28 de fev de 2013

A ITÁLIA NO LABIRINTO


  (HD) -       Houve um tempo, o do Renascimento, em que os principados italianos faziam da política uma obra de arte, como constatou o historiador Jacob Burckhardt em seu livro sobre a Civilização do Renascimento na Itália. Violentos uns, astutos, outros, sábios alguns mais, aos príncipes italianos não faltava inteligência na escolha de seus conselheiros militares e políticos. A esses, confiavam as táticas e estratégias, na condução do poder interno e na defesa dos interesses externos. Eram homens que só se dedicavam a mandar e, mandando, conservar o poder. Um dos segredos da sobrevivência de tais estados era a autonomia de cada um deles, assegurada com a astúcia e com a força, posto que viviam em estado permanente de guerra.
       A Itália  viveu dias gloriosos na unificação da Península, há um século e meio, na repetição da aliança entre guerreiros e pensadores políticos (Garibaldi com a espada, Cavour e Mazzini com as letras). As vicissitudes históricas posteriores, entre elas uma monarquia tão ambiciosa quanto débil, levaram o estado unitário a capengar, desde o surgimento do fascismo, com Mussolini, até os nossos dias.
     Garibaldi, ao partir de Roma para a campanha do Norte, disse aos membros do parlamento provisório, que nada podia prometer, senão “muito trabalho, sangue, suor e lágrimas”.  A frase foi plagiada mais tarde por Theodore Roosevelt e passou a história como sendo de Churchill, que a repetiu em seu mais famoso discurso.
        Croce, ao resumir o fascismo italiano, disse que Mussolini fora um palhaço que o Rei Vittorio Emmanuele III levara a sério. Ele, o mais lúcido pensador italiano daquele tempo, foi convidado pelos norte-americanos a chefiar um governo de transição, e sabiamente recusou, conforme seu diário político, datado de 25 de fevereiro de 1944. Talvez , como Ortega y Gasset, pensasse que o mal dos tempos modernos está em que os que pensam, ou acham que pensam - como Mário Monti - querem mandar, e os que mandam, querem pensar.
        Os partidos de centro-esquerda, com Bersani, nem  a coligação de direita de Berlusconi, conseguiram maioria, necessária ao sistema parlamentaristam para governar. Um cômico de televisão, Beppe Grillo, com linguagem populista, tirou do centro-esquerda os votos que lhe dariam a maioria. Espera-se que ele os devolva, aceitando uma aliança com Bersani.
         Mussolini se apoiara na Alemanha de Hitler; o atual presidente da Itália, Giorgio Napolitano, comunista “pentito”, vai  “consultar” Ângela Merkel, a fim de buscar uma solução para a crise.
         De qualquer forma, à esquerda e à direita, o povo italiano disse um não rotundo à política – exigida pelos banqueiros - de arrocho contra os trabalhadores, com o apoio da ditadora econômica do continente, a germaníssima Merkel. Seu candidato explícito, Mário Monti, funcionário do Goldman Sachs, obteve escassos 10% dos votos.

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EIS O HOMEM


(JB) - A mais forte frase do Evangelho é a de Pilatos, ao exibir Cristo, ensanguentado e humilhado ao extremo pelos seus algozes, à  multidão enfurecida: "Eis o homem". Como outras passagens dos textos que a fé autêntica — mais do que as provas históricas — as duas palavras ditas em latim, pronunciadas por um romano, são, em si mesmas, todo um enunciado teológico.  Pilatos não mostrava um criminoso, nem um inimigo de Roma, mas o homem. Cristo não era um homem qualquer, em sua individualidade, mas O Homem, ser coletivo e único no conjunto da vida, dotado da consciência do bem e do mal.

Pilatos, evidentemente, não tinha essa clareza do significado. Queria dizer apenas que se era Cristo  quem eles queriam, ali estava o homem, para que decidissem entre ele e Barrabás.  Em um só homem frágil, açoitado e vilipendiado, estava todo o Mistério e todo o poder da Vida.

Sobre a fragilidade física de Cristo é que deviam fundar-se todas as Igrejas cristãs

O cristianismo se funda na absoluta fragilidade dos seres humanos. Um poema anônimo espanhol do século 16 vai à mesma verdade. O poeta desdenha o oportunismo medieval que, em nome de Cristo, ameaça com o inferno e promete o céu, e vai ao núcleo da sua fé: “Tú me mueves, Señor, muéveme el verte / clavado en una cruz y escarnecido,/ muéveme ver tu cuerpo tan herido/ muévenme tus afrentas y tu muerte”.

Sobre essa emblemática fragilidade física, que chega a comprometer a resistência do espírito nos momentos finais, em que o Crucificado se queixa do Pai, por tê-l'O abandonado aos carrascos, é que deviam fundar-se todas as Igrejas cristãs — a Católica e as que, em protesto pelos seus desmandos no alvorecer do século 16, surgiram como falsas restauradoras da fé primitiva.

