10 de jun de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - A NOITE DO MEDO

Há noites caprichosas em ser escuras, mas aquela talvez tenha sido a mais negra do século. Para dizer a verdade, ela já começara logo depois das três da tarde, com um ajuntamento de nuvens sobre a nascente do Imbaiuçu, onde Cesário e eu nos preparávamos para a guerra.

O propósito era bem maior do que nós dois, mas o que a gente podia perder? Como ele mesmo dizia (e com ele veio a acontecer) o futuro é como cabeça de córrego: pode dar diamante, mas é mais seguro que dê jararaca. Ria muito o Cesário quando alguém lhe dizia que não se deve arriscar o futuro. “A única coisa que eu posso arriscar é  o futuro, porque futuro não é ovo de indez. Para jogar no incerto, você só pode colocar o incerto.  Deus é muito divertido, e brinca com as criaturas. Ele arranjou o futuro só para os homens o encherem com esperança. Ou, quem sabe, porque ele, sendo dono do tempo inteiro, não tem a alegria da surpresa, nem a preocupação da dúvida. Ele criou o homem só para dentro de cada um de nós ter também medo e esperança".
Igualzinho estou escrevendo falava Cesário. Era esquisito que matador de sua fama, jeitoso na faca como no revólver, de boca chupada e olhinho miúdo de fazer mira fina, viesse me ex­plicar os desígnios de Deus. Mas – torno a repetir o que me dizia – Deus não escreve só em linhas tortas. Escreve em linhas retas também.
Desculpem-me a mania que tenho de dar voltas, mas como eu poderia perder a ocasião de falar em Cesário, que Deus o tenha em sua santa glória? Vamos relem­brar o que passou. Estávamos de guerra armada contra Serapião Marinho, um crenaque renegado que virara pistoleiro dos gringos da Caratinga Gold Minning, na época minerando em Cuieté Velho. Era uma guerrinha de graça, a gente havia entrado nela de farra. Uma farra servidora de dona Naná e suas duas meninas de doze e quatorze anos, que o bugre e mais três filhos de cachorra, haviam infamado, depois de amarrar o marido e pai, um cachaceiro e molengão, espichado no pau da cumeeira. Estávamos de passo, vindo dos lados da Galiléia, e na direção de Mutum, para uns servicinhos miúdos. Mandamos dizer ao desgramado do índio que queríamos uma palavrinha, e marcamos o rancho do Luís Sapê como ponto. E, como era de nosso mister, nos ajeitamos atrás de uma barriguda, árvore de jeito pro toco, meia légua antes.
A  gente não tinha relógio – relógio, para que? - e não posso dar idéia das horas. Sei que lá pelas tantas, Cesário amassou um pouco de jacuba com cachaça  doce e me deu para comer. De repente, naquela noite mais escura do que o olho do breu, apareceram os vaga-lumes. Parecia até que as estrelas tinham varado as nuvens pretas e des­cido, para beber água no riacho. Era um montão deles, dos graúdos aos pequeninos. "Deixa estar" - disse Cesário - "isso deve ser negócio do bugre".
Era, é o que eu acho. Porque, logo depois, ouvimos barulho de chocalho numa moitinha de chapéu-de-couro, que eu tinha a intenção de cortar. Parecia cascavel, mas cascavel não é cobra de brejo. Foi só eu de­sembainhar o facão para ouvir a voz do índio:
– Vou tirar a macheza de vocês dois na faca, seus titicas. É só amanhecer. Podia fazer agora, mas quero ver vocês chorar no claro.
Foi então que Cesário começou a falar e a cantar alto, insultando o crenaque. Sabia algumas palavras sujas na língua do índio, e as repetia: "Nde nema ", "moxu", você pensa que é "porojucaíbá ", mas é só um ''guanumbi'' à-toa.
O bugre respondia com uma enxurrada de coisas em sua língua, e Cesário ria. Não entendendo, não se sentia ofendido.
Resumidos os fatos, quando clareou o dia estávamos nós e eles, cercados pelo tenente Atílio, com vinte soldados do 3° Bata­lhão de Caçadores e mais um delegado calça-curta. O tenente, criador de galos de rinha, botou Cesário e o índio para brigar a faca. A mim, em consideração a um negócio antigo, que não vem ao caso, deu a incumbência de enterrar os dois no brejo mole, e ordem de deportação para o Espírito Santo.

– Some daqui, senão te jogo pros surubis do Rio Doce. 

Foi o que fiz.

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