23 de jun de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - PASTAGEM DE MUSGOS

                         
O veranico de janeiro de 1947 entrou por fevereiro   a dentro,   e já chegava a março, estreitando o rio e fazendo os bichos morrerem secos. Os peixes punham a  cabeça para fora, e na barra do Cuieté foram vistos surubis fugindo das águas quentes e rasas do Doce para se resfriarem debaixo de umas barrigudas do barranco, a boca aberta, como cães exaustos.  Levindo, que me contou a história, acrescentou-lhe seus pontos. De tal maneira se condoeu dos peixes, amontoados ali, resfolegantes à sombra das barrigudas de copas espessas e arredondadas, que buscou no poço adiante uma gamelada de água profunda e fria para aliviar-lhes as guelras.
                    Seca repentina e braba. Zimbo, balseiro de Galiléia, definiu de seu jeito a calamidade, dizendo que era o oco de uma tromba d'água. Como eu não entendesse o que ele queria com aquilo, esclareceu que, tendo todas as coisas seu oco, ou seu lugar para ser no mundo, devera haver um engano da natureza que, em lugar de mandar a tempestade, mandara só o seu vazio, ou a sua precisão.
                   "Se continuar assim, vai chover brasa do sol", era o que eu ouvia do sobredito Levindo. Para isso faltava pouco. Na porteira dos Alvarenga encontrei um monte de borboletas mortas, com as asas estorricadas. Poucos pássaros voavam, e eram sempre os miúdos, de robusta paciência, como os beija-flores. Os moradores não fugiram porque, sendo ali geografia chuvosa, tinham fé nas águas de 19 de março, dia de  São José, também chamadas de março e das goiabas; era só esperar mais algumas semanas e, de fato, tendo em vista a sábia observação do balseiro, chegavam águas de encher o oco e atender à precisão. Até lá iam buscar nas cacimbas, dentro das grotas, águas embranquiçadas pela argila do fundo e a viver do ajuntado antes. Mas estavam perdidas as safras: as espigas murchavam, os grãos de milho morriam antes de granar e os feijoais empardeciam. A tragédia mais forte estava nas matas maiores, ao norte, entre o Suaçuí e o São Mateus. Ali os jequitibás vergavam, o âmago anêmico, as seivas engrossando e granulando, as folhas despencadas.                   Enlouqueciam-se os insetos, bons e maus: colunas de mandruvás desciam, os bichinhos trôpegos, para pastar musgos, que guardavam a velha umidade no lado da sombra das rochas.
                   Cercado pela seca, eu procurava os caminhos de fuga: tentava alcançar a Rio-Bahia, quando cheguei à antiga fazenda do Dr. Marques. O curral, feito em peças de boa aroeira, tinha as vigas rachadas pelo sol. De longe vi ali bichos, mas não os distingui até abrir a porteira. Lá estavam, tiritantes de febres, macacos de variadas clãs. Não saltavam, alvoroçados, como é de seu natural viver. Isolavam-se por famílias, em seus cantos.
                  Jesuíno, que fiquei conhecendo naquela hora, havia sido enfermeiro da Estada de Ferro Bahia-Minas e resolvera cuidar dos macacos enfermos. “Com a desgraça da estiagem, os mosquitos da maleita ficaram loucos. Enxames deles picaram todos os bichos da mata, mas só os macacos ficaram infestados” – contou-me. Estava ali fazendo sua caridade. “Na farmácia da fazenda eu achei muitos comprimidos de aralém. Estou sapecando o remédio na macacada. No princípio foi difícil: eles não queriam engolir o remédio. Agora, quer ver?” indagou, puxando-me para um guariba que meditava, na posição que Rodin deu a seu Pensador. O macaco espichou a mão para recolher o comprimido. “Você não dá água para ajudar a engolir?” – perguntei, galhofo. “Isso ai já ia ser luxo”, respondeu, sério.
Os macacos são bichos assustados. Segundo Jesuíno, são os únicos, fora os homens, que devem ter consciência da morte. Quando a malária apertou, muitos correram para a fazenda, mas outros não tiveram força.

                   “Você quer ver uma coisa? Vamos ali adiante”. No morrinho, agarrados às árvores, havia vários micos mumificados. A terçã os fulminara, abraçados aos galhos. O lugar, desde aquele tempo, tem o nome de “Macaco Seco”.

Um comentário:

Sérgio Alberto Bastos da Paixão disse...

O Governo Dilma é BIPOLAR e age de forma contrária aos seus princípios e trata patrões e empresários, políticos e a sociedade pobre e carente, de maneira anacrônica ao pensamento social democrático.
Quero deixar o próprio PT falar o que o povo brasileiro esta gritando nas ruas:
“Numa sociedade como a nossa, baseada na exploração e na desigualdade entre as classes, os explorados e oprimidos têm permanente necessidade de se manter organizados à parte, para que lhes seja possível oferecer resistência séria à desenfreada sede de opressão e de privilégios das classes dominantes.
O povo brasileiro está pobre, doente e nunca chegou a ter acesso às decisões sobre os rumos do país. E não acreditamos que esse povo venha a conhecer justiça e democracia sem o concurso decisivo e organizado dos trabalhadores, que são as verdadeiras classes produtoras do país.
É por isso que não acreditamos que partidos e governos criados e dirigidos pelos patrões e pelas elites políticas, ainda que ostentem fachadas democráticas, possam propiciar o acesso às conquistas da civilização e à plena participação política a nosso povo.
1. A sociedade brasileira vive, hoje, uma conjuntura política altamente contraditória e, sob muitos aspectos, decisiva quanto a seu futuro a médio e longo prazo.
Já está demais evidente que o novo governo militar pretende manter a continuidade dessa mesma política econômica ditada pelo capital financeiro internacional, agravada agora pelos planos de austeridade e recessão que já se esboçam. Isso significa que o sofrimento, a miséria material e a opressão política sobre a população trabalhadora tenderão a se manter e aprofundar.
O Partido dos Trabalhadores entende que a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores, que sabem que a democracia é participação organizada e consciente e que, como classe explorada, jamais deverão esperar da atuação das elites privilegiadas a solução de seus problemas.
O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo.
A Comissão Nacional Provisória
1º de Maio de 1979”
http://www.pt.org.br/arquivos/cartadeprincipios.pdf

Sérgio Alberto Bastos da Paixão
www.facebook.com/sergio.paixao.35