fortalecimento da dúvida, essa maravilhosa subversão da ordem de domínio.

Assim sendo, homens como Jobs e tantos outros criadores de sua geração, são também agentes políticos, transformadores das relações de poder, ainda que não tenham pretendido esse resultado.

O louco de Pireu

É conhecida a história (real ou fictícia) de um louco que vivia junto ao porto ateniense de Pireu. Ali, contava como fossem seus todos os navios que ancoravam e partiam. Era a “sua” certeza, contra todas as evidências.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está correndo o risco de ser comparado ao maníaco ateniense. Ainda agora, no Uruguai, convidado para falar sobre educação (tema de que o seu governo teria que se envergonhar, desde que não abriu uma só universidade pública) creditou aos seus dois mandatos, os êxitos obtidos por Lula. Relembre-se que Lula construiu 15 novas universidades, criou mais de 200 escolas técnicas, e abriu 150 novos campi universitários, só no setor da educação.

O político paulista também desmereceu os avanços para a integração continental da América Latina. Mas, tal como o transtornado de Pireu, ele fala aos ventos, enquanto os navios alheios, como a História, se movem.

Registre-se, no entanto, o respeito que merece sua campanha pela descriminalização do uso das drogas (ainda tímida, porque só se refere à maconha). Mas poderia ter sido realizada há uma década, quando, no exercício da presidência, teve poder para alterar as leis repressivas no Brasil. Ele, que alterou a Constituição para reeleger-se, poderia, muito bem, ter suavizado a legislação penal.


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6 de out de 2011

A INSURREIÇÃO AMERICANA

O movimento norte-americano contra a desigualdade social nos Estados Unidos ganhou um aliado de peso, a AFL-CIO, a antes toda poderosa organização sindical, que se encontrava em período letárgico, desde a morte de seu lendário presidente, George Meany, um pragmático e anticomunista, que se somava a qualquer governo. A retirada de Meany, em 1979, depois de 14 anos de mando, e sua morte, logo em seguida, coincidiram com a eleição de Reagan, o fim do welfare state, o thatcherismo, o neoliberalismo e a globalização da economia – enfim, com o que está aí. Não que Meany fosse exatamente um progressista, uma vez que o movimento sindical declinou sob sua liderança, mas o fato é que, ainda assim, a confederação de sindicatos dispunha de forte presença política.

Para os trabalhadores dos Estados Unidos, reduzidos os empregos e salários, a rearticulação de seu movimento sindical é uma esperança. Para os manifestantes contra Wall Street, que começam a assustar os meios conservadores do grande país, trata-se de uma aliança necessária, não para destruir o sistema capitalista, mas para que o Estado volte a domar as atividades econômicas e restaure as regras do jogo, nas relações entre o trabalho e o capital. Elas nunca foram justas, mas eram pelo menos suportáveis. A reação dos leitores do New York Times, divulgada em sua edição on-line, de ontem, é significativa. A imensa maioria dos comentários é de solidariedade com o movimento; e de protesto contra a renovada e crescente injustiça social do mais poderoso país do mundo.

Um leitor de Nova Iorque se diz sem saber o que fazer, porque não pode deixar o trabalho, a fim de participar das manifestações, nem dar parte de doente, porque necessita de atestado médico, mas deixa claro que “os republicanos que dizem que a regulamentação impede a expansão dos negócios, não passam de um monte de esterco de cavalo”. E acrescenta que gostaria de não usar mais o Chase e o Citibank, mas não pode. E termina mandando um recado para Washington e Wall Street: o povo está enraivecido e todos querem respostas contra o seu sistema corrupto.

Talvez seja ainda cedo para tocar finados pelo sistema capitalista. Ele é intrinsecamente astuto e, quando percebe que a situação está quase perdida, recua, concede alguma coisa aos trabalhadores, reduz seus ganhos, sacrifica alguns peões – e volta a imperar. Quando chega a oportunidade, recupera a posição anterior e volta à sua diretriz, de obtenção do maior lucro, com o aumento da carga de trabalho e a redução ao extremo dos salários. Muitos leitores consideram que é urgente colocar freios no capitalismo, sobretudo o financeiro.

Enfim, e de acordo com a sucinta observação de outro leitor, é preciso retornar ao contrato político inicial dos Estados Unidos, que previa a busca da igualdade entre todos os seus cidadãos.

Quando o governo impõe suas regras, como as impôs durante a administração Roosevelt e, de uma forma ou de outra, continuou a impô-las, até 1980, a prosperidade se faz sem o sacrifício insuportável dos trabalhadores. Os 48 anos de New Deal permitiram uma vida confortável para os norte-americanos e possibilitaram o fortalecimento bélico dos Estados Unidos, embora com a desapiedada exploração de outros povos.

As crises cíclicas do capitalismo, conforme a conhecida teoria de Kondratiev, são explicáveis em uma equação simples: maior renda para poucos e quase nenhuma renda para a imensa maioria correspondem a uma diminuição do consumo de bens, e essa diminuição do consumo atinge os produtores, no círculo vicioso que leva ao desemprego e à correspondente falência dos negócios. Enfim, sem salários não há consumo, sem consumo não há lucros, sem lucros, não há capitalismo.

O sistema bancário é o eixo da economia capitalista. Mas, no caso americano – que passou a ser o modelo mundial – desde a criação do FED, em 1913, os controladores fizeram da administração da moeda um segredo quase religioso. O famoso banqueiro Nicholas Biddle, que se opôs ao Presidente Andrew Jackson, e foi por ele derrotado durante seu mandato (1828-36) dizia, insolentemente, que seu banco – que tinha o privilégio da emissão da moeda – não tinha satisfações a dar, quer ao governo, quer ao público. Em 1829, antes que o conflito se agravasse, um grupo de cidadãos de Filadélfia (três jornalistas, um grande homem de negócios e dois líderes do incipiente movimento sindical) se reuniu, para discutir o problema bancário, e concluiu, em análise atualíssima do sistema:

Os bancos são úteis, como instituições de depósito e transferências, admitimos sem qualquer dúvida, mas não podemos ver como esses benefícios que conferem possam ser assim tão grandes a ponto de compensar os males que produzem, na criação de artificial desigualdade da riqueza, e, por meio dela, de artificial desigualdade de poder” ( Free Trade Advocate, 9 de maio de 1829, citado por Arthur Schlesinger, Jr. em The Age of Jackson, 1945).

Troquem-se os nomes de Nicholas Biddle, o arrogante banqueiro de Filadélfia, pelo dos dirigentes do Goldman Sachs, e o de Jackson pelo de Obama, e temos situação semelhante – com uma diferença. Jackson era Jackson, que peitou os banqueiros e os venceu, com a fragmentação do sistema e o surgimento dos pequenos e médios bancos estaduais, possibilitando a grande expansão industrial dos oitocentos. E Obama é apenas uma esperança quase desfeita.

Mas hoje, como os fatos mostram, as massas podem reunir-se rapidamente, graças à comunicação instantânea – e, apesar da repressão - dizer o que pensam da realidade e exigir as mudanças.

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