Instituição política, estabelecida na velha associação entre o poder temporal e o senso do Absoluto, a Igreja se pretende eterna. Ora, os 16 séculos de sua existência não são tanto tempo assim na História.  O cristianismo não é  seita judaica, nem  religião monoteísta como as outras. Sua mensagem é mais do que o alento à consciência de mortalidade dos homens: é necessária para que possamos construir aqui — e agora — o nosso pleno destino. Nesse mandamento, esquecido, está a salvação da espécie humana e, provavelmente, a salvação de toda a vida no planeta.

A Igreja se encontra, nestes dias, como o pecador junto ao confessionário — e o sacerdote que a ouve é a consciência do mundo. Para purgar os seus pecados não bastam as preces de contrição. Reunidos no próximo Conclave, os cardeais apenas escolherão o novo pontífice: não serão capazes de salvar a Igreja. Só os cristãos autênticos, aqueles que entenderam a frase enigmática de Pilatos, poderão salvá-la, participem ou não da Hierarquia. Para isso é preciso voltar ao Concílio Vaticano II e ir muito além; é preciso retornar à fraternidade primitiva dos cristãos. Cristo, dizem-nos os Evangelhos, recomendou, ao moço que queria segui-l'O, que antes se desfizesse de seus bens, distribuindo-os aos pobres.

24 de fev de 2013

A ILHA, SEU POVO, SEUS SONHOS


Podemos  discordar do regime político de Cuba, que se mantém sob o domínio de um partido único. Mas é preciso seguir o conselho de Spinoza: não lisonjear, não detestar, mas entender. Entender, ou procurar entender. A história de Cuba – como, de resto, de quase todo o arquipélago do Caribe e a América Latina – tem sido a de saqueio dos bens naturais e do trabalho dos nativos, em benefício dos colonizadores europeus, substituídos depois pelos anglossaxões.
         E, nessa crônica, destaca-se a resistência e a luta pela soberania de seu povo não só contra os dominadores estrangeiros, mas, também, contra  seus vassalos internos.
            Já se tornou  lugar comum lembrar que, sob os governos títeres, Havana se tornara o maior e mais procurado bordel americano. A legislação, feita a propósito, era mais leniente, não só com o lenocínio, e também  com o jogo, e os mais audazes gangsters de Chicago e de Nova Iorque tinham ali os seus negócios e seus retiros de lazer. E, mais: as mestiças cubanas, com sua beleza e natural sensualidade, eram a atração irresistível para os entediados homens de negócios dos Estados Unidos.
           A Revolução Cubana foi, em sua origem, o que os marxistas identificam como movimento pequeno burguês. Fidel e seus companheiros, no assalto ao Quartel Moncada – em 1953, já há quase 60 anos - pretendiam apenas derrocar o governo  ditatorial de Fulgencio Batista, que mantinha o país sob cruel regime policial,  torturava os prisioneiros e submetia a imprensa à censura férrea. A corrupção grassava no Estado, dos contínuos aos ministros. O enriquecimento de Batista, de seus familiares e amigos,  era do conhecimento da classe média, que deu apoio à tentativa insurrecional de Fidel, derrotada então, para converter-se em vitoria menos de 6 anos depois. Os ricos eram todos associados à exploração, direta ou indireta, da prostituição, disfarçada no turismo, e do trabalho brutal dos trabalhadores na indústria açucareira.
        Foi a arrogância americana, na defesa de suas empresas petrolíferas, que se negaram a aceitar as novas regras, que empurrou o advogado Fidel Castro e seus companheiros, nos dois primeiros anos da vitória do movimento, ao ensaio de socialismo. A partir de então, só restava à Ilha encampar as refinarias e aliar-se à União Soviética.
        Os americanos, sob o festejado Kennedy – que o reexame da História não deixa tão honrado assim – insistiram nos erros. A tentativa de invasão de Cuba, pela Baía dos Porcos, com o fiasco conhecido, tornou a Ilha ainda mais dependente de Moscou, que se aproveitou do episódio para livrar-se de uma bateria americana de foguetes com cargas atômicas instalada na Turquia, ao colocar seus mísseis a 100 milhas da Flórida, no território cubano.
        A solução do conflito, que chegou a assustar o mundo com uma guerra atômica, foi negociada pelo hábil Mikoyan: Kruschev retirou os mísseis de Cuba e os Estados Unidos desmantelaram sua bateria turca, ao mesmo tempo em que assumiram o compromisso de não invadir Cuba – mas mantiveram o bloqueio econômico e político contra Havana. Enfim, ganharam Moscou e Washington, com a proteção recíproca de seus espaços soberanos – e Cuba pagou a fatura com o embargo.   
         O malogro do socialismo cubano nasceu desse imbróglio de origem. Tal como ocorrera com a Rússia Imperial e com a China, em movimentos contemporâneos, o marxismo serviu como doutrina de empréstimo a uma revolução nacional. O nacionalismo esteve no âmago dos revolucionários cubanos, tal como estivera entre os social-democratas russos, chefiados por Lenine  e os companheiros de Mao.  
        Os cubanos iniciaram reformas econômicas recentes,  premidos, entre outras razões, pelo fim do sistema socialista. Ao mesmo tempo tomaram medidas liberalizantes, permitindo as viagens ao exterior de quem cumprir as normas habituais. É assim que visita o país a dissidente Yoani Sánchez (que mantém seu blog na internet de oposição ao governo cubano). Ocorre que ela não é tão perseguida em Havana como proclama e proclamam seus admiradores. Tanto assim é que, em momento delicado para a Ilha, quando só pessoas de confiança do regime viajavam para o Exterior, ela viveu 2 anos na Suíça, e voltou tranquilamente para Havana.
         É sabido que ela mantém encontros habituais com o escritório que representa os interesses norte-americanos em Cuba, como revelou o WikeLeaks. Há mais, ela proclama uma audiência que não tem, como assegura o sistema de registro mais confiável, o da Alexa.com. (citado por Altamiro Borges em seu site) em que ela se encontra no 99.944º lugar na audiência mundial, enquanto o modesto jornal O Povo, de Fortaleza, se encontra na 14.043ª posição, ou seja dispõe de sete vezes mais  seguidores do que Yoani. Há mais: ela afirma que tem 10 milhões de acessos por mês, o que contraria a lógica de sua posição no ranking citado.  O site de maior tráfego nos Estados Unidos é o do New York Times, com 17 milhões de acessos mensais.
         Apesar de tudo isso, deixemos essa senhora defender o seu negócio na internet. É seu direito dizer o que quiser, mas não podemos tolerar que exija do Brasil defender os direitos humanos, tal como ela os vê, em Cuba ou alhures. Um dos princípios históricos do Brasil é o da não interferência nos assuntos internos dos outros países. O problema de Cuba é dos cubanos, que irão resolvê-lo, no dia em que não estiverem mais obrigados a se defender da intervenção dos estrangeiros, que vêm sofrendo desde que os espanhóis, ainda no século 16, ali se instalaram.  Foram substituídos pelos Estados Unidos, depois da guerra vitoriosa de Washington contra o frágil governo da Regente Maria Cristina da Espanha.  Enfim, o generoso povo cubano, tão parecido ao nosso, não teve, ainda, a oportunidade de realizar o seu próprio destino, sem as pressões dos colonizadores e seus sucessores.
         Dispensamos os conselhos da Sra. Sánchez. Aqui tratamos, prioritariamente, dos direitos humanos dos brasileiros, que são os de viver em paz, em paz educar-se, e em paz trabalhar, e esses são os direitos de todos os povos do mundo. Ela, não sendo cidadã de nosso país, não deve, nem pode, exigir nada de nosso governo ou de nosso povo.  Dispensamos seus avisos mal-educados e prepotentes, e esperamos que  seja festejada pela direita de todos os países que visitará, à custa de seus patrocinadores (como o Instituto Millenium), iludidos pelo seu falso prestígio entre os cubanos.

