24 de fev de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO: VENENO.


                    Até que ficasse provada a minha condição de homem de miúdos negócios, e assim se explicasse a Luger 7.65, com seus dois pentes carregados, pude aprender muito da vida com Conselhinho e seus companheiros. Como eu podia saber que andavam catando assassinos entre os romeiros? Soube depois que era o medo do prefeito. Boas não fizera em outra cidade da região: desencaminhara e deixara a chorar no toco a filha de fazendeiro forte. Resultado: suicídio de um lado e o pavor do outro.

                      Na verdade eu tinha mesmo jeito suspeitoso. Uma faringite baixava o tom de voz, fazendo-a mole e vasqueira: eu só falava o necessário. E até mesmo o sestro que eu tinha, e tenho, de esfregar a papila do polegar na segunda falange do indicador da mão direita me fez azar: o delegado achou que o calo era de acionar gatilho. Para encurtar a conversa, meteram-me na cadeia pública.

                    Os três que lá estavam não eram suspeitos. Ao contrário, gente de crimes bem provados, que preferia curtir ali mesmo suas penas, bem longe das grandes penitenciárias, e se ajeitava para isso. Conselhinho, de rosto magro, barbinha branca, olhos cinzentos, merecia o apelido. Logo que entrei, levado pelo soldado Hugo (que depois ficou meu amigo) pôs a mão sobre meu ombro, e começou: “Vou te dar um conselhinho ...”

Conselhinho matara muita gente, e só foi preso anos depois do primeiro crime. O açougueiro comprara-lhe uma vaca para abate, como era costume. Antes de chegar ao matadouro, o animal caiu morto. Conselhinho se negou a indenizar. “Uai, e eu com isso? Quando vendi, estava com saúde. Eu lá tenho culpa de ela ter adoecido no caminhão?”  Conversa de cá, conversa de lá, o açougueiro, que era forte e sangüíneo, quis buscar o seu no bolso de Conselhinho. A lapiana, lambedeira de palmo e meio, apareceu na mão do magrelo como um raio, de tão de repente. Depois de condenado a trinta anos, Conselhinho passou a contar as outras mortes.

- Eu não matava por necessidade. Via um sujeito, não gostava do andado, dava um jeito nele. Nunca me pegaram porque quem é que ia pensar neste seu criado? Sempre dando um conselhinho, sempre ajudando os outros? Pois é, quando tive precisão mesmo de matar, aí me pegaram. A gente, na vida, não pode ter precisão.

                       A mulher levava-lhe, todos os dias, a “melhora” da bóia, que ele repartia com todos. Variava sempre: guisado de abobrinha, cambuquira com carne de porco, cascudos fritos, dobradinha temperada com manjericão e urucum. O arroz sem muito gosto com feijão mulatinho, fornecido à cadeia pela mulher do sargento, ficava palatável com a  “mistura”.

                       Quando reclamei da situação, dizendo que alguém devia estar roubando do governo, pra fornecer comida tão ruim (e assim reforçar a gratidão ao companheiro), recebi logo um “conselhinho”:

                      - Fica quieto. A velha não está trazendo o molho? Depois, quanto é que ganha o sargento? O filho dele é paralítico e meio doido.

                     Entendia muitos assuntos. Para bambeira de coração, veneno de três abelhões:

                   - De mamangaba da legitima, a que dá certo. Bom mesmo é fazer elas ferroar a veia do pescoço, duas do lado esquerdo e uma do lado direito. Quando desincha, o coração fica esperto.

                    Ensinava também como homem deve tomar banho para segurar mulher: com água de chuva bem quente, depois de fervida em capim-de-cheiro.

                    Serafim o mais velho dos outros dois, matara a mulher a pauladas. Nunca disse por que a matara. Mas, pelo jeito ele preferira alegar motivo fútil e comer cadeia grossa, a ficar com a honra ultrajada. Tinha duas filhas que o visitavam no domingo, e traziam sempre um queijo fresco. O outro, o Pereira, era ladrão de cavalos. Quando perguntei por seu crime, respondeu, orgulhoso, “abigeato”.

                    Dormíamos pouco. Durante o tempo de sono de Conselhinho, que, muito picado, vigiávamos. Ele se levantava, contava os barrotes do janelão, conferia os da porta, perguntava muito surpreso a quem estivesse de guarda:

                   - Uai, acordado?

                   Como se não tivesse sido dele mesmo o aviso: muito cuidado com quem dorme sem sossego.



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