22 de jun de 2013

AS MASSAS E AS RUAS

(JB)-A máscara de Guy Fawkes, o conspirador católico inglês que queria atear fogo ao Parlamento, no início do século 17, tem sido usada, por equívoco, pelos manifestantes de nossos dias. Embora hoje símbolo do grupo Anonymous e tendo aparecido como ponto comum em manifestações em todo o mundo, o malogrado rebelde, que, semienforcado e, ainda consciente, teve sua genitália cortada antes de ser eventrado e  suas vísceras fervidas, para então ser esquartejado, sabia o que desejava. Sob a influência dos jesuítas, o complô, de que participava, queria uma Inglaterra católica. Seu mérito pessoal foi o de, sob tortura — que só o rei James I podia, então, autorizar, e autorizou — proteger, até o limite do sofrimento, os seus cúmplices. Instrumento de intrigas internacionais de seu tempo, que envolviam a Espanha e a Áustria — países católicos — e se valiam de dissidentes ingleses,  Fawkes é objeto de chacota em 5 de novembro de cada ano, quando se celebra a sua desdita em pequeno Carnaval nas ruas de Londres. Os vencedores escrevem a História, e a Inglaterra é, em sua esmagadora maioria, protestante até hoje.

E os que, agora, se manifestam no mundo inteiro? O que pretendem? Aparentemente, se revoltam contra o sistema econômico neoliberal, a corrupção e a inépcia dos governantes, que se refletem na desigualdade social. É também dessa forma que se identificam os manifestantes norte-americanos: a rebelião dos 99% espoliados, contra 1%, que são os espoliadores.

A maioria se revolta contra o sistema econômico neoliberal, a corrupção e a inépcia dos governantes
Há uma razão de fundo nessa identificação, uma vez que o homem, sendo produtor e consumidor de bens, é um ser econômico. Mas seria reduzir as dimensões do problema examiná-lo apenas a partir dos números, relativos ou absolutos. O homem pode ser, como diziam os gregos, a medida de todas as coisas, mas não pode ser medido por nenhuma coisa.

Como ser histórico, é o criador de si mesmo. É, no jogo dialético com a natureza, que ele se fez e se faz. A sua melhor definição é a de Aristóteles: é um animal político. Foi político antes mesmo que houvesse a polis: boas ou más, as regras do convívio, exigidas pela necessidade da sobrevivência, já eram políticas — antes dessa definição pelo léxico grego.

Em razão disso, todos os livros da Antiguidade, neles incluídos os sagrados, são, no fundo, manuais políticos. Tudo é política e, acima de tudo, é política a presumida negação da política.

Nos atualíssimos dias o confronto é nítido entre o capital financeiro,  que pretende controlar tudo — mediante as autoridades governamentais, que escolhem com o financiamento das eleições — e os cidadãos. Autoridade e cidadão, mesmo nos regimes democráticos mais evoluídos, são categorias que se contrastam. Os eleitores nomeiam as autoridades, mas o mandato não é, nem pode ser, imperativo. Imperativas são as circunstâncias que separam o sentimento do eleitor, no momento do voto, do comportamento de seu mandatário, quando no Poder Legislativo e no Poder Executivo.

O carisma de alguns governantes ameniza essa discórdia, justificando o governante diante de seus prosélitos, em nome, valha a recorrência, do peso ou da ditadura das circunstâncias.

Não há dúvida de que passamos por um tempo de desalentadora mediocridade no governo dos estados nacionais. O carisma de alguns líderes — e este é o caso, entre outros, do presidente Barack Obama — tem prazo de validade, como certos alimentos industriais. Em alguns meses, como estamos vendo no caso de Hollande, na França, o entusiasmo fenece — e é substituído, num primeiro momento, pela decepção.

Nos sistemas presidencialistas puros, e onde há o instituto da reeleição, o segundo mandato não tem a solidez do primeiro. Se o governante não for extremamente hábil, corre o risco de se transformar em um lame duck, um pato claudicante sobre os charcos escorregadios.

A renúncia dos eleitos em assumir sua plena responsabilidade de garantir o bem-estar  e a independência das sociedades nacionais abriram caminho para que o neoliberalismo corroesse, até os alicerces, a autonomia dos dirigentes políticos. O início da curva histórica ocorreu  a partir do conluio estabelecido, nos anos 80, entre Reagan, Thatcher e Wojtila, com a cooptação de Gorbatchev — hoje conhecido em seus detalhes,  constrangedores.

Os legisladores e governantes foram transmudados em simples marionetes dos donos do capital, que dominam o mundo. Esses têm, em suas mãos, os maiores bancos, e, mediante eles, ou diretamente, as maiores empresas transnacionais do mundo. Os bancos e essas corporações controlam todos os recursos naturais e ditam os rumos da economia mundial.