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ESTÓRIA DE DOMINGO: VENENO.


                    Até que ficasse provada a minha condição de homem de miúdos negócios, e assim se explicasse a Luger 7.65, com seus dois pentes carregados, pude aprender muito da vida com Conselhinho e seus companheiros. Como eu podia saber que andavam catando assassinos entre os romeiros? Soube depois que era o medo do prefeito. Boas não fizera em outra cidade da região: desencaminhara e deixara a chorar no toco a filha de fazendeiro forte. Resultado: suicídio de um lado e o pavor do outro.

                      Na verdade eu tinha mesmo jeito suspeitoso. Uma faringite baixava o tom de voz, fazendo-a mole e vasqueira: eu só falava o necessário. E até mesmo o sestro que eu tinha, e tenho, de esfregar a papila do polegar na segunda falange do indicador da mão direita me fez azar: o delegado achou que o calo era de acionar gatilho. Para encurtar a conversa, meteram-me na cadeia pública.

                    Os três que lá estavam não eram suspeitos. Ao contrário, gente de crimes bem provados, que preferia curtir ali mesmo suas penas, bem longe das grandes penitenciárias, e se ajeitava para isso. Conselhinho, de rosto magro, barbinha branca, olhos cinzentos, merecia o apelido. Logo que entrei, levado pelo soldado Hugo (que depois ficou meu amigo) pôs a mão sobre meu ombro, e começou: “Vou te dar um conselhinho ...”

Conselhinho matara muita gente, e só foi preso anos depois do primeiro crime. O açougueiro comprara-lhe uma vaca para abate, como era costume. Antes de chegar ao matadouro, o animal caiu morto. Conselhinho se negou a indenizar. “Uai, e eu com isso? Quando vendi, estava com saúde. Eu lá tenho culpa de ela ter adoecido no caminhão?”  Conversa de cá, conversa de lá, o açougueiro, que era forte e sangüíneo, quis buscar o seu no bolso de Conselhinho. A lapiana, lambedeira de palmo e meio, apareceu na mão do magrelo como um raio, de tão de repente. Depois de condenado a trinta anos, Conselhinho passou a contar as outras mortes.

