2 de jun de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - O TÚNEL E A ESTRADA.

Habitavam o túnel inconcluso. O engenheiro, ao partir, fizera o inventário das coisas da empresa que deviam vigiar: o compressor, que já não dava no couro, os tubos dilatados, rateando, de sopro frouxo; as brocas cegas, o tambor de guardar água, ferramentas rombudas, caixotes vazios e a carroça de varal quebrado. Deixava também as duas carabinas e sua munição: as balas novas, brilhantes, acondicionadas em papel impermeável, para não azinhavrar.

Dissera o engenheiro que a obra recomeçaria. Anotassem o ponto, no livro próprio, e cumprissem as ordens de José Vicente, mais velho, mais troncudo, veterano balizeiro no levantamento topográfico da estrada que se construía. E ao encarregado presenteou com seu par de perneiras negras, de couro inglês legítimo, que o mulato usava como símbolo do poder.

Três meses depois expirava o crédito deixado pela empresa no armazém da cidade próxima. O comerciante lhes disse que a firma falira e os aconselhou a reclamar na Capital. Venderam-lhe a carroça, por mais um mês de fornecimento do grosso e começaram a pegar biscates nas fazendas das redondezas.

- Um dia eles voltam, para continuar a estrada. O governo não vai perder o serviço feito, e aí a gente recebe o atrasado – garantia o chefe.

Luís Magela, no princípio, contestava a chefia de José Vicente, e procurava conspirar com Alfredão, mato-grossense agauchado, que o desestimulava com seu sotaque fronteiriço: “Bá, tchê, mais de dois precisa de chefe, é a regra dos homens”.

E José Vicente continuou chefe. Com o tempo foram-se as solas de suas botinas, mas, mesmo descalço, conservou suas perneiras altas. Empreitava capinas para os três e ia à frente, desengonçado, os pés barrentos, e as perneiras  sempre cuidadas. Deram-lhe, nas redondezas, o apelido de Vicente-Saracura.

Continuaram morando no túnel, com a mesma esperança. De vez em quando, cioso, José Vicente colocava o compressor para funcionar e depois guardava a lata de óleo no fundo da escavação, no lugar mais alto, onde dormiam em dias de chuva. De ordinário ficavam perto da boca, lugar mais  limpo e menos úmido.

Com o tempo, o buraco ficou mais ou menos habitável. Arrumaram cadeiras e mesa. José Vicente levou do posto de gasolina o calendário enorme, com a foto colorida da jovem nua. Como ela posara de costas. Alfredão se queixava: - “Por que não mostraram a cara da chinoca? Eu queria ver se é bonitinha”. Luís Magela ria com jeito. Chama a moça, Alfredão. Quem sabe ela mostra a cara pra você?” Alfredão enfarado, assoviava “Saudades de Ipacaraí”. Sábado sim, sábado não, dois deles iam ao comércio, para os desafogos de homem.

As vezes pensavam em ir embora, mas desistiam. Se fossem, perderiam os atrasados, quando a obra recomeçasse. Plantaram umas mexeriqueiras e duas touceiras de banana nanica. Cevavam sempre um capado e espalharam galinhas por ali. Oito anos depois – José Vicente tinha razão – o governo resolveu continuar a construir a estrada.

O topógrafo foi recebido com alegria. Mataram um frango, serviram-lhe cachaça, e José Vicente apresentou-se de voluntário para carregar a baliza, novinha, a escala bem pintada em esmalte vermelhão. Quando chegou o engenheiro, mostraram-lhe o livro de ponto, o inventário do material, explicaram a venda da carroça, reclamaram os salários atrasados. O homem disse, vagamente, que o negócio não era com ele, era com o governo, mas iria demorar muito a resolver. A antiga construtora havia falido muitos anos antes, o dono já morrera, desistissem. E lhes pediu que desocupassem o túnel em dois dias, porque iriam dar fogo na rocha.

- Pelo menos arranja serviço pra nós? – indagou José Vicente.

- Não estamos fichando – disse o engenheiro, que não queria encrencas trabalhistas.


Quando voltou com a turma para atacar o serviço, o chefe da obra encontrou os três entricheirados, atrás de uma barricada de pedras. Depois de uma semana de admoestações sem êxito, chamaram a policia. O tenente-delegado mandou parapeitar a cabine do trator com uma chapa de aço e manobrou a máquina. A lâmina empurrou pedras e homens para dentro, e as esteiras fizeram o resto.

2 comentários:

Ivo Pugnaloni disse...

Caro e admirado Mário!

Creio que esse artigo possa interessar a voce e aos seus leitores, pois trata de um assunto atualíssimo.

Mas vocês não divulgam seu e mail...( aconselho que o façam é mais fácil, para mim e muita gente da minha idade usar o e mail )

Ele mostra as formas pelas quais sucessivos, impunes e repetidos erros nas negociações com as populações indígenas cometidos por órgãos do governo , que recusam-se impunemente a cumprir a Constituição, Leis, Decretos e até Tratados Internacionais firmados pelo Brasil, contribuem de forma fundamental para alavancar e impulsionar excelentes e bilionários negócios privados na importação de óleo diesel, óleo combustível, gás natural liquefeito e equipamentos para a construção de termoelétricas, gerando contratos que apenas entre 2012 e 2013 já dariam para ter concluído uma nova Usina de Belo Monte ( inteirinha) e quase 7000 MW em PCHs.

Poderia me mandar seu e mail?
O meu é ivo@enercons.com.br

Um abração!

Mauro Santayana disse...

Pois não, Ivo. O email é santayana.mauro@gmail.com