Os legisladores e governantes foram transmudados em simples marionetes dos donos do capital Seu domínio vai ao ponto de provocar a  fome de alguns povos, por meio do controle dos alimentos — da produção dos fertilizantes, do uso da água, da fixação dos preços, pelo mercado de futuros, a estocagem e a especulação — dos cultivos até a prateleira dos supermercados. Isso sem falar nos minerais, do ferro ao nióbio, do urânio a terras raras.


As manifestações revelam a inadaptação da vida humana aos módulos impostos pela sociedade de produção e consumo, agravadas pela crise histórica da contemporaneidade. Elas pedem e anunciam uma nova forma de convívio — mas qual?


Estamos diante de uma nova fase da rebelião das massas, já examinadas com precisão por Ortega y Gasset, e Elias  Canneti, em “Masse und Macht”,  e hoje mobilizáveis em instantes pelos meios eletrônicos que pretendem controlá-las.

Este texto foi publivcado também nos seguintes sites:


http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/06/18/as-massas-e-as-ruas/
http://sindipetromg.org.br/site/opiniao/item/481-as-massas-e-as-ruas
http://www.vermelho.org.br/sp/noticia.php?id_secao=39&id_noticia=216929
http://www.mundopositivo.com.br/noticias/brasil/20154764-as_massas_e_as_ruas.html
http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://heliofernandes.com.br/?p=68246
http://paginaglobal.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/106278/
http://www.jornalaguaverde.com.br/publicacoes/34-noticias/732-as-massas-e-as-ruas
http://seumlertabom.blogspot.com.br/2013/06/o-sempre-lucido-mauro-santayana-as.html
http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/cultura/musica/as-massas-e-as-ruas-26-12100
http://sensoreconomicobrasil.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://pensamentoedemocracia.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://www.pcdob.org.br/noticia.php?id_noticia=216800&id_secao=1
http://www.edsonsombra.com.br/post/as-massas-e-as-ruas
http://ronaldolivreiro.blogspot.com.br/2013/06/mauro-santayana-as-massas-e-as-ruas.html
http://resumodachuva.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://dilmanarede.com.br/ondavermelha/blogs-amigos/mauro-santayana-as-massas-e-as-ruas.
http://portal-vermelho.jusbrasil.com.br/politica/104175286/mauro-santayana-as-massas-e-as-ruas
http://brasilsoberanoelivre.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://thetopix.com/As-massas-e-as-ruas-Mauro-Santayana-A-m%C3%A1scara-de-topic-671513486195878
http://gazetasantacandida.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://aumagic.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas-os-legisladores-e.html
http://izidoroazevedo.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas.html
http://chebolas.blogspot.com.br/2013/06/as-massas-e-as-ruas-jb-mascara-de-guy.html
http://blogdeumsem-mdia.blogspot.com.br/2013/06/mauro-santayana-as-massas-e-as-ruas.html
http://minutonoticias.com.br/as-massas-e-as-ruas
http://maureliomello.blogspot.com.br/2013/06/por-uma-nova-forma-de-convivio.html
http://luizfelipemuniz.blogspot.com.br/2013/06/neoliberalismo-x-autonomia-dos.html

5 comentários:

Júlia Júdice disse...

Senhor Mauro, sobre o texto q o senhor publicou, no JB no dia 22/06/2013 " O direito de todos".Independentemente de que linha partidária ou mesmo social o senhor pertence, creio que o senhor não entendeu bem o q está acontecendo ao tentar colocar,creio tb de q não foi de maneira leviana, que o movimento q se originou nas ruas do Brasil, não quer partidos políticos, ou estar tentando criar novos métodos políticos.O que a nação clama são partidos políticos que trabalhem para o bem comum do povo e não ser subserviente ao poder executivo,ao seus interesses e ao seus bolsos, é simples.Um partido político fincado com os ideais de sua base políticas partidárias, não com interesse escusos e votações secretas e votações para obedecer o que os interesses maiores determina mesmo que isso faça ele votar contra quem o elegeu.Não tente mudar o rumo da história pois o senhor como jornalista e sabedor do que acontece hoje nos bastidores políticos do país ( dá até vontade de vomitar)teria, ao meu ver, de postar texto que esclareçam verdadeiramente essa baderna política,que originou até as famigeradas PEC 33 e 37, e que a nação não quer mais ......é só isso

Henrique Júdice disse...

O texto q foi lhe enviado com o nome de julia judice, na verdade quem escreveu foi o pai dela Henrique Luiz Judice Machado

Thiago Bartolozzi disse...

Estava a espera de algum artigo seu a respeito das manifestações! Muito bom, parabéns !

Thiago Bartolozzi disse...

Estava a espera de algum artigo seu a respeito das manifestações populares que vem ocorrendo. Muito bom. É sempre bom ler os seus artigos. Parabéns !

Anônimo disse...

Aqui tivemos menos de 1% do total da nossa população querendo ser vista e representar os 99% que estavam quietos. Não me representam também!