- Eu não matava por necessidade. Via um sujeito, não gostava do andado, dava um jeito nele. Nunca me pegaram porque quem é que ia pensar neste seu criado? Sempre dando um conselhinho, sempre ajudando os outros? Pois é, quando tive precisão mesmo de matar, aí me pegaram. A gente, na vida, não pode ter precisão.

                       A mulher levava-lhe, todos os dias, a “melhora” da bóia, que ele repartia com todos. Variava sempre: guisado de abobrinha, cambuquira com carne de porco, cascudos fritos, dobradinha temperada com manjericão e urucum. O arroz sem muito gosto com feijão mulatinho, fornecido à cadeia pela mulher do sargento, ficava palatável com a  “mistura”.

                       Quando reclamei da situação, dizendo que alguém devia estar roubando do governo, pra fornecer comida tão ruim (e assim reforçar a gratidão ao companheiro), recebi logo um “conselhinho”:

                      - Fica quieto. A velha não está trazendo o molho? Depois, quanto é que ganha o sargento? O filho dele é paralítico e meio doido.

                     Entendia muitos assuntos. Para bambeira de coração, veneno de três abelhões:

                   - De mamangaba da legitima, a que dá certo. Bom mesmo é fazer elas ferroar a veia do pescoço, duas do lado esquerdo e uma do lado direito. Quando desincha, o coração fica esperto.

                    Ensinava também como homem deve tomar banho para segurar mulher: com água de chuva bem quente, depois de fervida em capim-de-cheiro.

                    Serafim o mais velho dos outros dois, matara a mulher a pauladas. Nunca disse por que a matara. Mas, pelo jeito ele preferira alegar motivo fútil e comer cadeia grossa, a ficar com a honra ultrajada. Tinha duas filhas que o visitavam no domingo, e traziam sempre um queijo fresco. O outro, o Pereira, era ladrão de cavalos. Quando perguntei por seu crime, respondeu, orgulhoso, “abigeato”.

                    Dormíamos pouco. Durante o tempo de sono de Conselhinho, que, muito picado, vigiávamos. Ele se levantava, contava os barrotes do janelão, conferia os da porta, perguntava muito surpreso a quem estivesse de guarda:

                   - Uai, acordado?

                   Como se não tivesse sido dele mesmo o aviso: muito cuidado com quem dorme sem sossego.



20 de fev de 2013

OS FATOS DE ONTEM


             (HD) - Duas notícias ocuparam os meios de comunicação ontem, e nessa ordem: a visita ao Brasil da dissidente cubana Yoani Sanchez, e o lançamento, pela presidente da República, do Programa Brasil sem Miséria.
             Comecemos pela que ocupa maior espaço, e com uma dúvida não só do colunista: quem está pagando pelo tour internacional da bloguista de Havana, que se diz perseguida em seu país? Não é, evidentemente, o governo cubano, atacado, todos os dias, pela dissidente. É estranha a situação da nova musa revolucionária do Caribe. Ela passou dois anos na Suíça, quando – segundo se sabe – só as pessoas de estrita confiança do governo cubano podiam deixar o país.
           Seria bom que ela revelasse como obteve o passaporte então. Como sabemos, Cuba é sempre um mistério. E no mistério cubano, é curiosa a situação dessa senhora que está zanzando pelo mundo, começando pelo Brasil, para denunciar o regime socialista em declínio na pátria de Maximo Gomez e José Marti.
           Enfim, dentro de alguns dias, a senhora Sanchez seguirá para a Espanha onde, naturalmente, receberá as devidas homenagens do ínclito Rajoy e do sábio e magnânimo monarca, Juan Carlos, de seus filhos e do genro metido em falcatruas.
           Cuba não é o melhor nem o pior país do mundo – mas seus líderes tiveram a coragem de enfrentar o poderoso vizinho e opressor histórico, com o apoio da maioria de seu povo. E coragem maior ainda de tentar criar uma sociedade sem ricos e sem pobres. Não conseguiram, e buscam reorganizar o país e o estado, depois do malogro. Seu projeto frustrou-se, mas os seus sacrifícios e o seu sonho devem ser respeitados.
           A outra notícia é mais importante. Estamos, no Brasil, buscando construir  sociedade igualitária, mediante os processos políticos e administrativos de uma república democrática. É ação coerente com o velho programa da social-democracia européia, de busca da igualdade sem prejuízo da liberdade, mediante a luta política; da revolução sem armas e sem a ditadura partidária sobre o Estado. Não inovamos em nada. O programa de inclusão social mediante subsídios do Estado aos mais pobres tem, entre outros precedentes, o do New Deal, de Roosevelt, que salvou a economia norte-americana durante a Grande Depressão e, em conseqüência, ajudou o mundo, no esforço de guerra, a livrar-se da peste do nazismo.
             Não devemos hostilizar a blogueira cubana. Ela tem o direito – e, como vemos, facilitado pelo governo de Havana – de exibir sua popularidade e gozar do aplauso dos setores da direita brasileira que, pelo que se informa, ajudam a subsidiar sua vida confortável em Cuba e no estrangeiro.

OS LIMITES DA PÁTRIA


         (JB) -           É difícil saber se a Sra. Marina Silva é uma pessoa ingênua e de boas intenções, ou se optou, conscientemente, por defender os interesses das grandes potências que, sob o comando de Washington, exercem o solerte condomínio econômico do mundo e pretendem o absoluto império político. Há uma terceira hipótese que, com delicadeza, devemos descartar: desmesurada ambição de poder, sem as condições concretas para obtê-lo e exercê-lo.
                Os admiradores lembram sempre sua  origem modesta, o que não quer dizer tudo, mas não podem, com a mesma convicção, dizer que ela tenha mantido, ao longo da carreira, o que os marxistas chamam “consciência de classe”. Suas alianças são estranhas a esse sentimento. Ela se tornou uma figura homenageada pelos grandes do mundo, mas, sobretudo, do eixo Washington-Londres. Se ela mantivesse a consciência de classe, desconfiaria desses mimos. Para dizer a verdade, nem mesmo seria necessária a consciência de classe: bastaria a consciência de pátria.
               A Sra. Silva, como alguns outros brasileiros que se pretendem na esquerda, é uma internacionalista. O meio ambiente, que querem preservar tais verdes e assimilados, não é o do Brasil para os brasileiros, mas é o do Brasil para o mundo. Quando a Família Real Inglesa e os círculos oficiais e financeiros norte-americanos cercam a menina pobre dos seringais de homenagens, usam de uma astúcia velha dos colonialistas, e fazem lembrar os franceses na aliança com a Confederação dos Tamoios, e os holandeses em suas relações com Calabar.
            Os tempos mudam, os interesses de conquista e domínio permanecem, com sua própria dinâmica e solércia. Os limites intransponíveis da razão política são os da pátria. Todos os devaneios são admissíveis, menos os que comprometam a soberania nacional.  Não são apenas os estrangeiros que adoçam os sonhos da defensora da natureza. São também brasileiros ricos e conservadores que, é claro, procuram dividir a cidadania, para que  fiéis servidores políticos mantenham sua posição no Parlamento e nos outros poderes. Há informações de que  grande acionista de banco poderoso se encarregou das despesas do espetáculo de lançamento do partido de dona Marina, que não quer ser chamado de partido. E não se esqueça de que quem sempre a financiou é um industrial enriquecido com a biodiversidade amazônica.
             Não há coincidências em política. Os mentores da Sra. Silva querem que seu movimento, como ela anunciou, não seja de direita, nem de esquerda, e muito menos de centro - que é o equilíbrio pragmático entre as duas pontas do espectro. É interessante a ilogicidade da proposta. Como é possível dissociar a ideologia da política e, ainda mais, a ideologia do viver cotidiano? Esquerda e Direita existem na vida dos homens desde as primeiras tribos  nômades, e são facilmente identificáveis na postura solidária de alguns e no egoísmo de outros. Sempre que pensamos em igualdade, somos, menos ou mais, de esquerda; sempre que pensamos na superioridade, de qualquer natureza, de uns sobre os outros, estamos na direita.  Mais ainda: idéia é a imagem que construímos previamente na consciência, seja a de um objeto, seja a de uma conduta social e política.
           Não é possível viver sem um lado. A doutrina da mal chamada Rede (apropriação apressada e ingênua do mundo da internet, que é um meio neutro) oferece essa aporia: é um partido sem partido, uma realidade sem geometria, uma idéia sem idéia. 

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19 de fev de 2013

O BRASIL, OS BRICS E O FMI


         (Carta Maior) -  A reunião do G-20, em Moscou, encerrada ontem, terminou com vagas promessas, da parte dos Estados Unidos e da Europa, de homologar finalmente o acordo, fechado informalmente  em 2010, que daria mais poder aos emergentes no Fundo Monetário Internacional.

        Não é segredo que as quotas dessa instituição, com direito a voto, não correspondem mais, há muito tempo, à realidade econômica mundial. Com a reforma, muitos países europeus, com sua importância econômica reduzida nos últimos anos, veriam minguar suas quotas e seu poder de voto. Tendo crescido mais rapidamente neste início de século, os países emergentes, à frente deles  os BRICS, assumiriam o seu direito e a sua responsabilidade na direção das finanças mundiais.

         Os países ocidentais, liderados por Washington e Berlim, no entanto, não querem diminuir seus poderes nas grandes instituições internacionais, sobretudo as financeiras.

       Os controladores da economia globalizada atuam junto ao Congresso dos Estados Unidos e contam com o apoio da maioria republicana a que se somam muitos democratas, a fim de impedir que a China se torne o terceiro país mais importante do Fundo, ou que o Brasil venha a avançar, até alcançar, no futuro, uma posição condizente com a sua condição de sexta maior economia do planeta.

        Com a dívida interna líquida de 35% do PIB; débitos externos que correspondem a menos  de 15% do que produz todos os anos; 378 bilhões de dólares em reservas internacionais; sendo o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos, depois da China e do Japão e  credor do próprio FMI, o Brasil não aceita mais ser tratado no mesmo patamar de países de peso geográfico, demográfico e econômico menor, e dados macroeconômicos piores do que os nossos.

       Esse assunto também será tratado em Brasília, nesta semana, em Brasília, durante a visita do Primeiro-Ministro da Federação Russa, Dmitri Medvedev.

       Os russos, como os chineses e indianos, parceiros do Brasil no BRICS, estão também   perdendo a paciência com os países do ocidente econômico, diante da desproporção entre o que esse grupo de países representa, em termos globais, como território, população e economia, e a sua posição nos organismos  multilaterais internacionais.

        Embora sofra uma campanha de sabotagem contínua por parte da imprensa “ocidental”, o BRICS está cada vez mais vivo, trabalhando unido, como demonstram, por exemplo, as reuniões sobre segurança e saúde realizadas há menos de um mês em Nova Delhi.

        No encontro com Medvedev, Dilma deverá tratar do apoio russo – já quase acertado - para a eleição do brasileiro Roberto Azevedo à Direção Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Os dois deverão também ajustar as propostas que Rússia e Brasil levarão à Quinta Cúpula Presidencial dos BRICS, na África do Sul, em março.
        Nesse encontro, os países membros deverão tratar da constituição de seu próprio Banco de Desenvolvimento. E, provavelmente, de  instituição que poderia concorrer com o FMI, a fim de atender  às necessidades de países emergentes e em desenvolvimento.
       No passado, o G-7 ignorou o G-20, e hoje,  como grupo, é uma ficção geoestratégica e institucional. Ao se negarem a reformar o FMI,  os Estados Unidos e a Europa podem estar  condenando-o à caquexia. Os emergentes, com os BRICs à frente, podem ser o núcleo de nova realidade econômica mundial.      

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17 de fev de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO: PLANO DE VÔO.


   Esperou que todos saíssem, naquela manhã de domingo, e trancou por dentro a biblioteca. Bem por detrás de seu amado Quixote, encadernado em belo couro de ovelha,  estavam a cola e a tesoura, ali deixados cinco ou seis anos antes. Mais à esquerda, entre Eça e Emerson,  deslocada da fileira de clássicos mais antigos, a Odisséia, em lombada vermelha, sobressaia-se na estante. Dentro dela, a foto de um menino do princípio do século, de calças justas até o joelho, meias altas, botinas de pelica. Nas mãos do menino, o pássaro de papel.

             Era também de um domingo a imagem.  Haviam matado, um pouco antes,   o Arquiduque da Áustria,  em Sarajevo. O pai e o avô, sentados sobre cadeiras de vime branco, tomavam absinto e comentavam as incertezas do século. Eram, o avô e o pai, bons amigos, como costumavam ser, naquele tempo, sogro e genro.  De dentro da casa vinha o som do piano. Quem o tocaria, naquela manhã tão antiga? A mãe ou a tia? Eram tão parecidas, por serem gêmeas, com seus cabelos longos, que ele só as distinguia pelo hálito. O beijo da tia cheirava a alcaçuz; o da mãe trazia o aroma de água fresca.

           De repente ele se viu, naquele ano de guerra,  no meio da varanda, o pássaro de papel entre as mãos. O avô e o pai se aproximaram para ajudá-lo. Disputavam, lembrava-se bem, a alegria de lhe ensinar como armá-lo, prendendo-lhe as asas e lhe torcendo a cauda. Segurou o brinquedo com as duas mãos, finas e magras, para que o pai o fotografasse, com a luz da manhã favorecendo o foco,  e o libertou para o primeiro vôo. O avô lhe disse “muito bem”, e o pai afagou-lhe a cabeça. Ambos voltaram, em seguida, ao absinto e aos perigos do tempo.

           Buscou na gaveta, o resto do material. Com a grossa lupa de entomólogo amador, com a qual satisfazia, rapazola, a curiosidade sobre o sexo   dos gafanhotos e louva-deuses, examinou os detalhes do brinquedo, que a esmaecida foto deixava perceber. Com o lápis riscou na cartolina  as linhas básicas. Acendeu a forte luz sobre a escrivaninha e começou a trabalhar.

          Se o pai e o avô estivessem ali, a seu lado, saberia como fazer bem as coisas. Eles, na certa, conheciam a anatomia daquela ave, com as asas bem riscadas, o dorso verde, o peito amarelo. O avô viria apontar, com o indicador de unha polida, onde colocar os olhos do pássaro, e o pai dobraria a cartolina para nela recortar a ponta das penas. E quando o pássaro estivesse apto para o vôo,  o soltaria.  Içar-se-ia então entre as velhas árvores, até flutuar ao longo do alto muro. Depois cairia extenuado, as asas abertas, sobre o chão salpicado de margaridas miúdas, avoengas daquelas que cobriam o mesmo e pequeno prado de seu tempo de menino.  Por mais viajasse pelo mundo, nunca deixou de viver na mesma casa – e, depois da morte dos pais, no mesmo quarto em que nascera.

         De onde teriam trazido o brinquedo? Talvez da Europa. De lá regressara, um pouco antes, o avô. Era possível que fosse passageiro de uma daquelas grandes arcas, abertas com gritos de espanto pelas mulheres de casa, com peças de seda, cambraias finas da Holanda, linhos de Dublin,  garrafas de bourgogne, absinto e armanhaque. O avô falava nos novos automóveis, citava o nome de Bleriot, confessava-se espantado com o progresso de Paris.

         Deixou um pouco o papel, a tesoura, o vidro de cola e o arame, examinou a corda do relógio. Não se enferrujara, quando, um dia,  o despertador se cansara, o coração metálico obstruído pelo pó e pelo óxido dos anos. Abriu-o, e dele retirou a corda: ela bem serviria para transferir às asas do pássaro a força de seus dedos.

         Agora sabia que seu brevê viera do brinquedo de papel. O pequeno aeroplano, comprado de segunda mão em Montevidéu, fora pintado com as mesmas cores: verde, amarelo, negro. Mais tarde, quando os negócios cresceram – e cresceram à sua revelia – possuíra  o  mais  veloz  dos “beechcrafts” do país, as asas chatas, a aerodinâmica ajustada a seu prazer de cruzar sobre os altos montes, como atento e responsável gavião.

         O telefone tocou, lentamente se aproximou do aparelho, retirou-o do gancho, não respondeu. Era preciso isolar-se, aproveitar o dia sem filhos, sem noras e sem netos, recuperar o pássaro. Não saberia dizer como o perdera; se ratos o haviam roído, se a umidade desfizera suas asas coloridas, se ele fugira em busca de azuis mais fortes.

          No fim da tarde concluiu a tarefa, era verão, o sol brilhava firme. Abriu a janela, a luz de fora banhou os retratos antigos, simetricamente dispostos nos lambris laterais. Ele estava ali, em suas roupas vistosas de aviador, ao lado das hélices de todos os aparelhos que o dinheiro lhe havia permitido.

          Experimentou a cola: o pássaro estava sólido, torceu-lhe a cauda, como lhe haviam ensinado o pai, o avô. Chegou à janela, soltou-o, e o viu ganhar altura, disputar com a brisa do domingo o espaço, e desaparecer, bem longe, além das copas das árvores mais altas.

O BODOQUE DE DEUS


(HD) - O universo, se o pudéssemos ver do lado de fora, seria  belo espetáculo pictórico, mas sem sentido, com suas esferas de gás em chamas e corpúsculos sólidos, cálidos uns, gelados outros, flutuantes e  indiferentes ao próprio mistério. Sem vida inteligente, também de necessidade duvidosa, o mundo nada seria.
          O universo existe na mente dos homens, e a mente dos homens é um ato de transcendência,  que a fisiologia pode mapear, mas não decifrar. Queiramos ou não, a ciência é inútil para explicar o mundo material e, muito mais ainda, a vida e, nela, como epicentro do mistério, a inteligência  humana.
            O homem, conforme a teologia comum às principais religiões, é transgressor. No mito judaico, que a Bíblia recolhe, são os dois fundadores da espécie, Adão e Eva, que tentam decifrar o próprio enigma, ao comer do fruto proibido – a conselho do diabo, dissimulado na serpente, o que não deixa de ser uma desculpa apologética. O fruto proibido é o conhecimento, ou seja, a chave do bem e do mal.
            Voltando ao Universo e à sua provável inutilidade – a não ser como continente da vida – a ciência, se um dia chegar a localizar, no tempo e em alguma galáxia primeva, seu início, jamais terá a resposta maior: por que ele surgiu, que vontade lhe deu o primeiro impulso. Só a Fé em um Criador único oferece a resposta, ainda que precária.
           O meteoro que se fragmentou na atmosfera dos Urais é – entre outros sinais –  aviso de nossa precariedade. Em algum momento da Eternidade o sistema solar deixará de existir - segundo os astrofísicos, quando a Via Láctea chocar-se com Andrômeda, daqui a 4 bilhões de anos. Em sua ilusão, o homem pensa que a ciência  salvará a espécie, migrando-a para lugar seguro, ainda a tempo. É  mais provável que, bem antes, um acidente cósmico dê ponto final a esse animal frágil, sem garras e sem mandíbulas fortes, de anatomia torpe, se comparada à de alguns insetos e aves, e que só construiu sua história a partir de circunstâncias do acaso, como a mobilidade das mãos e o uso da linguagem complexa.
         Algumas línguas usam um só vocábulo para definir tempo e espaço, aqui e agora, e outras incluem a idéia de sempre. Esse deve ser o resumo de toda a filosofia: o mundo é aqui e agora, na eternidade de um segundo. Devemos viver “aqui”, nesta tênue camada do planeta que nos oferece as condições físicas da vida, e “agora”, com a consciência de que a vida é uma aventura coletiva e solidária da matéria convertida em natureza e a vida disso consciente. Essa é a herança da Criação, se nela cremos, ou de outras e imperscrutáveis razões.

AS USINAS DE FERNANDO LYRA


(JB) - Um leitor, em comentário sobre a morte de Fernando Lyra, identificou-o como “usineiro”. Nada o teria feito rir melhor. Há Lyras e Lyras no nordeste. Fernando procedia de família de pequenos agricultores de Lagoa do Gato, um dos lugares mais pobres do Agreste. Seu pai, ao deixar a região, fez-se modesto empresário. Com o tempo seus negócios cresceram e permitiram a Fernando formar-se em direito em Caruaru. Essa origem de classe, associada a outras virtudes suas, fizeram-me admirador e amigo de Lyra nos últimos trinta anos – títulos que compartilho com centenas de outras pessoas.

A notícia de sua morte chegou-me em hora pessoal já amarga: acabara de sepultar a mãe de Wania, minha mulher, em Belo Horizonte, o que me tocara fundamente, por ter sido, contra o lugar comum, uma amiga muito querida há 54 anos.

Em seguida à notícia,  comentamos, o médico Aloizio Costa e Silva e eu, a esfuziante personalidade  de Fernando Lyra, como a ele se referiu, em minha presença, o professor Affonso Arinos de Mello Franco. Todos admiravam a capacidade política do parlamentar pernambucano, fosse como analista dos movimentos históricos, que o faziam antecipar os fatos, fosse como o articulador que conseguia submeter as circunstâncias aos seus projetos – todos eles em favor da nação e de nosso povo. Essas eram as usinas que Lyra sabia administrar.

É bom repetir que os pernambucanos, os gaúchos e os mineiros – sem desmerecer o patriotismo dos outros brasileiros – tiveram o privilégio histórico de comprometer-se mais com a construção da nacionalidade. Em Guararapes nasceu a própria idéia de Nação, e nação mestiça, com a aliança de índios, negros e brancos, que expulsou os holandeses; coube ao Rio Grande riscar, com sangue, a fronteira meridional, em 300 anos de refregas com os castelhanos; em Minas, ferida em suas entranhas para a extração do ouro e gemas, nasceu a consciência do Estado para garantir a soberania nacional. Não é por acaso que essas três grandes províncias tenham sido aliadas nos momentos mais fortes de nossa história ainda curta.

Fernando via essa aliança necessária, com seu instinto de animal político, sem as construções demoradas do pensamento acadêmico. Ele quase a sentia na pele. Talvez tenha sido essa consciência poderosa que o levou a Belo Horizonte, no momento mesmo da posse de Tancredo, como governador de Minas, a fim de instá-lo a disputar a presidência da República. Fernando, no livro que escreveu sobre esses fatos, e que tive a alegria de prefaciar, disse acreditar que Tancredo não queria a chefia do Estado.

Nisso, ele se equivocava: Tancredo chegara ao Palácio da Liberdade convencido de seu dever de dar um fim à Ditadura e presidir à reconstrução do Estado Republicano, mediante a aglutinação do centro político. A leitura de seu discurso de posse, a partir da frase inicial – O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade – não deixa dúvida. Tratava-se de claro manifesto de ação política.

Isso não diminui, em nada, os méritos de Lyra, que se empenhou, dia e noite, na luta pela vitória de Tancredo e na difícil missão que o mineiro lhe impusera, a de Ministro da Justiça da transição. Tancredo – que ocupara o mesmo cargo nas horas graves de 1954 – sabia que a esse Ministério, desde o Império, cabiam as tarefas mais duras da condução da política interna e da articulação com o Parlamento, hoje deslocadas para o gabinete presidencial. Lyra assim entendeu a missão e a cumpriu, com autoridade, diligência e sem jactância.

Ele soube assessorar-se de  acadêmicos de sua confiança, como os professores José Paulo Cavalcanti Filho, Christóvam Buarque, Joaquim Falcão, Marcelo Cerqueira e Sigmaringa Seixas, dando ao Ministério talvez o mais importante suporte intelectual de sua história. Foi essa equipe que, sob a chefia do Ministro, cumpriu a corajosa decisão de Sarney, a de se desfazer da legislação autoritária do regime militar.

Recordo-me, pessoalmente, de um fato significativo. No minuto seguinte ao da posse no Ministério, Fernando mandou que os guardas armados das entradas do edifício se recolhessem às suas repartições. O Ministério se abria ao povo.

Ao cuidar da organização e administração da Comissão Arinos, como um de seus membros, ajudei Fernando nessa tarefa de que Tancredo, pessoalmente, nos encarregara. Foi assim que, a pedido do presidente eleito, convidamos o professor Arinos a chefiar o grupo. Foi quando o grande jurista se referiu “à esfuziante juventude” de Lyra, ao mesmo tempo em que manifestou o seu respeito à sabedoria de Tancredo em nomeá-lo para a pasta da Justiça.

Como amigo, sofro a perda de Fernando com quem conversava quase todas as semanas, e sempre sobre o Brasil. Como cidadão, lamento a sua falta nesses próximos e atribulados meses do processo sucessório que já se abriu. Ele saberia construir a aliança necessária entre as lideranças regionais, em favor da democracia brasileira.

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